Corrente de Reviews 2016: Hataraku Maou-Sama

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Lembro-me de que quando eu era criança, saiu um filme do Adam Sandler chamado “Little Nicky – Um diabo diferente” e, por algum motivo, aluguei esse filme na época e eu achava tão engraçado de tão bobo que era que aluguei mais algumas vezes depois. Arrisco dizer que eu talvez tenha alugado esse filme pelo menos 1 vez por mês e em todas as vezes que eu assistia, ria igual um idiota (mesmo sem entender 90% da malícia das piadas, porque eu devia ter uns 6 ou 7 anos de idade na época). Se você nunca assistiu, resumidamente, é um filme sobre um demônio meio mongão, filho do senhor das trevas que vai pra Terra enfrentar os seus irmãos, que foram pra lá pra fazer algazarra e juntar poder para tomar o trono do pai. É aquele típico filme do Adam Sandler só que um pouco mais ácido do que o típico filme dele (e curiosamente, um de seus melhores filmes, mas isso não vem ao caso). Agora, por que diabos eu estou falando de um filme do Adam Sandler aqui? O motivo é mais idiota do que parece: Hataraku Maou-sama é basicamente esse filme, só que com uma “injeção de anime”

[Momento “Bastidores”: Quando recebemos o material que íamos assistir, no chat da redação do blog, o Symon acertou em cheio o que seria antes de eu começar a assistir ]

A premissa do anime é mais ou menos semelhante na raíz, mas tem suas diferenças (e vou tentar encerrar as correlações com Little Nicky aqui). Tudo começa com uma cena de ação com monte de poderes coloridos voando num cenário de fantasia medieval, numa batalha entre o grande senhor das trevas e um herói desse reino mágico, e no meio da batalha, um portal é aberto, e o rei demônio vai, junto com seu mais fiel lacaio, parar… no nosso mundo. E então, visto que seus poderes não funcionam aqui e eles estão com pouco poder mágico pra gastar, não podem ficar aprontando e passam a ter que andar na linha e basicamente, viver a típica vida do japonês comum trabalhador enquanto esperam uma oportunidade de, quem sabe, voltar pra casa.

É, esse aí é o grande Lorde das Trevas do mundo da fantasia.

É, esse aí é o grande Lorde das Trevas do mundo da fantasia.

Eu gosto dessa premissa inicial. Por algum motivo, histórias sobre personagens de um mundo/cultura se adaptando ao meio de vida de outro me chamam a atenção e Hataraku Maou-sama começa muito bem e cheio de gás, com ótimos momentos de comédia, mas… o encanto, tal qual os poderes mágicos de Satan e Alciel, acaba rápido. Após um tempo, essa comédia junto da premissa do roteiro, que é a maior qualidade até aqui, vai sumindo e comete o seu maior pecado: passar a se levar a sério.

Nos primeiros 4 episódios sempre é divertido ver Maou (como o Rei demônio acaba sendo chamado no mundo dos humanos) interagindo com outros personagens, como a sua coleguinha de trabalho, Chiho, uma menina de uns 16 anos que por algum motivo (ou sem nenhum mesmo) tem uma queda por ele e não faz o menor esforço pra esconder isso e principalmente seu fiel escudeiro Alciel, que neste mundo acaba sendo chamado de “Ashiya”. Porém, temos um elemento introduzido logo nesses primeiros episódios que é um sintoma do que vem pela frente e me incomodou um bocado enquanto assistia a série, e esse problema atende pelo nome de “Emilia Justina”, ou neste mundo, “Emi Yusa”, que nada mais é do que o herói… ou nesse caso, heroína, já que palavras no Japonês não tem gênero e essa informação fica no ar até a personagem aparecer no anime ainda no finalzinho do primeiro episódio.  Numa nota paralela, antes de seguir em frente, só quero dizer que eu sinceramente gosto do pseudo-trocadilho que fizeram aqui pra converter a alcunha dela de “Yuusha no Emilia” (“Emilia, a Heroína” em japonês) para o nome japonês dela, mas isso não vem muito ao caso.

E essa aí fazendo cara de birra é a suposta arquinimiga mortal de Maou, Emilia.

E essa aí fazendo cara de birra é a suposta arquinimiga mortal de Maou, Emilia.

Por ser a grande heroína que estava lutando contra Maou antes de toda a bagunça acontecer, a gente imagina que vai ter uma tensão meio mortal entre os dois personagens no decorrer da história mas… Emi vira uma personagem completamente fora de caráter e a personalidade tsundere (pois é…) que ela adota na série simplesmente não bate com a personagem e em muitas situações parece extremamente deslocada da trama que a série tenta ter e fica um contraste esquisito. Mas isso leva a um questionamento interessante sobre a contradição na atitude de alguns personagens e a forma como isso contrasta com o que normalmente esperaríamos de seus arquétipos. Maou é o grande senhor das trevas no mundo da fantasia mas no mundo de verdade ele é uma pessoa extremamente gentil e altruísta, contrariando totalmente o que se esperaria de alguém assim (fato este que é até comentado pelos personagens da série) e Emilia, a suposta heroína da Terra fantástica é mesquinha, mimadona… e por algum motivo começa a nutrir sentimentos por Maou mesmo tendo uma relação de bastante passivo-agressividade com o mesmo (??????). Eu fiquei meio dividido com esse aspecto da série, mas tirando esses dois, eu gosto da maioria dos outros personagens do núcleo principal, sobretudo Alciel/Ashiya, que me fez dar umas boas risadas mesmo quando o anime estava em seus momentos mais baixos, que foram basicamente a segunda metade, e é nela que vem o maior problema de Hataraku Maou-sama…

(momentos como esse do vídeo foram coisas bobas que me fizeram rir ao longo do anime)

A série é, a princípio, uma comédia pastelona, e nestas horas de graça é onde mais brilha e tem seus melhores momentos, mas a partir da segunda metade as coisas começam a ficar menos brilhantes. A série começa a ter vilões vindo querer acabar com a raça de Maou e assim poder dominar o Japão e a série começa a dividir o seu tempo entre esses momentos mais sérios e dramáticos e a comédia de antes, que sofre uma redução drástica depois de um grande acontecimento na metade dela. Parece que virou um novo anime, mas que se lembra de como era antes, mas demonstra cansaço no próprio ritmo, que fica bastante arrastado. Alguns personagens novos são introduzidos e eles não são tão legais quanto os que já tínhamos antes e alguns simplesmente SOMEM da série (não que isto especificamente seja um problema, mas é um pouco estranho com dois em especial).

No final, o saldo que temos é de um anime que tinha bastante potencial, mas se perdeu tentando abraçar mais do que podia ao invés de se concentrar no que já estava acertando bem. Temos alguns personagens memoráveis, uns muito melhor aproveitados que outros, uns mais agradáveis que outros e por aí vai… pra mim foi uma série que me deixou meio dividido quanto a muita coisa, mas ainda achei divertido em alguns momentos… e forçando um pouco a barra, acho que posso comparar isso que acabei de dizer nesse parágrafo com uma boa parte dos filmes do Adam Sandler. Seria Hataraku Maou-sama um Adam Sandler dos animes?

corrente

E este texto fez parte da segunda participação do Missão Ficção na Corrente de Reviews (a primeira foi em 2014, quando rolou o texto do nosso sábio ex-redator, Edungeon, sobre Code Geass. Caso não tenham lido ainda, leiam lá), evento idealizado pelo Diogo Prado lá do Anikenkai que é basicamente uma espécie de “amigo oculto” entre vários blogueiros que falam de anime e mangá. Hataraku Maou-sama nos foi indicado pelo gente finíssima Mizumoto (que inclusive tive a oportunidade de conhecer essa figura pessoalmente um dia desses num rolê aqui pelo Rio, vejam só), lá do Drop Hour, onde ele fez um texto sobre o anime de Beck, vão lá prestigiar o trabalho do cara! (e valeu pela indicação, porque se não fosse ela, eu dificilmente teria ido atrás de assistir esse anime por conta própria. Esse espírito é o que eu mais gosto na corrente de reviews desde a primeira edição, que participei quando eu ainda escrevia no felizmente finado Mangás Cult)

E para a nossa indicação, recebemos a missão de recomendar algo para o blog Dissidência Pop, de autoria do “Gato de Ulthar” e depois de muito pensarmos e de eu optar por não mandar algum anime de mecha qualquer (especialidade da casa aqui, por minha parte pelo menos) pra não ficar manjado demais que fui eu que indiquei, decidi indicar um mangá do grande Osamu Tezuka e, particularmente, um dos meus mangás favoritos do autor que é “BARBARA“, que é meio que uma peça obscura na biblioteca do cara que eu acho que mais pessoas deveriam ler. Fiquem ligados lá para ler o texto dele sobre!

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