Sobre Scans e o Mercado de Quadrinhos

OBJECTION

Acho que antes de começar, gostaria de dizer que o nascimento desse texto foi motivado por um acontecimento recente no mercado brasileiro de quadrinhos, mais especificamente o de mangás, onde a Editora JBC supostamente mandou tirar do ar sua séries licenciadas que estavam disponíveis para leitura online num desses sites de ler mangá online em português por aí que eu já não sei o nome e não fui muito atrás de procurar também. Um resuminho melhor do ocorrido vocês podem ver neste post do Mais de Oito Mil, que, por mais que tenha toda uma pitada de humor e exagero caricato proposital em cima do texto, acho que consegue passar bem o que aconteceu em mais detalhes. Por mais que este episódio seja o catalisador pra essa discussão, tentarei abordar o assunto de uma maneira mais geral para não datar muito este texto, pois acredito que seja uma conversa bem importante para termos e que será um tema que virá à tona e já veio à tona muitas vezes. É um assunto bem mais complexo do que parece, então vamos por partes.

Primeiro, acho válido a gente parar e conceituar o que chamamos de “scan”, quando nos referimos ao consumo de quadrinhos. A scan nada mais é do que uma versão escaneada de um quadrinho para consumo digital, seja em computador, tablet, celular, Pense Bem da Tec Toy ou qualquer merda eletrônica que você tiver ao seu alcance. E agora indo um pouquinho mais a fundo, a gente tem o “scanlation”, que é basicamente a mesma coisa que o anterior, porém com um elemento extra envolvido, tradução do conteúdo escaneado de um idioma para o outro, envolvendo edição das páginas e outros processos. A prática do Scanlation é bem comum na internet principalmente no que se diz respeito a quadrinhos asiáticos (não só japoneses, viu…) que são publicados originalmente em idiomas considerados “difíceis” de aprender.

pokemon

A prática do scanlation possui uma história que em muito se entrelaça com a do “fansubbing”, que é basicamente a mesma coisa, só que pra conteúdo audiovisual (e quando se fala em fansubbing, a gente quase que imediatamente pensa em anime mesmo, apesar de servir pra qualquer coisa). Para essa história, recomendo essa famosa série de quatro vídeos do canal Otaking77077, não tem playlist mas só irem clicando nos vídeos relacionados que vocês se acham (e está em inglês, se conhecer alguma versão disso em português, sinta-se à vontade pra postar nos comentários). Talvez um pouco dessa história seja interessante de levar em consideração nessa discussão, mas relaxa que eu vou abordar isso lá na frente de um outro jeito.

Se você conhece um pouco do meu background, vai saber que eu mesmo fundei e liderei um grupo de scanlation de mangá por alguns anos da minha vida, mas caso não, está aí a informação e eu vou falar um pouquinho disso pela ótica de alguém que já fez parte dessa comunidade. Dependendo do quanto de conteúdo com essas origens você já consumiu na vida, é bem provável que você já tenha visto a frase “feito de fã para fã. Se você pagou por este material, você está sendo enganado” ou alguma coisa bem similar a isso, e bom, é exatamente este o espírito original do fansubbing e do scanlation, trazer coisas que são inacessíveis por meios oficiais para a comunidade, sem nenhum ganho financeiro, unicamente para a preservação e a difusão desse material entre mais pessoas.

ShakawOP

É bem provável que se eu nunca tivesse assistido ao anime de One Piece por fansubs antigos (grande ShaKaw… lembro-me bem), eu provavelmente não estaria aqui escrevendo sobre isso ou interessado pela mídia como estou hoje.

Porém, o que começou com um espírito bem “fundão de garagem” com nego gravando anime e episódios de Star Trek que nunca tinham passado na TV (este último no caso do Brasil) em fita VHS com umas legendas meio feitas na gambiarra, com o surgimento da internet e a melhora dos computadores para que houvessem novas ferramentas de edição, acabou ganhando novos horizontes ainda maiores e é uma cena que parece crescer mais e mais a cada dia. Ouso dizer que, se temos uma cultura tão grande de consumo de mangá e anime no ocidente, os fansubs e scanlations tiveram uma GRANDE influência nisso. É quase impossível que, se você consome essas coisas hoje você nunca tenha se deparado com isso na sua frente em algum momento da vida.

Temos muito conteúdo de mangá e anime oficialmente no Brasil hoje em dia? Na minha opinião, depende do que exatamente você considera como “muito”. Até temos uma variedade interessante de coisas para (quase) todos os gostos mas isso não é nem a pontinha do iceberg de uma indústria que produz toneladas de conteúdo pra essas mídias diariamente. A gente até tem alguns megahits do momento oficialmente aqui, tipo um Boku no Hero Academia ou um One Piece da vida, mas e as coisas do passado que foram importantes para essa mídia? Onde estão o Ashita no Joe, Devilman, Hokuto no Ken e mais umas centenas de outras coisas que fizeram parte importante dessa mídia e que não temos, e muito provavelmente nunca teremos, oficialmente por aqui?

Hokuto

Sempre que eu lembro que provavelmente nunca teremos Hokuto no Ken licenciado aqui eu fico triste. Pois adoraria comprar uma edição brasileira de uma das minhas sagas favoritas da ficção, e que fez eu me interessar por essa mídia que tanto gosto que são os mangás, além de ser uma obra que foi extremamente importante para a história da mesma.

E é aí que entra talvez o papel mais importante do trabalho de comunidade de fã nessa discussão: a preservação histórica de uma mídia.

Em anexo, gostaria de recomendar este texto do Neozão lá do GAMESFODA que meio que aborda esse assunto também, só que analisando pela ótica dos videogames e toda a questão das ROMs e emuladores, que é bem parecida com o que eu tô falando aqui, apesar de ter lá suas particularidades.

Mas ok, vamos voltar aos quadrinhos porque o foco do texto é eles. Nós como entusiastas de mídia, precisamos conservar as produções artísticas de qualquer mídia para que as gerações futuras possam acessá-las um dia. Papel se decompõe com o tempo, fica amarelo, rasga fácil, ocupa espaço, as traças podem comer e mais um monte de coisa. Nisso entram duas opções que podem contornar essas adversidade: uma delas é a distribuição digital (que aqui no Brasil é ridiculamente pequena, apesar de já terem havido tentativas no passado. É um mercado que ainda dá passos de bebê e estou muito curioso para ver o desenvolvimento disso algum dia aqui, pois já existem grandes distribuições digitais oficiais em outros países quando o assunto é quadrinhos). E no outro lado, temos a reimpressão do material físico, que, muitas vezes “reimpressão” parece ser uma palavra que simplesmente parece não existir no vocabulário das editoras brasileiras de quadrinhos, PRINCIPALMENTE mangás. “ai mas é só comprar usado de alguém”. Ok, campeão, vai lá torrar uma quantidade absurda de dinheiro nos primeiros volumes de Bleach aí que eu quero ver, ou uns 500 reais numa edição antiga do Superman que algum safado tá vendendo a esse preço por causa da suposta raridade do produto.

VaiSeFudeCaroPraCaralho

E aí, amiguinho, quer ler começar a ler/colecionar Bleach? Vai encarar?

Ok, eu falei ali atrás de ter scan de muita coisa que sequer sai ou tem a menor chance de sair oficialmente por aqui, mas a gente sabe muito bem que mesmo as coisas que chegam continuam tendo scans por aí. Existe uma linha bem tênue de moralidade X acessibilidade que pode ser discutida por uma infinidade de espectros diferentes nesse tema, mas, como eu falei lá atrás no texto sobre os fansubs e scanlations popularizando o consumo de mangás e animes, acho que a “pirataria” (em termos legais, por mais que tenha a boa intenção da divulgação e tal, ainda não deixa de ser pirataria, convenhamos) acaba sendo na real mais benéfica do que maléfica ao mercado oficial se bem usada ao seu favor para fins de divulgação, e para isso, eu gostaria de deixar esse pequeno depoimento em vídeo onde Neil Gaiman, (que eu imagino que uma boa parte de vocês que estão lendo este texto já tenham ouvido falar nem que seja por ver o nome dele assinado em Sandman) fala um pouco sobre sua visão sobre a distribuição pirata de conteúdo e a forma como isso pode ajudar um artista.

Gaiman fala uma coisa nesse vídeo que aconteceu comigo, mais precisamente aos 2 minutos e vinte segundos de vídeo. Graças a conteúdo de scans, eu já descobri muitos artistas dos quais gosto muito do trabalho. Não só de quadrinhos, mas de qualquer mídia, e com isso, fui atrás de dar meu suporte a eles quando eu posso (tanto que eu mesmo já li muitos quadrinhos por scan que comprei depois quando saíram oficialmente). Essa é uma atitude que muitas vezes vem normalmente, chega até a ser meio bonito esse papo de “confie no poder da sua arte”, mas a gente sabe que o artista é um profissional, gente como a gente e ele precisa também botar pão na mesa (e para este assunto, recomendo o texto do Rauzi aqui mesmo do blog onde ele falou um pouco sobre a relação entre arte e sobrevivência, apesar de a nuance da discussão ser um pouco diferente da que eu apresento aqui). O que Gaiman falou é verdade, mas a gente sabe que há muitos casos em que nem sempre a pessoa quer pagar por aquilo que consome, mas também, convenhamos que tentar bater de frente com isso tentando proibir os caras não resolve nada, e em alguns casos, pode até piorar as coisas. A pirataria na internet é como a hidra da mitologia grega: você corta uma de suas cabeças e nascem pelo menos mais duas no mesmo lugar. É uma luta sem fim da qual há mais prejudicados do que beneficiados, por mais estranho que isso pareça. Todo mundo consome pirataria de alguma forma, ainda que em graus pequenos, é algo semi impossível de se estar 100% livre, mas ela não é um direito, ela só está lá, e pode abrir as portas para muitas coisas.

(ainda sobre a acessibilidade proporcionada pela pirataria para o crescimento de uma mídia, só que aqui falando sobre o mercado de videogames no Brasil, recomendo a minissérie “Paralelos”, do Pedro Falcão. Não diz lá taaanta coisa além do que eu mesmo já disse ou que você também possa até já saber, mas é sempre interessante ver como existem exemplos disso por toda parte.)

Ok, agora que eu já banquei o advogado do diabo defendendo o trabalho do “de fã para fã” e a preservação de história promovida pelos scans bem como seu potencial divulgador, preciso tocar no outro lado da moeda, e este está mais diretamente relacionado com o episódio que catalisou a discussão que eu iniciei aqui. E agora, esse é o momento em que eu daria uma voadora com os dois pés no peito de imbecil se me fosse dada a oportunidade. É hora de dar nome aos bois, então precisamos falar um pouco sobre o outro envolvido nessa história toda, o site Mangasproject. (sim, eu só fui ir conferir quem era o outro site no meio do processo de escrever o texto)

Como vocês já puderam perceber pelo começo do texto e pelo link do MdOM que eu deixei ali no primeiro parágrafio, o que aconteceu foi a JBC exigir que eles tirassem o conteúdo que já é licenciado pela editora do site. Tudo normal até aqui, está totalmente no direito dela fazer isso, mesmo que essa não seja exatamente a solução mais eficiente. O tiro meio que saiu pela culatra por causa dos motivos que citei anteriormente de que se você tirar, você acaba meio que perdendo a confiança do público ou a possibilidade de alguém conhecer o seu trabalho via uma fonte gratuita e confiar de ir atrás oficialmente pagando depois por um serviço de qualidade oficial. Editoras brigando com sites de scans acontecem há muitos anos já, mas pelo menos essa é a primeira vez que vejo acontecer com editora de mangá no Brasil num ponto em que gerou essa repercussão toda, mas o que mais me chamou a atenção nessa história toda nem foi a atitude da editora, e sim a forma como o Mangasproject reagiu ao ocorrido, de maneira, no mínimo, risível e patética.

mangasprojectpilantra

PRA QUE QUE UM SITE DE LEITOR ONLINE PRECISA DE ~ÁREA VIP~, PUTA MERDA?????

Caso você, assim como eu, não conheça o site ou esporadicamente esquece que ele existe às vezes, vou tentar explicar mais ou menos como o site funciona: é um grande site onde há vários scans em português de inúmeros mangás, que são na real feitas por vários grupos de scanlation que trabalham sem nenhum foco em ganhar dinheiro, unicamente pelo “de fã para fã” que eu citei lá atrás. Porém, o que acontece é que o site é CHEIO de anúncios por todas as partes, e nós sabemos exatamente o que significam anúncios.

Como se ainda não fosse o bastante, a cara de pau chega num ponto em que fazem PROMOÇÃO DE ÁREA VIP NA PORRA DO SITE DELES. Caralho, velho, sério mesmo? PAGAR POR “ÁREA VIP” PRA LER SCANLATION DE MANGÁ? QUE PORRA QUE É ÁREA VIP NUM SITE DESSES? EU VOU LER O ONE PIECE DA SEMANA ENQUANTO ALGUÉM CHUPA MEU PAU E RECEBO MASSAGEM INDIANA NAS COSTAS, É ISSO?

Mas ainda pior é a forma como os mesmos reagiram ao pedido da JBC, Dá uma sacada no que eles postaram na página deles no Facebook. Eu não vou nem comentar nada antes da imagem, só peço que vocês lembrem de tudo que eu falei neste texto até agora com bastante atenção e vejam a seguinte imagem:

AhManoVaiMamarNoBoi

Mano do céu, tu tá tirando uma com a minha cara que um site que hospeda scan ganhando dinheiro com isso CHAMOU UM ADVOGADO PRA RESPONDER A UMA CAUSA? Puta que o pariu, vocês tem noção do quão ridículo isso é? Meu deus do céu, porra, olha a descrição que eles dão pro que é a merda da ~Área Vip~ deles, pelo amor de deus, CARALHO!

Quando vejo um filha da puta fazer uma porra dessas sujando todo o nome de uma comunidade que surgiu com a melhor das intenções em prol de ganho próprio eu fico indignado. Eu sei que costumo usar palavrões com certa frequência nos meus textos aqui neste blog, mas dessa vez eu fiquei tão puto que não tive como segurar. Assim fica até difícil defender e parece que tudo que eu falei de preservar uma mídia importantíssima vai pra casa do caralho com alguém grande (se eu não estiver errado, o Mangasproject provavelmente deve ser o maior site brasileiro do tipo) fazendo uma merda dessas em escala nacional. Tantos grupos de scanlation tentando fazer algo honesto pra bem de comunidade e aí vem um cara desses fazendo uma lambança dessas pra tentar justificar pirataria (que é prevista como algo ilegal, vale ressaltar) USANDO UM ADVOGADO, QUE SUPOSTAMENTE DEVERIA ADVOGAR EM FAVOR DA LEGALIDADE. Isso é de cair o cu da bunda de tão surreal que soa. Eu mesmo não consigo nem acreditar que eu tô digitando palavras descrevendo um acontecimento tão imbecil desses.

Mesmo com uma merda dessas acontecendo, eu não vou retirar o que disse quanto à importância dos scans para a mídia e para contribuir com um mercado de fato, mas é altamente importante que tenhamos ciência do que esses materiais são. São produtos que pessoas gastaram sangue, suor e lágrimas para fazer (me refiro às obras originais agora) e que fãs só querem que tenha mais acesso, para que, da forma como Neil Gaiman falou, pessoas possam conhecer o trabalho dele e ir atrás oficialmente ou até pedir para que isso seja lançado por alguma editora oficial do país. Inúmeros mangás foram publicados aqui por causa de popularidade em scans ou porque teve alguma adaptação em anime que ficou popular em lançamento de fansubs, ou até mesmo ótimas séries que nunca verão a luz do dia aqui oficialmente por uma série de fatores e podemos conhecer graças ao trabalho dessa galera. A gente não pode tirar esse fator da equação, mas nunca devemos nos esquecer que não é um direito nosso, é apenas algo que existe e está lá e que é extremamente sujo e desonesto tentar ganhar dinheiro em cima de material não-licenciado dessa forma.

Por mais que eu não exatamente ache atitude da editora JBC a mais ideal pro caso em questão, eles ainda estão no seu direito legal, e contra alguém que quer ganhar dinheiro em cima disso me soa justificado.

Acho que esse é um assunto que tem bem mais coisa a ser abordada. É uma toca de coelho bem funda, mas acho que o que havia de mais pertinente para a discussão eu consegui abordar.

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2 comentários sobre “Sobre Scans e o Mercado de Quadrinhos

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