Invocação do Mal 2 e o terror do mainstream americano

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Filmes de terror americanos genéricos, repletos de jumpscares gratuitos, efeitos especiais porcos, atuações ridículas e roteiros confusos não são novidade. Continuações de produções genéricas que fizeram algum lucro também não são. É difícil saber se essas produções surgem com tanta frequência porque os estúdios e cineastas subestimam o público, ou porque o próprio público subestima o gênero. Felizmente, James Wan é um amante de filmes de terror, nunca os subestimando; e é um diretor competente, nunca subestimando o público. E Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2), sequência do filme de 2013, é uma grata surpresa.

Em 2004, James Wan chamou a atenção do mundo com Jogos Mortais (Saw), uma produção que, por motivos óbvios, divide opiniões. O sucesso gerou uma franquia e independente de gostar ou não do filme, parece consenso que as inúmeras continuações são obras vagas, sem pé nem cabeça e que apenas tentam lucrar em cima do longa de 2004. Ou seja: apesar de ter dirigido apenas o primeiro Jogos Mortais, Wan, em algum momento de sua carreira, colaborou com esse lado “sombrio” da indústria (talvez tenha sido vítima). Confesso que nunca passei do quarto filme da série – e acho, ou melhor: tenho certeza, de que foi uma boa decisão. Sobrenatural (Insidious, 2011) também virou franquia. Em 2013, surgiu Invocação do Mal (The Conjuring), constantemente apontado como um dos grandes filmes de terror dos últimos anos. Não é a primeiro trabalho de Wan a dar origem a outros filmes, mas a continuação felizmente tem, assim como Sobrenatural: Capítulo 2 (Insidious Chapter 2, 2013), a assinatura do realizador – ignoremos Annabelle, de 2014.

Invocação do Mal 2 segue a mesma linha de seu antecessor, portanto não há muito o que se dizer sobre a sinopse: Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga), o casal de investigadores paranormais, começam a trabalhar em outro caso, onde devem ajudar uma família inglesa atormentada por manifestações sobrenaturais.

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Invocação do Mal daria uma boa série de televisão: os filmes seguem uma lógica episódica ao mesmo tempo em que trabalham para desenvolver o casal de protagonistas. É a típica fórmula de “caso da semana” com certa dedicação aos personagens fixos da trama, adotada por tantas séries de sucesso. Ainda assim, no cinema, a fórmula funciona. O filme apresenta dois núcleos principais, entre os quais Ed e Lorraine se desdobram: o primeiro é o caso no qual eles estão trabalhando, sua relação com a família que devem ajudar e suas investigações; e o segundo é aquele que visa o desenvolvimento do casal enquanto personagens, seus dramas pessoais, o que eles sentem um pelo outro e por sua filha. E por mais que o lado sobrenatural da trama, o núcleo da família assombrada, seja, como esperado, o centro das atenções – e construído de forma competente, sempre instigando a curiosidade do espectador a respeito de seu desenrolar -, o desenvolvimento dos personagens sempre chama a atenção. É natural querer ver mais de Ed e Lorraine, que são ótimos personagens, mas Wan sabe que, apesar de ter protagonistas fixos, ainda existem outros dramas no universo do filme que merecem sua atenção. O diretor sabe alternar entre os núcleos, trabalhando os personagens na medida certa – ao menos proporcionalmente em relação ao lado sobrenatural e assustador da produção. Os 133 minutos de duração permitem que o cineasta alterne bem entre as prioridades da trama e lhe dão liberdade para compor alguns momentos mais lentos e muito bem pensados. A apresentação da família atormentada, mostrando as crianças na escola, e uma cena musical envolvendo o personagem de Patrick Wilson, são instantes em que Wan diminui o ritmo e compõe momentos mais delicados extremamente interessantes.

E Wan, como já havia mostrado no primeiro filme, é um diretor de muitos recursos técnicos e estéticos: apesar de trabalhar sob uma cinematografia um pouco excessiva em sua solenidade, muito carregada e por vezes exageradamente opressiva, o cineasta recorre a um grande arsenal de movimentos de câmera e enquadramentos precisos, dando ao longa um caráter vigoroso dificilmente visto em produções que se apresentam como meros enlatados de jumpscares. Falando neles, Invocação do Mal 2 contém mais momentos de susto do que seu antecessor (ou ao menos dá mais importância a eles). Isso gera alguns incômodos, visto que muitas vezes a estrutura de cada cena parece se sustentar demais no jumpscare ou na construção de um ambiente propício a este (mesmo que o susto em si não ocorra). Mesmo assim, Wan é um diretor inteligente e não banaliza tanto o recurso quanto alguns colegas de profissão, sendo capaz de gerar alguns bons momentos.

O longa de 2013 apresentava um clímax mais empolgante e interessante. Se comparado ao primeiro filme, Invocação do Mal 2 deixa a desejar justamente por ter um terceiro ato mais simples e um pouco mais corrido, desenvolvido com menos cuidado – o que é irônico tendo em vista que ele tem aproximadamente 20 minutos a mais do que seu antecessor – e com uma mão pesada para o drama em alguns pequenos momentos. Há, ainda ao longo do filme algumas cenas com excesso de efeitos visuais (uma perseguição, por exemplo) que podem atrapalhar um pouco a imersão do espectador. Algo que se mantém desde o longa anterior é a qualidade do elenco: Vera Farmiga continua excelente e o personagem de Patrick Wilson tem uma presença mais marcante, permitindo que ele ofereça uma performance mais completa. A pequena Madison Wolfe também tem um desempenho impressionante em um papel que exige uma enorme carga dramática.

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Se James Wan não fez nada de revolucionário para o gênero, ele se destaca por ser um exímio contador de histórias. E se os dois Invocação do Mal não são primores em termo de originalidade, ao menos são obras que sabem se utilizar muito bem dos clichês do gênero – mérito de Wan, que consegue inserir em suas histórias tudo o que o fã de terror gosta, mas o faz de maneira responsável e inteligente, sem tornar seus filmes previsíveis ou chatos. Invocação do Mal 2, apesar de levemente inferior ao primeiro, faz jus a este. É um bom filme, uma grande peça de entretenimento e um exemplar de gênero interessante.

Prestando atenção nas reações dos espectadores presentes na sala de cinema, fica claro que o grande público subestima o filme de terror em si. As produções repletas de clichês, jumpscares gratuitos e tramas sem pé nem cabeça são um belo reflexo de boa parte do público que lhes dá lucro: pessoas que ficam conversando durante a sessão, rindo de coisas bobas, fazendo comentários em voz alta e reagindo de maneira exagerada a qualquer acontecimento em tela. Infelizmente, não são todos que entendem a imersão como o elemento fundamental de um filme de terror. É necessário acreditar na diegese, adentrar aquele universo e se deixar levar pela atmosfera da obra. Normalmente não é o que acontece com pessoas que só querem tomar alguns sustos e conversar durante o filme.

E tendo em mente a forma como parte do público subestima os filmes de terror, é difícil não associar a isto o embate entre fé e razão que James Wan insere em seu novo trabalho. Em certo momento, a veracidade dos acontecimentos sobrenaturais é questionada, assim como o trabalho do casal de protagonistas. Pois Ed e Lorraine são como James Wan, são como um diretor de (bom) cinema de terror: eles acreditam. Seu trabalho está diretamente relacionado ao inacreditável, ao fantástico. E seus detratores, os céticos, vão contra. São como todos aqueles incapazes de levar a sério o cinema de terror, como todos aqueles que o subestimam. Coitados.

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Um comentário sobre “Invocação do Mal 2 e o terror do mainstream americano

  1. Parabéns pelo texto. Fato, a maioria não entende o processo de degustar necessário à obra. Meros glutões numa mesa fina. (Nossa, senti o elitismo do Gourmet, agora…) Os investigadores fariam bom trio com Naru, da série Ghost Hunt. Reitero, muito bom texto. Bom meio-pra-fim-de-semana!

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