A Representação do Destino em Sandman

Destiny

O destino é uma ideia arquetípica levantada por uma quantidade imensa de povos humanos. Mitologias às vezes muito distantes chegam a ter imagens idênticas de como representar esse conceito (três velhas fiandeiras), tal é a força desse arquétipo. Mas o destino não é palpável, fora dos contos mitológicos. Ele é, em essência, um mito, impraticável… ou quase.

Por enquanto deixando de lado as discussões sobre a incoerência entre livre-arbítrio e destino e as tentativas de abrandar o controle que “as velhas” têm sobre suas ações, Destino é um conceito muito poderoso. Diz-se que viverá mais que os deuses, que vivem nas raízes do mundo e que nem o ser mais poderoso pode confrontá-lo. O que o destino ditou, está ditado.

Epopeias são criadas em cima de aventuras de pobres mortais tentando livrarem-se das suas garras. Deuses caem lutando contra o seu fatídico fim, Édipo perde os olhos tentando fugir do que foi dito (até criam um complexo com isso) e no fim, os fios do destino sempre são mais fortes.

Mas deixando agora de lado essa firula toda, a ideia aplicada não se faz real. Da história de Édipo, por exemplo, muitos absorvem o ensinamento de que o destino é incombatível. Mas como toda boa história mitológica, não é só isso que interpretam. Você também pode aprender com o pai de Édipo que não deve hesitar em frente ao destino, não deve dar sorte ao azar. E na prática é uma interpretação que faz muito mais sentido do que a interpretação comum.

Se você sabe que seu destino é destronar seu pai e tomar seu reino, pode simplesmente se atirar do penhasco e impedir que isso aconteça. Nas histórias contadas, o pai de Édipo não foi impedido de matá-lo (as relações familiares gregas não pareciam nada boas, mas vamos nos ater à interpretação), ele quem decidiu pregar os pés do garoto ao invés de tomar uma atitude mais drástica.

E mesmo se pensarmos em uma visão determinista de mundo como a forma para Destino, onde Destino é todo o meio externo, que nos molda sem termos controle do que em nossas atitudes está sendo influenciado e do que não está, a partir do momento que esse mesmo meio nos dá consciência desse determinismo, nós podemos quebrá-lo. E ainda que se tente abrandar a força do destino dizendo que só algumas atitudes são predeterminadas, você ainda acaba com a previsão jogando o garoto do penhasco ao invés de lhe apregoar os pés.

Mas apesar disso, existe sim um valor poético e simbólico na ideia de um destino incombatível. Se colocarmos em termos práticos, isso nos diz que tudo o que nós fizemos no passado, mesmo atitudes que nos desviaram do nosso caminho atual, nos fez quem somos hoje. Nos diz que por mais que um caminho parecesse terminar em um ponto totalmente oposto de onde terminou, ele nos levou aos nossos “eus” atuais, a trancos e barrancos que tenha sido. Também nos ajuda a aceitar a morte, já que Destino é tão imbatível.

Em um nível de interiorização, essa ideia nos ajuda a aceitar quem somos, tanto o que conquistamos, como com o que nascemos e qual o nosso fim. E cada indivíduo abstraíra esse arquétipo para o que interessa a si, como deve ser com todo conto ou crença.

Com o tempo, enquanto a nossa racionalização do mundo foi alcançando novos horizontes, ideias como o destino começaram a ser menos críveis. E, claro, para alguém interiorizar algo a partir dessa ideia, ela precisa crer nela em primeiro lugar. Abrandamos a força das velhas fiandeiras nas nossas vidas, despersonificamo-as e, eventualmente, matamos o destino criando a ideia de livre-arbítrio e o substituímos por “[entidade] escreve certo por linhas tortas”, afinal, necessitamos da sua poética nas nossas vidas.

Ainda usa-se, casualmente, a ideia dessa força determinista, mas quando tal crença é confrontada com a do livre-arbítrio, não dá páreo para aquele que em culturas passadas foi tão poderoso. Ao tentarmos racionalizar algo tão impraticável, a razão prevaleceu e junto prevaleceu a ideia de que somos, sim, quem toma a frente com as nossas próprias ações.

O que nos leva finalmente à razão desse ser um texto escrito para um blog sobre entretenimento pop: a definição de Destino de Sandman.

“Percorra qualquer caminho no jardim de Destino, e você terá de escolher, não uma, mas muitas vezes. As trilhas se bifurcam e se dividem. A cada passo que você dá neste jardim, você faz uma escolha; e cada escolha determina rumos futuros. Contudo, ao final de toda uma vida caminhando, você poderia olhar para trás e ver apenas um caminho… ou olhar adiante e ver somente escuridão.

Às vezes, você sonha com as estradas de Destino, e especula, sem propósito algum. Sonha com os passos dados e os que não deu…

Os caminhos divergem e se unem. Dizem que nem mesmo o próprio Destino sabe aonde cada escolha levará você. Mas mesmo se destino pudesse, ele não contaria. Destino mantém seus segredos. O jardim de Destino… qualquer um o reconheceria. Afinal você irá percorrê-lo até morrer… ou além. Destino não possui rumo próprio, nem toma decisões; Sua rota é traçada, estabelecida e definida, desde o início dos tempos até o fim de tudo…”

A primeira coisa que me chamou atenção nessa descrição é que não existe um futuro a ser visto, porque ninguém sabe para onde os caminhos bifurcados levam. Logo, isso não abre precedentes para mais pais de Édipo tomarem meias medidas ao combater o destino. Não tem como você saber que amanhã irá tropeçar em alguém que daqui muitos anos será seu/sua parceiro(a) e decidir sair do trilhos do destino acabando com a própria vida. Você trilha o jardim de Destino sua vida inteira, do início ao fim, e talvez além.

O que leva a uma outra característica que me chama atenção: o caráter ainda determinista dessa descrição. Por mais que no começo possa não parecer assim, o texto deixa bem claro que você está caminhando nos jardins do Destino, não tem como observá-lo de fora e que existe um caminho traçado no universo.

O que pode combinar muito com a nossa noção do tempo, inclusive. Talvez, no espaço-tempo, tudo já esteja escrito, de fato, até o fim de tudo, mas isso não muda o fato de que fomos nós que escrevemos. Nós só não podemos observar espaço-tempo de fora, mesmo o reconhecendo, porque vivemos dentro dele no nosso passado, presente e futuro.

Esse “determinismo não-determinista” da própria natureza do tempo mais uma vez combina com a descrição de Sandman, já que Destino carrega um livro em que toda a história do universo está escrita, mas só às vezes ele o consulta, em outras só registra o que aconteceu. E o caráter determinista, como já discuti, mantém o destino como um arquétipo que carrega em si uma ideia de aceitação pessoal.

O caráter não-determinista dessa descrição é também sua parte mais incrível: o conceito de Destino em Sandman consegue nos fornecer o livre-arbítrio. Nós não sabemos para onde os caminhos que escolhemos vão dar, mas ainda assim somos nós que os escolhemos. No futuro pode parecer que quando você olhar pra trás, você traçou uma linha reta, mas só hoje parece assim. No passado você se deparou com caminhos bifurcados, você tomou a atitude.

Existe aquela dualidade entre determinismo e livre-arbítrio porque não somos os jardineiros desse jardim, somos só caminhantes que escolhem pra onde ir, sem saber onde isso vai nos levar. E como é descrito, algumas rotas ainda se cruzam e convergem.

Isso atribui para o Destino de Sandman o mesmo valor simbólico da ideia do destino imbatível, que descrevi há parágrafos atrás. E é no mínimo… curioso. Histórias, desde sempre, nos ajudaram a interiorizar valores e ensinamentos que precisávamos entender por nós mesmos. Até hoje, ninguém pode nos ensinar a lidar melhor com um situação, no máximo podem nos auxiliar e nos ouvir. Mas com a necessidade de interpretação seja de epopeias mitológicas, quadrinhos infantis, ou mesmo fenômenos da natureza que estão ao nosso redor, somos nós quem chegamos até a mensagem que a narrativa observada quer passar, nós quem montamos o raciocínio com as peças que nos são dadas.

E Sandman é, antes de tudo, sobre essas histórias. O caso de Destino é só mais um exemplo. Um conto sobre um conto que determina contos onde somos nós os agentes.

Sandman, caros leitores, é arte em uma história sobre a arte de contar histórias.

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Um comentário sobre “A Representação do Destino em Sandman

  1. Muito bom o texto apesar que achei o começo meio enrolado, mas pra min o que acho mais fantástico no destino de sandman é a sua representação visual de um conceito abstrato.

    Por exemplo o personagem tem um livro que contem todo o conhecimento do mundo, mas o mesmo é cego e ao mesmo tempo o livro esta acorrentado a a ele , isso representa o fato de cada um de nos estarmos preso a uma “historia” da qual nos mesmo não sabemos o fim por sermos “cegos”

    Mas ai entra a questão do labirinto o fato do personagem viver num labirinto representa que mesmo ele estando preso ao livro e sendo incapaz de lelo ele ainda tem a liberdade de escolher que caminho vai seguir.

    Não sei se consegui me expressar direito em palavras, mas entendo se tiver ficado confuso o que eu quis dizer.

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