Violência Gratuita (1997) e a banalização da brutalidade

fg1Michael Haneke fez o mesmo filme duas vezes: o Violência Gratuita de 2007 é idêntico ao original, de 1997 – com elenco e idioma diferentes. Embora esteja comentando o longa de 1997, praticamente qualquer coisa dita sobre ele (exceto pelo elenco) se aplica ao remake.

Violência Gratuita (ou Funny Games, no original) tem uma premissa simples: durante um período de férias, uma família é atormentada por dois jovens psicopatas. Mais informações são desnecessárias.

Um tema recorrente na obra de Michael Haneke é a forma como o mal se manifesta na sociedade. O cineasta é frequentemente taxado de sádico por conta de sua visão aparentemente pessimista. Seus filmes costumam abordar aquilo que há de mais sombrio no ser humano e na sociedade. Haneke parece ter um fascínio pela maldade, a corrupção, o medo… mas taxá-lo de sádico soa deveras simplista – talvez o próprio cineasta prefira ser considerado alguém realista, como se tudo o que é mostrado em sua diegese fosse apenas um retrato da realidade. Não que Violência Gratuita seja uma obra extremamente real, pois há momentos claramente absurdistas, mas a trama em si é universal, algo que poderia acontecer a qualquer um em qualquer lugar. É inevitável, como espectador exposto a toda a maldade abordada em seus filmes, taxá-lo de sádico – pois o público, mais do que vítima por ter de presenciar tudo aquilo, é também cúmplice das atrocidades vistas em cena.

Violência Gratuita é ácido e cru, parece um irmão mais novo inconsequente de outras grandes obras que Haneke viria a fazer. A manifestação do mal ganha aqui uma abordagem mais extrema, e a irreverência deste contrasta de forma peculiar com filmes igualmente brilhantes, porém mais refinados – seja pela consolidação de um estilo, pela abordagem dada aos conceitos ou mesmo o cuidado estético -, como Caché (2005) e A Fita Branca (2009) – e ser menos refinado não é um ponto negativo. O que faz de Violência Gratuita mais cru e objetivo é o seu foco, que embora ainda esteja na violência, não trata de consequências e reações por esta provocadas (como em Caché) ou na forma como se institui na sociedade (A Fita Branca), mas sim do instante em que ocorre. Violência Gratuita não é sobre a presença ameaçadora de um inimigo desconhecido; e nem sobre o enraizamento do mal por meio do comportamento humano; mas sobre o instante da agressão. É o filme em que a violência ocorre. Não necessariamente de forma explícita – pois a crítica de Haneke se dá justamente em relação à banalização da violência -, mas de forma factual: ela existe e está acontecendo. Há uma família sendo torturada e pessoas torturando. É simples, mas nunca simplista, pois sempre há algo por trás – não por trás de motivações de personagens, que não interessam, mas por trás do que representa a própria diegese.

fg2Uma visão superficial pode sugerir apenas mais um suspense genérico com alguns momentos de tensão – e acreditem, Haneke constrói esses momentos de maneira impressionante -, mas Violência Gratuita vai muito além. A tese do cineasta questiona a banalização da violência, seja no cinema ou no dia a dia. E para trazer o espectador para seu filme, ele se utiliza de recursos ousados que geram momentos de puro brilhantismo. A quebra da quarta parede é a interação mais literal possível entre público e filme, e em Violência Gratuita é um recurso fundamental. É escancarada, absurdista e chocante. Mais uma vez contrasta com projetos futuros do cineasta, sendo completamente diferente da sugestão, da forma sutil como Caché encontra o espectador. E encontrar o espectador é, no cinema de Haneke, mas especialmente em Violência Gratuita, algo imprescindível: pois a violência existe dentro e fora da tela. O público faz parte do filme, pois participa de um jogo duplo: é tanto vítima quanto cúmplice. É, como espectador, agredido pela maldade presente na diegese, mas assiste até o final, pois a violência é fascinante.

O jogo duplo do espectador leva a obra a outra questão: a separação entre ficção e realidade. Pois em tese, a violência é banalizada nos meios artísticos justamente por existir em excesso na sociedade. É algo frequente, comum. E se a crueldade vista em cena é uma representação da realidade, o extra-campo de Violência Gratuita é uma extensão da obra. A violência presenciada no dia a dia – basta ligar a televisão e assistir algum noticiário, ser bombardeado por notícias de crimes e tragédias – é a continuação do filme na realidade do espectador.

E o espectador pode participar do jogo do cineasta justamente (e apenas) porque vive em uma realidade na qual a violência existe. O filme de Haneke surge na tela como retrato daquilo não enquadrado por sua câmera – ou como, ele mesmo, a extensão da realidade, contradizendo certa frase do parágrafo anterior e reafirmando a tenuidade da linha entre ficção e realidade.

A cena inicial é fundamental, pois apresenta todo o conceito da obra. Nela, o público vê a família viajando de carro, enquanto pai (Christoph Bantzer) e mãe (Susanne Lothar) ouvem música clássica e brincam de adivinhar o que está tocando. Analisando de maneira superficial, seria apenas um momento de descontração de uma família prestes a ser atingida pela violência e a tragédia, mas há um detalhe muito interessante na composição da cena. Em certo momento, a melodia erudita é substituída por death metal, uma música barulhenta e agressiva – e a metáfora oriunda do contraste sonoro vai muito além do simbolismo óbvio do barulho como representação da violência. O que faz deste momento, junto da já antológica cena do controle remoto, um dos mais geniais do filme é bem simples: a música barulhenta não é diegética. Ela começa a tocar e os personagens não esboçam reação a ela, pois é um som que, naquele momento, pertence apenas ao universo do espectador, à realidade. A família mal pode imaginar o que irá acontecer, mas a violência existe em algum lugar, mesmo que ainda não esteja presente no filme. Em certo momento da projeção, a tal melodia caótica surge. Desta vez, diegética, pois a violência já chegou ao universo ficcional. E mesmo pertencente ao mundo daqueles personagens, o espectador é capaz de ouví-la, pois não só faz parte daquilo, como também vive em um sistema em que a tragédia predomina – um momento preciso que mostra o encontro entre realidade e ficção.

fg3O plano final é um dos momentos mais aterrorizantes e perturbadores que o cinema já produziu desde o olhar de Anthony Perkins ao fim de Psicose (1960) – é inevitável lembrar do clássico de Hitchcock nesse momento. É a cena perfeita para lembrar ao espectador de que a violência está também – e especialmente – em sua realidade (e muito do efeito provocado ocorre graças ao brilhante desempenho de Arno Frisch durante todo o filme).

Violência Gratuita é um filme genial. Independente de qualquer pequena conveniência do roteiro, é uma obra que merece ser lembrada como um dos grandes feitos cinematográficos dos anos 90 e da carreira de seu realizador, o grande Michael Haneke. Um tratado brilhante e ousado sobre a manifestação do mal, que parece sempre querer lembrar o espectador de algo: a violência não é (apenas) diegética.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s