Jauja e o cinema

jauja“O cinema”, apenas “o cinema”.

Há, em algum momento de Jauja (2014), uma cena surpreendentemente irônica em que um personagem, num gesto de compaixão, dá fim à vida de outro gravemente ferido. É um momento curioso pois o homem que protagoniza esta ação se mostra claramente desconfortável nos segundos que antecedem a morte de seu parceiro de cena, como se agonizasse durante a escolha da arma mais adequada (uma arma de fogo ou a espada?), sem se dar conta de sua insignificância perante a natureza e seu ciclo. Não há como evitar a morte em tal situação, e tudo o que resta ao humano é servir como agente facilitador do ciclo da vida, como se reconhecesse sua pequenez e ainda sim buscasse uma forma de participar do processo.

E se há algo que pode ser dito a respeito de Jauja, é isso: um homem perdido na natureza. O homem em questão é Gunnar Dinesen (o excelente e subestimado Viggo Mortensen), um dinamarquês que, no século XIX, durante uma viagem para um lugar mítico chamado Jauja, parte em busca de sua filha, em fuga. Não que a sinopse importe muito.

Jauja, apesar de muito diferente de A Liberdade (2001), filme de estreia de Lisandro Alonso, parece um ponto natural de uma trajetória que se iniciou com essa obra de ritmo lento e contemplativo, aspecto documental e, sobretudo, enorme dedicação às próprias lógicas temporais e espaciais. Jauja não tem o mesmo caráter documental de A Liberdade, mas demonstra semelhante preocupação com a abordagem do tempo: enquanto o filme de 2001 buscava estabelecer a rotina exaustiva de seu protagonista como centro narrativo, o western transcendental de 2014 acaba por construir uma rotina de forma discreta e curiosa. Em Jauja, o tempo é protagonista, e logo o fio narrativo que une todas as suas partes – a jornada de Dinesen – se torna uma espécie de cotidiano, sendo porém uma manifestação temporal que foge completamente ao controle do espectador, desprovido de um norte que indique a passagem do tempo e, portanto, tão perdido quanto o protagonista.

De certa forma, todo bom filme versa, mesmo que indiretamente, a respeito do próprio cinema. E Jauja é cinema puro, pois poucos filmes desta década foram capazes de explorar tão bem todos os recursos cinematográficos à disposição. E não só pelo brilhantismo técnico, mas também por ser um filme sobre tempo e espaço, elementos fundamentais para o cinema e que nem sempre recebem a devida atenção dos realizadores.

jauja2O filme de Lisandro Alonso é um exercício narrativo que busca dar vida ao ambiente (aliás, as locações são da região da Patagônia), e dedica todos os recursos possíveis à criação deste. Dentre as escolhas estéticas do cineasta, merecem menção o formato 4:3 (é válido lembrar que foi rodado em 35mm) e especialmente a forma como é utilizada a profundidade de campo.

As belíssimas paisagens não são apenas um deleite visual, como também um palco perfeito para a mise-en-scène soberba do argentino. Os cenários ganham profundidade, como se cada metro fosse levado às telas em seu tamanho literal, o que torna o ambiente completamente imersivo. Ver os personagens se locomovendo em meio à vastidão da natureza é uma experiência particularmente impressionante pois Alonso filma esses movimentos com muita paciência, fazendo com que durem exatamente o tempo que durariam “na vida real”, e permitindo ao espectador se situar melhor e conhecer o ambiente – aliás, é mérito da montagem que isso ocorra muitas vezes de forma elíptica e ainda sim discreta e natural, mantendo uma lógica sequencial. A impressão que fica ao vermos Dinesen perambulando pela natureza é a de estar assistindo a um gameplay de algum jogo em mundo aberto. Além disso, é notável a forma como o cineasta explora a riqueza espacial de sua obra, sempre utilizando ao máximo a extensão dos ambientes e concebendo planos vigorosos que enquadram vários personagens e objetos simultaneamente em diferentes distâncias – e muitas vezes nos permitindo a visão de um corpo sumindo no horizonte, algo sempre poético e simbólico, ou mesmo se embrenhando em meio às plantas e árvores.

Também é fundamental para a construção do ambiente o trabalho sonoro. O design de som é impressionante pois não deixa passar um detalhe: o vento batendo nas plantas, os barulhos dos animais, a água e mesmo os passos – a representação física mais espontânea possível para o embate entre homem e natureza -, tudo é audível e muito bem representado.

Jauja – o lugar – respira. É um personagem. É o personagem. É o que há de mais importante em todo o filme. Toda a trama é um mero pretexto para jogar Viggo Mortensen na natureza. E daí surge uma experiência transcendental e libertadora.

jauja3Quando digo que Jauja é cinema puro, isso também se dá pela forma como Alonso lida com o tempo e o espaço em sua obra: manipulando à sua vontade. Jauja é um lugar que parece não existir na mesma frequência do resto do mundo, é uma terra em que cada metro parece embebido em algo místico, em que o tempo corre de forma completamente particular e obedecendo uma lógica própria desconhecida para os meros mortais. Assim como é o cinema.

Quase uma declaração de amor do cineasta àquele lugar e à própria sétima arte, Jauja é um filme-alegoria que trata de forma muito particular um processo histórico (o colonialismo), utilizando-o como pretexto para sua abordagem existencial; mas também é uma forma de representação do próprio espaço físico, o ambiente, em um universo onde tudo é possível. Se a realidade é um pedaço de terra com sua própria história mas sem eventos metafísicos transcendentais, no reino do cinema as Patagônias viram Jauja, são elevadas a um status mítico, de “terra mitológica de abundância e felicidade”, como diz a própria introdução do filme.

A grande magia de Jauja é ter um maestro como Lisandro Alonso, capaz de manipular o tempo e espaço para criar uma realidade mais fascinante do que a nossa. Essa é a grande magia do cinema, afinal.

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