Elle e a particularização das experiências

elleElle, de Paul Verhoeven, é um dos filmes mais comentados do ano. Um imenso sucesso de crítica que, por seu caráter provocativo, vem causando polêmica. Acho que mais do que falar do filme em si, é interessante contextualizar.

Sendo bastante direto: o filme começa com um estupro. A vítima é Michèle Leblanc (Isabelle Huppert), agredida em sua própria casa por um homem mascarado. A partir daí tanto filme quanto personagem se comportam de forma inesperada.

Antes de falar do filme em si, é importante discutir brevemente a reação do público a ele. Elle é um filme provocativo, estranho, que pode incomodar (ou mesmo ofender) alguns espectadores, especialmente as mulheres. Eu, particularmente (como homem e alguém que não passou por experiências tão traumáticas), não me sinto ofendido com aspecto algum dessa nova empreitada do cineasta holandês, mas é perfeitamente compreensível que alguém se incomode, por se tratar de um tema pesado com uma abordagem pouco usual, e isso deve ser respeitado. Tenho certeza que o próprio Verhoeven estava ciente das reações que seu trabalho poderia provocar: um filme que, considerado misógino por alguns, chegou a ser chamado de “manifesto feminista” por outros – mas certamente o diretor não o projetou sob nenhum destes rótulos. Se sentir incomodado ou ofendido faz parte da experiência subjetiva, da relação de cada um com a obra. É uma posição que deve ser respeitada, e não pode ser refutada por argumentos sobre a diegese simplesmente porque em nada tem a ver com esta, não é algo aberto a discussão. O que pode e deve ser discutida é a própria linguagem cinematográfica, em busca de uma melhor compreensão a respeito do objeto capaz de provocar reações tão distintas. Se um filme é uma experiência particular, isso se deve não apenas às diferentes formas de interpretar seu conteúdo, mas também à própria bagagem pessoal e mesmo cultural do espectador.

Mas decerto soa estranho enquadrar Elle em qualquer que seja o rótulo, pois é um filme que parece fazer tudo o que estiver ao seu alcance para fugir de qualquer generalização. Após ser agredida, Michèle age como se nada tivesse acontecido: arruma sua casa e volta à sua vida normal; sequer cogita chamar a polícia, janta com seu filho, e apenas em um restaurante, com pessoas próximas, conta sobre o ocorrido (com a maior calma do mundo). Nesse ponto, ainda nos primeiros minutos de filme, encontramos um dos primeiros momentos de estranhamento para o espectador, provavelmente curioso diante da postura pouco ortodoxa da protagonista. Aliás, que o público estranhe tanto o comportamento de Michèle é algo interessante, pois dá a entender que a sociedade exige um padrão de conduta bem específico mesmo de pessoas que acabaram de passar por experiências traumáticas, como se o fator humano – a imprevisibilidade – fosse completamente descartável. Aí surge o charme de Elle: se a maioria das pessoas se comportaria de forma diferente – ao menos segundo o senso comum -, isso não importa ao filme, pois ele não busca ser universal, não é um tratado sobre pessoas e suas reações a situações traumáticas e muito menos um manifesto sobre comportamento feminino, mas um estudo de personagem. Verhoeven quer mostrar como uma pessoa em especial reage a um crime, apenas isso. Elle é sobre uma mulher, e isso basta. Mas quem é Michèle, afinal?

A personagem vivida por Isabelle Huppert é uma mulher forte e independente que, na medida do possível, sempre parece ter tudo sobre controle. É a CEO de uma empresa de videogames, onde comanda um grupo de funcionários em que predominam homens aparentemente abaixo dos 30 anos. Elle remete a Aquarius, outro filme desse ano, por sua imensa dedicação à protagonista. Michèle é uma figura central e tudo gira ao seu redor. É com base nas suas interações com as diversas pessoas que a rodeiam – ex-marido, melhor amiga e seu esposo, filho, mãe e o namorado décadas mais novo, vizinhos, funcionários da empresa – que o público vem a obter informações a seu respeito.

elle2O que o público percebe aos poucos, porém, é uma tendência problemática deste universo, a propensão de Verhoeven a uma visão quase misantrópica sobre uma sociedade que vive de aparências e corrupção. O ser humano é completamente imperfeito e mesmo patético, isso pode ser visto nas figuras que Michèle atrai, nocivos em maior (um estuprador é o melhor exemplo, claro) ou menor grau (seu filho, um completo bobalhão). O espectador também descobre aos poucos que isso não é um filme de Lars von Trier: aqui não veremos uma protagonista inocente e de bom coração prestes a ser corrompida ou engolida pelas regras desse sistema opressivo que chamamos de sociedade. Michèle está em um filme de Paul Verhoeven, o cineasta que, quando optou por “corromper” uma protagonista, na obra-prima Showgirls (1995), o fez de forma completamente ácida, mostrando que saber as regras do jogo não descarta qualquer aspecto humano de sua personalidade, e muito pelo contrário. A personagem de Huppert está longe de ser um exemplo: mantém um caso com o marido de sua melhor amiga, é vingativa com a nova namorada de seu ex, humilha seus funcionários, tenta seduzir um vizinho casado e, o mais importante de tudo e algo não necessariamente condenável, tem em seu passado outro evento traumático. A partir de Michèle, Verhoeven expõe ao público todo um universo (talvez o único momento em que se possa considerar Elle universal, e ainda assim aberto a interpretações) de mentiras e corrupção, repleto de pessoas gananciosas, adúlteros, depravados, fracassados e claro, criminosos (assassinos e estupradores).

Talvez o mais notável da abordagem de Verhoeven seja a forma como, mesmo expondo toda essa podridão, ele nunca o faz julgando os personagens. Nas mãos de um cineasta menos experiente, Elle poderia ir por um caminho muito questionável (e aí sim, certamente misógino) que abriria margens para uma interpretação focada em culpabilizar sua protagonista – como se os diversos problemas que ela enfrenta (inclusive a agressão sofrida) e as figuras dúbias da sua rotina fossem consequência de seu comportamento. Felizmente, Verhoeven está mais preocupado em nos mostrar quem é Michèle do que em tentar julgar seus personagens.

O cineasta nos dá um background elaboradíssimo da vida da protagonista: sabemos sobre sua família, seu trabalho, seu passado e quase tudo o que é relevante. Temos a resposta para a pergunta de alguns parágrafos atrás, incitada pelos minutos iniciais de filme. Mas agora que sabemos quem é Michèle, seu comportamento após ser agredida se torna perfeitamente compreensível? A resposta vai de cada um. Verhoeven nos dá a chave: temos as informações mais relevantes possíveis sobre a vida da personagem, o diretor fez seu trabalho. Se agora tudo faz sentido, se ela não chamou a polícia por conta de seu trauma do passado, se reagiu daquela forma para evitar se enxergar no papel de vítima e manter o máximo controle possível da situação (ou simplesmente pela necessidade de seguir em frente), tudo está sujeito a interpretações. Mesmo sabendo muito mais a respeito da personagem, nem sempre é possível estabelecer fatos concretos, pois humanos são imprevisíveis, afinal.

É notável também a construção da atmosfera do filme: Verhoeven se mostra um mestre em criar suspense, visto que alguns momentos de Elle são extremamente tensos e reservam até alguns jumpscares. Além disso, talvez um dos grandes feitos do holandês seja a fluidez com que ele monta um filme sofisticado, com toda essa cara de arthouse francês, mas permitindo que essa vulgaridade implícita (e característica do seu cinema) se manifeste em alguns momentos (as cenas do videogame, por exemplo).

elle3Muito se fala das cenas de estupro: é perfeitamente compreensível que alguém se sinta incomodado, é uma reação natural à violência, afinal. Mas se tem algo de positivo na forma como Verhoeven filma esses momentos, é o fato de eles nunca soarem de fato fetichizados. São cenas naturalmente incômodas, repletas de movimento (pontapés, empurrões, gritos), mas que nunca soam sexualizadas porque devem ser mostradas pelo que realmente são: momentos tristes, revoltantes. Se o incômodo causado por elas é perdoável sob esse ponto de vista, vai de cada um – faz parte, claro, da subjetividade essencial da experiência cinematográfica. E ainda falando sobre a violência sexual no filme: muitos veículos estrangeiros definiram Elle como “rape comedy”, uma suposta comédia de estupro, que é simplesmente um dos rótulos mais estúpidos e ofensivos que a humanidade já produziu, e ao qual o próprio Verhoeven, em entrevista a Cinema Scope, fez questão de rebater. O filme tem seus momentos cômicos sim, mas nunca – a não ser que se trate de um espectador com tendências a psicopatia ou incapaz de interpretar o que é visto em tela -, nunca, constrói humor a partir desse tema. É jornalismo do mais baixo nível juntar duas características que nunca se relacionam para construir um rótulo, este sim extremamente condenável. E o mais inacreditável de tudo: há quem chame o filme por essa alcunha infeliz, mas não de forma pejorativa – ou seja: há quem goste do filme e ache que essa denominação faz algum sentido, o que mostra que alguns críticos não foram capazes de entender o básico da lógica de Elle, uma obra que trata a violência com muita seriedade.

E há Huppert, essa atriz extraordinária, que entrega aqui uma das performances mais impressionantes do ano. De gestos e nuances mínimas, como um sorriso malicioso de canto de lábio bem condizente com o calculismo de sua personagem, até os gritos e movimentos bruscos, tudo é assombroso. Se Michèle é Michèle, se esse estudo de personagem se torna uma análise psicológica tão complexa e intrigante, muito se deve ao desempenho absurdo de uma das maiores atrizes vivas.

Verhoeven quer simplesmente acompanhar sua protagonista, sempre imprevisível, e cabe a cada um construir sua própria visão a seu respeito. E dessa forma ele compõe também uma análise acerca de uma sociedade demente (independente se algo universal ou não), que encontra na personagem de Huppert não exatamente uma representação, mas um corpo – também literalmente – que entre sua própria existência particular e o ponto em que se situa diante do universo, reúne diversos tumores morais de um meio repleto de mentiras e crimes.

Elle não é um filme sobre uma vítima de um crime lidando com seu trauma. É simplesmente um filme sobre uma mulher, Michèle. Ela.

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