Spotlight – Você Não Sabe Lidar Com Informação

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Em jornais antigos, em pastas no fundo da gaveta, na frente do seu local de trabalho, com pessoas que você encontra casualmente, com amigos próximos e até perto de onde você mora. A informação está em todo lugar. Aberta ao público, mesmo que você não a tenha encontrado. O problema está na frente de holofotes desligados, esperando para ser exposto. Está com você e você não percebeu. Mas não percebeu por quê? Você julgou que não saber era importante ou que não era importante saber?

São essas colocações e perguntas que provocam o espectador em Spotlight. E a partir do momento que você entra na sala de cinema, não tem mais o direito de olhar para o outro lado e esquecer daquilo a que foi exposto. Ao fim da projeção, somos todos culpados.

Mas vamos por partes.

O filme é brilhante em construir uma narrativa orgânica. Em mais de duas horas de projeção, em uma investigação jornalística complexa, nós não paramos para ouvir sobre os personagens ou sobre os casos de maneira didática, ao invés disso nós os acompanhamos. Do início que parece um pouco confuso, onde tantos casos e nomes são dados sem compromisso, até o final onde tudo o que você ouviu até ali te desafia.

A falta de exposição funciona muito bem na medida em que o filme se desenrola e o quebra-cabeça se monta. Os nomes, no começo tão numerosos, começam a ganhar rostos, atitudes e personalidades. Aprendemos tudo enquanto os jornalistas do time Spotlight avançam. E isso confere à obra uma experiência muito mais crua e palpável, sem sacrificar o entendimento da trama ou estagná-la.

As atuações contribuem muito para conferir essa vida ao mundo. Liev Schreiber como Marty Baron consegue ser introspectivo e incomodado, mas também ousado e pragmático quando se trata de trabalho. Um papel bastante diferente para o ator. Mark Ruffalo como Mike Rezendes faz um pouco mais do mesmo que estamos acostumados a vê-lo fazer, mas ao mesmo tempo faz diferente. Mike é um personagem mais determinado, que acredita no trabalho de forma quase inocente. Em geral, o elenco nos dá as personalidades não superficiais daquelas pessoas, nos dá alguns conflitos, esconde o que precisa esconder e remoe o que precisam remoer.

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E é junto do começo “confuso” e da característica humana do longa presente nos atores que os personagens tomam uma posição curiosa quanto ao seu tema. Enquanto em uma investigação sobre um caso de molestamento infantil por parte de um padre que eles achavam já haver explorado no passado e pouco familiarizados com seus detalhes, gavetas antigas são abertas para os protagonistas, revelando aos poucos como todos aqueles nomes e evidências estavam tão próximos deles e que se aquele caso não havia sido exposto, era por eles não terem estendido a mão ao que estava ao alcance.

Essa constatação cresce de tal maneira durante o filme que faz Robby (interpretado por Michael Keaton), líder da equipe Spotlight, afirmar de boca cheia que aparentemente todos sabiam sobre tantos casos de sacerdotes molestadores menos eles, mesmo estando literalmente em frente a um caso.

A acusação de omissão dos jornalistas não cresce só no âmbito de quantos sabem sobre os abusos, mas também na quantidade de crimes sendo cometidos por de baixo do tapete. E o filme não provoca o espectador só até aí, porque enquanto a ignorância e confusão dos personagens vai tomando formas, rostos e fatos, vai se descobrindo que mesmo os casos não aparentes já eram conhecidos não só por pessoas próximas ou ocorriam em lugares próximos, como eles mesmos sabiam.

Onde você esteve esse tempo todo? Por que demorou tanto?

Isso porque Robby além de ser o mais destemido em querer expôr todo o sistema corrupto sem deixar nenhum dos criminosos passar, foi também quem engavetou evidências mandadas de diversas fontes anos antes. E também era bastante próximo a um dos advogados que protegia os sacerdotes.

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Esse acaba sendo o ponto de impacto do filme, que para muita gente parece que passou despercebido: o senso de responsabilidade que a trama invoca em cima dos personagens, que se sentem omissos. O líder do time Spotlight é mais uma ferramenta do que um personagem de fato, e isso faz com que esse senso de responsabilidade seja perdido em parte. Mas muito dele ainda se encontra no Mark, que não consegue mais encarar crianças ou sacerdotes, e na Sacha Pfeiffer (interpretada por Rachel McAdams), que em uma das cenas mais tocantes da projeção mostra a reportagem resultante da investgação para sua avó, uma senhora extremamente religiosa.

Ainda dentro da responsabilidade dos jornalistas, o filme comenta através de Marty Baron que por mais que eles tenham levado tempo e errado no passado, devem se esforçar em fazer mais matérias que expõem corrupções tão preocupantes e que é isso que deve motivá-los a noite. E esse comentário é o que confere o gosto doce e azedo ao final de Spotlight.

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Quando a notícia sobre os casos de abuso foi publicada e vários outros casos começaram a aparecer, a sensação dos personagens de missão cumprida e a ideia de poder fazer muito mais é animadora, mas… onde aqueles caras estavam esse tempo todo? Por que demoraram tanto? Por que sentaram em cima da prova?

E essas provocações extrapolam o direcionamento dos personagens ara nós, espectadores.

Mesmo sendo o filme um retrato do início dos anos 2000, ainda no começo do primeiro ato, um padre, ironicamente a figura condenada durante a projeção, traz a mensagem que vamos alguns minutos depois absorver para a nossa realidade, aqui na década de 10, ao dizer que na internet tudo se sabe e que isso deve ser temido e celebrado.

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Deve ser celebrado porque, bem, agora podemos saber de tudo. Deve ser temido porque temos uma responsabilidade muito maior sobre as nossas cabeças. Essa mensagem bate forte quando percebemos que mesmo depois de 15 anos da exposição dos casos de pedofilia, eles continuam acontecendo. Mesmo com a possibilidade de compartilhar provas e fatos com o mundo, parece que se escolhe ignorá-los.

E quando as típicas informações de epílogo de filmes baseados em fatos reais sobem, elas denotam exatamente isso, mostrando que com o tempo o número de acusados cresceu de 70 para mais de 200 só em Boston e que as denúncias se espalharam pelo mundo. Dezenas de grandes cidades estavam lá expostas. E lá no meio, o Brasil. Além da mensagem sutil ao longo das mais de duas horas de trama, Spotlight ainda faz questão de mostrar que aquilo está aqui, também. Não só aqui, está ao redor de todo o globo.

As colunas de texto frias de um epílogo nunca pesaram tanto.

Na minha experiência com Spotlight, a sala de cinema parece ter sentido esse peso, porque logo quando as luzes se acenderam, um silêncio mórbido se instaurou. Poucos levantaram. E se eu pude ouvir alguma coisa nesse momento, foi uma pessoa falando “olha lá, no Brasil também”.

Parece que o mundo desaba sobre as nossas cabeças e nós observamos omissos seus pilares sendo devorados. Eles não escondem as marcas que a corrupção humana continua criando. Às vezes decidimos responsabilizar por isso aquele ao nosso lado. Às vezes decidimos só ignorar, mesmo. No fim, somos todos culpados.

Uma música para relaxar.

Update: Curiosamente o Tim Minchin, autor da música acima, lançou há pouquíssimo tempo (exatamente 9 dias antes da publicação desse texto) uma segunda música sobre o mesmo assunto, agora mais satírica, ácida e baseada em questões que ocorreram na Austrália, que é o país natal do músico, e causaram revolta. Então por ter colocado a música dele sem nem mesmo saber dessa e pal coincidência das datas, vou deixar “Cardinal Pell” aqui, para vocês. E recomendo que leiam a descrição do vídeo para se informar sobre o tópico principal dessa produção.

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