La La Land e o espetáculo

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Antes de falar a respeito de La La Land: Cantando Estações, devo tecer algumas observações sobre musicais em geral e essa estranha repulsa muito comum por parte do público.

É curioso que o preconceito com o gênero tenha se tornado tão comum, já que o musical é uma das possibilidades mais cinematográficas para se conceber um filme. A princípio, o simples movimento dos corpos a contagiar a câmera – como no ótimo Sparrow (2008), de Johnnie To – é o que há de mais importante para a encenação desses filmes. Mas o que constitui o musical como um dos gêneros mais cinematográficos – se é que é possível hierarquizá-los dessa forma – é a forma como se comporta diante da realidade: não que haja fórmula para isso, mas vários dos mais conhecidos musicais trabalham com uma encenação absurdista (que aqui vem diretamente de “absurdo”, ignorando conceitos filosóficos) da realidade, isso quando não se entregam completamente aos delírios estéticos e performáticos em detrimento à verossimilhança. Musical é o espetáculo, o gesto de elevar os mínimos movimentos em música e dança. De transformar pensamentos e sonhos em performance – algo que inclusive é ponto de partida para uma cínica desconstrução de gênero em Dançando no Escuro (2000), de Lars von Trier.

Se La La Land é um filme sobre sonhos, é interessante que Damien Chazelle (Whiplash) se distancie da abordagem filme-cantado de seu musical favorito – Os Guarda-Chuvas do Amor (1964), de Jacques Demy – para conceber seu longa em um estilo tradicional e performático que valoriza as ambições e pensamentos dos personagens enquanto espetáculo, como protagonistas, quase como fim narrativo. Afinal, musical é o ato de sonhar e de transformar esses sonhos em performance.

lala2Dito isso, é necessário observar a tendência do musical mais performático em brincar com o senso de realidade. Se a performance é um fim, e não necessita de contenção alguma – em boa linguagem coloquial: não precisa ser “pé no chão” – ou um mínimo apego à realidade – melhor dizendo: o realismo se faz necessário como ponto de partida ou ferramenta para a desconstrução do próprio conceito a fim de encenar a realidade de forma hiperbólica e contrastante -, é necessário que se mantenha máxima verossimilhança no percurso? Ou seja, a partir do momento em que se tem o número musical como fim, como prioridade, a trama em si passa a ser o meio, a ferramenta facilitadora do processo. Whiplash (2014), em certa escala, abreviava a trama, traçava caminhos questionáveis do ponto de vista narrativo, apenas para chegar aos finalmentes, os grandes momentos de catarse, ou amplificá-los (lembremos de um acidente de carro na segunda metade do filme, por exemplo). Mesmo grandes clássicos – e agora voltando aos musicais -, como Cantando na Chuva (1952), de Gene Kelly, se aproveitam da boa vontade (ou ingenuidade) do espectador em algum momento. Não há nada de errado nisso. Assistir a um filme é acordar ou não em um pacto com a própria obra. E se “cinema é a fraude mais bonita do mundo” – frase comumente associada a Jean-Luc Godard -, peço perdão ao mestre francês mas, para fins de coerência textual e também para discordar simultaneamente do mínimo de visões dissonantes sobre a sétima arte possível, adapto sua frase para “cinema é a omissão de verdade mais bonita do mundo”. Ao menos em La La Land, assim como em outros musicais.

E La La Land parece, a princípio, mais interessado na performance do que em desenvolver personagens ou a trama. A cena inicial diz muito sobre isso: um número musical absurdista, megalômano, quase godardiano e perfeitamente impessoal. Não são os dois protagonistas que importam ali: eles são meros coadjuvantes não das dezenas de dançarinos, mas da performance em si, de sua grandiloquência e da gratuidade do show. É espetáculo pelo espetáculo, sem qualquer outra função e pretensão que não o mais puro histrionismo, e (estranhamente) não há nada de errado nisso e nem no exibicionismo do cineasta – sua opção por filmar este e outros números musicais como planos-sequência, evitando ou ocultando os cortes e sempre com elaborados e impressionantes movimentos de câmera-, pois é divertido. E isso é o que importa no final.

O prólogo é impessoal, não foca nos protagonistas (os apresenta brevemente) e sequer introduz algo muito importante para a estrutura narrativa. Aliás, nem se faz possível justificá-lo como uma mostra do tom do filme, tendo em vista que La La Land é surpreendentemente menos megalomaníaco do que a cena indica. É necessário justificar o espetáculo, afinal? Aliás, a sequência final também se encaixa nessa definição de “desnecessário, porém interessante”. Chazelle se utiliza muito bem dos recursos à disposição e consegue compor um dos momentos mais belos de todo o filme, mas fica a sensação de gratuidade, visto que seria possível finalizar com um momento mais sutil e igualmente poderoso dramaticamente. Mas repito a pergunta: é necessário justificar o espetáculo, afinal?

Caso a esta altura do texto ainda não esteja evidente a desimportância da trama, é válido lembrar que La La Land trata do relacionamento entre Sebastian (Ryan Gosling), um pianista que sonha em abrir seu próprio clube de jazz, e Mia (Emma Stone), uma jovem atriz em busca de uma grande oportunidade. Uma premissa básica, como deve ser. A propósito, o filme tem uma divisão por estações do ano, como o subtítulo brasileiro sugere. Deixo a cargo do leitor julgar se isso é realmente importante.

lala3O que primeiro deve ser comentado diz respeito a importância dos atores. Ryan Gosling é ótimo e esbanja carisma, enquanto Emma Stone entrega possivelmente a performance de sua vida, repleta de graciosidade e com um timing impecável. Ambos se saem bem enquanto dançarinos e cantores, mas o fato de serem atores é o que realmente interessa. Embora a performance – no caso, a música – seja o centro, é necessário aqui um carisma que vai além da capacidade de cantar e dançar, mas interpretar. É o star power, o talento dos atores em conceber formas carismáticas, que sustenta o interesse do público ao longo do filme. Pois La La Land não se constitui apenas dos momentos musicais, e sua pouca dedicação ao desenvolvimento dramático exige ainda mais do elenco.

Ou seja: La La Land é desses musicais performáticos que privilegia estilo e ação em detrimento da trama em si. Sem problemas até então. O fato de Chazelle não se importar em conceber personagens complexos ou desenvolver a trama muito além dos clichês não é problema por ser proposital. Repito: a performance importa, e nesse sentido o filme é um grande êxito. Durante a primeira metade do filme, o cineasta faz tudo certo: predomina o aspecto musical e delirante, para o qual os personagens são importantes mais enquanto corpos do que humanos. Corpos que cantam e dançam, são bonitos e charmosos e são Ryan Gosling e Emma Stone. O incômodo surge quando ele se volta para a trama.

Um dos problemas identificáveis ainda na primeira parte é a fragilidade das cenas sem música. Algumas parecem propositalmente incômodas para ressaltar sua importância no universo do filme, enquanto outras são cansativas e prejudicam o ritmo. E ao se voltar para a trama, Chazelle parece não ser mais capaz de conciliar música e narrativa, tornando mais frequentes os momentos “silenciosos” e incômodos, consequentemente fragilizando o todo.

Ao se voltar para uma trama até então pouco desenvolvida, Chazelle também corre o risco de cair nos clichês. Se essa mensagem sobre a importância de seguir seus sonhos já parece, por si só, bastante óbvia, o roteiro ainda desenvolve um dos personagens de maneira sofrível, transformando-o no exemplo mais caricato possível de pessoa infeliz com sua vida profissional por ter de abdicar de seu sonho. A maior parte do arco de Outono (alguém ainda lembrava dessa divisão por estações do ano?) é bem incômoda. É onde surgem as primeiras discussões entre o casal, e não bastasse serem cenas chatas, com diálogos pouco inspirados e motivadas por uma reflexão óbvia, ainda há uma tentativa de amplificar seu poder emocional que soa bastante deselegante. Em algum momento, o desfecho de uma discussão é capturado por uma câmera na mão bem tremida e óbvia (e acredito que até então inédita no filme), que contrasta com os movimentos elegantes de outrora apenas para mostrar essa sensação de desnorteamento e crise do relacionamento. Não que seja um recurso tão execrável – muito pelo contrário, é bem válido -, mas é algo que sobe um tom dramático, causa um impacto bem claro, mas negativo; algo que torna a situação ainda mais caricata.

lala4Os pontos fortes de La La Land consistem em suas excelentes atuações – Ryan Gosling e Emma Stone enchem a tela de canto a canto com seu carisma – e a eficiência da direção de Damien Chazelle. As musicas são boas, a estética é agradável e o filme é impecável nos aspectos técnicos, mas o interessante aqui é a forma passional como o cineasta filma os números musicais. São cenas repletas de apuro estético, movimentos de câmera elegantes e elaborados, performances complexas e uma escolha acertada de evitar os cortes sempre que possível, dando uma fluidez impressionante aos momentos dançantes, mas que apesar de toda a questão cerebral de seu planejamento, exalam um imenso carinho pelos musicais – algo evidenciado pelas inúmeras referências a filmes clássicos, que nunca soam gratuitas e nem prejudicam a formação de uma identidade própria (não que La La Land tenha tanta personalidade assim, mas está longe de ser algo neutro). Chazelle inclusive encontra espaço para algumas sutilezas: como uma canção a dois filmada sem cortes, mas com uma câmera que não precisa de muitos movimentos para enquadrar o casal, visto a proximidade dos personagens. Isso gera um contraste com os movimentos de câmera quase frenéticos de outras cenas, o que torna o momento ainda mais íntimo e bonito.

A essa altura do texto, já deve estar bem claro que La La Land não é um filme perfeito. Mas ele também está longe de ser abominável – eu diria, inclusive, que é bom. Há problemas de ordem moral, sim – Chazelle apresenta aqui uma visão bastante conservadora e moralista sobre a produção artística, exaltando sempre o antigo em detrimento do novo. Mas o que interessa aqui é a manifestação desse caráter hiperbólico curioso ao, nessa brincadeira estilística, se entregar de corpo e alma aos excessos de um bom musical performático, mesmo que às vezes se equilibre perigosamente numa tênue linha entre um bom gosto extremo e o cafona (felizmente são poucos os momentos em que o filme pende para o segundo). A questão é que mesmo imperfeito, La La Land é uma obra repleta de boa vontade, que quer a todo custo ser um grande espetáculo, e consegue durante a maior parte do tempo. É um filme bonito, melancólico e divertido que poderia ir muito além se conseguisse ser um musical por mais tempo, se importando ainda menos com a trama.

 

 

 

 

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