Boa Viagem, Major Tom – Sobre a grandiosidade do Homem que transformou sua morte em arte

Bowie

Something happened on the day he died
Spirit rose a metre and stepped aside
Somebody else took his place, and bravely cried
I’m a blackstar, I’m a blackstar

No dia 8 de Janeiro de 2016, David Bowie, em seu sexagésimo nono aniversário, lança Blackstar. Dois dias depois, no dia 10 de Janeiro, o artista morre de um câncer que ele havia deixado escondido dos fãs e da mídia. Blackstar e suas músicas ganham então uma visão diferente, como ele previu no trecho acima da música que dá nome ao disco, algo aconteceu no dia que ele morreu.

Blackstar, uma música bem instrumental e experimental. Uma música, como o álbum num tom fúnebre, fala de uma maneira sutil de sua eminente morte. No vídeo da música em questão temos Major Tom, personagem principal da música mais famosa do Bowie e que muitas vezes ele usou como metáfora para si, morto em seu traje espacial e depois seu crânio sendo carregado com diamantes. Como também na letra, em trechos citando uma vela sozinha no meio esperando ser apagada, representado seu próprio sentimento no momento com a morte eminente, o trecho acima e falando sobre um ritual, talvez a visão que Bowie estava tendo da própria morte.

On the day of execution, on the day of execution
Only women kneel and smile, ah-ah, ah-ah
At the centre of it all, at the centre of it all
Your eyes, your eyes

Ele acertou, todos virariam os olhos para ele no dia da morte dele. Todos ouviriam o álbum com outros olhos. Continuando, a segunda ganha um tom mais triste ainda. Uma música que foi escrita sobre um rapaz na primeira guerra mundial se envolvendo com uma garota de programa pode ser interpretada de outra maneira. Sendo Bowie falando do câncer, como sempre, de forma sutil. Como no verso abaixo:

Black struck the kiss, she kept my cock
Smote the mistress, drifting on
‘Tis a pity she was a whore
She stole my purse, with rattling speed
That was patrol
This is the war
‘Tis a pity she was a whore

A guerra sendo a luta dele contra contra a morte. Todas as metáforas da música ganham um tom mais triste e sombrio agora. Como o disco todo.

Sobre Lazarus eu não preciso dizer muito. Assim que acordei e minha irmã me avisou, foi a primeira música que ouvi por conta de alguém que me mandou o link no Twitter. Não tinha a ouvido ainda e Bowie abrindo com esse primeiro verso me fez chorar.

Look up here, I’m in heaven
I’ve got scars that can’t be seen
I’ve got drama, can’t be stolen
Everybody knows me now

Não preciso falar muito da música. Linda, absurdamente linda. A emoção que Bowie coloca na letra falando sobre o fim eminente. E o vídeo mostrando um Bowie debilitado, em cama, agonizando antes de morrer, o Bowie “interno” enquanto o Bowie “externo” em pé, que aparecia na mídia, dança e corre para escrever sua obra final antes do fim eminente, sentado na beirada da mesa escrevendo rapidamente num papel.
Minha mãe me disse uma coisa hoje logo depois de ver o vídeo que define bem. Que morte linda, honrada e grandiosa que esse homem teve.

I’ll be free
Just like that bluebird
Oh, I’ll be free
Ain’t that just like me?

Sue é uma releitura de uma história do século dezessete onde uma mulher se envolve com seu irmão e escreve uma carta pedindo redenção a deus. Mais uma vez uma bela e profunda metáfora para si próprio que Bowie sempre fez com uma profunda maestria. Seja com Major Tom, seja com Starman, Bowie conseguia escrever sobre o mundo de fora mas refletindo a si mesmo. Ele nunca precisou falar o que sentia porque sua música falava por ele. Um verdadeiro, profundo e maestral Artista. Um dos melhores que esse mundo já teve.

Girl Loves Me talvez seja a “carta” que ele próprio escreveu pedindo perdão por alguns de seus pecados. Escrita usando a linguagem inventada em Laranja Mecânica, livro favorito do Bowie e com inspiração em Kendrick Lamar no jeito de soltar os versos. Bowie cria um retrato bem sujo e violento.

Where the fuck did Monday go?

Pensar que ele morreu num domingo para segunda transforma esse verso completamente. Ele escolheu o momento de morrer, ele esperou o disco sair, ele usou as últimas forças em um profundo e pesado último sopro de arte.
Tem bandas que encerraram grandiosamente com discos e belas músicas. Bowie encerrou sua vida num disco belo e grandioso. Suas ultimas forças foram para lançar um álbum sobre a própria morte. Como disse anteriormente um verdadeiro artista atormentado e inspirado até o último momento.

Dollar Days é uma despedida e uma reflexão. Nessa música ele fala de forma mais franca sobre sua eminente morte:

Cash girls suffer me, I’ve got no enemies
I’m walking down
It’s nothing to me
It’s nothing to see
If I’ll never see the English evergreens I’m running to
It’s nothing to me
It’s nothing to see

I’m dying to
Push their backs against the grain
And fool them all again and again
I’m trying to
We bitches tear our magazines
Those Oligarchs with foaming mouths phone
Now and then
Don’t believe for just one second I’m forgetting you
I’m trying to
I’m dying to

Ele também vai morrer, ele nunca mais vai ver nada, nada do que acontece agora é para ele, não havia mais nada para se ver, ele estava se apagando, como uma vela, se reconfortando na própria arte. Ele também iria morrer e estava chegando. Nessa música ele se despede dos fãs. Para sempre, um beijo de despedida e um último presente.
I Can’t Give Everything Away é a mais bela, profunda e poderosa Swan Song que o mundo da música já teve. A música final do último álbum do Bowie é a música subindo nos créditos da vida dele. A orquestra de fundo, a música que vai se esgotando até se apagar calmamente.

Sem drama, sem tristeza. O fim do Bowie foi lindo, elegante, profundo, como ele próprio foi em vida.
Blackstar é um presente, uma análise pessoal de um homem sobre sua eminente morte, um último ato de um artista antes de se apagar para sempre. O último esforço criativo antes de se ir. Converter o próprio sofrimento em músicas tão profundas e bonitas mostra porque Bowie é um dos maiores artistas que esse mundo já teve, por isso que ele é um dos maiores do Século XX, por isso hoje o mundo fica mais triste.

Blackstar é o beijo de despedida mais bonito que um artista já deu antes de partir.
Bowie nos deus um beijo antes de virar as costas e voltar para seu planeta.
Você vendeu o mundo, você explodiu nossas cabeças como temia, você conquistou o espaço antes dos EUA e da União Soviética, você foi herói por mais do que um dia.
Eu sei que você não morreu, eu sei que você vai viver pra sempre no espaço olhando por nós. Até porque você é o nosso Starman.
Você vai viver para sempre Bowie, obrigado por tudo, mesmo triste, profundamente triste, fico feliz que esteja voltando para casa. Eles devem estar com saudade. Igual já estamos por aqui.

Obrigado, muito obrigado, não tenho palavras para agradecer sua grandiosidade, camaleão. Por ter nos dado tanto e às vezes não termos te retribuído da maneira que você merecia. Para nós só resta uma coisa. Sentir falta, se entristecer e continuar.

Sim, algo aconteceu no dia que ele morreu. O mundo ficou um lugar mais triste. Uma estrela virou uma blackstar.

Descanse em paz, Major Tom. Hoje todos nós batemos continência para você.

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4 comentários sobre “Boa Viagem, Major Tom – Sobre a grandiosidade do Homem que transformou sua morte em arte

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