Zambot 3 – Desconstrução da Figura do Super-Robô e seu lado sem glórias

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Se você era uma criança no Japão dos anos 70, havia uma  chance relativamente alta de que se você ligasse a sua TV ao chegar em casa depois da escola, provavelmente veria algum ser metálico gigantesco batendo em um monstro do mesmo tamanho: e aí começa a era das máq- digo, a era onde a indústria de animação japonesa percebeu a galinha dos ovos de ouro que era fazer séries com esses robôs enormes e saíam inúmeras obras do tipo ano após ano. Gundam só viria a surgir na virada pra década seguinte pra mudar para sempre este mercado dominado pelos “Super Robots”.

O esqueleto básico da maior parte das séries de “Super Robot” consiste em basicamente ter um robô gigantesco (pilotado por algum moleque ou um grupo deles, muitas vezes de personalidade esquentada e impulsiva) lutando contra inimigos dos mais variados tipos (na maioria das vezes, senão todas, extraterrestres) e assim salvando o dia e deixando pessoas felizes. Não estou dizendo que todas as séries eram exatamente iguais, mas quase todas partiam desta raíz em comum e as mais ousadas buscavam variá-la de alguma forma (ou não). Mas aí, em 1977, houve um que tomou um caminho bastante ousado pro seu tempo, e este é “Muteki Choujin Zambot 3” (“O Invencível Superhumano Zambot 3”, numa tradução bastante literal) que era encabeçado pela direção e escrita do relativamente novato Yoshiyuki Tomino, que 2 anos depois daria origem a Gundam.

“Desconstrução” é uma palavrinha que soa culta e faz as pessoas darem aquela piscadinha no que se refere a ficção num geral. Hoje já existem tantas obras desconstruindo coisas que a ideia de distorcer convenções de roteiro esperadas de um gênero já não é algo tão novo, mas é sempre bom ver que isso nos permite ver cada vez mais obras variadas em todas as mídias possíveis experimentando e brincando com estas ideias e conceitos. Eu não queria cair no pedantismo de dizer a frase que direi agora, mas isso não tem como ser evitado, então lá vai: Zambot 3 é uma desconstrução do típico anime de Super Robot dos anos 70 (e ainda é um dos primeiros a fazê-lo, isso se não for O primeiro).

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Como talvez pode ter observado pela imagem que abriu o texto e as que sucederão, Zambot 3 à primeira vista parece mais um anime de robô gigante daquela época tendo os elementos que citei anteriormente quando falei do que é Super Robot. A história fala sobre um Japão atacado por uma raça alienígena conhecida como Gaizok e, oposta a eles temos os personagens principais, a família Jin, que são descendentes de um planeta conhecido como Beal, que foi destruído à lá Krypton, e seus sobreviventes passaram a viver na Terra há algumas centenas de anos e agora, usam seus artefatos para defender a Terra dos invasores. Estes artefatos são uma nave gigantesca (que lembra um bocado a White Base do primeiro Gundam, porém com partes separáveis) e 3 máquinas que combinadas formam a possível máquina mais poderosa do mundo, o Zambot 3.

E então vem a grande graça da coisa, que eu imagino que tenha chocado uma criançada na época que isso passou. A essência da coisa gira em torno da premissa daquela ideia que talvez você já tenha visto alguém comentar de “Nossa, os Power Rangers destroem muita coisa quando lutam com os monstros, né?” e mostra esse lado da batalha, o lado mais humano. É uma versão mais ficção científica do “Terror da Guerra” que vemos em Gundam e vemos pessoas que perderam suas casas porque o robô caiu em cima dela no meio da luta ou pessoas que morreram incendiadas porque uma bola de fogo de um monstro atingiu ali por acidente ao invés do robozão e por aí vai.

Ao final das batalhas, nossos heróis dificilmente são recebidos de braços abertos pelo povo por terem “salvo o dia”, mas sim a pedradas pela destruição causada e por serem meio que “os responsáveis” de os Gaizok estarem atacando (quando na verdade os Gaizok querem acabar com tudo mesmo e eles na verdade só querem botar a culpa em alguém… como muitas vezes a gente faz mesmo no nosso dia-a-dia). E a cada episódio e monstro-da-semana vencido, uma sucessão de tragédias uma atrás da outra continua acontecendo numa intensidade cada vez maior, onde mortes que poderiam ser evitadas acontecem na casa das dezenas de milhares ao longo dos 23 episódios da série.

Porém, com um conceito ambicioso desses, vieram tropeços grandes. Zambot 3 foi um experimento arriscado e possui uma série de problemas graves em sua composição, principalmente no que concerne sua escrita e direção. Muitas ideias interessantes funcionam, mas também há um bocado de outras que acabam não funcionando narrativamente às vezes e o anime tem momentos um tanto conflitantes nesse aspecto. Acho que talvez o melhor exemplo disso seja o principal vilão da história e o seu papel na trama: Killer the Butcher.

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O contraste entre os vilões de cara engraçada porém com ideias nojentamente desumanas

A maior parte dos vilões e monstros da série são extremamente desinteressantes, e mesmo o principal deles não é lá algo que a gente anseia por ver enquanto assiste os episódios e o tom da escrita do anime oscila bastante entre os momentos que vemos a desgraça na Terra e os momentos que vemos a nave de Butcher e seus capangas, onde somos brindados com inúmeros momentos de alívio cômico que poderiam facilmente ser vistos em algum episódio de Scooby-Doo causando um contraste GRITANTE entre as cenas mais dramáticas, às vezes até mesmo quebrando o ritmo delas sem muita necessidade. Essas cenas muitas vezes parecem bastante deslocadas do “prato principal” mesmo fazendo parte do conjunto todo. Possivelmente um maneirismo típico de animes daquele tempo do gênero, mas… aqui não encaixa bem e não dá pra saber o quanto disso foi decisão deliberada de Tomino ou uma convenção que lhe foi imposta (já que há um longo histórico de brigas entre ele e a Sunrise por ter ideias originais impedidas de estarem no produto final em seus trabalhos futuros).

Não que os antagonistas sejam o único problema, claro. Por mais que o maior foco de Zambot 3 seja uma história sobre consequências, impotência e desconfiança, temos um enorme número de personagens que muitas vezes parecem bastante unidimensionais para quem se incomode com isso. Não que fosse muito comum personagens extremamente desenvolvidos numa série do meio dos anos 70, mas temos um elenco que não é lá dos mais gostáveis ou marcantes, tirando um personagem ou outro.

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O próprio protagonista, Kappei Jin, é provavelmente o mais próximo que eu senti de desejos de estrangular uma criança imaginária em anos vendo anime e eu gosto de como isso é algo que até reforça todo o conceito de desconstrução da história. Kappei é um moleque marrento (era a moda da época ter protagonistas assim em histórias com robôs gigantes), teimoso e que faz ou deixa de fazer muita coisa unicamente por birra, mas seus atos descuidados são refletidos na destruição causada pelas batalhas, em acidentes que expõem seus companheiros a graves riscos porque ele simplesmente não quis fazer a “docagem” com seus primos para formarem uma máquina maior que teria mais chance de destruir o inimigo antes que algo terrível acontecesse. Vários acidentes poderiam ser evitados se não fosse essa inconsequência, e o garoto vai aprendendo os horrores de estar no meio de uma guerra interplanetária e aí, a ficha de que aquela situação é na verdade uma merda vai caindo aos poucos e a coisa vai escalando mais ainda quando os inimigos alienígenas passam a sequestrar pessoas para transformá-las em bombas humanas (contém spoilers moderados no vídeo do link) e reinserí-las na sociedade logo depois para serem usadas como parte de um terrorismo capaz de causar desconfiança e segregação entre seus semelhantes, que passam a duvidar que alguém inserido em seu meio possa explodir a qualquer momento causando a morte de todos ali à sua volta.

O tema da figura de “criança soldado” é grotescamente pincelado aqui e é algo que viria a ser utilizado em diversas obras do gênero em décadas posteriores, assim como o tema de impotência da humanidade perante uma ameaça maior que poderá culminar numa tragédia inevitável.

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Zambot 3 é a forma virada do avesso dos Super Robots da época. Não foi um megasucesso comercial quanto um Mazinger Z da vida, mas foi inovador o bastante para deixar sua marca para que se lembrassem dele no futuro, levando o nome de Tomino, um homem cuja história de carreira e da mídia algumas vezes passam por caminhos em comum, aos holofotes. Zambot 3 não é glorioso, ele é sujo, cru, grotesco e ainda que suas falhas sejam tão feias quanto fraturas expostas, é um anime que não mede esforços em ser algo bruto. Talvez não seja o tipo de obra para quem procura algo objetivamente bom ou que vá mudar sua vida, mas assistí-lo é um exercício interessante o bastante para fazer esse pequeno tour pela história da animação valer a pena, ainda que esteja extremamente datado em vários aspectos. É um retrato nítido de um tempo que podemos observar para entender de onde essa mídia que tanto gostamos veio e como chegamos até aqui.

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