Os 15 melhores filmes de 2016

top-filmes-topper-2016Listas podem ser reducionistas ou em muitos casos simplesmente vagas, mas quem não gosta delas? E quem não gosta das tradicionais listas de fim de ano, nas quais as pessoas apontam seus filmes favoritos do período?

Bom, aqui estão meus filmes favoritos de 2016 no circuito comercial brasileiro.

Antes devo avisar algumas coisas:

1 – Apenas filmes lançados nos cinemas brasileiros entre 01/01/2016 e 31/12/2016. E apenas nos cinemas, ou seja: nada de lançamentos em DVD ou serviços de Streaming.

2- Apenas filmes que tenham sido lançados “mundialmente” na década atual e que tenham estreado comercialmente no Brasil, ou seja: filmes vistos em festivais ou mostras não contam.

De resto, é bom dizer que foi um belo ano para o circuito. Diversas excelentes produções que poderiam tranquilamente constar em uma lista de grandes filmes da década – e os dois primeiros colocados são perfeitamente gabaritados para disputar vagas em um top 10 dos anos 2010. Só mais uma coisa: tenho algumas omissões notáveis. Infelizmente não tive acesso a Do Que Vem Antes, de Lav Diaz, um diretor que muito me interessa e possivelmente estaria nessa lista; e não pude assistir Visita ou Memórias e Confissões, filme póstumo do grande Manoel de Oliveira (mas mesmo que tivesse assistido, ele provavelmente seria listado como hors concours ou menção honrosa).

Vamos aos filmes:

15

15 – A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa – Brasil, 2014

Há algo de muito curioso que liga A Frente Fria que a Chuva Traz (mais a frente na lista) e este A Vizinhança do Tigre. Embora ambos acompanhem grupos de jovens brasileiros, são claramente diferentes em suas propostas, sendo o filme de Neville D’Almeida sobre uma juventude burguesa fútil e autodestrutiva do Rio de Janeiro; e o de Affonso Uchoa sobre jovens de uma periferia em Contagem (MG). O que une ambos é, porém, o fato de seus cineastas enxergarem na espontaneidade juvenil algo de relevante para suas obras: é no vocabulário coloquial, repleto de gírias e palavrões, que os mundos da burguesia vulgar carioca e dos jovens humildes de Contagem se conectam.

Em A Vizinhança do Tigre, pouco importa se é ficção ou documentário, não interessa se as cenas são ensaiadas ou improvisadas. Enquanto filme, é um projeto embebido numa noção de realidade bastante clara. Há muito de real no contexto do longa, que situa seus personagens (ou elenco em si) em uma posição social bastante reconhecível, vivendo em uma realidade cercada por violência. Mas também não interessa fazer juízo moral ou focar em um processo de marginalização juvenil; até certo ponto não interessa tanto a pobreza ou a própria violência, não por alienação, mas por pura ausência de qualquer fetichismo, além de uma vontade incontrolável de ser cinema. A Vizinhança do Tigre não é mimetismo autocongratulatório, mas linguagem cinematográfica elaborada e feita para expressar sentimentos que apenas são possíveis no mundo da arte: se Neguinho (Wederson Patrício), Juninho (Aristides de Souza) e companhia fazem parte de uma juventude coexistente com o perigo, cabe ao cinema eternizar esses rapazes. É o que Affonso Uchoa faz: os eleva ao status de cinema, infelizmente único mecanismo à sua disposição, mas ao menos algo simbólico.

Há um olhar sociológico apurado que não capta o que é conveniente, mas o que é humano. O grupo de jovens retratados em A Vizinhança do Tigre vive em Contagem, mas não importa a localização geográfica, desde que dentro do Brasil. É um conjunto de seres humanos dotados de particularidade em suas universalidades, e o importante é observar como esses corpos jovens interagem entre si e com o ambiente. Mais uma vez, não interessa se é encenação ou não. O que importa é que há espontaneidade na forma como esses corpos se comportam no espaço captado pela câmera, como se o tempo parasse para admirar a brutalidade carinhosa dos palavrões proferidos e risse, junto ao público, dessas impagáveis manifestações de amizade. Ao mesmo tempo em que é espontâneo, natural, é também formalmente vigoroso, com uma câmera que sempre sabe o que mostrar e quando o fazer. Agora a arma é de brinquedo, mas um dia pode ser de verdade. Enquanto torcemos para que esse dia nunca chegue, admiramos esse lindo, engraçado e ainda assim melancólico tratado sobre ser jovem e ser cinema.

14

14 – Creepy, de Kiyoshi Kurosawa – Japão, 2016

Se Carlos Reichenbach, em 1986, já não tivesse feito um filme digno desse título, Kiyoshi Kurosawa (Pulse) poderia chamar Creepy, o melhor de seus dois trabalhos de 2016 (e o único lançado comercialmente no Brasil), de Filme Demência. O cineasta, famoso por suspenses sombrios como Cure (1997) e Pulse (2001), retorna de vez ao gênero que o popularizou e concebe um dos filmes mais eletrizantes do ano. Kurosawa é um mestre na construção de atmosferas, poucos cineastas são tão eficientes quanto ele nesse sentido, e sempre esbanja uma facilidade assustadora em extrair tensão dos mínimos detalhes. Em Creepy, esse maestro do suspense se utiliza de todo o seu repertório para uma construção climática extremamente imersiva, e também se aproveita desse caráter demente muito japonês (remete a Sion Sono e Takashi Miike) para realizar um thriller repleto de personagens e situações excêntricos e imprevisíveis. A gordurinha na transição para o terceiro ato e um link meio forçado entre as partes do filme – que passam a impressão de funcionar melhor paralelamente – podem incomodar, mas nada que apague o brilho desse suspense demente magistralmente dirigido, que tem alguns dos grandes momentos do ano. 

13

13 – Cemitério do Esplendor (Rak ti Khon Kaen), de Apichatpong Weerasethakul – Tailândia, 2015

O cinema de Apichatpong Weerasethakul (Síndromes e um Século) é sobre acreditar. Chega a ser comovente a devoção com que o cineasta tailandês se entrega ao poder de suas imagens e a forma como é capaz de filmar cenas sobrenaturais com a mesma naturalidade com que capta um momento banal do cotidiano. Isso só é possível pois Apichatpong acredita apaixonadamente no que suas imagens representam, e direciona todo o seu talento para a criação de um sistema de ressignificação de símbolos que, neste Cemitério do Esplendor, apesar de um pouco diferente de trabalhos anteriores, impressiona pela simples ideia de um processo de reencarnação que englobe não apenas os vivos, mas também os ambientes. Com seus planos meticulosamente concebidos e usualmente abertos, como se ressaltassem o indivíduo como parte de um todo em meio a uma natureza imprevisível em que cada mínimo movimento pode representar uma reinvenção na anatomia da cena, Apichatpong cria a partir de uma noção espacial muito particular de seu cinema uma forma única de enxergar um filme. Os ambientes que o cineasta filma sempre significam algo mais: sempre há um passado por detrás da imagem. O tempo encontra uma representação visual perfeita em que o passado se esconde atrás da realidade concreta do presente, a imagem como chega ao espectador; e cabe a ele, o receptor, reimaginar aquele espaço com base nas informações adquiridas. O cinema de Apichatpong é frequentemente tratado como experiência sensorial, o que não é mentira, mas seu filme mais recente é sensitivo no sentido de se apresentar menos como um conjunto de eventos próprios da diegese e mais como um transmissor dessa narrativa, como se a crença do realizador o fizesse considerar quaisquer eventos sobrenaturais de Cemitério do Esplendor como representação de uma realidade concreta. Se parece reducionista taxar seus filmes puramente como experiências sensoriais, ao menos essa definição se completa ao ressaltar o caráter críptico da lógica narrativa que rege essas meditações intelectuais. Ainda assim, soa demasiado frio que se exalte apenas o aspecto filosófico e cerebral de uma obra que transpira paixão a cada segundo, e que por mais racional que seja quando diz respeito à estrutura narrativa, é completamente passional. Cemitério do Esplendor é um manifesto em defesa da crença e do poder das imagens, um filme-cinema que defende com unhas e dentes o estilo de, ame ou odeie, um dos artistas mais fundamentais do novo século.

12

12 – Romance à Francesa (Caprice), de Emmanuel Mouret – França, 2015

Romance à Francesa é uma das gratas surpresas do ano, e quase passou despercebido devido ao caráter genérico de seu título brasileiro. Não é só uma comédia romântica clichê, mas um tratado sobre relacionamentos realizado com extremo bom gosto. É um filme sobre idealizar, amar e se relacionar, sobre escolhas e ajustes. Qual a relação entre idealização e amor no relacionamento do protagonista (interpretado pelo próprio Emmanuel Mouret) com a atriz que tanto admira (Virginie Efira)? Com um dos elencos mais carismáticos do ano – Anaïs Demoustier é maravilhosa! -, Mouret concebe uma comédia encantadora sobre relacionamentos, sabendo lidar com clichês e exalando lindos sentimentos a cada plano. É um desses filmes que exala amor, pois se debruça sobre seu tema com paixão, e acaba se tornando uma das experiências mais divertidas e bonitas que o circuito brasileiro presenciou em 2016.

11

11 – O Homem nas Trevas (Don’t Breathe), de Fede Alvarez – EUA, 2016

Mad Max: Estrada da Fúria foi uma das grandes sensações do ano passado por, dentre diversos motivos, apresentar uma noção geográfica impecável (no que diz respeito à anatomia de uma cena) e uma narrativa quase independente de textos. É um conceito básico do cinema: ele é feito por imagens. Em uma época em que se torna cada vez mais comum a utilização de diálogos expositivos para “ensinar” toda a trama ao espectador, é sempre bom encontrar uma produção de gênero (no caso, o terror/suspense) com uma narrativa predominantemente visual. É o caso de O Homem nas Trevas, talvez a grande surpresa do ano até o momento.

Existe uma trama, mas ela não importa tanto quanto o exercício de gênero em si. Alguns clichês são muito bem utilizados a fim de dar certa profundidade aos personagens apenas para que se mantenha um vínculo emocional com o público, mas tudo o que diz respeito à trama em si é secundário. O importante é como ela é contada – ou melhor: como a luta pela sobrevivência, as perseguições, a ação e o medo são abordados, e não a trama em si. Fede Alvarez realiza aqui um trabalho muito inteligente: há um plano-sequência fundamental em que o diretor guia o público pela casa, permitindo ao espectador conhecer toda a geografia do local onde se passa o filme (e isso é muito importante). Os poucos diálogos – privilegiando portanto a ação – permitem que Alvarez explore ao máximo o poder de sua narrativa visual, tornando O Homem nas Trevas um filme dinâmico, envolvente e extremamente tenso. O cineasta ainda apresenta muita criatividade: o fato de ter um antagonista cego permite que ele faça pequenas brincadeiras com o som e as próprias imagens, recursos empregados de forma pontual para manter o ritmo.

Os pequenos excessos do roteiro se tornam irrelevantes justamente por dizerem respeito à trama, que passa longe de ser o foco do filme. Mais do que uma obra extremamente divertida por sua capacidade assombrosa de construir tensão ou seu ritmo frenético, O Homem nas Trevas merece ser visto pela ousadia da narrativa imagética e precisa de Fede Alvarez (e que eu tenha de taxar tal abordagem como ousada, não pode ser bom sinal para a indústria).

Texto publicado originalmente na página do Facebook do blog.
9

10 – Os Oito Odiados (The Hateful Eight), de Quentin Tarantino – EUA, 2015

Basicamente, Tarantino sendo Tarantino, com todas as implicações positivas e negativas que isso indica. Há uma preocupação em se reinventar e estruturar seu suspense verborrágico com um ritmo mais lento do que o usual, mas com Tarantino tudo termina em Tarantino. Ou seja: é do anticlímax que se faz seu anticinema tão cinematográfico.

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8

09 – Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba – Brasil, 2015

De uma tensão extrema a uma sensibilidade sutil que se manifesta em uma mise-en-scène vigorosa e belas atuações.

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7

08 – Certo Agora, Errado Antes (Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da), de Hong Sang-soo – Coréia do Sul, 2015

É difícil falar de Certo Agora, Errado Antes, ganhador do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, sem revelar um detalhe crucial de sua trama. Existe neste filme uma escolha diretorial que, embora seja revelada na maioria das sinopses disponíveis na internet, funciona muito bem como fator surpresa, por se tratar de um recurso narrativo pontual que afasta o filme de Hong Sang-soo do óbvio. Ou seja: é um detalhe fundamental para que a simples trama do longa seja capaz de atingir o espectador e, especialmente, para que o diretor possa demonstrar a essência de sua obra.

Pois para Hong Sang-soo, a vida é feita de escolhas. Qualquer pequeno detalhe, desde um simples gesto ou uma construção diferenciada para uma frase proferida, pode mudar os rumos de uma vida. A questão é: justamente pela incapacidade de prever completamente as consequências de seus atos, as pessoas nem sempre tomam decisões acertadas. Algumas escolhas parecem equivocadas no momento em que são tomadas, mas muitas vezes desencadeiam uma sequência de acontecimentos positiva – e o contrário também acontece, claro. Justamente por isso é uma pena que, limitado pelo próprio vocabulário, o título brasileiro (traduzido correta e literalmente) seja incapaz de reproduzir a riqueza do nome internacional do projeto (Right Now, Wrong Then). Há um trocadilho que a língua portuguesa não pode simular por completo: “Right Now” é “agora mesmo” e “certo agora”. Se existem decisões condizentes com a situação em que são tomadas, porém equivocadas a longo prazo, é necessário que o “certo agora” ocorra no momento correto, no “agora mesmo”, não? Felizmente, ainda há no título nacional um pouco da essência da obra: o que é certo agora deve acontecer em um certo agora, afinal. Ou seja: “certo agora” indica uma opção correta em dado momento, mas também algo que correu como deveria; enquanto “agora mesmo” especifica o próprio momento em que tal evento ocorre, ressaltando a importância do timing de uma ação. Inúteis caso não se manifestem no momento certo, as boas intenções do indivíduo tampouco são escolhas seguras se acobertarem a mentira – mas, felizmente, o excepcional roteiro de Hong Sang-soo foge exitosamente do moralismo vago. Pensando bem (e ainda seguindo a proposta da obra): o que aconteceria se fosse outro o cineasta responsável por este filme?

O importante é que, na realidade em que vivemos, felizmente Certo Agora, Errado Antes tem a assinatura de Hong Sang-soo. E o coreano, com uma direção segura, um excelente roteiro e um par de protagonistas que demonstram uma química invejável, produziu um dos mais sensíveis, belos e inteligentes filmes lançados no Brasil em 2016.

Texto publicado originalmente na página do Facebook do blog.

6

07 – Aquarius, de Kleber Mendonça Filho – Brasil, 2016

Sobre a manifestação física de memórias que existem como num ato de resistência.

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5

06 – A Frente Fria Que A Chuva Traz, de Neville D’Almeida – Brasil, 2015

Vulgar, podre, imundo, ácido e estranhamente fascinante. É o filme trash do ano, uma tragicomédia aterrorizante e despudorada sobre a sociedade brasileira. Livre de qualquer tipo de moralismo.

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4

05 – Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!! (Everybody Wants Some!!), de Richard Linklater – EUA, 2016

Richard Linklater (Boyhood) voltou. Com o que aparentemente seria um filme menor, o padrinho do cinema indie americano contemporâneo surge com uma das experiências mais agradáveis e inteligentes que o cinema produziu em 2016.

Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!!, que tem esse título em referência ao clássico de 1993, do qual se apresenta como “continuação espiritual”, é um dos filmes mais eficientes dos últimos anos no que diz respeito a captar um espírito jovem e livre. É uma obra extremamente engraçada, com um elenco de desconhecidos incrivelmente carismáticos e talentosos. Aqui, Linklater concebe com precisão uma narrativa focada mais em uma rotina do que em eventos dramáticos, e confia a seu excelente elenco a responsabilidade de carregar essa estrutura. A partir de algum momento aquele Linklater dos diálogos despretensiosos e filosóficos se manifesta, e o filme só tem a ganhar.

É difícil falar qualquer coisa objetiva sobre Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!! porque é impossível colocar em palavras os sentimentos por ele provocados. É um filme despretensioso com um senso cômico tão bom, atores tão carismáticos, um roteiro tão preciso e uma direção tão leve, que se torna uma experiência quase sensorial. Não sei se é possível justificar esse tipo de coisa, mas se algo resume o que é o novo filme de Richard Linklater, é um sentimento de imensa alegria. E a cena final é um dos momentos mais encantadores que o cinema produziu desde… o final de Boyhood, talvez.

3

04 – O Cavalo de Turim (A Torinoi Ló), de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky – Hungria, 2011

É pena que um dos filmes mais badalados da década só tenha chegado ao Brasil cerca de cinco anos após seu lançamento original. Mas pelo menos ele chegou: O Cavalo de Turim está entre nós. E que honra é poder incluir esta obra maravilhosa de Béla Tarr na lista.

O Cavalo de Turim é o filme do terror existencial. Filmado em longos takes e ritmado de forma vigorosa a permitir que o espectador contemple cada plano, é um dos filmes mais desoladores que o cinema produziu neste século. Tarr constrói sua atmosfera de forma brilhante e assustadoramente imersiva; ao ver os pequenos acontecimentos do cotidiano se repetindo em meio àquele clima solene e opressivo, sempre reforçado pela mise-en-scène sufocante e a trilha sinistra, é natural que o espectador imerja no ambiente. A atmosfera construída pelo maestro húngara é poderosa a ponto de transformar seu filme em um legítimo terror existencial. É uma obra realmente assustadora que transita entre universal e particular com uma fluidez assombrosa: é o fim dos tempos visto de algum lugar próximo ao fim do mundo. É sobre um processo de desconstrução de toda a vida, como em referência aos dias que deus levou para fazer o mundo, mas em um universo em que essa figura divina não existe ou simplesmente nos abandonou. O Cavalo de Turim é uma das experiências mais intensas e aterradoras da década, um trabalho genial sobre as dores de uma existência que só pode ser salva pela destruição absoluta.

2

03 – Carol, de Todd Haynes – EUA, 2015

Carol é lindo. Isso basta.

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10

02 – Elle, de Paul Verhoeven – França, 2016

Talvez o estudo de personagem mais complexo do ano. Huppert é gigante. Uma obra-prima.

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1

01 – A Assassina (Nie Yinniang), de Hou Hsiao-Hsien – Taiwan, 2015

O mais recente filme do célebre realizador taiwanês Hou Hsiao-Hsien é um pequeno grande monumento que resgata parte da tradição cinematográfica asiática ao reimaginar um gênero clássico – o Wuxia – de forma extremamente respeitosa, se apresentando como um épico compacto e ainda assim sofisticado e formalmente irretocável. A Assassina é desses filmes que se comportam de forma estranha diante de um público: ao se apegar à trama, é natural que o espectador encontre dificuldade em acompanhar os eventos (e para o público ocidental, lidar com os nomes asiáticos pode tornar a experiência ainda mais complexa), ao mesmo tempo em que é quase impossível não se fascinar pelo hipnotizante aspecto formal do filme.

A Assassina é um filme repleto de intrigas políticas e familiares, protagonizadas por diversos personagens; é uma obra assumidamente histórica em que o tempo surge de forma discreta para dificultar ainda mais a compreensão acerca da trama. Por mais interessante que seja todo o jogo político e a forma como os personagens se relacionam, a trama em si é o que menos importa – e talvez justamente por isso pareça tão complicada. É um filme sobre uma assassina encarregada de matar seu próprio primo, um homem ao qual já fora prometida em casamento. Em A Assassina importam mais os sentimentos da protagonista e o vigor da mise-en-scène do que os eventos em si.

O que chama a atenção de qualquer espectador é a estética. É inegável que A Assassina é um dos filmes visualmente mais impressionantes dos últimos anos. E toda essa composição visual, que passa por um brilhante trabalho de recriação de época do design de produção e os figurinos ou o vigor da fotografia, é vital para os propósitos do longa. A Assassina é um épico – compacto, mas um épico – feito para ser apreciado nos mínimos detalhes de sua composição visual: desde os lentos travelings, em especial aqueles que filmam os personagens por detrás de cortinas, aos planos que contemplam o ambiente (tanto os externos, as belas paisagens, quanto os internos e a composição luxuosa dos cenários), não há um momento sequer que não impressione.

Talvez A Assassina seja das experiências mais complexas e exigentes enquanto arte que o cinema produziu nos últimos anos. É um épico em que a sutileza de cada movimento de câmera, de cada enquadramento, faz diferença. Uma obra fascinante que desperta pensamentos paradoxais quanto a sua mise-en-scène: não há um único momento que não seja banhado em um vigor formal imensamente belo, esteticamente complexo e hipnotizante, não há um segundo que não deixe o espectador maravilhado com as mais belas imagens que o cinema produziu em uma década; ao mesmo tempo em que é uma obra de uma perfeição tamanha, de um vigor tão impressionante e tão bem filmada, que em algum ponto é natural que apenas se aceite cada escolha estética como a única possível em dada conjuntura, tamanha a naturalidade em que a forma se relaciona com o conteúdo em si.

Mesmo sendo uma homenagem a um estilo de cinema que tende à ação, A Assassina tem um ritmo bastante lento e com pouquíssimas cenas movimentadas – sendo estas normalmente bem curtas, como se Hou Hsiao-Hsien fizesse questão de ressaltar que não são o foco aqui. Mas é impressionante a forma como o cineasta consegue abordar os dramas da protagonista de forma pouco chamativa, mesmo pouco perceptível ao espectador menos atento, mas ainda assim extremamente poderosa. Muito disso se deve à performance contida e comovente de Shu Qi, colaboradora habitual do realizador, que entrega aqui um trabalho impecável e imensamente belo em que os sentimentos surgem sutilmente em seu rosto, mesmo ao ostentar uma expressão padrão de austeridade. É uma personagem repleta de sentimentos conflitantes, e sua turbulência interna encontra nos mínimos gestos de Shu Qi a representação perfeita – é bem impressionante como o caráter dramático do épico é algo minimalista tanto em sua representação quanto na essência: A Assassina não é o épico dos grandes dramas consequentes de intrigas políticas – embora estes existam -, mas o drama particular de uma mulher que tem de (quase literalmente) enfrentar seu passado. Algo que se apresenta em um contexto específico, o de um épico a respeito das relações políticas e familiares na China feudal, mas ainda assim um drama intimista de uma imensa beleza e cujos sentimentos se manifestam nos mínimos detalhes, como se mesmo em meio aos cenários e figurinos luxuosos, coloridos e chamativos ainda se destacassem os trajes negros e simples de um espírito solitário em busca de libertação, uma alma banhada em dor, justamente pela vastidão da melancolia de quem os veste.

A Assassina é um monumento cinematográfico, um brilhante e requintado épico sobre a dor e os sentimentos particulares em uma sociedade em que unidade e todo se confundem em meio a um mar de intrigas políticas e violência. É uma obra-prima, um dos filmes mais brilhantes a despontarem no cinema deste século, e sobretudo uma obra a ser apreciada nos mínimos detalhes – algo que seu caráter contemplativo e ritmo lento (talvez insuportavelmente lento para alguns) fazem questão de valorizar. A Assassina é o épico dos sentimentos enclausurados, do contraste entre o brutal, a morte, o assassinato e as emoções, a beleza e a vida que brota nas flores. Tudo isso pode ser visto no rosto de Shu Qi, em especial durante um close-up enquanto sua personagem tem seus ferimentos – os físicos – tratados por outrem.

E ao final, é difícil não se emocionar com a despedida, com o futuro que não conheceremos, com o fim da jornada de uma assassina para se reconciliar com seu passado. Obra-prima. 

Menções honrosas (ordem alfabética):

A Academia das Musas (La Academia de las Musas), de José Luis Guerín – Espanha, 2015

Belos Sonhos (Fai Bei Sogni), de Marco Bellocchio – Itália, 2016

Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War), de Joe e Anthony Russo – EUA, 2016

Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert – Brasil, 2016

Steve Jobs, de Danny Boyle – EUA, 2015

 

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