Cavaleiros do Zodíaco: o poder de comunicação de uma página em branco

 

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“É durante este breve momento em que as pessoas nascem, amam, odeiam, riem, choram, lutam, sofrem, vivenciam alegria e tristeza, e então, todos caem no sono eterno da morte.

[O Seguinte texto contém spoilers do volume 21 de Saint Seiya, leia por sua conta em risco]

Saint Seiya (mais conhecido em terras Brasileiras como “Cavaleiros do Zodíaco”) é um grande amontoado de boas ideias que… na maioria das vezes, simplesmente não funcionam. Notem que eu disse “maioria”, ou seja, existe alguma hora que há uma boa execução de conceito, em meio a tantas vezes que isso falha. O mangá tem inúmeros problemas, desde cenas de luta muito mal desenhadas sem nenhum impacto (e que quase sempre terminam com algum soco pra cima e, 9 a cada 10 vezes, um golpe que faz o inimigo cair de cara no chão, como se tivesse um peso de chumbo na cara ou o chão fosse imantado pra atrair seu rosto até ele), ritmo muito mais acelerado do que devia, falta de um “build-up” legal pra maioria das batalhas, entre outras coisas. Porém, existe um breve momento onde Saint Seiya reluz a ouro e, numa grande ironia da vida, é numa página em branco, que faz parte da melhor passagem do mangá inteiro, na minha opinião. Antes de explicar e analisar essa maluquice página por página, primeiro eu vou ter que dar um pouco de contexto.

(sugiro que marque bem o que falei sobre “boas ideias”, pois eu provavelmente vou bater nessa tecla por mais algumas boas vezes durante o texto todo, é importante)

Disclaimer: para fins ilustrativos, estarei usando imagens de páginas da edição norte-americana de Saint Seiya lançada pela editora Viz Media. É o que eu tenho aqui pra usar (porque usar a scan do original em japonês vai dificultar por causa da língua que nem todo mundo manja e eu não quero  ter que usar scans em baixa qualidade da edição brasileira antiga da Conrad pra isso).

Primeiramente, vamos ao responsável por tal momento: Shaka de Virgem.

Shaka_Eu abri o texto falando que Saint Seiya é um mangá cheio de boas ideias, né? Pois muito que bem, o Shaka é uma dessas, e particularmente o conceito de personagem que o envolve é um que me apetece bastante, o que facilitou com que eu o achasse um personagem interessante, mesmo quando foi apresentado bem superficialmente lá na saga das 12 Casas (onde o achei subaproveitadíssimo).

O cara é o típico personagem que fica a maior parte do tempo de olho fechado e quando enfim abre tu pensa “caralho, fodeu, agora a porra ficou séria” e tem poderes com essa pegada meio astral e serena, envolvendo conceitos relacionados ao budismo e tudo mais. Tudo isso quando fica boa parte do tempo sentado. Mesmo que a gente não saiba nada sobre ele na saga das 12 casas além de seus poderes, é uma ideia legal, vai… Mas aí a gente só vê o verdadeiro potencial dele na Saga de Hades (essa última frase serve pra mais alguns personagens da série, mas sobretudo este).

E aí, vamos à Saga de Hades, que será o que vai dar o palco para a cena que iremos analisar aqui (talvez eu devesse falar um pouquinho sobre os oponentes que Shaka enfrentará aqui, mas é uma informação que realmente importa muito pro contexto desse trecho): simplesmente aconteceu algo que previram, que é “Hades Voltou”, o que gera uma nova Guerra Santa, que no universo do mangá, foi um grande evento que ocorreu há mais de 200 anos dos acontecimentos da série que estamos lendo (queria aproveitar só pra comentar que apesar de eu achar Saint Seiya um mangá medíocre, eu gosto do “lore” desse mundo, por incrível que pareça… novamente, ideias legais). Pois bem, aconteceu essa merda aí e os ESPECTROS DE HADES estão invadindo a casa Sagrada dos 12 Cavaleiros de Ouro, os grandes protetores de Elite da Deusa Atena, e os supostos personagens mais poderosos da série (porque nós sabemos muito bem que o personagem mais poderoso daqui atende pelo nome de “Protagonismo” e anda lá junto com Seiya, Shun, Hyoga, Shiryu e Ikki).

ShakavsEspectros

Visto que essa treta tá rolando, cabe aos Cavaleiros de ouro protegerem a deusa Athena (que por algum motivo reencarnou numa garota de 13 anos chamada Saori Kido, mas detalhes) e lutar contra os invasores, só que porém, entre estes invasores estão alguns dos antigos Cavaleiros de Ouro, que, por sua vez, morreram durante os combates da Saga das 12 casas (alguns em situações bem esdrúxulas, vale dizer). Eu particularmente acho a ideia de trazer antigos heróis pra se enfrentarem agora de lados diferentes um pouco sem graça e mais pelo fanservice do que outra coisa, mas essa saga toda (ou pelo menos talvez metade dela ou um pouquinho mais que isso) é uma das raras vezes onde a suspensão de descrença construída por Masami Kurumada funciona, então eu consegui comprar a ideia e só deixar rolar.

Entre os traidores estão 3 cavaleiros não identificados que, logo mais iremos descobrir que tratam-se de: Shura de Capricórnio, que foi um inimigo bem bosta na saga das 12 casas e tomou um cacete do Shiryu de maneira ridícula;  Camus de Aquário, o mestre do Hyoga, que a gente só foi ouvir falar ou ter algum resquício do mesmo na dita saga e por último, mas não menos importante, Saga de Gêmeos, que foi meio que o Chefão Final da saga das 12 casas (talvez eu deva passar a usar a palavra “arco” ao invés de “Saga” só pra evitar confusão com o nome do personagem, mas costume de mais de uma década é difícil de largar, né). Os três estão atravessando templo a templo das 12 casas com o objetivo de chegar no final, onde está Saori para, supostamente, matá-la conforme as ordens de Hades e, ao chegarem na casa de Câncer (a quarta), começam a ser atacados por ilusões que os prendem no espaço-tempo (!!) até chegarem a conclusão de que tal ataque está vindo da casa de Virgem (duas casas à frente de onde estão) e, consequentemente, Shaka está por trás disso. Então o trio ternura já manda um ataque direto de Cosmos com força total em direção a onde está Shaka, sendo que este, por sua vez, vemos em umas duas páginas que resiste intacto ao tal golpe e devolve com força total aos 3 inimigos (que, convenhamos, nós não somos idiotas pra saber que eles não viraram pó com isso. Precisaria de muito mais que só isso pra detê-los, mesmo que Saint Seiya em suas lutas constantemente viole as suas próprias regras e lógicas em prol de conveniência de roteiro).

Disparo

O disparo que inicia a construção para a destruição.

A partir daqui acontece uma das raríssimas vezes nesse mangá inteiro em que rola algo muito importante para dar impacto a um conflito entre personagens num mangá do gênero: constrói-se uma expectativa pro combate que vai vir, o que, consequentemente, faz com que nos importemos mais com esse evento. Entre os vários problemas da obra, um dos principais é justamente a falta de impacto que a maioria das lutas têm. As lutas muitas vezes acontecem sem nem ter pausa direito entre uma e outra, sem que a gente saiba muito sobre os personagens pra se importar ou não (fora que o método Kurumada de desenhar lutas que não são nem um pouco interessantes visualmente também não ajuda nada, mas não vou entrar nesse mérito aqui. Seria chover no molhado demais), e então só vira um festival de personagens fazendo poses sozinhos em quadros com fundos poluídos visualmente pro outro cair de cara no chão. É sem substância mas nem naquele estilo “sem substância mas é um show visual”. A ineficiência da narrativa visual das lutas de Cavaleiros do Zodíaco é um assunto inteiro à parte a ser discutido, mas hoje eu não vim pra meter o cacete nisso, mas sim falar de uma das vezes onde funcionou. A palavra chave deste parágrafo é: “preparo”.

(Lembrando que ainda estamos no volume 20 e acontece, no meio disso tudo, a luta do Dohko de Libra contra Shion de Áries isso se extende por uma boa parte do mesmo, junto com o Mu de Áries lutando contra um espectro extremamente aleatório com armadura de borboleta e o Aioria de Leão lutando contra o espectro de… verme? Sério, Kurumada? VERME? É tosco mas isso não vem muito ao caso agora)

Encontro

Enfim o fatídico encontro.

Aconteceram essas outras lutas, e, no fundo, o que narrei nos parágrafos anteriores não nos deixou esquecer o que está por vir, e então a gente só espera chegar a hora de acontecer, quando enfim, Shura, Camus e Saga chegam à casa de Virgem e se deparam com Shaka ali sentadinho de olhos fechados só esperando eles. O combate começa a acontecer, a identidade dos 3 invasores é enfim revelada, graças a um dos ataques que é capaz de ferir Shaka levemente, que enfim percebe que só alguém com a força de seus antigos companheiros seria capaz de lhe causar isso. Shaka detona uns minions aleatórios que tavam ali no meio e um deles menciona que Hades havia-lhes prometido vida eterna após ser perguntado se eles temem a morte. E é aí que dá o clique no nosso cavaleiro Indiano, que era considerado a reencarnação do Buda, a figura mais alta do budismo (duh) ou, como os personagens mesmos se referem a ele “O homem mais próximo de deus”, e então dá nele meio aquela sensação de “ô maluco, que porra é essa que eles tão recebendo iluminação divina e eu ainda não cheguei lá? Volta aqui, cachorrada”.

E então, Camus, Shura e Saga, que estavam de saída, pois Shaka havia os deixado passar por talvez não ser páreo para eles sozinho (percebam que eu não tô falando muito de todos os detalhes porque pelo amor de deus descrever, né) atendem o desafio do seu antigo companheiro, e, para não derramar sangue dentro de uma das doze casas, eles vão a um lugar propício e isolado para isso, que nada mais é do que: o Jardim das Árvores Sala Gêmeas, o mesmo lugar onde Buda entrou em seu descanso eterno (vulgo “morte”).

JardimSala

O palco do acontecimento analisado.

E então, começa o combate. Apesar dos persistentes problemas de coreografia e poluição visual essa luta consegue me ser mais interessante que a maioria das que apareceram neste mangá até agora. Por qual motivo? E é aí que eu peço pra vocês lembrarem da palavrinha-chave que falei pra guardarem há poucos parágrafos, o tal do “preparo”, pois é aqui que se encontra a resposta, e os acontecimentos subsequentes dessa passagem ganham alguma força justamente por conta disso.

O próprio Shaka já sabe: ele vai morrer ali e nem que seja a última coisa que ele faça, ele precisa deter seus ex-companheiros e então, começa, mais uma vez atenção aqui, a PREPARAÇÃO para o golpe final que irá obliterar tudo: a Exclamação de Atena.

Essa foi a primeira vez que uma técnica mortal de algum personagem de Saint Seiya, de fato me soou como uma técnica mortal. A porra ficou séria em níveis nunca antes ficados, e isso fica bem claro pela cara de espanto de Shura, Camus e Saga ao ouvirem o nome de tal técnica… da boca de Shaka dizendo que é o único meio de os três terem alguma chance de derrotá-lo. E para provar isso, Shaka, usando a sua técnica mais poderosa, começa a retirar os sentidos (algo que nunca teve muito significado nessa série) dos 3 novos servos de Hades um a um.

(sim, eu sei que existe um motivo lá na frente pro Shaka ter simplesmente entregado a solução pra essa batalha assim do nada, mas nesse texto, vamos fazer de conta que isso não existe. O foco aqui é analisar outra coisa).

Susto

É… é a exclamação ou nada.

Somos então apresentados a no que diabos consiste a tal da exclamação de Atena e, numa engraçadíssima conveniência de roteiro, nos é dito que tal técnica, cujo poder destrutivo rivaliza com o do Big Bang, só pode ser usada quando três cavaleiros de ouro trabalhando em conjunto elevam seu cosmo ao máximo em um único ponto. É meio imbecil ser tão conveniente assim, mas vamos tentar comprar a ideia do Kurumada dessa vez, em nome da ciência, só pra ver no que dá, ok?

Após a (surpreendentemente rápida e direta) explicação, o trio trevoso conclui que “é, realmente, não vai dar não sem usar isso” e então somos brindados com uma nova informação sobre a técnica proibida, que nos é dita através de indagações deles mesmos, que lembram que esse é um golpe que vai contra os princípios básicos de um cavaleiro. Afinal, nas sagas anteriores, aprendemos que os cavaleiros são guerreiros bravos e sempre justos (ok, nem sempre. De vez em quando eles fazem merda, então fica só na teoria mesmo) e que tal golpe fere a honra de uma batalha pela justiça e que, se usarem a técnica banida por Atena, ficarão marcados para sempre como traidores… o que não faz muito sentido ser dito porque nesse contexto já estão trabalhando a mando de Hades e lutando contra um ex-companheiro. Escrita ruim de Masami Kurumada ataca novamente, estávamos indo tão bem, mas vamos prosseguir…

E enquanto eles ficam se questionando (e Shaka continua tirando os seus sentidos… e eles parecem não se sentir nem um pouco incomodados com isso, porque é assim que funcionam perdas de sentidos nesse mangá), Camus, Shura e Saga se lembram de porquê estão ali e que os fins justificam os meios, repetindo de novo informações que antes vimos porque, de novo, Kurumada não sabe escrever diálogos sutis, até que, quando estão prestes a se posicionar para atacar e têm o seu quarto sentido tirado, o foco narrativo da cena vai pro lado de fora do Jardim das Sala Gêmeas, onde vemos a reação dos personagens que estão do lado de fora e conseguem pressentir o que está pra acontecer ali e ficam repetindo informações que nós já sabemos, até que então, numa transição meio estranha… entra um flashback.

Flashback

Flashback onde Shaka ouve sobre como atingir o Nirvana. Na real essa página é colocada depois da exclamação de Atena sei lá por sei lá qual motivo, mas ela é importante.

Flashback este mostrando uma breve cena da infância de Shaka, onde o mesmo está se questionando quanto às sensações da vida após ter visto peregrinos fazendo preces a vários cadáveres no rio Ganges na Índia (seu país natal), e então rola um breve diálogo até que bonito sobre a efemeridade da vida, sobre como tudo é passageiro e blá blá blá blá. Para resumir: a vida nada mais é do que uma passagem, e a morte não é o fim de tudo e faz parte do processo. Ao compreender isso, enfim Shaka poderá se tornar o homem mais próximo de se tornar um Deus, estado esse chamado pelo Budismo de “Nirvana” (eu particularmente não entendo muito de budismo ou hinduísmo, então se algum de vocês quiser complementar algo relacionado a essa parte nos comentários, à vontade).

E então chega, enfim a hora do golpe final e, o motivo pelo qual esse texto foi escrito. De um lado, a exclamação de Atena sendo preparada, e do outro, Shaka prestes a tirar o quinto último sentido de seus inimigos. O que eu quero que vocês prestem atenção é nessas três sequências de páginas duplas a seguir:

Exclamação.jpg

Possivelmente uma das sequências de páginas mais interessantes a sair das mãos de Masami Kurumada.

Parecem três páginas meio bestas, mas o que faz elas serem especiais e tão impactantes é todo esse contexto que foi construído até chegar nesse momento. Arrisco dizer que essa foi uma das poucas lutas desse mangá inteiro que é possível sentir o impacto da técnica usada. Não é uma passagem perfeita, claro, como eu apontei alguns problemas ao analisar a escrita de algumas páginas e diálogos. Por mais que Masami Kurumada não seja nem de longe um bom escritor, se há algo nas obras dele que eu aprecio, é sem dúvida alguma a diagramação e a forma como ele organiza a disposição de seus quadros nas páginas.

Na primeira página dupla, nada muito anormal, além de as frases finais antes do golpe ser proferido, e a página onde o golpe é lançado de fato. Na Segunda página dupla, temos dois quadros antes do quadro maior contendo a explosão. Foi interessante começar a página com o primeiro quadro sendo o destaque ao rosário sendo levantado e depois transicionar para o rosto de Shaka dizendo que as flores das árvores foram espalhadas, e então, a explosão causada pela exclamação de Atena que, se analisarmos cuidadosamente o visual desta página, ela em muito se assemelha ao plano de fundo usado nos ataques de Shaka durante a Saga das 12 casas (especificamente, aquela página no volume 10, quando Ikki está cara a cara com ele). Eu particularmente não sou muito fã dessa ideia de jogar um plano de fundo qualquer pra “dar impacto” ao golpe de um personagem, como é feito com a grande maioria das lutas aqui, mas pro caso do Shaka em especial, funciona, dado o tipo de poderes que ele possui. E nessa página da exclamação de Atena, vemos aquela icônica moldura sendo despedaçada até a obliteração com uma visível explosão no fundo quebrando tudo, e depois, na página seguinte, os quadros com os estilhaços ficando cada vez menores e com o fundo mais esbranquiçado até…. culminar nessa página em branco aí na parte esquerda dessa página dupla (levando em consideração alguém segurando o mangá na mão como ele foi originalmente planejado pra ser lido lá no final dos anos 80, né).

Tudo foi reduzido a nada, e essa passagem toda que acaba com uma página inteira em branco comunica isso de uma forma mais sutil do que qualquer outra coisa que Kurumada tenha desenhado em sua vida e, o simples fato de que ao olhar essa condução de quadros até este ponto e então entender o que aconteceu aqui e sentir o impacto disso é uma sacada que só poderia ter sido feita em quadrinhos e, uma página cheia, se esbranquiçando até virar nada foi uma das melhores maneiras de se passar isso.

Eu sempre critico o trabalho do cara, mas dessa vez eu tenho que dar os parabéns pra ele, porque essa foi uma ideia realmente muito boa e toda a construção do arco até aqui fez isso funcionar de uma maneira brilhante. Fora desse contexto, essa página em branco não teria a mesma força de comunicação.

(antes que alguém mencione, sim, eu sei que Bleach, em seu volume 41, fez algo parecido com a famosa e infame página branca escrito “The Heart”. Devo dizer que apesar de a ideia ser parecida, não teve nem de longe a mesma construção e impacto, além de a estrutura do arco onde ela acontece em Bleach não favorece isso. Mas pra ser justo, é uma página boa também.)

A parte mais importante já foi, mas ainda não acabei, falta só mais um pouquinho e tentarei ser breve com o que falta.

Após a Exclamação de Atena, vemos que o Jardim inteiro foi devastado e não restou absolutamente nada além das Árvores Sala-gêmeas. Temos umas duas páginas de cavaleiros ficando putos com o ocorrido e mais uma página com o final do flashback do Shaka, que eu acabei deixando pra falar antes. Não acho que aqui seja o local mais apropriado pra essa página e a transição pra esse flashback e pro tempo presente não é das melhores.

TELEPATIA

Esse quadro todo, principalmente o último balão, me quebrou legal na risadinha.

Aí entram em cenas os cavaleiros renegados, que resistiram após usar a técnica proibida e falando do sentido que sobrou de cada um deles: Camus com a audição, Shura com o Paladar (que por algum motivo tonto Kurumada cisma que está relacionado a poder falar) e Saga com a visão… os três tão todos aparentemente fodidos por causa de só terem um sentido sobrando, mas as regras de poder e lógica desse mangá são tão quebradas que isso em nada os afeta, se considerarmos que eles podem se comunicar por telepatia e conseguem sentir as coisas ao seu redor graças ao cosmo. Esse homem nunca falha em me fazer rir com as falhas de escrita e lógica absurda de seus mangás.

E eis que então Saga percebe algo e comunica aos seus parceiros que Shaka ainda está lá, sendo que a exclamação de Atena deveria tê-lo reduzido a nem um átomo restante, e então eles, decidem observar o que acontece, dado que este se levanta e caminha em direção ao centro das Árvores Sala-gêmeas para dar seu último suspiro, tal qual aconteceu com o Buda.

Estes são os momentos finais de Shaka, suas páginas finais. E então o mesmo se senta no local enquanto recita bonitas palavras sobre a efemeridade da vida (outra vez, só que agora ele não está sendo ensinado, é ele quem está ensinando) na página que abre esse texto, enquanto escreve seu testamento nas pétalas de flores com seu sangue, com o termo “Arayashiki” (detalhe esse que será importante daqui a alguns volumes, mas isso não vem muito ao caso agora) e as manda até Atena, enquanto seu corpo desaparece ao ar. Shaka já havia morrido, a imagem que Saga viu nada mais era do que sua alma finalizando o que tinha de fazer.

ARAYASHIKI.jpg

A mensagem final: ARAYASHIKI.

Saint Seiya nunca foi um primor em desenvolvimento ou escrita de personagens. Pelo contrário, ele é ridiculamente raso nisso e os personagens muitas vezes não são nada muito além de conceitos prontos. Não vou dizer que Shaka de Virgem é uma exceção, até porque ele não é um personagem particularmente profundo se a gente comparar com algum mangá qualquer da mesma época publicado na própria Shonen Jump, mas pros parâmetros da série, ele foi melhor utilizado do que a esmagadora maioria dos outros e a execução da ideia que o cerca foi, no mínimo, aplaudível e teve um desfecho até interessante. Chega a ser irônico que uma página em branco com nada escrito ou desenhado ajudou a elevar o personagem assim.

De verdade, eu quando li consegui sentir o que Kurumada quis me passar, mas dado o histórico do cara ainda duvidei se isso foi de fato ideia dele, se foi intencional, ou se foi algum editor que sugeriu isso pra ele, mas então eu termino de ler o volume 21, e, ao abrir o volume 22, lendo a orelha da capa, onde, em mangás da Jump sempre tem um comentário aleatório do autor Kurumada diz algo que tira minha dúvida quanto à intenção autoral da dita página em branco, que irei transcrever aqui.

Kurumada.jpg

“‘Há um erro de impressão nesse volume de Saint Seiya! Por favor, corrija!!’, disseram sobre o volume 21.

Algumas pessoas reclamaram da página em branco no meio do volume. Entretanto, a página 125 não foi nenhum erro, tampouco, preguiça minha. Meu intuito era mostrar de uma maneira direta que só seria possível na mídia dos quadrinhos como Shaka foi reduzido a nada pela exclamação de Atena. Cada volume em cada loja pelo Japão inteiro contém esta página em branco.

Não acho que Masami Kurumada seja um gênio, mas é inegável que ele seja um artista, independente da qualidade objetiva de seu trabalho. Artistas trabalham fazendo sua própria arte, logo, Kurumada também faz arte. Por mais que eu não considere este um mangá bom, não acho que não tenha nada, por menor que seja, que não possamos aprender com ele, ou com qualquer outra obra ruim em qualquer mídia que seja. Toda obra em alguma mídia tem algo com qual podemos aprender, ainda que seja de valor anti-didático. Mesmo que ele não seja lá muito habilidoso com escrita, Kurumada tem plena consciência de que faz quadrinhos e ele sabe do que essa mídia é capaz, e suas palavras na orelha deste volume 22 só comprovaram isso.

Arte causa reações em quem a consome, e pessoas terem reagido, ainda que com reclamações ou confusão, a essa página em branco, só deixa claro o quão especial isso foi.

Eu nunca pensei que eu viria defender algo de Cavaleiros do Zodíaco com tamanho fascínio na minha vida, mas aconteceu e vocês acabaram de ser testemunhas. Acho que esse momento isoladamente já fez ter valido a pena revisitar a série depois de adulto e perceber isso com os olhos e experiência com a mídia que tenho hoje.

Meus sinceros parabéns por essa sacada, Masami Kurumada. Dessa vez você acertou em cheio.

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9 comentários sobre “Cavaleiros do Zodíaco: o poder de comunicação de uma página em branco

  1. Sobre a parte do Paladar e a fala o Shaka diz na luta contra Ikki que quando remove esse sentido ele paralisa a linguá então o oponente ficar sem poder falar é meio que um efeito colateral.
    Eu gostei muito do texto é não existe definição melhor que “um grande amontoado de boas ideias que não funcionam” é o clássico exemplo do é bom porque é ruim. Gosto dessa cena também o Shaka é um personagem que sempre mostra lutas interessantes( ou pelo menos o mais proximo disso) principalmente pela forma como Kurumada ilustra seus poderes, sempre algo bastante simbolico e impactante(pro padrão dele)
    Tanto que até em Next Dimension(aquela bosta fumegante que eu adoro) o Shaka protagoniza o melhor momento do manga em seu confronto com o antigo Cavaleiro de Virgem Shijima que eu acho sem meme um dos melhores momentos da franquia.
    De novo otimo texto.

    • A respeito disso do paladar, eu cheguei a zoar no Twitter e vieram me corrigir (inclusive, acho que foi você mesmo que comentou, né?). Eu acabei indo checar no volume 10 pra ver se eu tinha me esquecido, e realmente é dito isso da paralização da língua.

      Me soa meio bullshit ainda relacionar isso ao paladar (da mesma forma que vi aqui que ele relaciona respiração ao olfato diretamente, e eu tinha me esquecido completamente desse detalhe), mas cola na suspensão de descrença maluca do Kurumada.

      Eu nunca fui grande fã de CdZ pra ser sincero, mas essa releitura, apesar de eu ainda continuar não achando bom, me fez criar um apreço que eu nunca tive pela coisa. Os problemas dele me são ainda mais aparentes do que eram quando eu li na infância, mas os acertos (na maioria das vezes, conceituais) me pareceram mais claros também.

      Eu eventualmente pretendo ler Next Dimension algum dia, mesmo sabendo o show de horrores que me aguarda, mas antes quero ler os outros spin-offs (que são totalmente novidade pra mim), inclusive o faladíssimo Lost Canvas, que é possivelmente o próximo da lista.

      E obrigado pelo feedback!

  2. Se você diz que nunca pensou que viria defender algo de Cavaleiros do Zodíaco é porque ainda não deu uma chance a Lost Canvas. Me atrevo a dizer que Kurumada criou todo esse universo apenas para que Teshirogi pudesse usá-lo e expandi-lo da forma como ele merece.

    • pior que na realidade eu já cheguei a ler o começo de Lost Canvas há uns vários anos atrás e senti isso. Ainda pretendo ler o resto na íntegra num futuro bem próximo. Vale pra todos os outros spin-offs também, que algum dia eu inevitavelmente irei ler (eu só li o original do Kurumada mesmo quando criança e revisitei a série agora depois de adulto um pouco antes de fazer esse texto).

    • Pior que originalmente eu pensei em fazer como vídeo, mas como não tenho recursos ou as habilidades de edição necessárias pra isso do jeito mais adequado (ou espaço pra postar), tive que me virar em texto mesmo. Mas adoraria ter feito um vídeo e quem sabe posso reaproveitar e adaptar isso pra vídeo no futuro quando tiver a oportunidade. Gostei muito de fazer essa análise.

  3. Bacana o texto. Só uma correção: Atena não reencarnou em uma menina de 13 anos. Ela reencarnou, e tinha 13 anos quando aconteceu a guerra. São duas coisas diferentes

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