Carol e o amor através de vidros

carol1Quando assisti Carol pela primeira vez, cerca de um mês atrás, o analisei de forma precipitada. Agora, após uma segunda visita ao universo do longa de Todd Haynes, percebo que ele não é um filme muito bom, como o havia julgado à primeira vista, mas sim excepcional.

Nos anos cinquenta, Therese Belivet (Rooney Mara), empregada de uma loja de departamentos e uma jovem tímida e completamente comum, conhece Carol (Cate Blanchett), uma mulher mais velha prestes a se divorciar de seu marido. Nesse encontro, a atração entre as duas fica evidente, e a partir daí, seu relacionamento se torna cada vez mais íntimo.

O grande trunfo da narrativa coesa de Carol consiste em sua admirável inteligência e delicadeza. Se há o espectador preguiçoso que pode taxar o filme como tedioso e desistir antes mesmo de chegar à metade, há também aquele que aceita o ritmo da obra (que, ao contrário do que alguns sugerem, não é tão lento) como consequência de uma trama que evita ao máximo escolhas narrativas expositivas, sendo constituída principalmente de detalhes sutis. Os sentimentos das personagens não precisam ser reafirmados por estas a cada cena: Carol não é um filme de beijos apaixonados, de declarações românticas e de músicas bonitinhas que buscam lembrar do quanto as duas se gostam. É um romance sensível na medida certa, onde os pequenos detalhes indicam os sentimentos e pensamentos das protagonistas. O romance de Carol não está em diálogos expositivos sobre o relacionamento da personagem-título com Therese: ele se faz presente nas trocas de olhares e nas expressões das atrizes – e também em tudo o que as cerca e compõe o ambiente, já que os aspectos técnicos encantadoramente precisos caracterizam com perfeição o ambiente da obra.

carol2A maneira como a direção de Todd Haynes e o roteiro preciso de Phyllis Nagy (adaptado de um livro de Patricia Highsmith) compõem as personagens é de uma sutileza encantadora. Se aproveitando do brilhantismo de seu elenco, Haynes e Nagy fazem com que o espectador entenda quase tudo o que se passa na cabeça de Carol e Therese apenas com a composição cuidadosa de ambas ao encarnar pequenos gestos. E o texto se mostra brilhante por atingir um resultado irretocável ao fugir da exposição desnecessária e permitir que o público conheça a fundo as personagens sem que o filme precise entrar em detalhes sobre isso.

Therese é uma pessoa como qualquer outra. Ela não tem nada de excepcional, e isso faz com que sua composição seja crível e humana. É uma jovem tímida e repleta de incertezas, sonha com um emprego melhor e tem um relacionamento ao qual parece não conseguir se entregar completamente. Sua vida é perfeitamente comum: ela trabalha, lida com o mau-humor de outros empregados, tem problemas amorosos, almeja melhores oportunidades profissionais e tem um hobby, a fotografia. Além do tédio e do vazio da rotina da personagem, também fica claro ao público que seu relacionamento com Richard (Jake Lacy) não vai bem. A figura do rapaz parece uma brincadeira do roteiro com a figura idealizada do galã romântico que o filme parece abominar, visto que ele faz questão de reafirmar seus sentimentos por Therese sempre que possível– além de deixar claro que sonha em se casar com a moça. Mas ela simplesmente parece não conseguir corresponder a esses sentimentos tão fortes. Não que ela seja cruel ou apresente qualquer tipo de problema com o rapaz especificamente, mas Therese apenas tem uma grande dificuldade de lidar com seus anseios. Desde a primeira cena em que ambos estão juntos, fica claro para o espectador que ela não o ama, mas apenas aceita aquela condição – por mais que até goste dele, não sente algo tão forte e se estabelece em uma posição de comodidade e passividade para com os sentimentos do rapaz. Therese não quer magoar ninguém, não é uma pessoa cruel. Ela é apenas uma jovem repleta de incertezas – e uma personagem que tem um desenvolvimento exemplar. E sim, o espectador sabe tudo isso mesmo com a escolha narrativa de não tratar diretamente (durante boa parte do tempo) dessas questões.

carol3E a construção de Carol é tão interessante quanto. Ela, que em vários momentos surge vestindo trajes vermelhos que remetem à paixão, é uma mulher madura, experiente e extremamente sedutora. A atração que Therese sente por ela é perfeitamente compreensível e quase contagia o espectador, tamanho o charme da personagem. Porém, por mais encantadora que a figura quase divina de Carol seja, o roteiro faz questão de lembrar que ela é tão humana quanto sua co-protagonista. A moça é extremamente elegante, graciosa e parece perfeitamente segura de si, mas vive dias conturbados por conta de seu divórcio e das questões ligadas a ele, como o relacionamento com o marido (Kyle Chander) e a guarda da filha pequena (Kk Heim). O texto é extremamente preciso pois caracteriza Carol como uma mulher encantadora e segura não apesar de seus problemas, mas justamente por ter de lidar com eles. Ou seja: ela não é uma pessoa frágil que se esconde por trás de roupas de marca ou sorrisos plásticos, longe disso: se em vários momentos a personagem surge lutando contra as lágrimas, é justamente por ser construída de maneira encantadoramente humana. Ela não chora por ser frágil, mas sim porque, por mais forte que seja – e ela realmente é -, tem a sensibilidade que indica claramente sua humanidade. Dessa forma, chega a ser comovente perceber como seu sorriso e sua postura elegante conseguem, em uma mesma cena, passar uma sensação de segurança ao mesmo tempo em que concedem à personagem um tom melancólico. Seu sorriso sempre parece carregado de uma preocupação ameaçadora, como se ela estivesse (internamente) lutando bravamente contra a tristeza. E esse gesto sutil parece bastante altruísta, pois faz bem especialmente ao espectador poder testemunhar cada pequena expressão de graciosidade da mulher apaixonante que é Carol.

Reparem que ao reservar um parágrafo para tratar das características de cada personagem, não precisei citar o nome das atrizes em momento algum. Elas são tão precisas que devo admitir sentir certo receio em lembrar que aquilo visto na tela era um filme – e que elas estavam atuando. A naturalidade de Rooney Mara é impressionante: seu olhar não só é encantador, como também é extraordinariamente expressivo. A moça compõe sua personagem de maneira sutil, fazendo com que Therese seja uma figura bastante discreta – como exigido pelo roteiro. Por mais passiva que seja sua personagem, é evidente que Mara chama atenção pelo rigor de sua performance: é descomunal a forma como a talentosíssima atriz estabelece a ligação entre Therese e o público – ela sempre faz com que o espectador tente decifrar seus pensamentos, e sua expressividade é palpável a ponto de fazer com que seus sentimentos sejam perfeitamente compreensíveis. Já Cate Blanchett traz a Carol aquilo que é comum a quase todos os seus papeis, por ser algo que existe em exuberância na australiana: elegância. E a peça-chave para que sua atuação seja tão eficiente está justamente em conceber a personagem como uma mulher extremamente charmosa e encantadora, mantendo o espectador hipnotizado por cada pequeno gesto. Blanchett – uma das maiores atrizes da atualidade – confere uma sensibilidade comovente a Carol, que por mais segura e forte que pareça – e seja -, se mostra uma pessoa delicada. Mas o que impressiona é a maneira como ela conduz os momentos mais dramáticos: por mais intensa que seja a cena ou mesmo que sua maquiagem esteja borrada por suas lágrimas, sua personagem continua esbanjando elegância. Por mais vulnerável que Carol se encontre, ela sempre luta para se manter firme – como o sorriso charmoso e melancólico de Cate Blanchett sugere.

carol4A reflexão sobre o protagonismo feminino surge com muita naturalidade – não só as duas personagens principais são mulheres, como elas também não dependem em nada de homens, que normalmente surgem como antagonistas. O filme apenas busca dar o protagonismo àquelas a quem ele legitimamente pertence. E se isso já soa perfeitamente natural graças à humanidade das personagens e sua independência em relação aos homens, o longa ainda mostra sua preocupação com a questão em alguns momentos sutis que podem passar despercebidos. Como quando Harge, marido de Carol, se refere a uma terceira como “esposa de Cy Harrison” e a personagem de Cate Blanchett quase instantaneamente o corrige chamando-a pelo nome (“Jeanette”); ou quando um personagem associa a figura feminina a revistas sobre costura, e os olhares das protagonistas parecem condenar a atitude; e não é raro achar cenas em que homens claramente querem opinar a respeito das atitudes das mulheres (como um diálogo entre Therese e Richard ou quando Carol fala com Jeanette sobre seu hábito tabagista). A figura masculina surge como uma espécie de simbolismo para o conservadorismo da sociedade – que era ainda mais forte nos anos 50, apesar de infelizmente ainda existir atualmente. Em um mundo onde diversos tipos de preconceito ainda existem, é tristemente comum ver Carol ser vendido como um “romance lésbico” mesmo quando a própria obra em essência parece abominar essa denominação – é um romance, ponto. O mais interessante na abordagem do roteiro é a maneira como ele foge da obviedade: ao ler a sinopse do filme, parece claro ao espectador que, em algum momento, o longa abordará diretamente a homofobia e as dificuldades enfrentadas pelas duas por conta do preconceito. Ele subverte as expectativas ao tratar dessa questão de maneira indireta e sutil, por meio de diálogos maravilhosamente bem pensados – e para tratar do tema, o texto se utiliza principalmente da mudança na percepção de Therese. Em certo momento, um rapaz diz a ela que gostar ou não de uma pessoa não é algo exatamente racional, mas sim um sentimento que surge ao conhecê-la – e ela parece estranhar, como se pensar na naturalidade da atração que sentiu por Carol a deixasse confusa. Mais adiante na trama, chega um momento em que a visão de Therese parece estar mais alinhada ao que o rapaz lhe disse – e não entrarei em detalhes.

Por mais que o roteiro seja excelente, existem alguns momentos que causam estranhamento. Quando Carol diz que Therese “caiu do céu”, a frase em si soa bastante artificial e clichê – sorte que Cate Blanchett é talentosa a ponto de proferí-la de maneira perfeitamente natural. Mas o que seria o deslize mais grave do texto consiste em uma cena em que a personagem-título pergunta Therese a respeito de seus pensamentos, e a jovem fala sobre eles abertamente. Se é um momento que mostra uma evolução da personagem, que consegue largar sua postura passiva e ser sincera e clara quanto aos próprios sentimentos, também destoa um pouco do teor da narrativa ao soar expositiva demais, fazendo com que a personagem de Rooney Mara apenas diga várias coisas que o espectador possivelmente já sabe – sorte que, assim como sua companheira, a atriz consegue usar a cena a seu favor para explorar um momento mais explosivo e soando perfeitamente convincente.

carol5Uma característica da direção de Todd Haynes que certamente chama a atenção de qualquer espectador é o seu fetiche por filmar personagens e objetos através de vidros ou refletidos por eles – como espelhos. Arrisco dizer que mais de um terço dos planos do longa apresentam o protagonista da cena sendo “filtrado” por uma tela de vidro – como janelas das casas e carros. Essa escolha pode ser interpretada como uma metáfora para os obstáculos enfrentados pelas protagonistas – e a presença de janelas indica a existência de um ambiente fechado, que enclausura, aprisiona Carol e Therese. Dessa forma, não é raro que em várias oportunidades elas estejam dentro de um carro, por exemplo, como se isso indicasse a necessidade de se manter a intimidade escondida do resto da sociedade. E é justamente em um automóvel que Haynes realiza a melhor cena do longa – auxiliado por uma montagem brilhante -, uma passagem quase abstrata que representa, de certa forma, o surgimento do amor entre as personagens. Ou seja: ao mesmo tempo em que elas são oprimidas e forçadas a (metaforicamente) se abrigar em ambientes fechados, o carinho existente entre as duas faz com que a situação seja um pouco menos desconfortável. Se a direção trata da dificuldade do relacionamento entre duas mulheres com vários simbolismos, Haynes também se aproveita dos enquadramentos para realçar características de suas personagens. Carol sempre parece muito mais forte e segura quando vista à distância, em planos mais abertos – os close-ups, porém, adentram sua intimidade de maneira a mostrar ainda mais seus sentimentos, o que funciona como um interessante recurso simbólico na conclusão do filme. Também é comum que os personagens apareçam aprisionados por algum objeto cênico ou o próprio ambiente. O diretor também realiza algumas transições entre cenas que ocorrem por meio do abrir e fechar de portas – é irônico que haja também uma cena em que o marido de Carol tenta evitar bruscamente que uma porta se feche, como se isso indicasse a visão retrógrada da sociedade.

Nos aspectos técnicos, Carol é um filme impressionante. A fotografia (aliás, o filme foi feito em 16mm) abusa de paletas de cores de muito bom gosto e gera alguns momentos interessantes com a utilização da camada de vidro tão adorada pelo diretor; o design de produção e o figurino são fabulosos por realizarem um retrato de época fascinante, ao mesmo tempo em que as roupas das personagens dizem muito sobre elas (Carol usa roupas mais sofisticadas do que Therese, mas à medida em que a personagem de Rooney Mara se desenvolve, é natural que ela surja com trajes mais refinados, como se isso indicasse que ela está mais madura); a montagem é muito competente e realiza alguns cortes bastante criativos, ao mesmo tempo em que mantém um bom ritmo; e a trilha sonora é linda e surge praticamente como um personagem do filme.

carol6Carol é um filme maravilhoso. É um drama com uma narrativa extremamente inteligente, com uma direção elegante e repleta de simbolismos que privilegia as atrizes principais, que não são nada menos do que extraordinárias – o trabalho de Cate Blanchett e Rooney Mara realmente é maravilhoso. Agora resta esperar o dia em que Carol será lembrado não como um “romance lésbico”, mas sim como uma história de amor sensível, intensa e livre de preconceitos.

 

 

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