Boyhood e a inexorabilidade do tempo

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Não saberia dizer por que valeria a pena lutar, qual o motivo que o decidia a recorrer ao que havia de mais profundo em seu ser e a tudo que havia herdado das personalidades que atravessaram seu caminho…
Estendeu os braços para o céu cristalino e radiante.
“Eu me conheço”, gritou, “mas isso é tudo —”.
– Este Lado do Paraíso, F. Scott Fitzgerald

Revisitando Boyhood: Da Infância à Juventude (2014) cerca de dois anos após seu lançamento, a impressão que fica é a mesma que tive ao fim daquela memorável sessão no Festival do Rio: a de estar diante de uma das obras essenciais do cinema nesta década.

A juventude é um tema muito delicado. É difícil retratar certas fases da vida com a precisão de alguns grandes artistas como John Hughes e François Truffaut, cujos filmes dialogam bastante com Boyhood, de diferentes formas. Richard Linklater, um dos mais sensíveis cineastas das últimas décadas, já mostrava em obras como Slacker (1991) e especialmente Jovens, Loucos e Rebeldes (Dazed and Confused, 1993) certa influência de Hughes especialmente na forma de retratar a juventude. Boyhood foi feito sob um processo interessantíssimo: a equipe filmava por alguns dias anualmente, um trabalho que durou doze anos (o tempo total de filmagem foi de aproximadamente 40 dias). Dessa forma, o realizador foi capaz de retratar o crescimento de seu elenco da maneira mais realista possível. Truffaut fez algo vagamente semelhante na pentalogia que aborda o crescimento de seu alter ego Antoine Doinel, interpretado por Jean-Pierre Léaud do primeiro (Os Incompreendidos, de 1959, quando tinha cerca de 15 anos) ao último (O Amor em Fuga, de 1979, com aproximadamente 35 anos). É evidente que o processo adotado pelo francês é muito diferente, tendo em mente que ele não registrou o crescimento de seu protagonista continuamente (o fez de forma elíptica e portanto menos complexa), mas a lógica sob a qual Truffaut e Linklater operam é praticamente a mesma – e seus trabalhos têm muito em comum especialmente no que diz respeito aos sentimentos que despertam no público.

Boyhood tem um grupo de detratores que, seja por má vontade ou senso comum, adora se apoiar em frases prontas como “o filme não tem história” ao invés de argumentar consistentemente ou expor sua opinião de forma mais pessoal e sem depender de muletas frágeis como essa. É uma conclusão rasa que, se analisada por outra ótica, pode dizer muito a respeito da obra: Boyhood não é um “filme de trama”, não depende de um roteiro construído de forma a contar uma história com início, meio e fim, reviravoltas e grandes momentos dramáticos. É uma obra de fluxo, não no sentido usado para definir filmes mais experimentais, mas sim no que diz respeito ao fluxo temporal em si: pois aqui o tempo é tão protagonista quanto o próprio Mason (Ellar Coltrane) – aliás, é o único personagem presente em todas as cenas. Sendo objetivo (e simplista): Boyhood conta a história de um garoto e narra seu amadurecimento ao longo de aproximadamente doze anos.

2O tempo é um tema recorrente na carreira de Linklater. Sua excepcional trilogia do Antes (Antes do Amanhecer, de 1995; Antes do Pôr-do-Sol, de 2004; e Antes da Meia Noite, de 2013) tinha um espaçamento de nove anos não apenas entre os lançamentos dos filmes, mas também na trama protagonizada por Ethan Hawke e Julie Delpy. Boyhood poderia sim ser filmado de uma vez, substituindo as crianças do início da trama por atores mais velhos e utilizando a maquiagem para envelhecer ou rejuvenescer o elenco adulto, mas o efeito não seria o mesmo. Ver aquelas pessoas envelhecendo em cena sem truques torna a experiência mais real: ajuda na identificação com os personagens e reforça a ideia de humanidade de cada um, algo fundamental para o filme. Pois mais do que constituir um caráter universal e apresentar de forma crível e realista o processo de amadurecimento dos personagens, é fundamental que eles soem humanos, com seus defeitos e qualidades sempre expostos junto à sua vulnerabilidade perante o tempo.

Afinal, em Boyhood o tempo opera assim como na realidade: surte nas crianças um efeito mais evidente de amadurecimento (tanto psicológico quanto físico) por livrá-las de algumas fraquezas óbvias e representar um complexo processo de crescimento segundo o qual elas se reafirmam como seres humanos e moldam uma personalidade, adquirindo novas qualidades mas também outras preocupações. Já nos adultos, o efeito provocado é ainda mais curioso, pois põe em cheque a personalidade estruturada anteriormente (algo fora da diegese), os fazendo refletir sobre tudo o que já fora vivido sob uma ótica mais madura porém igualmente despreparada, como se em qualquer etapa da vida o ser humano estivesse exposto a diversas novas experiências e sensações, sempre capaz de mudar ainda mais. É uma espécie de ciclo: os pais ainda jovens amadurecem e criam filhos que passarão por um processo semelhante guiado por caminhos variáveis. O tempo é o único personagem inexorável na obra de Linklater.

As mudanças físicas seriam inúteis se o texto não as acompanhasse em retratar também o fator psicológico dos personagens. Felizmente, Linklater é um roteirista brilhante, capaz de evidenciar de diversas formas o processo de crescimento ao qual todos são submetidos. Por ser um filme dependente de diálogos, Boyhood se mostra ainda mais consistente por apresentar diversas conversas simples e aparentemente banais escritas por um mestre do ofício (vide a trilogia do Antes). São diálogos críveis que não apenas caracterizam perfeitamente os personagens, como também se mostram capazes de extrair certa poesia do cotidiano, compondo alguns pequenos momentos de toda uma vida. Conversas singelas que se perdem no tempo. É essencial ressaltar o momento em que Mason pergunta ao seu pai (Ethan Hawke) sobre magia. Nele se encontra toda a essência de Boyhood: o encanto do cotidiano, a magia das pequenas coisas e a grandeza dos momentos mais singelos.

É impossível não se apegar ao pequeno Mason e não sentir certo orgulho ao vê-lo passando por diversas fases da vida comuns a quase todos. É um personagem perfeitamente identificável construído de forma precisa pelo roteiro de Linklater e a atuação de Ellar Coltrane, sempre carismático, sempre humano. É alguém sem uma personalidade preconcebida, que vai se descobrindo diante da câmera e aos poucos agrega a si características herdadas de todos com quem conviveu ao longo dos anos, que se juntam a ele nessa jornada por meio de um filtro próprio e inconsciente.

3A família provavelmente é um dos fatores mais relevantes na construção de uma personalidade própria e não poderia deixar de ser um núcleo importantíssimo para o filme. Pois Mason (e o tempo) é o protagonista, mas não é o único que cresce diante das câmeras. Sua irmã Samantha (Lorelei Linklater, filha do realizador, o que imediatamente nos faz pensar no carinho com que o cineasta concebeu a obra) sofre um processo semelhante ao de Mason, mas acompanhado à distância: por ser mais velha do que o protagonista, presenciar qualquer experiência da garota em detalhes seria uma espécie de spoiler para o espectador. Dessa forma, o roteiro consegue deixar evidente apenas o que há de mais fundamental em sua composição, abordando-a de forma esporádica. Sua relação com o irmão é tratada de forma sutil mas ainda assim crível o suficiente; e as mudanças sofridas sempre se fazem presentes, seja de forma clara ou delicada.

E os pais (divorciados desde o início do longa) obviamente são fundamentais na jornada de Mason. Ethan Hawke, colaborador habitual de Linklater, dá vida a um homem brincalhão e inconsequente que se tornou pai ainda muito jovem. É um personagem que claramente passa uma aura imatura, evidente especialmente no começo do filme, quando é sabido que passou um grande período de tempo sem ver os filhos. Hawke protagoniza um processo bastante semelhante ao realizado na trilogia do Antes, mas aqui assume uma aura paternal bastante característica. É um homem imaturo que cometeu erros não por ser uma má pessoa, mas simplesmente por ser humano, sempre propenso a tropeços. Linklater não passa a mão na cabeça de seus personagens pois sabe que não é necessário crucificá-los ou exaltá-los. Se o pai se isolou de seus filhos por algum tempo ou cometeu quaisquer outros erros em sua trajetória, é porque não se sentia preparado para lidar com essa responsabilidade e não se mostrava pronto para isso. Uma atitude claramente errada que não merece contornos dramáticos excessivos ou julgamento moral. É apenas um fato. E o personagem de Ethan Hawke amadurece muito ao longo da trama: o contraste entre o pai no início e ao final do filme é dos mais impressionantes. Ele se mostra capaz de manter sua personalidade divertida e brincalhona ao mesmo tempo em que amadurece, se tornando uma figura cada vez mais presente na vida de seus filhos e ganhando uma oportunidade de recomeçar um ciclo da forma correta.

Já Patricia Arquette, ganhadora do Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel, defende com empenho descomunal sua personagem. Olivia é uma mulher extremamente determinada e aguerrida que, mesmo tendo de criar dois filhos praticamente sozinha (por ser divorciada, ela é quem passa mais tempo com Mason e Samantha), ainda se empenha para correr em busca de melhores condições para si e sua família, frequentando a faculdade de psicologia. Patricia encarna Olivia como uma mulher forte de olhar obstinado, que apesar de todas as desventuras trilhadas ao longo do filme, ainda tem forças para seguir em frente. Há um momento lindo próximo do fim da projeção em que sua personagem surge como a representação perfeita do final de um ciclo. É comovente a forma como o olhar determinado ostentado durante todo o filme, mesmo nos momentos mais difíceis, dá lugar a um choro emotivo ao constatar que o tempo ainda é protagonista mesmo na vida dos mais velhos. Esse momento de vulnerabilidade da personagem não é um sinal de fraqueza, mas sim de humanidade e sobretudo força: pois humano algum, em qualquer condição, foi capaz de tirar a expressão obstinada do rosto de Olivia. Apenas o tempo conseguiu, o que denota não uma fraqueza, mas um amadurecimento, o começo de uma nova etapa.

Há quem não goste de Boyhood, mas não são todos os detratores que se mostram dispostos a argumentar seriamente ou simplesmente deixar de lado frases prontas. Felizmente, há quem apresente algumas queixas perfeitamente cabíveis em relação ao roteiro. Há, por exemplo, uma situação envolvendo os padrastos de Mason que se repete ao longo do filme. Da primeira vez, é natural que ocorra um estranhamento por ser um evento marcante capaz de influenciar em muito a narrativa de uma obra que não se mostra muito preocupada em apenas contar uma história. Quando o evento se repete, ocorre um estranhamento ainda maior. É uma reclamação perfeitamente compreensível, mas é também algo possível fora da diegese. Em alguns pontos de Boyhood, a sensação que fica é a de que Linklater explora a coincidência como se dissesse “pode ser improvável… mas é impossível?”.

É natural que personagens entrem e saiam sem terem muito espaço em cena ou que alguns pequenos momentos causem estranhamento justamente por sua pequenez. Mas a vida é assim: todos os dias diversas pessoas interagem entre si e muitas nunca mais se reencontrarão. Os pequenos momentos são apenas uma forma de sugerir algumas coisas a respeito da personalidade de alguém ou simplesmente chamar a atenção para algo que pode ocorrer, mas que não necessariamente será abordado em detalhes – justamente por isso é curioso que Linklater evite em parte alguns clichês de filmes coming of age, não tratando em detalhes temas como bullying, que é apenas sugerido; ou mesmo evitando mostrar momentos marcantes como o primeiro beijo ou a formatura, preferindo tratar do antes e depois, de tudo o que envolve tais momentos ao longo dos anos. Há um personagem que surge em dois momentos distintos do filme, e é natural que sua reaparição cause estranhamento, soe como uma coincidência exagerada, um recurso dramático estranho ou mesmo uma mensagem meritocrática (que certamente não é o que o diretor tinha em mente). Mas sua reaparição é apenas uma liberdade que Linklater toma em função de uma reflexão simples e fundamental ao filme: a influência que as pessoas exercem na vida de outrem, mesmo que elas mesmas não percebam. Ou como os pequenos momentos são relativos: insignificantes para uns, mas possivelmente fundamentais na vida de outros.

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Difícil não lembrar de Antes do Amanhecer.

Linklater filma a vida com uma paixão tocante. Atenta para os pequenos detalhes e as pessoas que vão e vem; mas sobretudo aponta seu olhar para dentro de cada um. A forma como o tempo se manifesta na figura de Mason e cia é muito bem pensada. A passagem de tempo fica evidente graças a referências culturais (os filmes sobre os quais os personagens falam, por exemplo) ou mesmo por conta da trilha sonora, mas especialmente pela forma como afeta a aparência do elenco. Justamente por isso a montagem é tão brilhante. O tempo passa e os anos fluem com uma naturalidade assombrosa, sempre deixando claro algo óbvio em qualquer narrativa linear, mas extremamente significativo em Boyhood: a cena anterior é o passado. No filme de Linklater essa obviedade ganha um simbolismo maior por ser uma obra estruturada de forma elíptica, em que as cenas que se sucedem não necessariamente são continuações imediatas umas das outras, mas sim sutis time-skips de dias, meses e anos – o que é sempre perfeitamente compreensível para o público.

Se a montagem em si é um trabalho genial, isso se deve não a qualquer exibicionismo estético mas sim à sua funcionalidade e a maneira orgânica como opera na narrativa. O mesmo pode ser dito de praticamente qualquer aspecto técnico de Boyhood: a fotografia, por exemplo, não busca forjar planos grandiosos por meio de momentos de beleza gratuitos, movimentos de câmera mirabolantes ou simbolismos artificiais; ela opera seguindo uma lógica clara de retratar aquele ambiente da forma mais natural possível, sem apelar para um realismo cru ou uma glamourização da própria realidade.

Boyhood não tem grandes momentos, ao menos não no sentido artificial de uma grandiosidade claramente orquestrada por um cineasta. O filme de Linklater busca a beleza dos pequenos instantes e os eleva até que sejam perceptíveis, ainda assim de forma sutil, para o público. Como se o diretor quisesse atentar o espectador sobre os detalhes incríveis que as pessoas deixam passar no dia a dia.

Já próximo ao final do filme, existe o que talvez seja o grande momento da projeção: Mason, um jovem adulto, dirigindo pela estrada. Mais do que a metáfora óbvia da estrada como representação do futuro, a cena tem uma carga emocional gigantesca, muito por conta de uma escolha musical perfeita (“Hero”, da banda Family of the Year, é uma espécie de música-símbolo do filme). É um momento sem diálogos e que não necessariamente acrescentaria algo de muito relevante em uma narrativa qualquer, mas que aqui se torna uma das cenas mais tocantes pelo turbilhão de sentimentos que provoca.

Quando Olivia, mãe de Mason, surge em cena aos prantos, é impossível não se identificar. Para ela aquilo representa o fim de um ciclo. Para o pai, foi como um aprendizado; e agora ele tem a oportunidade de corrigir alguns de seus erros (e cometer vários outros) em um novo ciclo. Olivia fica desesperada não apenas pelo fim de um ciclo, mas também pelo começo de outro.

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Difícil não lembrar de Antes do Amanhecer. ²

E a sensação de que Mason está prestes a entrar em uma nova etapa é o que predomina na cena final, perfeita, que encerra o filme da única forma possível: um corte brusco em um pequeno momento possivelmente determinante em um futuro próximo. Um futuro que o público não virá a conhecer, pois vida que segue.

O sentimento que predomina ao fim de Boyhood é único. É impossível não sentir orgulho de alguém que cresceu diante dos seus olhos, que passou por diversos obstáculos da vida e que agora adentra uma nova etapa. Impossível não se identificar com alguém que, assim como eu ou você, é um ser humano, e que passou por diversas experiências comuns a quase qualquer um. Assim como também é impossível não ficar triste por ter de deixá-lo ir e seguir sua vida, mesmo que distante. A sensação que fica é a de que não haveria incômodo algum se Linklater seguisse Mason até sua velhice.

Mas existem coisas que devemos descobrir por nós mesmos, afinal.

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