ENTER THE GUNGEON – Bindingun of Isaac

Eu estou muito orgulhoso desse trocadilho (mentira).

Em anos recentes, jogos com características de roguelikes (que são, primariamente, morte permanente e níveis gerados aleatoriamente) têm tido grande destaque na cena independente, com muitos jogos no estilo sendo produzidos e lançados, um atrás do outro. É algo esperado, visto o grande sucesso que alguns destes jogos possuem, como Binding of Isaac, Spelunky e Rogue Legacy. Mas o grande número que inunda as plataformas também deixa ainda mais satisfatória a experiência de encontrar um exemplar realmente bom do gênero. E esse é o caso de Enter the Gungeon.

O jogo – publicado pela Devolver Digital e desenvolvido pelo estúdio Dodge Roll – parece ter como inspirações principais o já mencionado Binding of Isaac com um toque de shoot-em-up’s/bullet hell (aqueles joguinhos de tiro que a tela fica sobrecarregada de tiros que você tem que desviar). Você controla um personagem por diversas salas separadas tentando chegar até o chefe do nível e ir além, encontrando upgrades variados no caminho (tal como Isaac), enfrentando inimigos que atiram em você com diferentes padrões enquanto você tenta desviar e revidar com seus próprios tiros.

A experiência de jogar Enter the Gungeon é muito satisfatória. Seu personagem é fácil de controlar, tanto com um controle quanto com um teclado todas as ações que você tem de fazer são fáceis de compreender e executar.

Porém, fácil de executar não significa ser fácil de usar no tempo certo ou da forma certa. Cada sala vira rapidamente uma combinação de movimentos frenéticos enquanto você desvia de tiros e tenta atacar seus inimigos. O estúdio que desenvolveu o jogo se chama Dodge Roll (rolar no chão pra se esquivar, basicamente), e esse é um movimento que você terá de fazer com frequência para sobreviver no jogo. De forma geral, é um jogo desafiador, mas a qualidade dos controles e das suas ações básicas impede o jogo de ser muito frustrante.

Além disso, talvez tão importante quanto a jogabilidade, o fator audiovisual é muito do que faz a experiência ser tão agradável. Os efeitos sonoros são extremamente acertados, com o confronto sendo uma profusão de sons em uma boa representação da atmosfera do jogo. Outro detalhe importante é que os cenários e objetos da sala são totalmente destrutíveis – você pode passar por cima ou atirar (e considerando a quantidade de coisas acontecendo, você vai) em livros, potes, mesas, lustres e deixar o local totalmente destruído, causando uma confusão visual extremamente adequada ao jogo e que auxilia a imersão no mundo, deixando ele mais interativo e “vivo”. Além de ser visualmente muito divertido ver como o cenário é deixado após cada confronto.

Um fator importante do jogo, considerando seu gênero de roguelike, é como a variedade funciona nesse jogo e o quanto ele motiva o jogador a recomeçar tudo após a morte. Bem, a cada nível o jogo vai colocando desafios e inimigos novos bem planejados. Há um grande número de salas diferentes, fazendo com que demore a que todas as variações sejam conhecidas e mais ainda para que você canse delas. Mais importante, no entanto, é a grande variedade de armas, um grande ponto de destaque no marketing do jogo. Existem muitas armas novas que você vai adquirindo, e vão desde armas normais (uma AK-47) até coisas mais absurdas, como uma arma que atira letras, uma que atira roupas ou mesmo uma que atira peixes… bom, já deu pra entender. Descobrir novas coisas é um dos grandes pontos de um roguelike, e Enter the Gungeon acerta nisso. O jogo não é perfeito em manter o interesse em coisas novas – há certa falta de variedade nas opções de gameplay e coisas a fazer, algo compreensível visto o foco maior do jogo em fazer suas ações principais serem boas por si só, ao invés de permitir uma variedade de combinações ou sistemas interagindo, como Isaac. Mas ainda é ligeiramente decepcionante.

Roguelikes, como um gênero, não têm o costume de se focar em narrativa, tendo um interesse maior em criar um gameplay, e variações sobre esse gameplay, que seja interessante por um longo tempo. Mas eu acredito que um fator que ajuda a manter o interesse é, enquanto não exatamente uma história, um conceito, uma ideia central, algo que dê um feeling diferente ao jogo, que passe uma sensação, uma atmosfera específica. Mesmo jogos sem um foco em uma história podem ser elevados além do que o seu gameplay e gráficos podem fazer. Eu tenho minhas dúvidas de: se Isaac seria o sucesso que é se não fosse por causa de seu humor negro, designs grotescos e temáticas religiosas, ou se o conceito de descendentes não aumentou muito o interesse em Rogue Legacy.

Assim sendo, Gungeon acerta perfeitamente. A começar pelo título, o jogo gira em torno do conceito de armas – inimigos tem um design que remetem a munições, o nome dos chefes de fase é um trocadilho envolvendo nome de armas, sua vida é representada com um coração formado por duas balas, a imagem de “carregando” é o tambor de um revólver… No jogo inteiro, do texto ao design e até na interface essa temática é relembrada e abordada de forma divertida pelo jogo.

Os diálogos também são bem-humorados, o jogo possui um visual agradável e a quantidade de trocadilhos visuais e textuais criam uma atmosfera leve para o jogo, em que as armas podem ser somente uma coisa maneira e não… bem, instrumentos mortais.

Enter the Gungeon talvez não seja o jogo pra prender o jogador por infinitas horas como alguns outros exemplares do gênero fizeram, mas é uma ótima experiência, com uma atmosfera que coloca o jogador no estado mental certo e um gameplay muito bem calibrado. É um jogo que não deve nada a muitos outros roguelikes famosos.

Cópia pra review cedida pela Devolver Digital, para a versão de PC. Enter the Gungeon está disponível para PC e PS4.

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