Review: A Normal Lost Phone

Acho que já se pode dizer que esses jogos  simuladores de celular são um gênero novo, com vários exemplares. E felizmente, todos que eu joguei foram experiências bem diferentes, o que mostra que é um estilo mais variado que aparenta. Esse estilo pode ser resumido a ideia de você explorar um telefone de outra pessoa, resolvendo puzzles para acessar outras áreas do dispositivo, e descobrindo mais da história dessa pessoa por meio de mensagens ou fotos. Afinal, nossos telefones dizem muito sobre nós, não é mesmo?

A Normal Lost Phone talvez seja, como o nome bem indica, a experiência mais “normal” desses jogos. Mas não é um termo usado com uma conotação negativa, o fato é que a premissa do jogo é extremamente corriqueira. Ao contrário de jogos como Replica, que possui um cenário de um estado totalitário, ou Sara is Missing, que é um jogo de terror com uma interface do celular de uma pessoa perdida, A Normal Lost Phone é o telefone de uma pessoa qualquer, que perdeu eles por razões desconhecidas.

E é justamente esse contexto de naturalidade, de “poderia ter acontecido comigo hoje saindo na rua” que deixa a situação mais complexa. Até que limite você se sente ok explorando a privacidade de outra pessoa? Sendo um jogo e uma história, você acaba não vendo muito problema – é natural querer chegar até o fim da experiência, não é? E obviamente os desenvolvedores querem que você veja tudo. Mas ao final, o fato que você está vendo algo de uma pessoa que não é você acaba sendo levado a tona, de um jeito bem sutil, não usando isso pra chamar o jogador de escroto mas nem ignorando o contexto.

Então, esse contexto e interface a parte, vamos a narrativa em si. Eu vou evitar falar qualquer coisa sobre a trama de fato, pois o ponto do jogo é você ir descobrindo todas as informações você mesmo. A própria descrição do jogo na steam não revela quase nada.

O que eu posso falar é que a simulação do telefone de um adolescente foi feita de uma forma bem verossímil. As mensagens, os contatos, são todas naturais e dão a impressão que realmente poderiam estar acontecendo. Até porque existem muitas mensagens irrelevantes, que não são dos amigos e pessoas mais próximas do protagonista, mas preenchem o cenário e deixam tudo mais plausível. A escrita do jogo é muito bem feita, com cada personagem tendo sua própria forma de escrever, e até coisas como o tempo entre as mensagens aumentando para apresentar o sentimento das pessoas envolvidas. Quem nunca passou por um momento que você viu que seu interlocutor estava mais ansioso ou nervoso só porque passou a demorar mais pra responder? Ou até você mesmo? Você já foi ignorado ou ignorou outras pessoas, e o jogo passa esses momentos de forma muito boa.

A obra, embora tenha uma situação bem particular a contar, trata de temas bem identificáveis. A sensação de deslocamento, de não saber o que fazer, de como lidar com erros ou com os outros. E, com os personagens e com a ilusão de agência que ele te dá para fazer a coisa certa, é um jogo que trata seus personagens e suas situações com muita empatia. E acho que essa é uma mensagem bem importante.

É uma experiência curta (provavelmente 1h/1h30), mas que traz temas interessantes a discutir, trabalha conversas entre adolescentes de uma maneira extremamente natural, e consegue guiar o jogador pela sua narrativa de forma muito eficaz, apesar de aparentar ser totalmente aberto de cara. Esse novo pseudo-gênero continua criando experiências bem únicas.

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