A violência implícita de Vagabond

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Vagabond se inicia com um samurai – o protagonista, Shinmen Takezo, ou melhor: Miyamoto Musashi – caído, exposto à chuva, logo após uma guerra. De imediato, pouco interessam os acontecimentos exatos da batalha ocorrida anteriormente, pois a essa altura a mensagem já é clara: existem a violência, a guerra e os conflitos; e existe também um personagem vivendo em dada situação. É nesse contexto de pós-ação ainda muito movimentado que Takehiko Inoue nos introduz à sua obra.

O ponto crucial de toda a estrutura de Vagabond talvez consista em sua forma de abordar a violência. É comum em battle shounens, por exemplo, que personagens demonstrem certa excitação pelos grandes desafios que estão prestes a encarar, como se motivados pela possibilidade de enfrentar oponentes poderosos, o que não deixa de ser um recurso narrativo útil para estimular o leitor e estabelecer certa expectativa quanto ao que está por vir, mas que em Vagabond ganha mais camadas.

A violência, aqui, não é objeto de interesse para uma fetichização hiperestilizada; tampouco é observada por uma lógica dita realista que não raramente tende a certo sadismo, como em outras obras. A violência existe e surge da forma mais precisa possível, sem a necessidade de explorá-la ao limite a fim de provocar reações extremas, mas também sem ignorar sua existência e, sobretudo, seu significado. Se essa brutalidade surge de forma precisa, perfeitamente proporcional ao seu peso dentro da narrativa, é porque não há necessidade de abordá-la de qualquer forma pouco natural – seja pela afetação ou por um pretenso realismo que muitas vezes descamba em exploração gratuita – em um universo cuja lógica primária se rege pela violência.

vaga3É muito comum que os personagens falem sobre “viver no caminho da espada” ou expressões semelhantes. A princípio, é uma filosofia simples, talvez mesmo simplista: o samurai vive para lutar, ponto. Deve-se evitar a todo custo, porém, uma supersimplificação desse conceito ao ignorar fatores que, embora constituam essa lógica, concomitantemente são responsáveis por expandí-la.

Em Vagabond, os personagens não escondem a excitação diante do combate, da possibilidade de enfrentar adversários habilidosos. É diferente, porém, da forma como é realizado o power creep em outros mangás, normalmente mais focados na batalha do que na filosofia intrínseca a ela, por exemplo. A excitação provocada pelo desafio, no caminho do samurai, representa muito mais do que uma forma de manter o interesse do público: é uma questão existencial. E se muitas obras erram o tom na forma como abordam a violência, frequentemente caindo no fetichismo ou num senso de urgência extremamente hiperbólico, Vagabond se diferencia por ser desses raros produtos em que se problematiza e contextualiza a violência dentro de sua própria lógica.

A violência é onipresente no universo de Vagabond. O protagonista vive em função de lutar, de enfrentar adversários habilidosos para consolidar um processo de autoafirmação – se tornar “o mais forte dos fortes” -; de morrer, se não for capaz de sobreviver por seus próprios méritos. Se matar é o objetivo, morrer pela espada é o fim honroso. Para alguém com tamanha devoção à luta, só existem dois caminhos: matar e morrer. É continuar matando para chegar ao topo, adquirir um status, reafirmar uma condição de superioridade. É continuar matando para não morrer, o que inevitavelmente acontecerá, mas preferencialmente da forma mais honrosa possível: lutando.

vaga2Portanto, a excitação pelo combate tem uma justificativa pouco romântica: é um vazio existencial, uma falta de rumo e de qualquer outro objetivo, somado à forma como a violência se encontra enraizada naquela sociedade. A partir de certo ponto, passa-se a encarar os personagens sempre tentando enxergar através dessa camada. Quando é apresentada uma nova figura repleta de satisfação por encontrar um adversário à altura, não se enxerga mais apenas a excentricidade de um personagem ultra-romantizado de mangá, mas a forma como esses fatores – existenciais e sociais – interferem em seu comportamento. Não há, em Vagabond, violência-fetiche, brutalidade por brutalidade; há, porém, uma sociedade regida pela violência e personagens sem rumo infectados por ela. Há uma agressividade que se manifesta visualmente apenas quando necessário – nas lutas, evidentemente -, mas sempre implícita em cada gesto e na forma como os personagens se relacionam entre si e com o meio. Aqui, essa desfetichização da violência não ocorre apenas visualmente, mas especialmente no campo teórico, filosófico. O sangue, as lutas de espada e os socos nada mais são do que uma materialização de conceitos implícitos àquele universo. Pouco importa se o sangue surge em discretas gotas ou jorra; se a espada há de esquartejar ou simplesmente perfurar o adversário de forma honrosa; o que interessa, de fato, é o que esses gestos representam.

Desde um personagem que manifesta oralmente sua excitação com a batalha até a forma abrupta como muitos combates se iniciam, os gestos são responsáveis por representar e, sobretudo, perpetuar a violência implícita desse universo. São gestos de agressividade – orais, físicos; golpes, simples movimentos – concernentes a toda uma lógica de brutalidade inerente aos personagens muito por conta da forma como se estrutura aquela sociedade. Musashi é frequentemente referido como um animal selvagem, guerreiro que age por instinto, sem um estilo de luta definido, que tem na floresta, na natureza, o seu mestre. A maneira bestial de combater – mais uma vez, o gesto, o movimento, a ação – diz muito sobre certo processo de desumanização do qual os personagens são tanto vítimas quanto agentes perpetuadores. E se Vagabond não deixa de ser, de forma muito particular e curiosa, um coming of age – a trama se inicia com um protagonista de 17 anos -, isso em muito se deve não apenas à luta em seu estado literal, físico, mas psicológico: o processo de autodescoberta de Miyamoto Musashi, ou Shinmen Takezo.

OBS: Texto escrito a partir da leitura de 12 volumes.

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