Os Oito Odiados e o anticinema de Tarantino

1.fw

O novo filme do americano Quentin Tarantino, um dos diretores mais populares da atualidade, acaba de ser lançado no Brasil. Os Oito Odiados (The Hateful Eight, 2015) vem dividindo opiniões, o que não é raro na carreira do excêntrico cineasta.

Durante uma nevasca, John Ruth (Kurt Russell) está em uma diligência rumo a Red Rock, onde pretende entregar Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh, maravilhosa), uma criminosa procurada que se encontra sob sua custódia, às autoridades em troca de dinheiro. No caminho, dois homens (não simultâneamente) pedem carona por precisarem de abrigo, visto que a nevasca tende a piorar. O primeiro é o caçador de recompensas Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e o segundo, Chris Mannix (Walton Goggins), que afirma ser o novo xerife de Red Rock. E os quatro, junto do cocheiro O. B. Jackson (James Parks), se abrigam em um lugar conhecido como Armazém da Minnie, onde encontram Oswaldo Mobray (Tim Roth), Joe Gage (Michael Madsen), Bob (Demián Bichir) e o General Sanford Bathers (Bruce Dern). Aos poucos, a tensão entre os personagens aumenta…

Dividido em seis capítulos, Os Oito Odiados tem uma construção diferenciada no que diz respeito ao resto da obra de Tarantino ‐ mas as “tarantinices”, características comuns a boa parte de seus filmes, ainda se encontram presentes. Aqui, o cineasta adota um tom bastante interessante ao construir o ritmo do filme de maneira lenta, conduzindo a maior parte das praticamente três horas de projeção com diálogos e se utilizando de poucos cenários, visto que a maior parte do filme se passa dentro do armazém ‐ uma decisão bem estranha para quem decidiu rodar o filme em 70mm, o que teoricamente poderia ser usado para tornar os planos abertos ainda mais fascinantes. A construção da tensão no ambiente é exemplar, os diálogos são muito bem escritos e conseguem manter o espectador atento durante a maior parte do tempo, fazendo com que, apesar de sua duração, o filme não pareça cansativo.

3.fw

Os personagens são um dos pontos altos do filme: como esperado, Tarantino não demonstra interesse em abordar em detalhes cada uma das figuras em cena, mas consegue construí‐los interessantes o suficiente para que mantenham o interesse do espectador. E claro, o elenco, que conta com vários atores já vistos em outras obras do diretor, é fundamental para que esses personagens sejam tão carismáticos. Samuel L. Jackson, que dá vida a um ex‐combatente da Guerra Civil, tem seu melhor papel com o diretor desde Pulp Fiction (1994); Walton Goggins é uma surpresa agradabilíssima e um dos pontos altos do filme; mas quem realmente rouba a cena é Jennifer Jason Leigh, a alma do filme, dando vida à personagem mais interessante do longa com uma atuação extremamente carismática, alternando entre momentos de vulnerabilidade ‐ quando sob a custódia de John Ruth ‐ e de uma insanidade assustadoramente divertida. Outros grandes nomes do elenco, como Kurt Russell, Bruce Dern e Michael Madsen também se destacam. O excelente Tim Roth, porém, é um tanto prejudicado pelo roteiro, que lhe entrega um personagem muito parecido a Hans Landa e, especialmente, ao Dr. King Schultz, personagens de Christoph Waltz em Bastardos Inglórios (2009) e Django Livre (2012), respectivamente. Roth é eficiente e concebe seu Oswaldo Mobray com muita elegância e carisma, mas é inevitável compará‐lo a essas outras figuras do universo tarantinesco ‐ o que soa como uma repetição por parte do realizador, independente se proposital ou não.

Os diálogos, construídos minuciosamente, conseguem sustentar com muita eficiência toda a atmosfera do filme. Tarantino é extremamente elegante ao evitar uma narrativa expositiva demais, e dificilmente entrega algo de bandeja ao público, fazendo com que os personagens e o próprio desenrolar da trama apenas sugiram coisas cuidadosamente, deixando o espectador tão desconfiado quanto os próprios odiados aos quais o título se refere, sem saber no que ou em quem acreditar. Infelizmente, o caráter didático que o diretor evitou durante a maior parte da projeção dá as caras no quinto capítulo. Neste, o diretor abandona a lógica narrativa dos capítulos anteriores e adota um tom demasiadamente expositivo.

Utilizando‐se de um flashback que prejudica bastante a tensão construída anteriormente ao fugir do ambiente em que a trama se encontra no presente, Tarantino tenta explicar alguns acontecimentos de maneira completamente tola ‐ afinal, durante todo o filme, o realizador teve o cuidado de apenas sugerir coisas elegantemente ‐, ridicularizando e subestimando seus espectadores, que até então estavam sendo muitíssimo bem tratados pela narrativa coesa e cuidadosa. Aliás, chega a ser ofensivo que, em um filme de três horas de duração, o realizador se dê ao luxo de fazer um longo trecho que poderia ser completamente descartado com a simples inclusão de algumas poucas linhas de diálogo a mais no resto da obra. Um dos maiores pecados de um cineasta é limitar o pensamento da plateia ao adotar um tom explicativo demais, e é triste ver que Tarantino tentou, durante a maior parte do filme, desviar desse erro, mas falhou. Conseguiu fazer o mais difícil ‐ sustentar quase duas horas de projeção com diálogos inteligentes que fugissem da obviedade‐, mas pecou em um momento crucial. Nadou, nadou e morreu na praia. Não que esse erro torne o filme ruim, longe disso. Mas é certo que tira muito do charme da obra.

2.fw

Tarantino ainda revela uma preocupação com relação aos conflitos étnicos ‐ lembrando que o filme se passa alguns anos após a Guerra Civil ‐, mas esse lado sensível e engajado da obra muitas vezes passa despercebido por conta do humor, que abdica desse teor crítico para provocar algumas risadas ‐ e isso não é exatamente um defeito, por ser algo já esperado de um filme assinado por ele. Os Oito Odiados às vezes parece uma versão western de Cães de Aluguel (1992) somada a uma atmosfera tensa construída vagarosamente. Não que o filme seja exatamente um western. Parece haver um quê de terror psicológico na mistura, como a sinistra e bela música tema do longa, composta pelo mestre Enio Morricone, sugere. Aliás, a trilha do filme é maravilhosa, e as belas composições do grande Morricone se alternam com três musicas conhecidas de Roy Orbison, The White Stripes e David Hess.

O diretor é conhecido por ter um estilo muito característico, com cenas violentas, um humor ácido e o que parece ser uma repulsa à construção de um climax convencional ‐ frequentemente construindo situações anticlimáticas apenas para brincar com o espectador. E esse lado auteur do cineasta é admirável, já que torna suas obras facilmente reconhecíveis e estabelece uma assinatura própria. É válido dizer que o que Tarantino faz é um anticinema, subvertendo o conceito básico de que “uma imagem vale mais do que mil palavras” ao comumente abusar de diálogos; evitando momentos dramáticos mais convencionais com seus divertidos momentos anticlimáticos; e, claro, estabelecendo clímax violentos e tragicamente cômicos. O diretor parece sempre querer lembrar o espectador de que aquilo é um filme. E normalmente os maneirismos de sua linguagem cinematográfica funcionam e conseguem entreter o público. Mas por vezes, o cineasta os faz com mão pesada, exagerando e tornando algumas cenas desagradáveis. Os Oito Odiados tem alguns desses momentos de exagero que podem cansar o espectador ‐ a cena em que Samuel L. Jackson fala em câmera lenta é uma das piores coisas já filmadas pelo cineasta em toda a sua carreira.

4.fw

A fotografia é assinada pelo competente Robert Richardson, que se aproveita da projeção em 70mm para produzir algumas belas cenas na imensidão branca da neve e para moldar a atmosfera claustrofóbica do abrigo. No ambiente fechado da cabana, a grandiosidade estética do filme se manifesta nos detalhes, como os gestos dos personagens que não se encontram no centro do plano ou na própria decoração do local, oriunda de um design de produção eficiente. O trabalho de Richardson é ótimo, mas fica a sensação de que o próprio Tarantino poderia ter ousado mais com esse recurso.

Os Oito Odiados é um filme muito interessante, que poderia ser um dos melhores do diretor se não fosse por alguns erros bobos. A narrativa é maravilhosamente bem construída até o quarto capítulo, sendo capaz de explorar todo o carisma de seus personagens e criar uma tensão crescente em um ritmo lento que deixa o espectador ansioso pelo clímax ‐ que pode não ser dos mais empolgantes para alguns. Apesar desses deslizes do roteiro ‐ que até então era impecável ‐ e alguns maneirismos exagerados do diretor, Os Oito Odiados há de ser lembrado não pelo potencial que tinha, mas sim pelo que de fato foi ‐ por mais que seja um pouco frustrante que seu realizador tenha errado justamente quando tudo parecia estar sob controle. É um filme extremamente interessante, com uma construção bastante diferenciada levando‐se em consideração a carreira de seu autor, e que merece ser visto. Apesar de tudo, é um filme muito bom.

Anúncios

3 comentários sobre “Os Oito Odiados e o anticinema de Tarantino

  1. Pingback: Oscar 2016 – Palpites e Opiniões | Missão Ficção
  2. Pingback: O Demônio das Onze Horas e o existencialismo colorido de Godard | Missão Ficção
  3. Pingback: Os 15 melhores filmes de 2016 | Missão Ficção

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s