A Frente Fria Que a Chuva Traz e a alienação da elite brasileira

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Em filmes como O Anjo Exterminador (1962) e O Discreto Charme da Burguesia (1972), Buñuel tece críticas mordazes à elite econômica (a tal burguesia) por meio de um tom absurdista e mesmo cômico. Já Larry Clark (Kids, de 1995) e Harmony Korine (Spring Breakers, de 2012) propunham um olhar ácido sobre a tendência autodestrutiva de uma juventude sem rumo. É na tangente desses dois mundos que se encontra A Frente Fria Que a Chuva Traz (2015, mas lançado comercialmente em 2016), de Neville d’Almeida (adaptado de uma peça de Mário Bortolotto, presente no elenco). A premissa é bastante simples: um grupo de jovens de classe média alta que aluga uma laje no morro do Vidigal, Rio de Janeiro, para fazer suas festas repletas de sexo, drogas e “ostentação”.

A juventude é o emissário perfeito para a mensagem social da obra. Pois Neville se preocupa, claro, em retratar o aspecto autodestrutivo e inconsequente de uma geração que perdeu seus valores, mas alia isso à necessidade de escancarar a podridão da elite alienada do país. É irônico que um grupo de jovens ricos só pise em uma comunidade de baixa renda para participar de festas (com direito a segurança particular, claro).

Neville opera sob uma lógica própria muito bem estabelecida: um sistema fílmico de artificialidade que preza pelo exagero. Para retratar uma realidade assustadora de alienação e inconsequência que beira (inconscientemente) o niilismo, o cineasta aposta em um tom iconoclástico (lembremos que Neville é oriundo do cinema marginal) que foge veementemente ao moralismo por sua abordagem histérica: tudo em A Frente Fria Que a Chuva Traz é (propositalmente) falso.

A cena inicial do clássico Veludo Azul (1986), de David Lynch, em que o cineasta apresenta um ambiente ensolarado e feliz insuportavelmente artificial apenas para desconstruí-lo no instante seguinte, expondo (quase literalmente) a podridão do american way of life, é um bom comparativo. A diferença é que Neville sequer se preocupa em forjar um ambiente aparentemente positivo: sua proposta é, desde o princípio, elevar ao máximo tudo o que há de ruim. O exagero em Frente Fria desempenha um papel quase paradoxal de expor uma realidade assustadora de forma hiperbólica mas ainda assim perturbadoramente crível. Não há forma melhor de escancarar uma condição real de alienação senão por meio da afetação máxima. Hiperbolizar tudo o que há de ruim, todo o discurso preconceituoso e desinformado, todos os maneirismos, para incomodar o espectador, mas não apenas isso, atentar para um fato: o que há de mais artificial no filme é uma realidade. Surge aí mais do que uma comédia absurdista em que o humor se manifesta como um riso nervoso perante situações constrangedoras (não para os personagens, mas para o público); surge aí o filme trash do ano, em que a falsidade vista em cena nada mais é do que uma camada sobre uma realidade ainda mais artificial e deplorável.

frente2A galeria de personagens de Frente Fria é extremamente curiosa e repleta de alegorias bizarras. Os jovens são assustadoramente fúteis e alienados, todos interpretados com excessos propositais que tornam as situações expostas ainda mais absurdas (e tragicamente cômicas, ou comicamente trágicas); e há espaço para a figura bisonha de um cantor-ostentação (Michel Melamed, impagável) que renova o acervo hiperbólico da trama.

Há, porém, um ponto de contraste essencial presente no que talvez seja a protagonista do filme. Bruna Linzmeyer entrega uma das performances mais devastadoras (e deliciosamente exageradas) do ano na pele de Amsterdam, a única jovem do grupo que não pertence à elite. Ela anda com aqueles jovens simplesmente para obter drogas – aliás, ela tem de se prostituir para manter seus vícios. Amsterdam é também uma figura hiperbólica, mas representa um contraste fundamental desde seus primeiros segundos em cena, quando fica evidente que há algo de diferente nela apenas pelo seu visual. Enquanto as outras garotas surgem como representações mais óbvias e tradicionais de beleza, com maquiagem e corpos expostos ao sol, Amsterdam carrega consigo uma atmosfera sombria para aquele ambiente ensolarado, algo visível em sua maquiagem borrada ou na roupa escura.

É Amsterdam quem escancara toda a podridão e hipocrisia daquele ambiente; é quem, de certa forma, empresta sua visão ao espectador, vagando por aquele ambiente e permitindo que o público compreenda melhor o absurdo daquele universo estranhamente real – e por ser uma espécie de norte para o público, é sempre bom lembrar que Amsterdam está longe de ser um exemplo de moralidade. Ninguém é, afinal.

Frente Fria é um “filme de roteiro” que se sai muito bem em sustentar sua narrativa por meio de diálogos (praticamente sem alternância de ambiente). A linguagem dos personagens é um fator importante: repleta de gírias e palavrões e portanto perfeitamente crível – e até nisso o texto consegue exagerar, emendando sequências de palavras de baixo calão muito bem pensadas. É uma obra que se encontra distante da perfeição. O roteiro tem seus problemas, alguns bem evidentes, como diálogos que partem de pontos ligeiramente expositivos; ou um acontecimento em especial, que soa completamente gratuito simplesmente por não contribuir em quase nada para a trama. Mas um dos méritos do filme é ter diversas imperfeições que jogam a seu favor: A Frente Fria Que a Chuva Traz pode ser encarado praticamente como um filme trash, o que faz com que pequenos defeitos do texto (ou mesmo da montagem) contribuam para o sistema de artificialidade proposto por Neville D’Almeida. Um sistema que já fica evidente logo na primeira cena, ao som de um bizarro mashup de “Summer” (Calvin Harris) e “Sou Foda” (Avassaladores).

Da laje se vê a bela paisagem da cidade. E continua o ciclo: a menina pobre que vai para a Avenida Atlântica (na orla da zona sul carioca, região nobre) se prostituir; os jovens ricos que vão para o morro se divertir.

A Frente Fria Que a Chuva Traz é um dos filmes mais impressionantes do ano. É o típico caso de ame ou odeie.

 

 

 

 

 

 

 

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Um comentário sobre “A Frente Fria Que a Chuva Traz e a alienação da elite brasileira

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