Para Minha Amada Morta e o luto existencial

2Três meses se passaram. Um quarto do ano já foi, e semana passada, no último dia do primeiro trimestre, estreou nos cinemas brasileiros um título que já parece certo na minha lista de melhores do ano: Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba.

A esposa de Fernando (Fernando Alves Pinto) faleceu recentemente, e ele ainda não conseguiu superar a perda. Tendo de conciliar sua dor com a atenção necessária para cuidar de seu filho pequeno, a rotina de Fernando se torna cada vez mais dolorosa. Certo dia ele encontra uma fita que o revela algo chocante: sua esposa tinha um caso com outro homem. E o viúvo sai em busca do amante.

Há muito a ser dito sobre Para Minha Amada Morta, uma das grandes pérolas do cinema brasileiro nos últimos anos. Mas talvez o elemento mais fascinante do filme seja sua abordagem visual e a inteligência com a qual a estética da produção dialoga com o roteiro. Um exemplo interessante: o texto, escrito pelo próprio Aly Muritiba, não se utiliza de diálogos para evidenciar de imediato o que aconteceu à Ana, esposa de Fernando. Mesmo assim, o espectador que assistir ao filme sem ter noção alguma de sua premissa não encontrará dificuldades para compreender que o protagonista se encontra em luto pela esposa. Isso ocorre porque durante boa parte da projeção – e especialmente durante a primeira metade –, Muritiba opta por estabelecer diversos elementos da trama visualmente. Dessa forma, não é difícil compreender o que se passa quando, logo nas primeiras cenas, vemos um homem mexendo em roupas femininas – e se debruçando sobre um vestido com um desânimo quase contagiante – ou mesmo quando o diretor, ao melhor estilo Hitchcock (vide Janela Indiscreta, de 1954), enquadra uma escrivaninha repleta de fotos do casal (de maneira breve e sem os movimentos de câmera complexos do mestre do suspense, mas a função narrativa é semelhante). Essa abordagem é especialmente bem sucedida graças ao trabalho de fotografia que parece mergulhar seus personagens e objetos cênicos em uma sombra que mais parece uma representação física da própria depressão de seu protagonista.

A ausência de Ana na vida de Fernando e seu filho se torna palpável graças a momentos singelos, mas repletos de simbolismo. O espaço vazio do sofá, mesmo quando pai e filho estão sentados; a maneira como o pequeno Daniel se debruça sobre Fernando, por sua vez mergulhado nas roupas de sua amada, ainda na primeira cena; ou mesmo um momento em que o garoto corre perigo enquanto seu pai, afogado em tristeza após a recente descoberta, dorme no sofá – uma cena simples e incrivelmente tensa – demonstram com clareza a desordem que a perda impôs à família.

E o grande mérito de Para Minha Amada Morta é ter um cineasta como Aly Muritiba que, auxiliado por Pablo Baião, seu competentíssimo diretor de fotografia, é capaz de contar uma história de forma extremamente inteligente, sabendo se utilizar do poder imagético de sua obra para explicitar detalhes interessantes da trama por meio de simbolismos visuais. O vazio no coração de Fernando, que ganha representação física quando este se encontra em frente a um espelho, em um plano tocante; ou a maneira quase fantasmagórica como o protagonista surge em cena durante seu primeiro encontro com Salvador (Lourinelson Vladmir), o tal amante, são elementos que exemplificam a inteligência da abordagem visual do diretor. A forma como Muritiba enquadra seus personagens, mergulhando-os em sombras ou os posicionando estrategicamente de maneira a interagir simbolicamente com objetos cênicos também é notável. Há um momento bastante interessante em que o som é utilizado de maneira inteligente: Fernando está cabisbaixo, refletindo. A cena seguinte é um trecho chocante do vídeo da traição, quando Ana diz a Salvador que ele é a melhor coisa que já lhe aconteceu. Mas antes de ocorrer a transição visual, ocorre a sonora, ou seja: enquanto o plano que apresenta o protagonista visivelmente perturbado ainda persiste na tela, a fala marcante de sua falecida esposa surge como se estivesse em seus pensamentos. Um detalhe pequeno, mas muito pertinente.

1Não basta apenas representar o luto de seu protagonista como uma sombra quase onipresente ao longo da projeção ou estabelecer metáforas visuais e narrativas quanto ao seu comportamento. É necessário que se faça entender o personagem. É fundamental que Fernando tenha profundidade e que o espectador possa mergulhar em sua persona. As sombras representam muito bem o estado de espírito do protagonista, e a maneira intimista como Muritiba o filma é muito competente, mas o personagem precisa de alma, algo providenciado pela performance irretocável de Fernando Alves Pinto. O viúvo ostenta um olhar desanimado, uma expressão corporal vagarosa e fala em um tom muitas vezes inaudível, como se a depressão já fizesse parte de seu ser. Mesmo em momentos em que existe certa ternura, como nas interações com o pequeno Daniel, Alves Pinto toma cuidado para não deixar que o amor paterno sobreponha a melancolia de seu personagem, que parece estar sempre tentando fugir da realidade triste em que se encontra. Há uma sutil mudança na postura de Fernando à medida em que a trama avança: é como se a descoberta da traição de sua amada não apenas o tivesse deixado ainda mais abalado, mas também lhe oferecesse uma nova oportunidade. Chocado por saber que a mulher com quem fora casado por sete anos o traía, o protagonista encontra em sua decepção a oportunidade de matar, figurativamente, sua amada. Isto é: a desilusão não apenas lhe permite desconstruir a imagem romantizada que tinha de Ana, como também, justamente por isso, lhe oferece a oportunidade de superar sua perda. A existência de Salvador se torna a força motriz da vida de Fernando, como se os sentimentos conflitantes que assolam o protagonista lhe proporcionassem um novo motivo para viver.

As reais intenções de Fernando nunca parecem claras. Se ele pretende se vingar brutalmente de Salvador ou mesmo prejudicar sua estrutura familiar contando tudo à Raquel, esposa do sujeito, nunca se tem certeza. É da imprevisibilidade do protagonista que surge o grande trunfo da narrativa de Para Minha Amada Morta: o suspense. O clima sombrio da produção é fundamental para que algumas escolhas diretoriais de Muritiba exitem, dando origem a sequências incrivelmente tensas. A inteligente opção de evitar os cortes em certos instantes dá um tom realista muito bem-vindo em algumas situações e constrói momentos de pura tensão graças aos planos estáticos, takes longos e exaustivos e planos-sequência de muito bom gosto. O momento em que Fernando “se abre” pela primeira vez com Salvador – que também representa o florescer do roteiro, até então com poucos diálogos -, é insuportavelmente tenso graças à maneira cadenciada e misteriosa com que Alves Pinto profere suas falas. A cena se torna assustadora quando o viúvo pega uma pá, sinalizando que a qualquer momento ele pode explodir e atacar Salvador – outra situação semelhante ocorre ao longo da projeção, em um excepcional plano-sequência repleto de simbolismo.

É no flerte entre suspense e estudo de personagem que Para Minha Amada Morta demonstra ser adaptado de um roteiro minucioso e inteligente: afogado em depressão e mágoas, dividido entre a tristeza pela morte literal da esposa e a frustração pelo desmoronamento do conceito romantizado de sua amada, Fernando se transforma. A ironia está sempre lá: o que tira o protagonista do ostracismo do luto, o que o faz dar os primeiros passos rumo à superação da perda literal em si e o permite levantar do sofá e encarar a vida, é justamente a frustração pela descoberta. A existência de Salvador origina a indignação de Fernando, é verdade. Mas é também o que lhe dá forças para, de certa forma, seguir em frente. Conhecer o amante de sua amada e obter sua vingança se torna a motivação do viúvo que, ao abandonar a imagem idealizada de Ana, substitui a tristeza por uma obstinação – moralmente condenável, é claro, mas ainda assim uma obstinação – raivosa. Aí ocorre a transformação: Fernando é um homem deprimido, de movimentos vagarosos e um desânimo contagiante. O espectador não espera nada dele senão passividade. Ao encontrar uma motivação e botar seu plano em prática, se aproximando da família de Salvador, Fernando aos poucos vai de uma figura triste e passiva para um homem metódico que, apesar de melancólico, se torna cada vez mais confiante à medida em que a trama avança – como se seu novo objetivo lhe proporcionasse novas feições, à medida em que a trama exige interações mais diversificadas com o resto do elenco. Mas Fernando ainda é, sobretudo, humano. E o roteiro sabe disso, pois explora sua compaixão de maneira extremamente pontual.

Salvador, interpretado com muita competência por Lourinelson Vladmir, é um homem de atitudes conservadoras. A maneira como trata sua esposa (Mayana Neiva) e a filha mais velha (Giuly Biancato) demonstra bem isso – como quando se queixa pelo fato de Fernando ter ido à sua casa enquanto ausente, dizendo que não é bom que uma mulher casada receba homens em seu lar sem o marido. É um sujeito bastante devoto, que leva a família ao culto sempre que possível. Por conta de sua fé, protagoniza um diálogo bastante revelador – e por vezes até cômico – com Estela, a filha mais velha, em uma cena que revela todo o brilhantismo da mise-en-scène de Muritiba, enquadrando Fernando como um voyeur, de maneira a observar de certa distância –nem tão distante, claro – o que se passa na vida da família. Há um arco, uma “subtrama”, em que a relação entre o viúvo e Estela é desenvolvida com muito cuidado. É uma mudança de foco que, a princípio, pode causar certa estranheza, como se fosse um desvio da trama principal, mas logo se revela uma opção ousada e acertada do excelente roteiro de Muritiba. Salvador não parece ser um homem mau, mas o seu conservadorismo acaba por sufocar a filha mais velha, e Fernando se envolve – de maneira perfeitamente orgânica e verossímil, sua relação com Estela transita entre a tensão sexual e um ar paternal. Mas parece haver na mente do protagonista uma compaixão genuína, que vai além de seus interesses vingativos. É uma demonstração sutil do caráter do personagem, como se Muritiba quisesse lembrar que por trás daquela pilha de tristeza e frustração, ainda há um homem – chega a ser curioso que justamente o excesso de sentimentos torne alguém tão inexpressivo, tão contido. E ainda soa irônico: pois a falta de amor que leva Estela a recorrer a Fernando pode ser semelhante ao que Ana, sua finada esposa, sentiu ao ter de procurar um amante – algo que o roteiro não trata em detalhes, mas parece bastante plausível. Talvez, por trás de seu estudo minucioso de personagens e o suspense quase insuportável da condução precisa do cineasta, haja uma reflexão sutil acerca da maneira limitada e por vezes errônea como os humanos podem tratar uns aos outros, fazendo com que a falta de atenção ou mesmo o sentimento de não ser amado o suficiente faça com que alguém recorra a outros alguéns – seja em relacionamentos carnais ou figuras paternas.

3O roteiro de Para Minha Amada Morta necessita um pouco de boa vontade por parte do espectador, pois em alguns momentos – especialmente no primeiro ato – encurta a trajetória do protagonista até o amante – ou seja: adota algumas soluções convenientes para que o filme passe da introdução para o desenvolvimento mais rapidamente. Mas são detalhes pequenos e perfeitamente aceitáveis especialmente porque o longa não é tão dependente da trama quanto parece. Ele tem seu quê se suspense, em muito providenciado pela condução brilhante de seu realizador, mas sempre se alternando com o drama e, especialmente, deixando de lado o cinema de gênero para flertar com o estudo de personagem. A essência de Para Minha Amada Morta é analisar a psique de Fernando (e dos outros personagens, por que não?), então os fins justificam os meios – e, repito, são detalhes pequenos a ponto de apenas serem capazes de incomodar quem assistir ao filme com muita má vontade. É notável como durante boa parte da projeção o filme se sustenta com poucos diálogos, que vão surgindo gradualmente à medida que o plano de Fernando progride e exige interações mais diversificadas entre o protagonista e os outros personagens.

Para Minha Amada Morta é um filme absolutamente brilhante. É extremamente inteligente no que diz respeito à narrativa e abordagem visual, tem momentos insuportavelmente tensos e funciona muito bem como estudo de personagem. Tudo isso graças à direção espetacular de Aly Muritiba, que sabe utilizar o poder imagético à sua disposição para contar uma boa história de forma excepcional e demonstra ter pleno controle sobre a construção da tensão do filme, sabendo apelar para planos-sequências precisos que dão o tom realista necessário em alguns momentos. Além da direção, o roteiro e a fotografia, há de se destacar a sobriedade do elenco. Todos os atores são muito competentes, especialmente Fernando Alves Pinto, que oferece uma performance memorável.

E a ironia… afinal, o que move o homem deprimido é justamente um acúmulo ainda maior de tristeza. Apesar de tudo, Para Minha Amada Morta é bem mais otimista do que parece – pois mesmo vingativo, Fernando ainda tira forças de sua própria tristeza, não? Talvez, para o seu protagonista, a única forma de preencher o vazio provocado pela perda da esposa seja a morte da figura de sua amada.

É o luto que se cicatriza com mais luto. Para Minha Amada Morta é uma pérola, um filme grandioso.

 

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Um comentário sobre “Para Minha Amada Morta e o luto existencial

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