The Killing Joke (2016) e um pouco sobre adaptações

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[Esse texto contém spoilers relativamente leves do filme. Nada que seja o bastante pra “estragar” a sua experiência, eu acho, mas em todo caso fica o aviso]

The Killing Joke (mais conhecida aqui no Brasil pelo título “A Piada Mortal”) , escrita por Alan Moore em 1988, é facilmente uma das histórias mais aclamadas envolvendo o Batman e seu universo de personagens e até hoje suas influências na mídia são perceptíveis. Eu particularmente não sou nem de longe um grande fã do Homem-Morcego mas tiro o chapéu para a solidez dessa breve historinha em arte sequencial e fiquei bem empolgado quando anunciaram que a equipe por trás do desenho do Batman dos anos 90 (e consequentemente, do excelente filme animado de 1993 “Batman: Mask of the Phantasm”). Enfim, após alguns meses de espera após o seu anúncio, o filme saiu e podemos ver o resultado.

Bom, após assistir o filme eu posso dizer isso: The Killing Joke é um esboço do que poderia ser um ótimo filme, porém tem um tumor enorme saindo pus grudado nele e é impossível não reparar nesse detalhe. E dado esse resultado eu quero aproveitar a ocasião pra falar um pouquinho sobre a arte de adaptar coisas de uma mídia para a outra preservando ou dando novos ares à linguagem do material original tirando proveito da nova mídia.

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Mas antes disso, permitam-me tirar o elefante branco da sala começando a falar dos 30 minutos iniciais do filme (que tem 76 minutos de duração):

O filme começa com uma breve narração meio “Era uma vez…” por parte de Barbara Gordon, a famigerada Batgirl, dando um pouquinho de background ao personagem dela e à situação atual na qual o morcegão se encontra. Ao longo desse trajeto da primeira metade do filme, vemos várias coisas, como a Barbara agindo impulsivamente por conta própria e tendo lá seus dilemas internos quando não está exercendo o ofício de heroína. Porém o problema começa a se desenrolar enquanto a história vira uma briguinha de pontos de vista entre ela e o próprio Batman, e tudo acaba virando um tremendo dramalhão fora de lugar digno de uma novela das 9 escrita nas coxas (a coisa escala num nível que chega a rolar até mesmo uma cena de sexo entre os dois da maneira mais forçada e tonta possível).

DR

Sim, isso é o que temos durante mais ou menos uns 30 minutos de filme.

Inicialmente não dá pra saber o que diabos tentaram fazer nesses trechos do filme (eu tenho minhas hipóteses mas vou chegar lá ainda). Não acho que convém ao caso entrar em muitos detalhes além disso e de dizer que todo esse primeiro ato parece uma coisa completamente deslocada do que é The Killing Joke e que temos uma historinha com bandidos bem meia-boca e nada interessantes e tudo é escrito de maneira bem bagunçada. É quase como se isso tudo fosse um mini-filme em anexo que conta com um arco de desenvolvimento de personagem envolvendo a Batgirl. A ideia não é ruim, mas se a proposta era adaptar a história mais famosa do Coringa, isso é algo que não tem muita lógica e parece meramente um grande “ei, não podemos fazer um filme de só 40 minutos de duração. Coloca mais umas coisas aí só pra dar tempo de a gente vender isso como filme” (aliás, vale lembrar também que a história original dos quadrinhos tem apenas um pouco mais de 50 páginas. Não teria como fazer algo BOM muito longo baseado nela de fato). Não dá pra saber se foi uma escolha deliberada de direção ou algo pedido por ordens superiores só para a animação poder ser encaixada num “formato de filme” (ou se foi toda uma construção narrativa para dar um maior “valor de choque” a algo que acontece na segunda metade… o que é o mais provável, mas simplesmente NÃO FUNCIONA) mas fato é que esse é o tumor que eu citei no começo do texto. Tirado isso do caminho, agora vamos à parte que interessa, que é The Killing Joke, de fato.

Flashback

Os Flashbacks mostrando as origens do Coringa, presentes no quadrinho, também estão no filme.

Agora, em todo o resto que sobrou do filme, temos aqui uma adaptação surpreendentemente bem fiel ao material original, com leves mudanças quase imperceptíveis que em nada afetam a trama principal e que poderiam passar facilmente despercebidas mesmo por quem já leu a história de Alan Moore, porém… Fidelidade ao material original não é o bastante para se fazer uma boa adaptação, e nesse quesito The Killing Joke se mostra preguiçoso e extremamente cru em vários momentos (nem vou entrar no mérito de analisar a história de The Killing Joke aqui neste texto porque já é uma história tão famosa que eu estaria apenas chovendo no molhado trazendo o que acho dela aqui. O Bruto da história original, que é muito boa, ainda está aqui, e pelo menos nisso, dá pra tirar algo de bom da experiência).

Quando se pega uma obra já concebida em uma mídia e vamos passá-la para outra, o que pode ser feito é aproveitar todos os artifícios que essa nova mídia possui que não poderia ser possível na original e adaptar a linguagem anterior para a nova. Um livro não tem a mesma linguagem narrativa que um jogo de videogame, ou uma história em quadrinhos, um filme, uma peça de teatro e por aí vai, por exemplo. São mídias diferentes, portanto, apresentam formas de linguagem e de comunicar sua narrativa ao consumidor de maneiras distintas. Um filme pode adaptar um livro tirando vantagem de poder agora usar efeitos especiais, ângulos de câmera e coisas do tipo, não presentes na mídia original.

Hall

Voltando ao caso do filme em questão, mesmo com a fidelidade ao material original da segunda metade, o estrago já estava feito por causa da encheção de linguiça de antes. The Killing Joke consegue ser até razoavelmente interessante e sólido isoladamente, mas como adaptação deixa bastante a desejar por não aproveitar bem os recursos da nova mídia em que está, e isso pode ser visto em coisas meio bobas como a animação extremamente inconsistente que oscila entre “olha até que tá bem animado”, “meh” e “meu deus do céu, parece que eu tô vendo um Power Point animado” e a direção de arte meio pobre e sem vida de vários personagens, que não é algo extremamente ruim (talvez até um pouquinho distante disso, mas não muito), mas é bem mediano num geral. Fica a impressão de que faltou algo que desse o mesmo encanto que outras animações do Batman já trouxeram vários anos atrás. Era preferível o filme ter apenas uns 40 minutos de duração com uma animação e direção de arte mais caprichados (aspectos que provavelmente foram comprometidos por questões de orçamento, mas vai saber se foi isso mesmo…) que interessa do que termos algo com uma hora e pouco de duração com aparência meia-boca.

Podemos concluir que se The Killing Joke fosse só esse pedaço dissertado ainda pouco, seria um filme razoavelmente bom e interessante apesar dos problemas, mas a primeira metade faz todo o conjunto da obra ser algo entre medíocre a ”ok”. Eu posso ter parecido meio duro com ele nesta análise e ter feito a coisa parecer pior do que é mas preciso ser justo com ele. Não é tão ruim assim, mas só podemos lamentar o que poderia ter sido pelo potencial que foi desperdiçado no que poderia ter sido uma das melhores animações com o Batman até aqui (e é desleal fazer uma análise cobrando o que eu queria que ele fosse ao invés de me focar em analisar o que ele é de fato, e este último já foi feito).

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No fim, acho que a melhor dica que posso dar é: dê uma lida no quadrinho de qualquer forma caso ainda não tenha lido. É tão curtinho que não irá tomar muito tempo.

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2 comentários sobre “The Killing Joke (2016) e um pouco sobre adaptações

  1. Ótima análise, resume bem o que é o filme: não é um atentado mas qualquer um pode ler a hq em menos tempo e sair ganhando.
    Quanto às intenções de inventarem esse filler, existem complicações em entregar curtas/médias metragens comercialmente. É pouco tempo prum entretenimento só, e se for tentar vender mídia física ou ingresso de exibição a chance de reclamar do preço é quase certa. Mas podem ter pensado qualquer tipo de outro motivo pra isso tbm.
    O que é mais trágico na minha opinião foi inventarem um grande arco pra introduzir a Batgirl e desenvolver uma relação dela com o Batman enquanto que A Piada Mortal de fato nunca chegou perto de ser sobre ela (teve até a discussão toda dela ser só um plot device e etc). Ao invés deles tentarem colocar uma introdução que engrenasse na história ficou algo bem solto e com cara genérica.

    • Sobre o Filler, é bem isso que eu penso também. Acho que em toda mídia atualmente, principalmente os videogames pelo que posso observar, tem rolado essa discussão de “o produto tem que durar X horas pra valer o preço de compra/ingresso”, independente da qualidade intríseca da coisa. É por isso que vemos tantos filmes e jogos (só ver o que aconteceu com coisas como Halo 5 e The Order 1886, que foram criticados por serem curtos demais para custarem 60 dólares… sendo que se fossem ainda mais longos do que são, seriam ainda piores, por exemplo) longos além do necessário saindo mais pra “fazer o dinheiro do consumidor render” e essa mentalidade compromete a parte criativa e artística desses produtos todos. E podem ter usado isso como desculpa pra fazer o tal arco da Batgirl justamente pra dar o shock value e fazer com que nos importemos mais lá pra depois mas como você e eu já dissemos, de fato, não funciona nem de longe. O quadrinho não tem esse mini arco e ali funciona de maneira bem mais efetiva porque narrativamente foi melhor construído para aquela linguagem enquanto o filme parece mais um simplório ctrl+c/ctrl+v do material original. O produto final acaba virando essa coisa com partes extremamente deslocadas que não dialogam bem entre si.

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