Ghost in the Shell (2017) – da releitura à homenagem (REVIEW)

Header

Até alguns meses atrás meu contato com Ghost in the Shell era praticamente nulo, e nesse meio tempo até agora só tinha lido o mangá escrito por Masamune Shirow (que eu detestei) e o filme de 1995, dirigido por Mamoru Oshii, o qual eu particularmente não gostei muito, mas achei uma experiência interessante de se ter. E então, chegamos à recém-lançada adaptação Hollywoodiana de Ghost in the Shell (lançada no Brasil como “A Vigilante do Amanhã“) e vem a questão que é uma grande preocupação de todos quando o assunto é algum produto japonês caindo nas mãos de Hollywood: como a adaptação se saiu?

E aí vem uma resposta que talvez faça a polícia das opiniões impopulares querer me pegar…

Eu gostei desse filme. Não só gostei mais dele do que do original como inclusive tenho a pachorra de dizer que achei até melhor que a obra de Oshii em uma quantidade considerável de aspectos.

Existe uma provável chance de você estar neste exato momento segurando uma pedra apontada na minha direção ou de estar querendo fechar a aba do texto em seu navegador mas aquieta o facho aí que eu vou explicar nos parágrafos que virão.

city

Se você não sabe do que a história se trata, tentarei ser bem breve ao contextualizar aqui: a história se passa num futuro meio cyberpunk onde pessoas podem ter upgrades cibernéticos de partes do seu corpo e podem estar conectadas entre si trocando informações a partir de conexões de seus corpos a uma rede como a internet. Porém, mesmo com essas vantagens, as pessoas ficam mais vulneráveis a ataques de hackers e demais criminosos digitais que podem significar uma grande ameaça pra sociedade, e é aí então que entra uma força policial para combater isso e eles possuem uma nova arma, que é conhecida como “Major Mira Killian” (no filme original de 1995 ela se chama Motoko Kusanagi), que é supostamente a primeira humana a ter seu cérebro transferido para um corpo totalmente mecânico, o que gera a ela uma certa dúvida quanto ao estado de sua humanidade e questionamentos sobre sua identidade, o que acaba sendo o tema central do filme. E a história acaba girando em torno da Major na caçada por um dos mais perigosos criminosos dessa realidade enquanto tenta descobrir seu lugar no mundo e quem ela é.

Por mais que o filme dirigido por Rupert Sanders tome algumas pequenas liberdades em cima do material original, o roteiro é majoritariamente o mesmo. O filme de 2017 faz um trabalho surpreendentemente bom de capturar a atmosfera do filme animado dos anos 90, que de todas as iterações do universo de Ghost in the Shell, é o principal molde usado neste novo longa.

tiro

Não vou nem entrar no mérito da direção de arte porque imagino que não preciso chover no molhado dizendo o quão bonito isso é. Na questão do audiovisual, GitS 2017 se sai muito bem (ainda que eu ache a trilha sonora meio “qualquer coisa”, apesar de bem eficiente) mas a parte que eu mais queria ver é como iriam adaptar o roteiro do universo original para essa versão e devo dizer que fiquei positivamente surpreso.

No começo do texto, mencionei que não gosto muito do filme original, apesar de respeitá-lo enquanto arte e reconhecer que seu legado para a história da mídia é importantíssimo. Mas por quê eu não gosto? Conceitualmente, o filme de Mamoru Oshii é fantástico, mas a execução desses conceitos não clica comigo e o ritmo do filme (que basicamente foi o que matou ele pra mim) me soou arrastadíssimo e me deu um sono inacreditável para algo com um pouco menos de uma hora e meia de duração. A sonolência foi tanta que eu tive que assistir de novo pra poder compreender melhor e, com o tempo, fui aprendendo a absorvê-lo melhor. Eu gosto de filmes que deixam pontas soltas para discussão entre os expectadores e perguntas que movem discussões, mas não acho que ele soube encontrar um equilíbrio muito saudável entre a filosofia e o entretenimento e acaba se tornando filme extremamente desconfortável de assistir. Pelo menos em minha primeira vez, ficou a impressão de que o filme quis mergulhar tão fundo em seus devaneios que se afogou no meio do caminho.

AAAAAAAAAAAAAAaaaaAAAAAAA

Não sei se dá pra dizer que odeio o GitS de 1995, mas ainda não gosto dele, porém, minha opinião a seu respeito foi de “Puta merda, que filme chato do caralho” a “ok, esse é um filme interessante e com coisas legais a dizer” e é uma experiência que, para bem ou para mal, consigo recomendar para que as pessoas tenham alguma vez, por mais que ele possa ser um filme meio difícil de digerir na primeira vez.

Mas aí enfim chegamos ao novo filme e eu devo dizer que ele acerta onde o original não clicou comigo. Em questão de ritmo, eu vou dizer que a empreitada de Sanders é ridiculamente melhor do que o original e é engraçado como que, sendo quase meia hora mais longo, ele não parece arrastado em quase nenhum momento. A essência de roteiro que faz Ghost in the Shell ser o que é está lá e foi respeitada em sua integridade. O filme não cava tão fundo na discussão quanto o material antigo, mas sabe encontrar o equilíbrio que o outro não soube e ainda consegue promover o debate de seus temas mesmo que ainda dê algumas respostas de sua trama.

Hideo

E quanto a essa profundidade, cá entre nós: num geral, Hollywood não quer isso. Por mais que isso soe como papo de cinéfilo que só gosta de filme europeu de 4 horas de duração e baixo orçamento que ninguém conhece, o público médio de massa nem sempre quer isso. O que o cidadão vai fazer no cinema, a primeira instância é ter entretenimento e nós temos que lembrar que um filme (ou qualquer outra peça de mídia) não precisa ser complexo, profundo, filosófico e o diabo a quatro pra ser bom. Eu costumo pensar que muitas vezes alguns ditos críticos costumam enxergar a forma de avaliar entretenimento como uma barrinha de metas e expectativas a ser preenchida, ao invés de avaliar o produto pelo que ele de fato é e se propõe a fazer, e, quando algo não enche essa barrinha em pelo menos 70%, é ruim, bobo, feio, e deve ser ignorado segundo eles mesmos. Eu acho essa uma maneira meio burra de avaliar as coisas mas essa discussão não vem ao caso.

Ainda sobre profundidade, por mais que o novo filme não cave tão fundo assim, ele não é um filme burro ou banal. Foi feita uma escolha de usar sutileza nessa narrativa pra abordar os temas, ainda que nem sempre essa sutileza funcione, mas funciona de maneira bem mais digerível que o desnecessariamente convoluto produto de 1995. GitS 2017 respeita a inteligência do seu expectador na maioria do tempo e dialoga tanto quanto quem está tendo contato pela primeira vez com esse universo quanto com quem já o conhece. E eu diria que a prova cabal disso é que assisti a esse novo filme acompanhado de gente que não conhecia o material original e não tinha tanta familiaridade com entretenimento pop japonês da mesma forma que eu tenho e eles conseguiram absorver tranquilamente a mensagem que o filme passa, que é bastante similar e ainda curtiram o filme, não só como “bom filme de ação” mas como “olha, que filme interessante” e essa é a proposta desta nova iteração do universo GitS desde o começo: homenagear e traduzir a vibe daquele universo para uma grande audiência que normalmente é a dos filmes de Hollywood, enquanto dá uma identidade própria a ele, e nisso ele se saiu muito bem.

QueMulher

Num breve parênteses, devo dizer que, ironicamente, alguns dos momentos que menos gostei dessa nova produção são quando tentam recriar em proporções um pra um cenas icônicas do filme de Oshii. Algumas dessas cenas recriadas (como a famosa cena da perseguição a um bandido, que termina com a Major camuflada dando pancada num cara na água, que muito provavelmente você já deve ter visto nem que seja num trailer ou gif por aí) parecem estar lá mais por motivos de “ok, precisamos de enfiar alguma cena do original igualzinha pra ninguém reclamar” do que pra adicionar substância ao roteiro. Eu fico um pouco dividido com isso porque ao mesmo tempo me parece “rabo preso” mas também um presente aos fãs do material antigo, mas consigo lidar com a existência de alguns desses momentos. Por outro lado, eu gosto muito quando ele pega conceitos do original, faz parecido mas tomando suas próprias liberdades em cima da nova mídia, e para mim, isso dá muitos pontos positivos quando se trata de uma adaptação.

Tirando a carga de adaptação de cima dele e o analisando como filme isoladamente, devo dizer que o novo Ghost in the Shell é um filme de ação bem competente e acima da média. Mesmo que o original não tenha foco em ação, este aqui tem uma dose a mais disso, e ela nem é exatamente o foco. Ele ainda pincela bem os seus temas enquanto o elenco faz um trabalho bem satisfatório na atuação, apesar de eu ter um sério problema com o Aramaki (interpretado pelo famosíssimo comediante, ator e diretor japonês conhecido por seus filmes de Yakuza, Takeshi Kitano) responder sempre em japonês mesmo que os personagens falem com ele em qualquer outro idioma que seja, apesar de sua ótima atuação (ainda que faça sentido os personagens o compreenderem por causa de todos os aparatos tecnológicos permitirem que entendam novas línguas e tudo mais. Para a experiência de ver um filme parece algo não muito harmonioso narrativamente).

Scarlett Johansson faz um bom trabalho na pele da Major, e apesar de toda a controvérsia por trás da da escolha de uma atriz não asiática para esse papel, que rodeou o mundo antes do lançamento do filme, o mesmo traz uma explicação dentro de si para isso, que, sem entrar em muitos detalhes para evitar spoilers, devo dizer que apesar de não ser a melhor justificativa (tanto que por ela eu até nem tiro a razão de quem reclamou), é uma bem funcional e que faz sentido dentro daquele mundo (apesar de que sabemos bem que preferiram usar a atriz norte-americana por razões mercadológicas. Consigo entender a reclamação sobre oportunidade desperdiçada de dar espaço para novos talentos mas não posso culpar a equipe por isso. Os caras precisam de dinheiro pra botar comida na mesa e um filme desse por si só já era um projeto arriscado, mas meu objetivo neste texto não é falar disso então não vou entrar mais a fundo nessa questão). Johan Philip Asbæk (que aqui interpreta o truculento Batou, que está bem fiel ao personagem do original) e Michael Pitt (que encarna o vilão do filme) também são grandes destaques aqui, o resto me foi bem na média e competente.

A versão Hollywoodiana de Ghost in the Shell não é um filme excelente (talvez até esteja um tantinho longe disso), mas é um bem satisfatório. Ele não veio pra ser um filme que irá mudar sua vida, mudar a história do cinema ou menos ainda substituir o original ou ser uma adaptação totalmente igual, mas sim contar uma história coesa baseada nos conceitos e mundo de uma das mais importantes franquias de ficção científica das últimas décadas e um de seus produtos mais celebrados, que é o filme de 1995 de Mamoru Oshii, ao mesmo tempo em que lhe faz uma grande homenagem e celebração. É algo que respeita muito o material que o originou e compreende aquilo que o fez ser o que é.

5-GitS2017

Mesmo que ele não venha essa pretensão toda e tenha lá sua própria dose de problemas, este filme de 2017 é muito importante não só pela sua existência, mas por todo o marco que ele representa à sua volta. É um sinal de que Hollywood está finalmente entendendo como adaptar produtos que não são de sua cultura para uma nova linguagem e divulgar essas histórias para mais pessoas dando sua própria assinatura sem querer substituir os originais.

Devo ainda dizer que esse filme me deu uma empolgada para ver os materiais de Ghost in the Shell que eu ainda não assisti. Ponto pra ele.

Anúncios

3 comentários sobre “Ghost in the Shell (2017) – da releitura à homenagem (REVIEW)

  1. Não tenho muito o que dizer já que não assisti o filme, e de acordo com o que você disse… o filme de 2017 têm algumas diferenças do original de 1995, mas isso é algo esperado já que o filme de 2017 é de Hollywood, então mudanças certamente iriam acontecer. Mesmo entendendo os motivos pelos quais escolheram à Scarlett Johansson, uma atriz ocidental para interpretar à Major, minha insatisfação não mudará. Isso me deixa meio que anojado pra falar a verdade. É sempre a mesma coisa… Sempre os mesmos atores nos cinemas, sempre aquela idolatria a pessoas que são superestimadas e sempre terão seus lugares garantidos apenas porque são os ” fulanos de tal “. No cinema nada se cria, tudo se copia. É mais fácil usar sempre os mesmos métodos, já velhos e conhecidos, do que criar algo novo e diferente, que possivelmente poderia fazer sucesso. Hollywood é sempre a mesma ” mesmice ” e chatice…

    • Sobre a escolha da atriz, eu tenho a opinião de que consigo sim entender a indignação das pessoas em preferir uma atriz asiática para o filme. Eu também preferia, mas no fim das contas, se a gente botar na ponta do lápis os conceitos do universo original de Ghost in the Shell, não faz muita diferença quem interpreta a Major e isso meio que faz parte do tema do filme que, se você conhece o original, já deve manjar mais ou menos como é a pegada.

      Nesse aqui, como eu disse no texto, eles deram uma justificativa que eu não vou entregar no texto porque tá diretamente relacionada com spoilers do mesmo e eu não quero estragar a experiência de quem quer ver o filme depois de ler o texto. Não acho a melhor justificativa, mas é uma bem plausível, apesar de que eu não tiraria a razão de pessoas ficarem incomodadas com isso, mas pela construção de mundo de GitS, é algo que consegue se encaixar.

      Esse lance de como fazer coisas XYZ em adaptações de produtos japoneses para Hollywood variam de caso a caso. Não acho justo botar tudo debaixo do mesmo guarda-chuva. Edge of the Tomorrow, lançado em 2014 aqui como “No Limite do Amanhã” era adaptação de um livro japonês e ninguém comentou a respeito do dito “whitewashing” no caso dele. O motivo? Provavelmente porque em seu universo não faz diferença ou pelo fato de muita gente talvez não fazer nem ideia de que se tratava de um livro japonês antes.

      Agora como Ghost in the Shell é bem mais famoso e as pessoas conhecem e sabem que é um produto japonês, é previsível que façam essa acusação. Mas aí, vamos recapitular sobre o que o filme do Mamoru Oshii (e fatalmente a adaptação de Hollywood entra nesse barco também) é: uma história sobre uma mulher que teve seu cérebro transplantado pra dentro de uma máquina. Ela é um fantasma dentro de uma concha, e essa concha pode ter inúmeros formatos diferentes, que são os eventuais corpos de outras máquinas, tal como mostram num determinado momento do filme original. No final pouco importa a aparência dessa concha, o fantasma é outro.

      Ainda que, se não me engano, o próprio Masamune Shirow confirmou que a personagem original não é nem mesmo japonesa apesar do nome, e mesmo que se fosse, a sua nacionalidade pouco importaria pra esse tema (se eu estiver errado, por favor peço que me corrija. Não sou tão interado no lore de Ghost in the Shell assim e por eu não ter assistido GitS2, Arise ou os Stand Alone Complex posso ter perdido alguma coisa). No final, no caso de GitS, isso não importa tanto, apesar de conflitar um pouquinho com a justificativa do novo filme, mas, como eu disse, ela funciona. Não tiro razão de quem acha que foi uma oportunidade perdida para dar mais espaço a alguma atriz asiática, até porque consigo achar que seria bem legal ter uma Rinko Kikuchi da vida no papel da Major, mas eu tô bem de boa com a Scarlett Johansson no papel.

      Agora se fosse um outro caso, onde a etnia/nacionalidade do personagem original fosse relevante, eu entenderia perfeitamente. Tipo se fosse uma adaptaçaõ de, sei lá, Rurouni Kenshin por exemplo, onde o personagem é nitidamente japonês (ele é um samurai!!!), e no caso de fazerem uma versão de Hollywood um dia (o que acho um pouco difícil porque já existe o live-action japonês, que eu ainda não assisti mas reza a lenda ser muito bom), se pusessem um ator americano no lugar, aí eu acho que seria realmente vacilo. Ou até o caso de Monster (o mangá do Naoki Urasawa), que o Guilhermo Del Toro queria fazer uma série na HBO, e neste, a nacionalidade do personagem é EXTREMAMENTE IMPORTANTE pra história original. Caso esta série saia do papel algum dia (o que vindo do Del Toro acho muito difícil de acontecer), se for um ator americano no lugar do Dr. Tenma aí ficaria zoado.

      São todos casos separados e a gente deve avaliar cada um isoladamente. E se esse filme for um sucesso (o que pelas notícias iniciais, a mísera quantidade de aproximadas 30 pessoas que estavam na sessão onde assisti, e recepção da “crítica especializada”, pelo jeito talvez não será), pode ser um sinal verde para que novas adaptações de produtos de entretenimento pop japonês possam ser feitas no futuro de maneira mais segura e rentável e que possibilite uma nova oportunidade para esses talentos mais defasados. É por isso que considero tão importante a existência de um filme como esse, da mesma forma como expliquei no texto.

      Espero não ter soado rude com essa parede de texto ou algo do tipo e obrigado por ter lido meu artigo, pelo seu comentário e por participar da discussão!

      • haha Sem problemas, em nenhum momento achei que você estava sendo rude… É legal ver que ainda existem pessoas que mesmo pensando diferente respeitam de forma natural o modo de pensamento dos demais, isso nos dias de hoje tá se tornando algo raro. De fato é como você disse… não necessariamente precisa de uma atriz asiática para fazer à Major, e, sendo o mais sincero possível… concordo com tudo o que você disse. Porém, ainda sim eu não consigo deixar de detestar a escolha de uma atriz tão hypada como Scarlett Johansson. Outra coisa que eu não consigo deixar de detestar são atores de filmes de super herói, a como eu odeio filmes de super herói.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s