Arte e sobrevivência

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(Disclaimer: esse texto foi fortemente inspirado pelo podcast Mangá ao Quadrado, especificamente pelo episódio 207, Pagando pela Arte, especificamente pelo começo da discussão. Quem não escuta eles, vá lá depois, por favor)

Há dois mangás escritos e desenhados por Tsutomu Nihei sendo publicados no Brasil nesse momento. Um deles, Blame!, nos mostra um protagonista sem muito de especial que atravessa um dos mais colossais mundos já criados na ficção, escapando de inúmeras situações de tiroteio e pandemônio por mais mérito da arma que ele por acaso carrega do que por qualquer habilidade inerentemente dele, só para ser jogado em um mundo cada vez maior e mais repleto de ameaças. Blame! se apossa do vasto desinteresse da natureza com o ser humano encontrado em uma obra como Moby Dick, e transporta-o para um mundo criado exclusivamente pelo próprio ser humano. Eu li dois volumes de Blame! até o momento. Ele tem potencial para ser um dos melhores mangás que já li.

O outro mangá do Nihei sendo publicado é Knights of Sidonia, que nos mostra um protagonista sem muito de especial caindo de cara numa força-tarefa quase inteiramente feminina, especializada em defender a humanidade da enorme ameaça dos Gaunas, monstros espaciais gigantes que ameaçam a nave gigante onde todos os seres humanos vivem depois que os Gaunas destruíram a terra. Entre um personagem principal genérico, o pseudo-harém construído ao redor dele, e os aliens repletos de mistério que eles enfrentam, Knights of Sidonia lembra vividamente umas dezessete obras diferentes que já conheço. Eu li dois volumes de Knights of Sidonia até o momento. Eu não comprei o terceiro volume.

Blame! acabou em 10 volumes com vendas bem modestas, e rendeu uma adaptação para anime direto para internet, em seis episódios de seis minutos cada. Knights of Sidonia acabou em 15 volumes que apareciam regularmente entre os mangás mais vendidos do Japão, e foi adaptado para anime em 24 episódios de meia hora cada, disponível no Netflix nesse exato momento. Mesmo que seja possível chamar Blame! de sucesso comercial, Sidonia foi um sucesso imensamente maior. E é um mangá muito, muito pior. Mas voltaremos a isso.

Knights of Sidonia

Por causa que sou fã de quadrinhos, e por causa que o meu trabalho de conclusão de curso de Jornalismo vai ser sobre quadrinhos, eu me meti a ler teoria de quadrinhos, para tentar entender melhor essa mídia de que tanto gosto e da qual inventei falar sobre. E a grande obra de teoria dos quadrinhos, a mais famosa tentativa de definir, examinar e analisar os quadrinhos como uma forma de arte, é Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud. É um livro acadêmico sobre quadrinhos escrito em quadrinhos, discorrendo com brilhantismo sobre o ícone, o requadro, a cor, e os princípios da arte. Recomendo para todo mundo que se interessa pelo campo.

Em certo ponto do livro, McCloud deixa para trás o assunto das propriedades únicas dos quadrinhos e passa a trabalhar com aquelas que os quadrinhos compartilham com outras formas de arte. Nesse momento, ele acha necessário apresentar sua própria definição de arte, e é uma definição muito interessante. Arte, para o McCloud, seria “qualquer atividade humana que não se desenvolve a partir dos dois instintos básicos da nossa espécie: sobrevivência e reprodução”. O exemplo que ele usa para esclarecer essa ideia é o da era pré-histórica, onde é fácil ver que a vida gira quase que exclusivamente em torno desses dois fatores. Caçar para sobreviver, procurar parceiros para reproduzir, fugir de predadores para sobreviver, etc. E McCloud aponta que os momentos do mundo pré-histórico onde a sobrevivência e a reprodução não eram preocupações urgentes são os momentos que a nossa sociedade, milênios depois, reconhece tranquilamente como os princípios da arte: as pinturas nas cavernas são as primeiras pinturas, as conversas na fogueira são as primeiras histórias, os batuques são músicas primitivas, e a arte surge do momento em que o ser humano não está focado em sobreviver ou se reproduzir.

understanding comics

O mundo atual tem processos mais complexos, “mas os instintos (junto com suas inúmeras sensações e costumes relacionados) continuam os mesmos. Sobrevivência e reprodução acima de tudo”. E o conceito de arte ainda se sustenta bastante bem, quando você pára e pensa sobre isso. Ninguém defende que fazer uma refeição é uma arte. É uma coisa que se faz para sobreviver. Ser atendente de telemarketing é uma coisa que se faz para sobreviver. Formar e manter amizades, de uma maneira mais indireta, são coisas que fazemos para sobreviver. E por mais que algumas pessoas digam que há “uma arte” em fazer amigos, ou namorar, ou ser atendente de telemarketing, essas são artes secundárias, que podem tornar a atividade mais eficiente, mas não mudam o que a atividade realmente é: algo que se desenvolve sim a partir de sobrevivência ou reprodução, e portanto não é arte.

Isso coloca numa posição muito interessante o que nós realmente costumamos chamar de arte: quadrinhos, filmes, livros, pinturas, músicas, jogos, essa merda toda. Se aplicarmos bem estritamente a definição do McCloud, a maioria das obras que conhecemos não contaria como arte. Da Mona Lisa até Persona 5, de Shakespeare até Shyamalan, do Please Please Me até Vagabond, tudo isso seria invalidado, não contaria como arte, porque todas essas coisas foram feitas com a sobrevivência em mente. Da Vinci e Shakespeare trabalhavam para patronos, enquanto o resto dos exemplos que citei se sustenta vendendo sua obra para um público maior, mas todos eles fizeram esses trabalhos para sobreviver. Isso significaria que não faz sentido chamar essas obras de arte?

A resposta fácil é “não”, e o próprio McCloud defende isso muito bem. Ele propõe que existem elementos de arte em quase todas as atividades humanas, seja “uma coreografia meio desnecessária na linha de montagem, o estilo pessoal de um mensageiro de bicicleta ou a maneira de assinarmos o nosso nome”. As atividades que chamamos de artes são simplesmente as que são mais repletas desses elementos, mais dominadas por impulsos expressivos e criativos e menos por simples praticidade e sobrevivência. Essa resposta faz sentido, e a grande vantagem dela é ser razoável: uma definição de arte que menospreza todos os artistas que conseguiram, a duras penas, se profissionalizar e se sustentar com sua arte, e todas as grandes obras criadas nesse paradigma, é uma definição que parece revoltante.

Mas o curioso é que ela não nos é tão revoltante assim. De fato, a ideia de que a arte feita para sobrevivência é inválida, ou pelo menos inferior de alguma forma, é muito bem difundida, pelo menos entre as pessoas que falam sobre arte na internet. Ela só assume a forma do “se vender”. As pessoas ficam putas com um artista quando ele muda (ou parece mudar) seu estilo conscientemente para tentar fazer mais sucesso. Elas veem o artista como um traidor de si mesmo, alguém que deixou para trás as coisas que o tornavam interessante e único para criar algo que vai simplesmente ser mais rentável. Em algum nível, as pessoas estão operando com as categorias propostas por McCloud: a arte não vem do instinto de sobrevivência, e sim dos momentos onde desconsideramos tal instinto.

Essas pessoas estão erradas? Sim e não. E aqui voltamos a Tsutomu Nihei. O Mangabrog, site querido do meu coração que traduz entrevistas com mangakás do japonês para o inglês, tem uma breve entrevista de Nihei no seu site. É uma entrevista de Fevereiro de 2016, uns seis meses depois do final de Knights of Sidonia. Se você manja de inglês, vale a pena dar uma lida no negócio completo; se não manja, ou está com preguiça, vou tentar traduzir a parte mais pertinente a este texto.

Nihei: Para falar a verdade, eu não gosto de pensar sobre a época em que eu estava fazendo Blame!. Minhas obras têm pouco diálogo e as pessoas costumam dizer que é difícil de entender, e eu acho que naquela época eu realmente só queria fazer algo estranho. Quando eu estava começando eu pensava em desenhar mangá não como trabalho, mas como um meio de auto-expressão. Eu não estava preocupado com entreter meus leitores ou fazer algo que ia realmente vender. Acho que é por isso que eu fiz um mangá tão difícil de entender.
Na verdade, Blame! originalmente acabava no primeiro volume. Depois disso ele virou uma série na Season [revista spin-off da Afternoon], que era publicada quatro vezes por ano e portanto não era o bastante para me sustentar, então eu voltei a trabalhar como assistente para o Tsutomu Takahashi [autor de Jiraishin, onde Nihei foi assistente] aqui e ali. Eu até pedi pro meu irmão fazer um empréstimo por mim – eu tentei conseguir eu mesmo, mas não fui aceito porque eu era um mangaká. Não ser capaz de ganhar a vida é uma coisa muito assustadora. Pode ter sido aí que eu comecei a pensar a fazer o meu trabalho vender, sobre como meus leitores enxergavam meu mangá.
– O tempo de mudança havia chegado.
Nihei: Exato, mas eu ainda não era capaz de olhar para mim mesmo objetivamente. Na época, eu estava convencido que eu tinha aprendido a lição e estava fazendo algo que ia vender, mas olhando para trás agora, eu ainda estava errando. Eu nunca tinha criado um roteiro antes – eu estava inventando as coisas no meio do caminho, e é por isso que as pessoas dizem que meus mangás são difíceis de acompanhar. Então depois de uns dez anos disso, eu decidi tentar fazer um mangá normal – mudar meu desenho, tentar fazer um mangá tão acessível quanto eu podia. Knights of Sidonia é um dos resultados disso
– A arte em Knights of Sidonia realmente parece bem diferente das suas obras anteriores.
Nihei: É, eu queria que a arte tivesse um apelo massivo nível Tezuka. (risos) Eu até pensei em mudar meu pseudônimo quando eu estava começando Knights of Sidonia. Eu também queria que a história fosse simples – nada que pudesse perder leitores.

 

Há duas conclusões que eu tiro dessa entrevista. A primeira é que é muita filhadaputice ficar com raiva do Nihei por ele se vender. O cara estava fazendo um dos mangás mais impressionantes que já li, uma das expressões máximas do cyberpunk, e ainda precisava trabalhar como assistente no mangá de outro cara e precisava de um empréstimo tirado pelo irmão. O medo que não ser capaz de ganhar a vida que ele menciona é completamente compreensível. Como já disse o saudoso Belchior, “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”. Nihei mudou seu canto para melhorar sua vida, e fico honestamente feliz por ele.

A segunda conclusão que eu tiro é que o meu apreço por Blame! e meu desgosto com Knights of Sidonia são mais justificáveis do que eu poderia imaginar. Nihei fala que criou Blame! sem se importar com entreter seus leitores, sem se preocupar com fazer algo que ia realmente vender: o fez como meio de auto-expressão. E Nihei fala que criou Sidonia tentando fazer um mangá com uma história normal, com uma arte mais atraente e uma história mais simples, a obra mais acessível que ele conseguisse fazer: o fez por sobrevivência. Se formos usar a definição de arte extraordinariamente abrangente de McCloud, que engloba até mesmo o estilo pessoal de um mensageiro de bicicleta, Knights of Sidonia, obra mais recente de um dos autores que mais me cativou em muito tempo, praticamente não é arte.

Novamente, não dá pra culpar Nihei por fazer o que fez. Seria de uma injustiça extraordinária culpá-lo, desejar que ele vivesse trabalhando em dois empregos e pedindo dinheiro emprestado da família para que pudesse realizar outras obras de enorme qualidade. Mas é difícil, depois que você começa, parar de pensar na incrível arte que Nihei estaria fazendo se não precisasse se preocupar com sua sobrevivência. É difícil, depois que você começa, parar de pensar em quantos Niheis nós perdemos, através dos séculos e a cada dia, para a necessidade de sobrevivência. Quantos gênios, ou gênios em potencial, nós perdemos para as linhas de montagem, ou para o mensageirismo de bicicleta, ou para um mangá que lembra vividamente dezessete outras coisas que a gente já leu.

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9 comentários sobre “Arte e sobrevivência

  1. Pingback: Sobre Scans e o Mercado de Quadrinhos | Missão Ficção
  2. Knights of Sidonia é uma bomba de tão ruim. E só piora. Comprei o mangá até o 7º volume lançado pela JBC e decidi ler o resto pela internet, recentemente, e só me decepcionei.

    [SPOILER] | [SPOILER] | [SPOILER] | [SPOILER] | [SPOILER] | [SPOILER] | [SPOILER]

    Tanikaze se apaixona por uma quimera de humano e Gauna e, bicho… a tal placenta tem um corpo, mas sua mente é uma espécie de “cordão” que mais parece um pênis. Tem até uma cena – bizarríssima – em que a placenta se utiliza de inúmeros tentáculos para “conhecer” o corpo do protagonista, da forma mais hentai possível. Eles se apaixonam e desenvolvem toda uma relação, e é muito zoado.

    Em minha humilde opinião, Tanikaze só sente atração pela criatura por ter sido criada a partir do Gauna que copiou Hoshijiro, sua primeira “crush” em Sidonia, morta logo no início da série, o que deixa tudo pior na relação entre ambos.

    E, ao fim de Knights of Sidonia, Tanikaze e a placenta se casam. E têm uma filha.

  3. Excelente post. No mundo dos mangás principalmente, não precisa ir muito longe pra ver a quantidade de autores que corrompe suas obras e ideias por motivos de sobrevivência. É um meio cruel, mas é o que acontece quando a oferta é muito maior que a demanda. Talvez num futuro próximo surja alguma forma diferente de fazer mangá. Penso que uma revista onde os autores publicada em suas obras e seus salários fossem compostos por doações de leitores via Patreon ou alguma plataforma parecida pudesse ser uma forma interessante de incentivo à essa produção de obras mais autorais e sem uma grande alteração na estrutura pessoal do autor.

    • Eu gosto muito do Patreon (e de crowdfunding em geral), acho que dá uma liberdade muito interessante a alguns artistas, mas quase todos os exemplos de grande sucesso são de gente já estabelecida de alguma forma, gente que já tem fanbase investida no trabalho daquele artista, como a Amanda Palmer ou o pessoal de Mighty No. 9. Não boto tanta fé que um Patreon pra uma revista autoral resolveria problemas: seria basicamente a mesma coisa que uma revista autoral normal, e, pra ficar no exemplo do post, essas claramente não ajudaram muito o Nihei a se sustentar. O Nihei pós-Blame talvez pudesse se sustentar com um Patreon pessoal, e pudesse fazer algo legal ao invés de Sidonia, mas antes de/durante Blame ele passaria basicamente pelos mesmos problemas. E se não tivesse aquele irmão pra fazer o empréstimo (como muita gente não tem), nem teria conseguido acabar Blame. Pra resolver isso seria necessário algo a mais.

      • Eu não acredito que tô a mais de um mês pra postar a resposta pra isso. Eu não sei nem o que falar, também, mas não respondi mais por falta de tempo. Realmente, talvez tenha sido meio ingênuo na minha intenção. Não faço ideia de outra forma de publicação além dessa que desse visibilidade. Talvez o que a Garo fazia, onde os autores publicavam as histórias sem receber, mas tinham de volta o prestígio de ter o nome publicado numa revista de peso. De outra forma, não sei mesmo. É um mercado muito cruel.

  4. Grande Rauzi, então o senhor está vivo… como andam as coisas?

    Belo texto, exige amadurecimento, provocou certa nostalgia dos seus textos antigos e dos divertidos debates que tivemos na época em que o All Fiction ainda era mais que semi-vivo (hoje o Herect segura sozinho aquilo lá).

    Aprecio a ideia de ligar a arte a algo que não seja puramente visando a sobrevivência. De fato a arte não é uma necessidade de sobrevivência, não preenche a necessidade instintual. Mas a filosofia, várias áreas da ciência, a teologia, e tantas outras dimensões da vida humana também não são necessárias para a sobrevivência.

    Por outro lado nenhuma produção literária, cinematográfica, nem mesmo um mangá, é feita exclusivamente visando fins de sobrevivência. Mesmo o dito mangá que você citou (não li) não foi feito inteiramente visando a sobrevivência, pois a escolha dos personagens, da ambientação, do roteiro, por mais desleixado e padronizado que seja, já envolve escolhas subjetivas que não passam pela simples questão de sobrevivência. Fazer algo visando apenas o mercado pode ser feito utilizando desde battle shounen até erotismo. Muita coisa vende, escolher algo dentro dessas variáveis todas já é uma subjetividade que escapa à necessidade de sobrevivência.

    Por fim, também existe algo de sobrevivência em grande parte das chamadas obras-primas. Como você precisamente trouxe no Renascimento as obras eram encomendadas. Mas ainda assim os grandes artistas deixavam a sua marca, colocam detalhes, ideias, que eram únicas. O mecenas não dizia o que queria detalhe por detalhe, ele dava a ideia geral, quem fazia nos detalhes era o artista, e ali ele exercia sua plena criatividade. Também por isso muitos filmes feitos com propósitos ideológicos e comerciais se tornam artísticos, porque o diretor conseguiu ao mesmo tempo cumprir o programa ao qual se submeteu e inserir sua própria visão da vida e do mundo. 2001 do Kubrick é um exemplo. É ao mesmo tempo um filme propaganda e uma obra de arte.

    Em qualquer sistema é possível produzir arte, porque nenhum sistema político, ideológico, econômico consegue trancar completamente a liberdade criativa. Mas como cada pessoa faz uso dessa liberdade é um problema de cada um.

    Abraço Sr Rauzi

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