A Moon Shaped Pool – Sobre aprender a perder

Cover

A Moon Shaped Pool é o melhor disco de separação desde Blood on the Tracks.

Não falo isso tentando comparar, Blood on the Tracks ainda continua o melhor disco de separação de todos os tempos, a frustração em Tangled up in Blue e Shelter from the Storm, a tristeza em You’ll Gonna Make Me Lonesome When You Gone, a raiva em Idiot Wind… Bob Dylan conseguiu colocar perfeitamente, com a genialidade que só ele tem, todos os sentimentos que acompanham o fim de um relacionamento longo. Mas, de qualquer modo, A Moon Shaped Pool não fica tão atrás. Thom Yorke tem um estilo completamente diferente que o Bob Dylan, ele utiliza versos mais curtos, se utiliza mais dos instrumentos para passar o sentimento, usa mais do seu vocal para dar mais emoção. Enquanto isso, Bob Dylan se utiliza mais das letras, que cortam como faca e acho que essa é a beleza da música, cada um tem seu jeito de extravasar.

A Moon Shaped Pool é inteiramente sobre perda. É uma reflexão de homens adultos olhando para as suas vidas e vendo o que perderam, seja um amor, seja uma perda familiar, seja o que for. Cada um tem uma perda para lamentar, uma perda que sempre vai doer. O que puxa o disco é a separação do Thom Yorke de sua esposa, com a qual passou metade da vida, mas não quer dizer que seja só sobre amor, as letras minimalistas de Thom Yorke abrem espaço para você interpretar do jeito que você quiser. Cada entrada de instrumento que passa tem seu jeito de te tocar de uma forma ou de outra.

Burn the Witch, a música mais diferente do disco, é a que mais foge do tema do disco, junto com The Numbers, são as criticas à sociedade, a indústria da música e o grito ambientalista que o Thom Yorke não consegue deixar de lado, nem em talvez seu momento mais duro de perda. Burn the Witch é também a faixa mais pesada, forte. Ela não tem o mesmo tom melancólico do resto do disco. A voz do Thom, os instrumentos pesados, a letra, tudo colabora para o tom macabro que a música tem. O tom que uma música com esse nome merece ter.

The Numbers é o mais próximo de uma música de protesto que Radiohead já fez, mas soa mais como uma constatação, não como um chamado pra guerra ou um lamento, é uma dica soprada no ouvido de que o poder estar nas nossas mãos e que a vontade de mudar esta dentro de nós. Isso não precisa necessariamente ser sobre política, mas sobre qualquer coisa.

Daydreaming nos arrasta para o tema do disco de uma vez, sem tempo para respirar. Desde o seu começo, também como o piano ou o timbre triste e melancólico que Thom coloca nessa música até os efeitos. Tudo nela remete a perda, os motivos pela perda ele vai deixar para destrinchar nas músicas seguintes, essa ele só usa como um longo e triste lamento.

Half of my life” Soa fantasmagórica ao contrário, talvez sendo a forma de Thom mostrar como esse pensamento soa fantasmagórico para ele agora. O vídeo o mostra procurando em si mesmo, relembrando coisas da época de casal, buscando encontrar um motivo para continuar, voltando para tentar se encontrar.

Decks Dark começa com Thom tentando entender o que levou ao fim do casamento, usando a metáfora de um disco voador tampando o céu, dando um tom apocalíptico para a música, mais ou menos como o fim do relacionamento deve ter parecido para ele. Como o fim do mundo, o mundo dele, o mundo que ele conhecia.
You gotta be kidding me/The grass grows over me” É um verso extremamente forte, pode estar tanto se dirigindo para a ex quanto para si mesmo, a raiva escondida nele constatando que o ele “casal”, que o futuro que ele havia construído na própria cabeça, que o amor entre eles está morto, enterrado e etc.

Desert Island Disk, na qual acredito que tenha esse nome porque a mensagem dela é algo que o Thom quer carregar com ele para sempre, até mesmo se for pra uma ilha deserta, é ele entendendo o que ele será daqui pra frente. É uma música sobre ele se entendendo, se vendo e compreendendo a si mesmo, percebendo que diferentes formas de amor, além do romântico, são possíveis. O seu amor pelos filhos, o amor de companheirismo e nostalgia que ainda deve ter pela esposa, o amor pelos amigos, pelos companheiros de banda, o amor pela família e etc.
Não importa o que aconteça, o amor sempre vai existir, diferentes formas de amor são sempre possíveis.

Full Stop e todo seu tom sombrio e raivoso funciona como uma Idiot Wind pro disco, ela trata de toda a raiva e rancor que o Thom sente sobre o fim do relacionamento. A letra raivosa e o instrumental perturbador e rápido dão esse tom raivoso, angustiante e pesado para a música.

Glass Eyes é sobre a visão de uma pessoa se vendo sozinha no mundo de novo, olhando ao seu redor, olhando para os rostos das pessoas e se sentindo perdido, com medo. Quando se está num relacionamento a muito tempo você se sente seguro, você sabe que por mais ruim que as coisas estejam, você nunca vai se sentir abandonado. Quando isso acaba vem junto o abandonado, sozinho, perdido e é disso que a música trata. O medo da alienação.

Identikit, talvez a melhor música do disco, permite uma análise um pouco mais profunda só sobre o nome. Identikit seria como retrato falado, quando estamos com alguém, ou somente apaixonados: criamos nas nossas cabeças uma imagem da pessoa que nem sempre é o que a pessoa realmente é. A letra fala dessa decepção, quando você descobre que a pessoa não é o que você espera e quebra a cara.  Quando você quebra o coração dessa pessoa, ou quando a pessoa quebra o seu.

Broken Hearts Make it Rain” Pode ser sobre uma reação normal que as pessoas tem depois de quebrar a cara num relacionamento, preencher o vazio deixado por uma pessoa com outras coisas. Seja enchendo a cara, usando drogas, saindo com várias pessoas.
Identikit é mais um retrato de fora de alguém de dentro, alguém observando relacionamentos e o fim deles. Como as pessoas agem.

Present Tense, e seu estilo bossa nova é, na minha concepção, dividido em duas partes: a primeira fala sobre pessoas tentando fugir dos seus sentimentos, mas não num tom de crítica. Sobre como as pessoas dançam e se divertem tentando fugir do que sentem, de suas tristezas, desilusões e etc. Talvez sobre como ele fugia dos problemas do relacionamento. Já a segunda é sobre se sentir perdido, “In you I’m lost” pode soar tanto como uma declaração de amor como um atestado de desespero. O que ele sente pela pessoa o fez se perder. Para um casal isso pode soar bonito pois um completa o outro, um faz o outro se entender, mas o que fazer quando o amor acaba? Como se encontrar de novo estando perdido e sozinho? Esse é o desespero que se completa no verso “It’s no one’s business but mine/That all this love/Has been in vain” Thom deixa claro seu descontentamento consigo mesmo por conta do fim do relacionamento.

 “Tinker Tailor Soldier Sailor Rich Man Poor Man Beggar Man Thief” segue o tema de paranóia, de querer saber quem é a pessoa que está do seu lado.

Então, “True Love Waits” fecha o disco, talvez como uma última carta de amor para a ex-esposa. A letra é um lamento desesperado e apaixonado de alguém que está com alguém, mas sente que a pode perder a qualquer instante e promete fazer o que quiser para que a pessoa fique.

Na mistura de sentimentos que A Moon Shaped Pool é, True Love Waits é outro longo lamento de alguém vendo a pessoa que ama embora e suplicando para que ela não vá.
O que há de mais bonito nela é provavelmente o fato do Thom tê-la escrito para a ex-esposa no começo do relacionamento e nunca a ter gravado em estúdio, só tocado algumas vezes ao vivo, talvez por considerar ela a “Música deles”. E agora com o fim do relacionamento ele decide a colocar no disco, meio como uma homenagem, talvez como um adeus lamentado e triste.

conclusao

A Moon Shaped Pool não é um disco impecável do começo ao fim, ele é um disco que peca pela falta de variação de ritmo como algumas críticas sugerem, mas sentimento é algo que não lhe falta. Ele sangra sentimento, nostalgia, paranóia, medo, amor, tristeza e todo o resto que acompanha um relacionamento de muito tempo. É o retrato triste de alguém tentando se reencontrar depois de passar metade da vida com alguém e tentando descobrir quem é ao mesmo tempo que olha pra trás e tenta ver o que deu errado. Esse momento é um caldeirão de sentimentos e cada um deles está descrito perfeitamente em cada música, em cada arranjo, em cada letra, magistralmente, como Radiohead nunca falhou em fazer, nem mesmo em KoL que é pra mim o mais fraco deles. Esse disco funcionaria perfeitamente como um disco de encerramento da banda, mas, ao contrário do anterior já citado que mostrava talvez uma banda mais desgastada e dividia, mostra que a banda ainda tem muito a dizer e talvez ainda tenhamos muita coisa dele para ouvir.

Um outro fato curioso é que o disco está em ordem alfabética, sem qualquer trabalho deles em tentar encaixar tudo numa linha e fazer uma “narração” como se deixassem em aberto para cada um ouvir da maneira que quisesse. Meio que dizendo que cada pessoa tem a sua maneira de lidar com a perda, todo mundo vai sentir esses mesmos sentimentos, mas cada um do seu jeito, a sua ordem.

A Moon Shaped Pool é um disco lindo, em qualquer sentido, por mais que Burn the Witch e The Numbers acabam um pouco perdidas, ele não é um disco que falha em passar o que quer dizer. Ouça-o, vale a pena.

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