O cinema de M. Night Shyamalan

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A estreia de Fragmentado (2017), novo filme de M. Night Shyamalan, parece um bom motivo para discutir sua carreira.

Antes de começar, é bom avisar que este texto não pretende discutir em detalhes seus filmes individualmente, mas analisar certos temas recorrentes em sua carreira, refletir sobre a estranha reputação que o cineasta adquiriu ao longo dos anos e comentar a relação de Fragmentado com seus trabalhos anteriores. Muitas coisas ditas aqui podem parecer óbvias aos fãs do diretor, mas a ideia é que elas sejam úteis também para desconstruir qualquer forma de pré-julgamento por parte do público para com o cineasta.

Shyamalan é o cineasta da crença, da fé. É um artista que tem como tema recorrente o simples gesto de acreditar. Partindo do sucesso O Sexto Sentido (1999) e adotando como recorte a exclusão de seus dois primeiros e obscuros longas, todo o trabalho de Shyamalan parece ter alguma relação com esse tema. São os espíritos de O Sexto Sentido, os alienígenas de Sinais (2002), a ameaça invisível de Fim dos Tempos (2008), entre outros, que indicam uma constante em seu cinema: o personagem que, frente ao bizarro, o sobrenatural, o fantástico, se encontra em posição de assimilar tais eventos excepcionais. São indivíduos que têm de lidar com situações incomuns, que enxergam um conflito consistente em uma bifurcação entre crer e descrer.

O Sexto Sentido, que de certa forma opera muito mais como drama do que apenas um suspense, já exibia essa temática. O filme foi um grande sucesso, e até hoje faz com que os menos íntimos de sua obra – e também seus detratores – se lembrem de Shyamalan apenas por esse trabalho. Certa parcela de público e crítica mais mainstream enxerga uma queda gradual na qualidade de seus filmes, sendo entre A Vila (2004) e A Dama na Água (2006) uma ruptura quase total, o momento em que esse grupo passou a efetivamente desgostar do cineasta, que outrora era tido como um novo Steven Spielberg, o futuro do cinema americano.

Há, por outro lado, um grupo, mais associado ao “cinema de arte” (conceito questionável, mas conveniente para facilitar a compreensão do texto) e mesmo ao vulgar auteurism, que defende a obra do indiano não só como uma das filmografias mais sólidas construídas nas últimas duas décadas, mas também uma das maiores expressões autorais do cinema americano dos últimos anos.

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O Sexto Sentido (1999)

Se o cinema de Shyamalan é sobre acreditar, o que parece evidente é a crença do cineasta em seu próprio trabalho. É um cinema que não faz concessões, que não tem medo de soar ridículo ou ser mal interpretado, que se mostra sempre disposto a levar seus conceitos a extremos. Se o verbo é transitivo, é necessário acreditar em algo. Mas talvez seja um cinema menos preocupado com o objeto de crença do que a forma como esta ocorre. O simples gesto de acreditar, para Shyamalan, se manifesta pela crença na fantasia, na fábula, no extraordinário, enfim, no próprio ato de se contar histórias. A narrativa é o fim – acredita-se nela -, mas também é o meio – é a forma como se manifesta a crença.

O que o cineasta faz em Corpo Fechado (2000), por exemplo, é bem interessante, pois é um filme todo estruturado com base na construção de uma mitologia própria – algo que muitos blockbusters de super-heróis nem se preocupam em fazer – e, sobretudo, na ideia de trazer o caráter fantasioso para a realidade, e não o contrário. Independente da qualidade destes filmes – o texto não é sobre eles, afinal -, obras como o recente Logan (2017) e a trilogia Batman de Christopher Nolan se utilizam de um suposto realismo na construção de suas atmosferas, o que soa como um artifício que acaba por sufocar a fantasia, o aspecto lúdico relacionado a esse exercício de imaginação. Shyamalan nunca abdica dessa característica, e acaba por encontrar um equilíbrio perfeito na forma como a introduz em um universo teoricamente comum. Se cinema é sobre acreditar, o indiano é um mestre do ofício.

Há outra característica de seus filmes vista pelo grande público como uma marca registrada: os plot-twists. É inegável a tendência do diretor a projetar certas viradas de trama, mas chega a ser criminoso que se reduza seu cinema a isso. O plot-twist, em Shyamalan, é muito menos um mero recurso de choque – como tão banalizado por outros cineastas – do que uma forma de ampliar a própria visão acerca da trama. Normalmente não são simples reviravoltas visando puramente brincar com a expectativa do público, mas instantes minuciosamente projetados dentro de toda uma estrutura narrativa. Aliás, em alguns casos a suposta “grande revelação” é indicada algumas vezes ao longo do filme, algo que evidencia a surpresa, o choque, como algo menos importante. O plot-twist serve ainda como uma espécie de teste para o público, como algo que busque comprovar a manutenção do pacto de crença na diegese – o que é bem significativo em filmes como os de Shyamalan, que costumam aparentar certa normalidade durante alguns bons minutos de projeção, antes de anunciarem seu flerte com a fantasia.

A Vila é um exemplo bem adequado. Existem duas revelações ao longo do filme, mas ambas são muito mais importantes como peças de toda uma estrutura arquitetada pelo cineasta acerca da vida naquela sociedade – não à toa é um de seus filmes mais atmosféricos e um dos que mais privilegia o espaço e a ambientação – do que grandes reviravoltas em si. Aliás, a montagem encontra nessa estrutura uma forma curiosa de – agora sim – brincar com a expectativa do público, mas seguindo os preceitos do cineasta: logo após uma revelação, há uma cena que possivelmente desmente a informação adquirida poucos minutos atrás. É um momento curioso que pode render diversas interpretações, mas o mais fascinante é a forma como Shyamalan o filma com a mesma intensidade de qualquer grande revelação, questionando inclusive a crença do próprio público nas informações adquiridas há pouco.

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A Vila (2004)

O cinema de Shyamalan expõe com perfeição a diferença entre acreditar em seu trabalho e se levar a sério. Algo em que muitos cineastas, que podem até ter crença legítima no que filmam, pecam por tendências grandiloquentes e abordagens sérias e quase hiperrealistas. Shyamalan acredita nas fábulas, nos monstros, nos alienígenas, nos super-heróis, e por isso os consegue filmar de forma tão respeitosa. Ele não tem medo de soar ridículo, não faz questão de atender a um padrão de cinema de prestígio e nem nada do tipo. Em seus filmes, a fantasia é algo sério, mas ele sempre encontra espaço para alguma brincadeira. Esses momentos galhofeiros do cineasta são comumente muito mal interpretados por seus detratores, que parecem levar a sério demais. A antológica cena em que Mark Wahlberg conversa com uma planta em Fim dos Tempos; a “vingança” de Shyamalan contra os críticos que tanto o infernizam em A Dama na Água; os chapéus de alumínio em Sinais; e certa cena musical de Fragmentado, por exemplo, são alguns desses momentos em que o cineasta se permite brincar.

Muito por conta disso A Dama na Água e Fim dos Tempos são dois de seus filmes mais incompreendidos – e, curiosamente, meus favoritos. Difícil afirmar se há algum motivo por trás disso – há quem aponte a queda gradual de popularidade com certa parcela de público e crítica -, mas estão entre os momentos mais extremos do cineasta. São os dois filmes que claramente abolem qualquer pingo de influência da opinião pública sobre sua obra, momentos iluminados em que Shyamalan praticamente se desprende de qualquer ideia deturpada de bom senso e se permite sonhar, imaginar e criar como nunca antes. A Dama na Água herda muito do lirismo de seu antecessor, A Vila, e cria a partir daí uma fábula que maximiza o poder da crença. Se ser infantil é ter imaginação fértil e se divertir com a fantasia, então Shyamalan é realmente muito infantil, e não há nada de errado nisso. Antes aproveitar cada segundo de magia, de uma visão lúdica e bela, do que se render a esse tal bom senso careta do mundo adulto, esses monstros que fazem o possível para cortar as asas de sonhadores como este grande cineasta. Curioso que, entre seus detratores, haja quem reclame de A Vila por não seguir o aspecto fantasioso até o final, enquanto outros questionam A Dama na Água justamente por ser incrível em demasia.

Grande manifesto do cinema de Shyamalan, A Dama na Água é um sucessor muito lógico de A Vila em sua filmografia: a superação de um trauma, característica tão recorrente em seu cinema, se manifesta em ambos na união dos personagens. Os dramas individuais que geram a união e também a fratura coletiva em A Vila dão lugar a uma pequena sociedade (os moradores de um condomínio) que precisa se unir para realizar uma tarefa em A Dama na Água. Só participam desse processo aqueles que acreditam, isto é, aqueles que mesmo ouvindo a mais absurda das histórias (sobre uma ninfa encontrada na piscina do condomínio), optam por acreditar. Eles querem acreditar, pois é acreditando na fantasia ou no simples gesto de contar histórias que o mundo se reconecta, apesar de todo o mal que os cerca. E aqueles que não acreditam, não se conectam, e portanto se tornam mais vulneráveis. A Dama na Água, com sua imensurável pureza e inocência – mas sem deixar de lado uma pequena dose de ironia -, não deixa de ser um contraponto otimista para A Vila: julgando pela sua história, o personagem de Paul Giamati tinha tudo para trilhar um caminho semelhante ao das figuras do filme anterior, mas acaba encontrando outras possibilidades aqui. Unir um pequeno grupo é um gesto bonito e importante, mas desconectá-lo do resto do mundo, fechado em seu meio, não deixa de ser um movimento perpetuador da incomunicablidade, e o Shyamalan de A Dama na Água sabe disso. Poucos filmes são tão crentes no poder da narrativa, do ato de contar histórias, quanto este. O filme definitivo de sua carreira, seu grande manifesto, é também um dos mais importantes do século XXI.

Se A Dama na Água não demonstra preocupação com essas características que só interessam aos caretas, Fim dos Tempos é o exemplar mais radical de sua filmografia, quase um filme experimental. Uma ameaça invisível, atores naturalmente limitados interpretando propositalmente acima do tom e todo tipo de absurdo se fazem presentes nesse filme de mise-en-scène impecável, com um senso de posicionamento e movimentação de câmera perfeito, que provavelmente é o mais próximo que o cinema americano chegou de um filme de Apichatpong Weerasethakul (Síndromes e um Século) – por sinal, um cineasta que tem muito em comum com Shyamalan. É um filme que parece satirizar qualquer tentativa de racionalizar suas questões, ou melhor: que parece satirizar tudo o que encontra pela frente. E ao mesmo tempo em que é de uma ironia assustadora, ainda funciona brilhantemente em diversas outras camadas. Não deixa de ser um filme catástrofe pós-11 de Setembro muito mais preocupado com uma questão traumática – sintomático que seja, portanto, o trabalho mais surtado do cineasta -, como também acarreta em um extraordinário manifesto sobre incomunicabilidade e crença.

Enquanto A Dama na Água é um sucessor lógico de A Vila, Fim dos Tempos não é exatamente o caminho mais óbvio, mas não deixa de fazer muito sentido no conjunto. Os dois filmes anteriores tratam de incomunicablidade e superação de traumas. Um é sombrio, misterioso, até mais pessimista do que de costume para Shyamalan; outro é puro, quase como uma forma de lavar a alma depois da tensão de seu antecessor. A superfície de Fim dos Tempos é uma nova proposta em relação a ambos: filme irônico, ácido, aparentemente incapaz de levar qualquer coisa a sério – uma afirmação válida, mas questionável. Ele brinca com tudo, ironiza a todo momento aqueles que não acreditam, que desmerecem a fantasia. Mas se ele faz isso (e recomendo esta leitura sobre o caráter satírico da obra), é justamente porque leva muito a sério sua temática: mais uma vez, a incomunicablidade. O 11 de Setembro e as guerras em que os EUA estiveram envolvidos são obviamente pontos fundamentais no que diz respeito ao trauma coletivo: são eventos muito marcantes no imaginário americano (e mundial) que inevitavelmente surgem como mazelas em personagens de filmes como os de Shyamalan. Fim dos Tempos é o mais comumente associado a isso: a paranoia logo faz com que a ameaça desconhecida seja vista como um ataque terrorista, afinal. Mas essas questões históricas não parecem ser o ponto de partida da lógica do cineasta: Fim dos Tempos não é exatamente um filme sobre a paranoia pós-11 de Setembro, muito menos o são A Vila ou A Dama na Água. As motivações dos personagens do primeiro ou o senhor recluso acompanhando a guerra pela televisão no segundo são exemplos, e não força motriz. A violência é consequência da falta de comunicação, e o contexto político/histórico dos filmes é apenas isso: um contexto, um extracampo que exemplifica suas teses centrais. Por isso Fim dos Tempos é tão pertinente: sua superfície ácida questiona a postura do espectador perante o próprio filme, ironiza a incapacidade de acreditar na narrativa, por mais simples que isso pareça, mas oculta algo que apenas o ato de crer revela: comunicação é a chave. Há o trauma coletivo, mas existem também os problemas individuais, e se os personagens do filme talvez sejam os menos marcantes da obra de Shyamalan, é muito porque se tratam de figuras feitas para obedecer um esquema, exemplificar a questão, mas que se revelam estranhamente carismáticos ao final, em um dos momentos mais belos de todo o cinema do século XXI: quando duas pessoas se reconciliam. Simples. Quando dois indivíduos agem para romper as barreiras que o separam, o mundo passa a ser um lugar melhor. O trauma coletivo é consequência dos traumas particulares e vice-versa, mas se em escala macro é praticamente impossível resolver todos os problemas de uma vez, cabe a cada um fazer sua parte: cada pequeno gesto de união conta. E aí percebe-se que o filme ácido comumente taxado como estúpido pela “crítica de prestígio” não é apenas um filme-catátrofe galhofeiro. Que Fim dos Tempos, o filme irônico e satírico, é também Fim dos Tempos, o filme singelo e inocente. Mas para chegar aí, é necessário se conectar, ou melhor: acreditar.

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Fim dos Tempos (2008)

Com A Visita (2015), Shyamalan se propôs a brincar e subverter diversas convenções de determinado dispositivo – o found footage – no que talvez seja um de seus trabalhos formalmente mais inventivos. É um filme muito importante por marcar o retorno do cineasta a projetos próprios, depois de duas investidas no mundo dos blockbusters – O Último Mestre do Ar (2010) e Depois da Terra (2013) – que, apesar de muito criticados (inclusive por alguns fãs), ainda conservam muitas características interessantes de seu cinema. A Visita marcou o início da parceria de Shyamalan com a produtora Blumhouse, com a qual viria a trabalhar também em Fragmentado.

A nova empreitada do indiano é muito curiosa. Fragmentado provavelmente é seu filme mais acessível desde os tempos de Corpo Fechado, isto é: se comunica melhor com um público não muito acostumado ao seu cinema, especialmente por conta de uma abordagem mais sólida no que diz respeito ao gênero – ele se assume claramente como suspense/terror, sem tantas variações – e por estar menos propenso às loucuras de um Fim dos Tempos. Ao mesmo tempo, é também um filme com tudo o que um fã do cineasta tem direito, pois explora diversos conceitos de seu cinema de forma bem escancarada, muitas vezes os levando a extremos. O flerte gradual com a fantasia, a superação pessoal, o poder da crença, entre diversas outras características, são bem visíveis aqui.

O mais impressionante talvez seja como Shyamalan concebe uma atmosfera tensa e claustrofóbica que não é muito prejudicada nem pelos flashbacks e outras cenas fora daquele ambiente. É um trabalho brilhante de manutenção desse clima, um filme insuportavelmente tenso. Mas não é um suspense qualquer. Estamos falando de Shyamalan, afinal. À medida em que a trama avança, as características marcantes de seu cinema começam a se manifestar cada vez mais, se misturando a alguns novos elementos muito bem-vindos, distanciando-se gradualmente do que se entende por convencional.

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Fragmentado (2017)

Fragmentado pode não ser o melhor filme do cineasta, mas talvez seja um de seus trabalhos mais autoreflexivos. É um dos filmes que melhor explora o poder da crença, pois a partir dela consegue fugir de um padrão realista e acrescentar elementos inesperados – a relação com o terror é forte a ponto de proporcionar alguns (surpreendentes) segundos de violência gráfica. É um conjunto de características dos mais coesos, com tudo o que há de mais importante no cinema de Shyamalan, mas ainda assim capaz de reinventar conceitos e surpreender – algo que os últimos minutos deixam bem claro.

Infelizmente não é raro ouvir risadas em momentos nada cômicos durante uma sessão cheia de Fragmentado. Shyamalan nunca tem medo de soar ridículo, e sabe se utilizar disso muito bem para conceber momentos mais descontraídos, mas as cenas mais fantasiosas normalmente não estão incluídas aí. A fantasia é algo sério, afinal. E se há gente que ri, é porque há também gente que não acredita. É irônico que um cineasta tão devotado à própria crença, ao gesto de acreditar, seja provavelmente o mais incompreendido de sua geração.

Coitados daqueles que não acreditam. Que não acreditam em Shyamalan. Que não acreditam no Cinema.

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