Aquarius e a fisicalidade da memória

aq1Aquarius (2016), novo filme de Kleber Mendonça Filho, acumulou polêmicas antes de enfim chegar aos cinemas brasileiros. Equipe protestando contra o impeachment durante o festival de Cannes; ameaça de boicote por parte dos discordantes políticos; classificação etária surpreendentemente elevada… agora tudo isso ficou para trás. Ou melhor, não ficou, pois é uma bagagem nada surpreendente para um filme político (apesar de não objetivamente) em plena época de polarização quase extrema da sociedade brasileira. Mas é bom deixar as polêmicas de lado ao falar da obra em si.

O filme anterior de Kleber, O Som ao Redor (2012), é uma obra-prima. Uma das coisas mais extraordinárias que o cinema produziu nos últimos anos. Seu grande mérito era trabalhar com uma noção de espaço (no caso um bairro, uma rua) na qual os eventos aparentemente simples do cotidiano se desdobravam de forma com que o cineasta pudesse extrair tensão dos pequenos detalhes. O Som ao Redor era, mais do que um suspense contemplativo repleto de um senso de tensão frio e calculado, um tratado político sobre a sociedade brasileira, representada naquele microcosmo.

Já Aquarius confirma a fixação do diretor pelo espaço, pelo significado físico das coisas e o que elas representam. Mas ao contrário de seu longa anterior, o novo trabalho do cineasta não utiliza a fisicalidade do ambiente para extrair a tensão das sutilezas do cotidiano; Aquarius tem uma abordagem muito mais lírica, metafórica e portanto menos crua.

Clara (Sônia Braga), viúva, sexagenária e aposentada, é a única moradora do edifício Aquarius relutante em vender seu apartamento para uma construtora interessada em erguer um novo prédio naquele espaço. É uma mulher forte e determinada completamente apegada àquele lugar.

Pois em Aquarius, o espaço não é onde ocorre a ação, mas sim uma representação física do próprio passado. As memórias são parte fundamental da formação pessoal, e encontram em cada pequeno objeto do ambiente um receptáculo para que se mantenham vivas.

aq2O contraste entre novo e antigo se faz presente em cada momento de Aquarius. É essencialmente um filme sobre a preservação do passado, sobre respeitar o antigo em meio a um processo de modernização inevitável – é a tendência da sociedade, afinal. Clara tem livros e discos de vinil, além de um enorme quadro do extraordinário Barry Lyndon (Kubrick, 1975) em seu apartamento. Em sua casa, a arte existe não apenas como arte, mas também como algo físico, palpável, assim como as memórias que preenchem cada pedaço do apartamento onde criou seus filhos e viveu por décadas. É sintomático que em dado momento da projeção, um personagem fotografe, com seu celular, uma antiga fotografia de infância. É um instante que sintetiza com precisão o que é Aquarius: um manifesto pela preservação dos momentos, não em detrimento do que é moderno, mas por respeito à própria existência.

O que Clara não sabe, porém, é que talvez seja ela mesma parte daquele ambiente. O apartamento é o palco em que ocorreram alguns dos mais importantes momentos de sua vida, é a representação física perfeita da memória da personagem, mas talvez não haja fisicalidade mais perfeita para as lembranças do que seu próprio dono, ou, sendo mais claro, do que o corpo daquele que passou por tudo aquilo.

As lembranças que o espaço guarda só existem por serem projetadas ali pelas próprias pessoas. O lugar é um museu individual da alma, como é também o corpo. Os cabelos crescendo, a marca de uma cirurgia, os sinais de envelhecimento na pele, tudo é tão físico e ainda assim tão representativo – talvez mais – quanto o ambiente. Clara, por si só, é a representação perfeita de tudo pelo que passou, pois são esses eventos os fundamentais para definir quem ela é. E quem é Clara, afinal?  

É uma personagem brilhantemente construída. Não apenas o roteiro é preciso em compor a personalidade forte, determinada e comoventemente humana da protagonista, como a direção de Kleber opera de forma perfeita ao optar por um ritmo bastante lento que permite ao espectador conhecer Clara e sua família aos poucos. É notável como o filme consegue apresentar diversas informações a seu respeito sem soar didático ou expositivo.

aq3Mas é difícil imaginar Clara sendo interpretada por qualquer outra pessoa. Sônia Braga entrega aqui uma performance extraordinária. Ela é perfeita para o papel. É um ícone da cultura brasileira – e Aquarius é um filme muito brasileiro – e mesmo na casa dos 60 anos ostenta não apenas uma beleza estonteante, como também um brilho próprio e uma jovialidade assombrosos. Sua interpretação é muito natural, sem grandes exageros dramáticos, e perfeitamente convincente nos pequenos detalhes (o olhar, o tom da voz). É simplesmente impossível tirar os olhos dessa figura luminosa e magnética que é Sônia Braga. Certamente uma das grandes atuações do ano.

Talvez o grande deslize de Aquarius – provavelmente o único – seja seu terceiro ato. A política e as questões sociais sempre se fazem presentes ao longo do filme, mesmo que discretamente – não em primeiro plano, mas como um subtexto. E no terceiro ato (ou terceiro capítulo), Kleber mira em uma construção de tensão mais direta (remetendo um pouco a O Som ao Redor), que acaba fugindo do tom lírico que era o grande trunfo de sua obra. Ele abandona em parte a questão mais individual para tratar de uma trama, se é possível dizer dessa forma, o que compromete um pouco o ritmo do longa. Praticamente tudo o que é abordado no terceiro ato poderia estar espalhado ao longo do filme. Eram assuntos que poderiam surgir gradualmente e nos pequenos detalhes, mas que são despejados todos de uma vez – o que acaba por acentuar outro pequeno fator negativo, um possível maniqueísmo. É quase inevitável que um filme absolutamente fascinado e apaixonado por sua protagonista (ou seja: que adota sua visão) tendesse um pouco ao maniqueísmo. É algo natural e que não gera muito incômodo, até o momento em que o excelente diálogo entre Clara e Diego (Humberto Carrão) toma rumos convenientes demais para vilanizar o rapaz (o que não era necessário).

Mas são detalhes pequenos perto da grandiosidade de Aquarius. Um filme que opera sob uma lógica irretocável de buscar a palpabilidade das memórias e do passado, de preservar a existência em outros tempos e a importância dos sentimentos. Clara é uma personagem extraordinária, um ser humano absolutamente fascinante. Talvez não exista melhor representação da passagem de tempo e das memórias quanto seu corpo. Mesmo assim, Clara é Aquarius, ela está em cada pequeno detalhe, em cada fotografia, em cada disco e em cada móvel. E agora também imortalizada neste lindo filme.

 

Anúncios

4 comentários sobre “Aquarius e a fisicalidade da memória

  1. Pingback: Elle e a particularização das experiências | Missão Ficção
  2. Pingback: Os 15 melhores filmes de 2016 | Missão Ficção
  3. Eu curti esse filme. E eu não sabia que se passava no nordeste, saindo do eixo SP-RJ, o que me fez gostar mais ainda.
    Como apontado por você, ele tem um ritmo muito bom e um final um pouco acelerado, que tira a sutileza da ideia de rivalidade entre passado X progresso, nacional X estrangeiro, esquerda X direita, e etc.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s