Gakuen Taikutsu Otoko – sobre jovens fartos de escola, revolução, Go Nagai e contexto

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Um pouco sobre Go Nagai, sua carreira, mangá, o Japão pós-guerra dos anos 60 e Faroeste

Go Nagai é frequentemente citado como um dos nomes mais importantes da história “clássica” do mangá enquanto mídia, ao lado de artistas como Osamu Tezuka, Shotaro Ishinomori, Mitsuteru Yokoyama e Ikki Kajiwara. Cada um desses caras tinha uma particularidade bem própria em seu trabalho, e Nagai tem a sua importância por ter sido um dos primeiros (senão o primeiro) a jogar merda no ventilador pra ver o que acontecia e pessoas ficarem putas com o que ele fazia por fugir da norma comportada.

O cara tinha zero escrúpulos e fazia o que queria até alguém vir cortar o barato dele, e se hoje temos um pouco de insanidade nesse meio que tanto gostamos, não acho muita prepotência dizer que Go Nagai teve um dedo de culpa nisso tudo e diversos de seus trabalhos (especialmente os que vieram em seus primeiros anos de carreira) deixam bem claro esse caráter totalmente transgressor que, futuramente viria a se tornar talvez sua maior marca registrada.

Antes de falar de Gakuen Taikutsu Otoko, eu preciso de dar um pouco de contexto histórico e falar brevemente de um de seus trabalhos anteriores, que saía ao mesmo tempo que ele: Harenchi Gakuen (ou numa tradução livre por minha conta, “Escolinha da Putaria”).

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Capa da Shonen Jump número 29 de 1970 (precisamente, a 71º edição da revista desde sua estréia). O Harenchi Gakuen de Go Nagai era o destaque da capa nesta edição.

O ano era 1968. A hoje gigantesca Weekly Shonen Jump tinha acabado de surgir pra competir com suas concorrentes, a Shonen Sunday e a Shonen Magazine, que já estavam no ramo há quase uma década (e por sinal, começaram a ser lançadas exatamente no mesmo dia, fica aí a curiosidade). Enquanto a concorrência já tinha autores consagrados como Osamu Tezuka e Fujio Akatsuka publicando nelas, a grande aposta da Shonen Jump era em autores novatos, mais jovens pra dar um novo ar na mídia e entre esses caras estavam Hiroshi Motomiya (que atingiu o sucesso por causa de “Otoko Ippiki Gaki Daishou”, um dos primeiros mangás de briga de delinquente que existiram. Motimiya está na área até hoje é um dos artistas mais respeitados dentro da Shueisha) e o já citado Go Nagai. Mangá ainda era uma coisa meio “nova mas nem tanto”, apesar de já serem muito populares e apesar de terem um público bem amplo, uma boa parte, sobretudo esses publicados nestas revistas citadas, terem o público mais jovem como alvo principal (e porque não as crianças também?). Ainda não existia um “estilo Shonen Jump”, então os artistas que lá trabalhavam tinham uma certa liberdade de fazer o que queriam sem muito planejamento, ambiente esse que permitiu que algo como Harenchi Gakuen nascesse.

E sobre o que era Harenchi Gakuen, você me pergunta? Mesmo que não pergunte, eu respondo: a história era sobre uma escola onde todo tipo de situação absurda podia acontecer e gente ficava pelada, apareciam uns peitinhos de fora pra todo lado, e, como diria um bom narrador de comercial de filme da Sessão da Tarde, a azaração rolava solta sem pudor algum. Era uma comédia escrachadona com muita nudez e erotismo e vez ou outra uns momentos escrachados de violência até alta pra época. Pode-se dizer que não havia nada remotamente parecido publicado até aquele momento, e isso muito provavelmente causou o grande sucesso da série, que fez com que a recém-nascida Shonen Jump passasse a vender 1 milhão de cópias toda semana, o que era um número bem impressionante pra uma revista recém-estreada.

Mas é ÓBVIO que isso ia dar merda, porque naquela época, botar gente pelada numa revista aparentemente pra crianças era algo que só o próprio rolê errado em forma de gibizinho poderia fazer e várias associações de Pais e professores protestavam constantemente contra a série, mas quem disse que isso iria impedir o sucesso? Harenchi Gakuen foi publicado até meados de 1972, quando, a série teve um final que literalmente era uma carta aberta de crítica à perseguição contra “liberdade de expressão” que Nagai sofria. Eu não vou spoilar o negócio aqui, mas tente pensar no jeito mais “crítica social foda” possível que um japonês poderia fazer pra encerrar um mangá de comédia com muita safadeza rolando. Eu não sei no que exatamente você pensou mas sepá foi isso aí mesmo.

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Mais um dia normal nas páginas de Harenchi Gakuen. Isso aqui não é nem a ponta do iceberg até onde esse mangá ia.

Com Harenchi Gakuen, assim nascia uma nova era nos quadrinhos japoneses. Um novo limite foi traçado e imagino que a galera se sentia mais livre pra botar certas coisas em suas obras, e isso virou o efeito dominó que rolou até chegarmos nos dias atuais e a gente ter pelo menos um ou dois animes por temporada com peitinho aqui e ali. Parabéns, Go Nagai, você deixou uma marca e tanto nessa mídia. Mas agora, vamos rebobinar um pouquinho, tipo assim, só um pouquinho mesmo… vamos pro ano de 1970 agora, que foi quando Gakuen Taikutsu Otoko enfim foi lançado (e Harenchi Gakuen ainda estava em publicação).

Eu não sei o que exatamente aconteceu mas eu enxergo Gakuen Taikutsu Otoko (que numa tradução meio literal pode significar “Homens de saco cheio da escola”, apesar de frequentemente o mangá também ser chamado de “Guerrilla High”) como uma maneira de Nagai descontar a frustração da pressão que sentia por causa de Harenchi Gakuen. Se funcionava ou se era esse mesmo o intuito, não dá pra saber, mas ele dá sinais. Ao longo de sua carreira, era bem frequente que Nagai trabalhasse em mais de uma série ao mesmo tempo, e no ano de 1970 ele tinha no mínimo três (eu nem vou tentar ser exato porque toda vez eu descubro um mangá novo desse cara que não faço ideia que existia) rolando ao mesmo tempo. Em algum momento de sua carreira, Nagai chegou ao número de cinco séries semanais escritas e desenhadas por ele simultaneamente, e quem sabe o mínimo de como é a produção de quadrinhos no Japão, tem noção do quão absurdo de impressionante é esse número.

Antes de eu falar sobre esse mangá, preciso de mais um pouquinho de contexto histórico, e dessa vez, vamos falar sobre como estava o Japão naquela época, olhando pelo espectro sociocultural da coisa.

Existe uma gigantesca história sobre como o Japão mudou drasticamente em todos os aspectos possíveis após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, que, não convém entrar em todos os detalhes neste texto, porque é realmente muita coisa, mas o essencial, pra resumir, as gerações nascidas pós-bomba nuclear foram tendo outra linha de raciocínio e percepção sobre as coisas, já que não viveram uma realidade de Guerra e temor a bombardeios. Go Nagai nasceu no dia 6 de setembro de 1945… apenas quatro dias após declarado o fim da guerra. Os pais de Nagai viveram isso, o próprio não e além disso, para efeito de comparação com o rumo da mídia mangá na época, quando ele estava nascendo, Osamu Tezuka, que imagino que dispense apresentações, estava prestes a engatar sua carreira, onde publicaria, dois anos depois, o seu primeiro grande trabalho de destaque, “Shin Takarajima” (em 1947).

Muita coisa, que não vem muito ao caso, aconteceu, entre elas um crescimento econômico simplesmente surreal pra um país que tinha levado duas bombas atômicas na cabeça, e aí estamos na década de 60, mais precisamente da metade pro final dela. O país passava por um período meio turbulento socialmente e movimentos revolucionários, principalmente movidos por estudantes. Vamos nos focar nos movimentos estudantis, porque essa é a parte que nos interessa aqui.

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Cena típica do Japão dos anos 60 Estudantes fugindo autoridades policiais em protestos. Foto de 12 de Novembro de 1967 tirada durante um protesto contra o então Primeiro-ministro do país, Eisaku Sato.

Lembra-se de eu ter usado a expressão “geração nascida pós-bomba nuclear”? Existe um nome mais técnico pra isso chamado “Baby Boomers” e se refere a todas as crianças nascidas nesse pós-fim recente de Segunda Guerra Mundial. Os Baby Boomers japoneses tiveram uma peculiaridade compartilhada pelos de alguns outros países: cresceram num país desmoronado pela guerra e viram seus pais muito desconstentes com aquilo e, talvez, sem compreender o temor deles por não terem sentido na pele o que estes passaram. Cresceram com outros valores e outros conceitos na mente, tal qual diferentes gerações em qualquer país do mundo, e bem, os conflitos dos ridiculamente complexos movimentos estudantis dos anos 60 foram causados por esses conflitos de valores, meio que numa luta por liberdade de expressão e contra conservadorismo sociopolítico num geral.

(em complemento a esse assunto, se quiser ler mais detalhadamente sobre o tema, recomendo o artigo “Japan’s 1968: A Collective Reaction to Rapid Economic Growth in an Age of Turmoil” de autoria de Eiji Oguma, relativamente famoso sociólogo e historiador japonês, que foi traduzido para o inglês.)

Voltemos ao Tio Nagai, que, na época que isso tudo rolou tinha lá por volta de seus 20 e poucos anos de idade e tava começando carreira desenhando mangá, que já teve todo o seu rumo mudado por artistas como o próprio Osamu Tezuka já citado outras vezes aqui. Dado todo esse contexto social turbulento da época, não é muito difícil imaginar o motivo pelo qual Harenchi Gakuen ter feito o barulho que fez (e a história por trás da criação da série na cabeça de Nagai deixa isso tudo com um tom hilário, mas isso é história pra outro dia) e até hoje ser um dos trabalhos mais reconhecidos do cara nesse meio século de carreira que ele já tem. Foi um tiro dado na hora certa e no lugar certo… que acabou acertando um galão de combustível e causou uma explosão muito maior que a planejada.

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E então, acho que enfim podemos falar de Gakuen Taikutsu Otoko, e acho que um bom jeito de começar a falar sobre é mostrar como são as primeiríssimas páginas do negócio, e são essas aqui:

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Antes de começar, acho sincero de minha parte dizer que esse mangá não é nenhuma obra-prima. Diria até que talvez esteja até bastante longe disso ou até de ser um dos melhores trabalhos do cara, tampouco dos mais conhecidos, mas essas páginas iniciais são bem simbólicas e um pouco ousadas pro contexto da época. São repentinas, pois a primeiríssima imagem que vemos é um cara com olhar de zangado, uma manta preta comprida e uma arma maior ainda atirando em algo ou alguém que não sabemos o que é, até que viramos a página e vemos uns outros caras, aparentemente melhor vestidos, tomando tiro na fuça e um último sujeito fugindo dos tiros, até que viramos mais uma página e vemos esse último homem enfim tomando os tiros que faltavam e caindo morto ensanguentado aos pés de um muro que é claramente de uma escola, e então a gente vê novamente o atirador de olhar destemido com uma cara de bravo.

Um começo um tanto impactante, eu diria, mas não acaba aí, as próximas páginas meio que explicam o contexto geral da situação do mundo em que se passa essa história e permitiu que essa cena acontecesse. Entra uma narração dizendo:

“Na segunda metade dos anos 60 houve um grande aumento de movimentos estudantis. Estes, se tornavam cada vez mais violentos quanto mais nos aproximávamos da década de 70, afetando universidades, colégios de ensino médio, ensino fundamental, escola primária, jardim de infância e até mesmo berçários. Eventualmente, estudantes de todo o país rejeitariam o sistema educacional e assim o Japão foi lançado ao caos.”

Eu gosto muito de como o negócio vai fazendo uma escala reversa do mais alto nível de ensino até os mais baixos pra mostrar o absurdo da situação. E então a gente vê uns velhos, provavelmente responsáveis pelo sistema educacional, discutindo sobre o que fazer pra contornar isso e fazer os jovens estudarem e ficarem sob controle hierárquico deles, até que eles chegam à conclusão de que a parada tá tão feia que só existe uma única solução: dar porte de arma aos professores e até mesmo permissão para matar caso necessário, e então essa introdução se encerra dizendo que esse era o nascimento de uma nova era, a partir de 1971 (lembrando que o mangá foi de fato publicado em 1970), e recebeu o apelido de “Faroeste Educacional” pelos historiadores daquele mundo.

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Nessas pouquíssimas páginas Nagai fez uma construção de mundo tão absurda pra história que dali se sucederia que é impossível não rir ou pensar “Puta merda, como deixaram esse cara publicar uma coisa dessas assim na época??”. Eu não sei quem permitiu que essa série fosse publicada com a ideia que surgiu, mas aconteceu, e obviamente foi consequência direta de todo o contexto social que aquele país vivia no momento. Eu não contei essa historinha toda à toa, e devo admitir que esse contexto sociocultural por trás é definitivamente a força por trás do que há de mais interessante pra se ver em Gakuen Taikutsu Otoko. Essa premissa é insana caminha pra um lado muito mais agressivo que Harenchi Gakuen fez, parecendo até que foi mais uma reação do que ação voluntária.

Agora eu peço que volte pra imagem antes do parágrafo anterior e observe bem o professor desenhado na página segurando a arma na mão e a última coisa escrita entre aspas ali. Dê uma olhada no chapéu de cowboy dele, no cinturão de balas, nas roupas… Ohoho, isso aqui é importante também. Essa época também foi palco de outra coisa que tava acontecendo na cultura pop do mundo inteiro: a emergência do gênero “faroeste” nos cinemas, mais conhecido como “Spaghetti Western” (e no Japão, chamado de “Macarroni Western” provavelmente pelo simples fato de que “Macarroni” é muito mais fácil de escrever do que “Spaghetti” pra um japonês. Eu não sei se é por esse motivo mesmo, mas eu gostaria de acreditar que sim, porque é uma suposição não muito difícil de fazer).

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Pôsteres japoneses dos filmes da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone. A título de curiosidade, os títulos japoneses dos 3 filmes são, em ordem: “Kouya no Yojinbou” (“O Guarda-costas do Deserto”, lançado no ocidente como “A Fistful of Dollars“), “Sekiyou no Gunman” (“O Pistoleiro do pôr-do-sol”, no ocidente oficialmente é “For a Few Dollars More“) e “Jigoku no Kettou” (literalmente “Duelo do Inferno”, lançado aqui como “The Good, The Bad and the Ugly“).

O faroeste nos cinemas deve muito à famosa “Trilogia dos Dólares”, dirigida pelo consagradíssimo cineasta italiano Sergio Leone, e esses 3 filmes, até 1970 já tinham sacudido o mundo inteiro e impressionado também, por que não, os Japoneses. Talvez a trilogia dos dólares tenha caído no gosto do povo da Terra do Sol Nascente porque Leone nitida e admitidamente se inspirou diretamente no trabalho de Akira Kurosawa, talvez um dos diretores de cinema mais reconhecidos de todos os tempos e certamente o diretor japonês mais comentado da história, sobretudo seu filme “Yojinbo”, de 1961.

(e inclusive existe até uma história meio engraçada sobre uma disputa legal que aconteceu com o lançamento de “A Fistful of Dollars”, o primeiro filme da trilogia de Leone, entre ele e Akira Kurosawa de tão parecidos que são os dois filmes, e nessa brincadeira a Toho, produtora de Kurosawa acabou recebendo uma boa parcela da receita gerada pelo lançamento do filme no Japão e demais países da Ásia com, momentos depois, o próprio Kurosawa, que já havia elogiado bastante o filme de Leone, considerando este um releitura digna de Yojimbo)

A estética do Faroeste ainda era algo recente na cultura pop, estava em alta, mas agora o porquê de Nagai ter escolhido esta para fazer um mangá sobre revolta de jovens contra adultos de valores arcaicos permanece um mistério, mas de maneira muito engraçada, isso se encaixou perfeitamente com o contexto, dado o cenário de caos e conflito onde impera a lei do mais forte e os caras metem bala um na cara do outro por pouca coisa, pois o mundo já tá tão na merda que tá valendo tudo pra vencer essa batalha e se defender a essa altura do campeonato. A estética de faroeste é tão levada em consideração no meio dessa maluquice toda que as pessoas ao mesmo tempo que tão de chapéu de cowboy, andam de moto como se fossem cavalos, e não há prova maior que isso do que uma cena onde aparece uma charrete sendo puxada por motos que não possuem ninguém em cima. É tão ridículo que não dá pra não aplaudir essa sacada engraçada. Os sinais estão em toda parte.

E então somos apresentados a Mondo Saotome, o protagonista dessa história e como quase todo protagonista de mangá do Go Nagai, ele tem sobrancelhas grossas, costeletas mais grossas ainda e uma cara de marrentão. Mondo é um cara super violento e ser muito bom de briga e tiro o fez ficar famoso naquela área, num nível de que só de falar o nome dele, as pessoas se borram de medo em volta e numa operação de saquear viajantes, ele acaba conhecendo o outro personagem importante dessa história, Tatsuma Midou, um cara de cabelos compridos e aparência meio andrógena, que em aura e aparência é o extremo oposto de Mondo (e ter dois personagens importantes na história que sejam absurdamente constrastantes é algo que Nagai gosta de fazer em seus trabalhos, como veríamos futuramente em Devilman, de 1972, que é considerado por muitos, o seu trabalho mais icônico até hoje).

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Mondo e Tatsuma (vestido de mulher por motivos de disfarce). Meio que Bonnie e Clyde feitos no oriente (aliás, o filme de Arthur Penn foi lançado como “Oretachi ni Asu wa nai” no Japão, que pode ser traduzido para algo como “Não há amanhã para nós”)

Por causa de sua aparência, Tatsuma pode passar despercebido disfarçado de mulher, o que lhe permite ocasionais disfarces quando precisa, não sabemos muito sobre ele (e pra ser sincero, não sabemos muito de Mondo também além do necessário pra história fluir) até mais pra frente quando uma série de reviravoltas bizarras começam a acontecer. E os dois acabam sendo uma dupla de revolucionários numa dinâmica mais ou menos parecida com Bonnie e Clyde, uma famosa dupla de assaltantes reais que ficaram muito conhecidos após um filme de 1967 dirigido por Arthur Penn contar a história deles (filme este que bebe um pouco da fonte dos faroestes que estavam em alta também).

Durante uma das rebeliões comandadas por eles numa escola na qual se infiltraram, acontece um incidente que meio que coloca os dois protagonistas diante de um conflito de ideologias. Ambos desejam o mesmo fim, porém possuem métodos diferentes claramente refletidos por suas personalidades. Mondo não mede selvageria e usa de toda a brutalidade e violência necessários para alcançar o que quer, já Tatsuma, apesar de usar bastante violência quando precisa, é contra o exagero da mesma e, segundo ele próprio, acha sem sentido a carnificina generalizada promovida por seu parceiro. E a partir do conflito entre esses dois homens, decola todo o resto da história.

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O conflito que desencadeia o resto da história.

E é a partir daqui que acho importante salientar que o resto desse texto conterá SPOILERS. Eu preciso entrar nas minúcias da história (que é até bem simples). Então se não quiser receber spoiler de um mangá de quase 50 anos atrás que pouca gente leu, vai lá ler. Não é algo que consome muito tempo visto que são apenas 3 volumes até bem rápidos de se ler que você pode achar traduzidos pro inglês facilmente por aí em scans, pode deixar que o resto texto vai te esperar.

Ok, já voltou e tá aí ainda comigo? Vamos prosseguir. Caso não, pode descer a barra de rolagem até ver o próximo letreiro em vermelho que é quando os spoilers acabam.

No final deste volume, depois de algumas discordâncias, Mondo e Tatsuma se enfrentam num duelo para resolver suas diferenças…

… que é interrompido por caçadores de recompensa tacando granadas na porra toda que vieram atrás da dupla e eles começam a matar um monte de gente no local. Mondo reage e expulsa os invasores enquanto Tatsuma não consegue fazer nada, até que ouve uma brincadeira amistosa dos estudantes que ali estavam dizendo que Mondo sozinho já conseguia dar conta de tudo porque era muito mais forte. O cara simplesmente SURTA e mata todo mundo ali e vai embora no meio da confusão toda, Mondo vê a galera morta e um dos estudantes nos seus últimos suspiros conta a ele o que aconteceu, e então nosso anti-herói decide caçar o seu antigo parceiro até o inferno se for necessário pra arrancar o couro dele e o marca em sua lista de inimigos.

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O que eu comentei nos parágrafos anteriores é basicamente uma versão resumida de boa parte dos eventos do primeiro volume, de três, da série. O ritmo é bastante acelerado, e apesar do caos do universo onde a história se passa, tudo é bem direto ao ponto e cru sem muita firula. Tem tiro, tiro, morte, mais tiro, gente berrando e o contexto de “adultos versus jovens” ainda continua seguindo, mas toma outros rumos, graças a presença de uma terceira personagem nessa história toda.

Essa terceira personagem importante é Nishikiori Tsubasa, uma garota tão agressiva quanto os personagens anteriormente citados que, ao que parece conta com uma força sobrehumana além de sua habilidade com armas… e ela anda seminua porque sim e assim, parece uma versão mais “comportada” de uma personagem que existia em Harenchi Gakuen, chamada “Spaghetti Jane”, que por sua vez era a namorada de um outro personagem cowboy que tinha aparecido antes na série, o “Macarroni Kidd” e nisso percebemos que Nagai parece gostar mais da estética de faroeste do que parece, mesmo que ele dê sua assinatura própria no negócio… e surpreendentemente Tsubasa não use nenhum traço dessa estética além do coldre onde guarda a pistola e um par de botas bem de cowgirl mesmo. Ela tá praticamente de biquini, mas esses objetos sozinhos conseguem me remeter à estética que procuramos aqui.

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à esquerda: Tsubasa, se preparando pra ação. À direita, somente para efeitos de comparação visual: a Spaghetti Jane de Harenchi Gakuen.

mas é uma personagem surpreendentemente legal e é até bem fácil gostar dela. Tsubasa é líder de um grupo de guerrilheiras jovens composto exclusivamente por mulheres e o primeiro grande feito da personagem que vemos, é ela orquestrando uma muito bem sucedida emboscada contra um grupo da facção inimiga com suas subordinadas. Os adultos obviamente reagem, e nisso somos apresentados a um vilão que será importante daqui até o fim do mangá, Toranosuke Midoro, que aparentemente comanda uma escola grande e por algum motivo anda com o rosto sempre enfaixado e este, contrata um assassino, que mais parece uma criatura surgida de alguma história de terror, chamado Jigoku (que, convenientemente, numa analogia mais que manjada e batida, significa “inferno” em japonês… e curiosamente vale que comentar que, futuramente em 1972, Nagai viria a usar praticamente a mesma ideia em Mazinger Z, um de seus mais famosos trabalhos, onde nomeia o vilão principal da obra como “Dr. Hell”).

Jigoku

Midoro Toranosuke, o grande vilão dessa história, acompanhado de Jigoku.

A criatura infernal consegue sequestrar Tsubasa e suas subordinadas numa emboscada e então sabemos que o objetivo, além de conter a perigosa motoqueira, era basicamente usar a garota como isca para atrair a atenção de Mondo e Tatsuma (acho que vale ressaltar que os vilões não sabiam da treta que havia rolado entre esses dois… então faz sentido citarem o Tatsuma também), que certamente não iriam deixar uma companheira de guerra em maus lençóis na mão dessa galera. Porém o tiro sai pela culatra e a nada boba heroína consegue escapar com suas aliadas. No meio dessa confusão toda, elas roubam um caminhão e são perseguidas por Jigoku, que se mostra uma criatura muito mais animalesca do que parece, num ponto de que ele consegue derrubar o caminhão e a líder do grupo feminino, num ato de bravura, para pra enfrentar o monstro para dar uma chance de suas amigas escaparem, mas com um breve recado: para que estas espalhem a notícia de que ela supostamente morreu em combate, o que causaria um grande estardalhaço pela popularidade da personagem naquele mundo e consequentemente, faria Mondo ir atrás de arrancar o couro de mais gente.

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Tsubasa enfrentando Jigoku. As cenas de ação disso aqui são bem interessantes visualmente e essa versão a cores deixa tudo ainda mais charmoso.

Tsubasa luta bravamente até que, em um dado momento, ela desmaia, e antes que Jigoku fizesse picadinho dela, seu patrão chega, pega a menina e a leva embora para o seu covil, a “Casa dos Demônios”, como é chamada na história. Mondo chega ao local do sequestro e encontra no chão uma carta intimando ele e Tatsuma para um duelo. Mondo sabe que Jigoku é um dos piores inimigos possíveis que ele poderia enfrentar e não tem certeza do resultado, mas como não há outra opção e ele então mesmo afirma que vive pela emoção da batalha. Eu gosto desse trecho porque aqui dá um toque interessante em quem é Mondo Saotome e a gente vê que, apesar da posse de marrentão, o cara não tá com o raciocínio fora da realidade e tem alguma noção do que enfrentará, o que consequentemente o fará ir mais preparado pra batalha. Eu também gosto demais como essa passagem toda acontece diante de um aparente pôr-do-sol e existe uma carta de intimação para um duelo. É, não é só o Go Nagai que gosta dessa estética e elementos/símbolos de faroeste, eu também gosto dessas coisas… mesmo que tenha um bicho enorme meio Frankenstein-zesco no meio disso tudo, mas ok, tudo em nome de liberdade da ficção, vamos comprar essa ideia e ver o que será feito com ela.

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Ok, voltando à casa dos demônios, temos o velho clichê de donzela em perigo presa num castelo cheia de coisas horríveis (neste caso, literalmente monstros… que não possuem nenhuma explicação muito plausível pra estarem ali e são, junto com Jigoku, o que começa a diluir um pouco o concentrado da estética western de tudo que vimos até aqui) e ele funciona bem aqui. Já vimos essa personagem escapar de uma situação similar antes, mas aqui não parece ter jeito, visto que ela está sozinha, totalmente cercada por monstros que aparentemente possuem poderes sobrehumanos e agora sim, totalmente nua.

Existe um momento onde ela até tenta, e entra em combate direto com Midoro, e no meio da briga, acidentalmente ela acaba rasgando as ataduras de seu rosto, revelando uma silhueta um tanto familiar, e obviamente, como qualquer personagem que esconde o rosto dessa forma na ficção, o cara fica tão puto por alguém ter visto o seu supostamente horrível rosto e prende a coitada da menina numa masmorra ainda pior do que a qual ela estava antes, onde ela até é fisicamente torturada. Numa dessas sessões de tortura, ela é meio que salva pelo gongo porque Jigoku chegou pra avisar que Mondo está praticamente batendo na porta pra resolver e que este será sua presa enquanto o chefão deixa bem claro que faz questão de que seja ele a matar Tatsuma, o qual não fazemos a mais remota ideia de onde está.

Um duelo está prestes a começar e Mondo, achando que está vendo um olhar familiar, exige que o seu inimigo tire as ataduras da cara e, por esse motivo, o acusando de na verdade ser o seu antigo companheiro de guerra, Tatsuma Midou, e este, tira as ataduras e enfim vemos que, realmente, ele tem um rosto idêntico a o cabeludão fugitivo, porém deformado pela metade, mas como de praxe, novamente fica puto e assim começa o duelo, termina o segundo volume do mangá… e é aqui que essa história começa a virar uma bagunça e a ficar meio confusa.

CARAFEIADOCARAIO

“NINGUÉM QUER FALAR COMIGO, SERÁ QUE EU SOU FEEEEEEEIO?”

E então, o volume 3 se abre com uma ótima sequência de ação de Mondo moendo Jigoku com tiros de bazuca e eu quero aproveitar essa deixa pra enfim falar de algo que eu não tinha falado até agora porque eu tava muito ocupado hipnotizado pela estética de Western desse mangá: como Gakuen Taikutsu Otoko possui ÓTIMAS sequências de ação, talvez algumas das mais legais dessa fase da carreira de Nagai e até a arte me soa um pouco diferente do habitual dele, mas imagino que eu conhecer intimamente o trabalho posterior do cara me cause essa impressão, ainda mais dado que este é um dos primeiros títulos grandes do cara até aquele momento, junto com o Harenchi Gakuen e Abashiri Ikka por exemplo.

Nagai de vez em quando fazia algumas cenas de ação em Harenchi Gakuen, mas aqui parece que a coisa flui de um jeito mais feroz e a provável causa disso é a ambientação da história que permite que a violência seja mais brutal (característica essa que viria a ser uma das marcas mais conhecidas de seu trabalho). A cena também é bem fluída, como quase todas as cenas de ação desse mangá, porque tudo é muito bem coordenadinho de quadro a quadro como talvez dê pra ter percebido a essa altura com as páginas que ilustram esse texto. Não vou me dar à esdruxulisse de dizer que é “cinematográfico”, mas mesmo que não se goste da história ou dos personagens, essas cenas já são visualmente interessantes o bastante pra divertir nem que seja pelo puro massavéio.

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não seria um mangá do Go Nagai sem o protagonista fazendo cara de mau desse jeito.

Depois de Jigoku ter seu crânio obliterado por uma bazucada e enquanto vemos Mondo sorrir tal qual um psicopata depois deste feito, ali perto, atrás de uma rocha, há outro homem de cabeça enfaixada conversando com um espadachim sobre um plano para distrair Midoro. E é aqui que começa a confusão e o ode à bagunça total, e pode ser fácil se perder no que vai acontecer depois mais à frente e vemos o nosso marrentão homicida líder da milícia estudantil lutar NA MÃO com alguns dos lacaios monstruosos do grande vilão, sendo que este é atacado pelo tal espadachim de poucas páginas atrás e do nada aparece o outro homem de cara enfaixada no castelo perguntando pela Tsub- CARALHO, É MUITA COISA ACONTECENDO AO MESMO TEMPO, PELO AMOR DE DEUS, CALMA!

Claro que, se você tiver lendo com atenção o mangá, não vai se perder muito facilmente, porém as trocas de núcleo narrativo (são três acontecendo ao mesmo tempo) são tão bruscas que a gente toma um susto com a progressão de alguns quadros até processar o que de fato tá rolando em meio a todo esse caos. Eu poderia muito bem encher a boca pra falar sobre como esse caos reforça o tema da ambientação da série, mas acho que não vem muito ao caso no momento… e nem acho que seja tão importante assim.

Enfim, voltando onde estávamos, agora no castelo, o homem de cara enfaixada pergunta onde está Tsubasa e é retrucado com uma dúvida de seu lacaio questionando se não havia sido ele próprio que a tinha posto na masmorra. Um pouco de redundância aí sendo que sabemos que Midoro está lá lidando com o cara da espada, porém, nós, leitores, ainda não sabemos quem é esse personagem… ou sabemos, se você é esperto e ligar bem os pontos, não é muito difícil adivinhar quem se trata do nosso sumido Tatsuma Midou! O desgraçado finalmente voltou… e enquanto isso, o mangá nos leva de volta a assistir o seu doppleganger de meia cara deformada lidando com o samurai, que revela coisas que já sabemos e revela que está sob ordens do homem que “roubou sua face”, que imagino que esteja mais claro que a água quem é e então o vemos ir atrás dele pronto pra cometer um ato de ódio, enquanto seu alvo foge com a prisioneira que ele havia mantido no local.

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O “Samurai” (vamos chamá-lo assim agora visto que o traje dele realmente lembra um pouco os de samurai) foge e retorna pro seu grupo pra dizer que o plano está correndo como nos conformes. Descobrimos que o objetivo era criar uma brecha pra destruir o grande diretor e depois lutar contra a gangue de Mondo para disputar quem é o grupo de guerrilheiros estudantis mais importante ou poderoso do país e por último, porém mais importante que os fatos anteriores, este grupo é liderado por ninguém menos que o próprio Tatsuma. A princípio não faz muito sentido os dois gastarem essa energia e determinação toda um contra o outro visto que eles possuem vários inimigos em comum muito mais perigosos, mas dado todo o embate pessoal que eles tiveram ao final do primeiro volume, isso acaba sendo justificado.

(e num breve parênteses, eu só queria comentar como que a relação entre Mondo e Tatsuma me lembra vagamente a que há entre Shotaro Kaneda e Tetsuo Shima, os dois personagens principais de AKIRA, de Katsuhiro Otomo, que seria publicado na década seguinte e imagino eu que dispense apresentações a vocês. Não duvido que Otomo tenha se inspirado em Nagai, mas provavelmente nunca teremos a confirmação).

Enquanto Tatsuma salva Tsubasa, ele mantém um dos subordinados de Midoro ocupado e permite que a garota fuja enquanto isso, e ela é aparentemente bem sucedida nisso quando então o mangá transiciona para… Mondo, que é tão casca grossa que conseguiu fazer os monstros com os quais tava lutando preferirem fugir, e então ele declara abertamente que irão ao castelo salvar Tsubasa com a ajuda do grupo de subordinadas dela, e deixa extremamente claro que depois disso a prioridade máxima é esmagar, esmurrar, esquartejar, incendiar, explodir, esgoelar Tatsuma… ok, ele não falou isso tudo não, mas eu tenho certeza que se Nagai tivesse sido dado liberdade total e se o personagem fosse alguém de verdade ele falaria isso. E assim tá armado o palco do que seria o “ato final” do mangá (atenção nessas aspas por favor).

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aquele sinal de que CABEÇAS VÃO ROLAR

Tsubasa foge é resgatada por um dos subordinados de Mondo (aliás, eu gosto muito de como ele foi parte importante pra abater o Jigoku por carregar a munição da bazuca na hora que o rapaz tava enfrentando a criatura com rapidez) e eis que dentro da mansão, uma cena digna de novela mexicana acontece e é uma reviravolta tão maluca que eu não sabia mais se tava lendo um western do Go Nagai sobre guerra entre adutlos e jovens ou o roteiro de Metal Gear Solid.

Finalmente o fatídico encontro entre Tatsuma Midou e Midoro Toranosuke acontece e descobrimos que aparentemente eles são irmãos gêmeos (aparentemente pois apesar de serem fisicamente quase idênticos… o sobrenome é diferente por algum motivo, né) e um era mais amado pelos pais e enquanto isso o menos amado, com inveja. No caso, o favorito era, surpreendentemente, Midoro e, Midou, o invejoso da história joga ácido na cara dele enquanto o mesmo dormia para assim ser mais bonito e consequentemente, mais amado por todos e então, os pais, desesperadamente o contestam dizendo que jamais poderiam deixar de amar o filho em favor de um… experimento genético?

CasosDeFamilia.jpg

MEU DEUS DO CÉU????

E é agora que o negócio pira na batatinha de vez e somos apresentados ao fato de que Tatsuma Midou nada mais é do que um clone de Midoro feito pelo seu pai unicamente por nenhum outro motivo além de “parecer exatamente com o seu filho” e vocês não fazem ideia do quanto eu tive problemas pra segurar o riso enquanto terminava de digitar essa última frase que acabaram de ler. POR QUE E PRA QUÊ? O mangá não dá nenhuma explicação lá muito plausível e essa maluquice toda só acontece mesmo.

Se existe um ponto em que a qualidade objetiva de Gakuen Taikutsu Otoko começa a ficar extremamente aberta a questionamentos de se é bom ou não, este ponto é agora. Como você reage a um twist desses, varia do quão aberta é a sua suspensão de descrença, mas o fato de Tatsuma matar as pessoas naquela casa (e Midoro sobrevive milagrosamente) e incendiar tudo meio que conflita com o que vimos do personagem anteriormente e talvez de maneira meio lógica, porque aí que vemos que ele é daqueles personagens que seguem a linha do “os fins justificam os meios”. Isso meio que novamente reflete o que falei anteriormente nesse texto sobre o Caos fazer parte da natureza intríseca dessa história, e esse cenário repleto de gente louca meio que acaba sendo uma consequência direta dessa ambientação. Até gosto de como isso funciona dentro do tema, mas a volta pra justificar tudo é tão maluca que entendo perfeitamente alguém desgostar dessa reviravolta, não é uma informação lá das mais fáceis de digerir, especialmente quando se está lendo rápido, no ritmo que as centenas de páginas anteriores nos condicionaram a ler. Essa informação chega como um soco na cara que deixa a gente tonto sem saber o que pensar ou de onde veio.

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enquanto isso, do lado de fora…

Enquanto os sósias estão um duvidando da capacidade do outro, do lado de fora, o grupo do Samurai lá está vindo pro castelo da escola Chimidoro pronto pra acabar com tudo e salvar quem precisa ser salvo e não só isso, como Mondo, ao lado de Tsubasa e sua gangue também estão vindo, mas agora com o objetivo de salvar, o agora aprisionado pelo inimigo, Tatsuma (porque a menina provavelmente contou parte do que aconteceu… o que meio que ainda fica meio estranho porque ela provavelmente não sabe da história toda entre eles e imagino que menos ainda os outros personagens) e quebrar tudo que há de ser quebrado. Este lugar está prestes a se tornar o maior caos que veremos nessa história e um enorme massacre de todos os lados possíveis acontece naquele terreno.

Midoro foge deixando o castelo em chamas, Tatsuma é resgatado, os grupos dos “heróis” possuem perdas enormes porque a batalha foi muito mais difícil do que parecia pelo simples fato de o os alunos do Colégio Chimidoro inexplicavelmente, apesar de provavelmente por lavagem cerebral, lutam a favor da escola, ao contário da maioria dos jovens daquele mundo…. e também aparecer um novo Jigoku do nada sem explicação nenhuma. Tatsuma, Mondo e Tsubasa chegam à conclusão de que subestimaram o inimigo por conta dessa força inesperada dos alunos da escola onde lutaram e decidem bater em retirada pra bolar um plano melhor, porém são surpreendidos e cercados por toda a força tarefa de Chimidoro, e concluindo que não há outra opção além de se render ou lutar, eles declaram ordem de ataque pra pancadaria começar e… uma página preta escrita “THE END” aparece.

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Mano, tu só pode estar ZOANDO que o mangá termina assim, né?

Não, eu não digitei errado, é isso aí mesmo, o mangá termina aí completamente DO NADA sem o que acontece depois. É agora que a gente ou aceita que ficaremos de mãos abanando ou ficamos revoltados porque acabou de forma totalmente abrupta e com um gancho pra mais coisa rolar (eu não quis usar a palavra “cliffhanger).

Reza a lenda que o principal motivo de o mangá acabar desse jeito foi porque, Ken Ishikawa, o principal assistente e amigo próximo de Go Nagai (e que futuramente viria a encabeçar a franquia Getter Robo) teve de deixar temporariamente, ainda em 1970, a Dynamic Productions, o estúdio fundado por Nagai e seus irmãos para administrar seus trabalhos e todos os produtos derivados dos mesmos. Visto que Ishikawa ajudava muito Nagai e teve uma participação direta bem ativa na produção de Gakuen Taikutsu Otoko, após a saída do amigo (que voltaria alguns poucos anos depois), ele decidiu interromper a série ali mesmo… não sabemos se ele tinha a intenção de voltar com o mangá no futuro, mas não é exatamente incomum Nagai terminar alguns de seus trabalhos dessa forma com um gancho ou um final extremamente ambíguo ou se foi cancelado de fato (e imagino que se tivesse sido, a conclusão seria bem pior do que essa, ao invés de simplesmente terminar do nada). Eles vão morrer? Eles vão sobreviver e conseguir matar Midoro? Eu queria muito ver como essa história continuava e provavelmente nunca saberemos.

[se você tava esperando os spoilers acabarem e tava rolando o texto pra baixo esperando, pode ficar tranquilo que daqui pra baixo você pode voltar a ler]

Gakuen Taikutsu Otoko está bem longe de ser um dos trabalhos mais lembrados de Nagai, mas eu arrisco dizer que é um dos mais significativos, ainda mais considerando que ele foi um ponto de transição muito curioso na carreira do mesmo. Imagino que o próprio deve se lembrar bem da série, ainda mais considerando que ele usa e reusa elementos daqui em trabalhos futuros e até mesmo, em Violence Jack (um de seus mangás mais famosos, e a sua obra mais longa) por exemplo, trouxe Mondo e Tatsuma de volta num dos arcos do mangá para fazer uma participação especial (assim como inúmeros personagens de toda a sua bibliografia que também aparecem em versões revisadas e alternativas em Violence Jack, mas isso é história pra outra ocasião).

ViolenceJack.jpg

Ano 19XX. As chamas dos movimentos estudantis se espalharam graças aos esforços de um revolucionário. Seu nome era Mondo Saotome.”. O retorno de Mondo e Tatsuma através de Violence Jack, publicado alguns anos depois.

Sobre o mangá em si? Bom, eu gosto dele genuinamente. Tem coisas muito legais aqui e talvez a melhor parte é que, puta que pariu, como é DIVERTIDO de ler ele. A história é ridiculamente simples e nem tão complexa ou cheia de nuances como eu talvez possa ter, sem querer, feito parecer que é nesse texto, mas uma soma de vários elementos deixam isso, no mínimo, divertido. Seja pela estética que bebe diretamente de faroestes, a zona que é o cenário que dá palco pra história, o design dos personagens, as ÓTIMAS cenas de ação ou a bem fluída quadrinização de Nagai nestas. Existem problemas e alguns deles bem discutíveis, e eu já falei deles em detalhes aqui enquanto eu destrinchava página por página dele neste texto. Pode ter a lástima de não ter tido a conclusão que merecia e a história ter degringolado no ato final, mas o que tem de legal ali é legal o bastante pra ter valido o meu tempo.

Mas se há algo que me fascina mais que qualquer outro aspecto dele é o que o cerca. Todo produto de entretenimento por definição é um “produto de seu tempo”, mas eu e você sabemos bem o que alguém quer dizer com essa expressão, e levando isso em consideração, Gakuen Taikutsu Otoko é um exemplo bem potente disso. Um mangá como esse não poderia existir em outro contexto senão aquela época ou aquele local, ou menos ainda ser do jeito como é se não fosse por essas circunstâncias,  as influências do que estava em voga na cultura pop naquele tempo.

Oloco

Vindo logo depois de uma época onde uma recém-inaugurada Shonen Jump era a voz e a casa dos novos (entenda novos como “jovens” aqui) artistas e que atendia a um público jovem, algo como isso existir ali era um reflexo direto de toda aquela baderna social que acontecia. Eu não duvido que esse mangá possa ter ido parar nas mãos dos jovens revolucionários estudantis japoneses dos anos 60/70 e que eles tenham se identificado ou se entretido com o mesmo. Não é algo que mudaria a vida de alguém nem de longe, mas considero memorável o bastante, ainda que pra mim seja pelo legado de ser de um artista o qual eu gosto bastante que é o Go Nagai, ou pela temática consequente da época, ou pela estética e por eu particularmente gostar de histórias que lembram faroestes… é algo um tanto único, se parar pra pensar. Sendo justo, é um mangá morno, mas é interessantíssimo analisá-lo dessa forma.

Gakuen Taikutsu Otoko pode não ser grande ou revolucionário como as pessoas que o causaram, mas certamente é bem emblemático de sua época e espero que as pessoas olhem pra ele, nem que seja só pra ver um retrato vivo de um tempo passado que ficou registrado em forma de quadrinho.

 

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Um comentário sobre “Gakuen Taikutsu Otoko – sobre jovens fartos de escola, revolução, Go Nagai e contexto

  1. Pingback: Devilman Crybaby – Reflexões, eu, o Devilman, marcas e impacto | Missão Ficção

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