Pensamentos sobre Metal Gear Solid V: The Phantom Pain e as palavras que matam

TheManWhoSoldTheWorld

A Desconstrução do Mito

ATENÇÃO: Este texto contém SPOILERS de Metal Gear Solid V: The Phantom Pain (e de boa parte dos jogos da saga Metal Gear como um todo), portanto, não recomendo a leitura caso você ainda não tenha finalizado o jogo.

Acho que foi no terceiro ano do colegial (ou segundo, não me lembro direito) que tive uma epifania a respeito de linguagem. Meu professor de literatura da época, Mário (que certamente não está lendo isso, mas um abraço pra ele), pegou o primeiro dia de aula para falar da autora americana Hellen Keller.
Quando tinha pouco meses de vida, Hellen teve o que provavelmente seria meningite, e isso fez com que ela ficasse cega e surda. Isso há cem anos atrás, então sem qualquer possibilidade de tratamento, ou seja, uma cegueira e uma surdez permanente. Isso criou para os pais dela um problema enorme, como ensinar para um ser sobre o mundo para alguém que nunca viu ou ouviu sobre ele.

Prosseguindo a história, uma moça chamada Anne Sullivan, que tinha experiência em cuidar e ensinar crianças cegas ou surdas foi chamada pelos pais de Hellen para ajudá-los. Com alguns métodos poucos convencionais, como jogar a menina no mar e outras coisinhas descritas no livro de Hellen sobre a vida dela (que eu não li, mas dizem que é show de bola), ela conta tudo em detalhes.

Mas ok, o que isso tem haver com o jogo? É que ali, antes de The Phantom Pain e de “1984” (o livro do George Orwell mesmo), foi que percebi a importância da linguagem. O que nos torna humanos e vivos? Nossos pensamentos, pois sem isso somos um amontoados de instintos primitivos, mas daí surge uma coisa, nossos pensamentos são palavras, sem elas não existem pensamentos, são apenas associações.

Me aterroriza pensar na pequena Hellen. Ela estava praticamente morta sem saber o que era o mundo ao seu redor, ou pior, sem nem saber que havia um mundo ao seu redor. A única diferença desse vazio e da morte é que nesse ela sentia as coisas, mesmo sem saber o que são. Aterrorizante, né?
A linguagem é sem dúvida a criação mais importante do homem, uma das coisas que nos permitiu chegar ao ponto que estamos é que graças a ela, até mais do que a roda, a internet, o domínio pelo fogo, a linguagem é a base da sociedade humana como um todo.

WordsCanKill

E é sobre isso que Phantom Pain é, sobre a linguagem. Não é uma obra só sobre vingança como todos esperavam, ela só arranha esse tema, mas é uma história sobre linguagem, sobre como as palavras podem destruir e criar.
Tudo no jogo remete a isso, todas as frases do começo te dão dicas do final, o Big Boss disfarçado te dá dicas, Ocelot diz “Mostra pra eles que você é o Verdadeiro Big Boss”, o próprio “V HAS COME TO, o quinto Big Boss (Big Boss, os 3 Snakes e o Venom) acordou.

Skull Face e Quiet são personagens construídos para tratar desse assunto. O homem que quando criança perdeu sua língua natal para os soviéticos e após ficar velho por conta de sua pesquisa, a perdeu de novo por não poder mais falá-la. E a sniper que, para proteger Snake, o homem que criou seu sofrimento, mas a poupou e deixou ela como sua companheira, se priva falar para poupá-lo do terror dos parasitas da corda vocal.

Skull Face retrata, na minha concepção, toda e qualquer dominação cultural feita por uma potência em países menores, no caso pela União Soviética, mas também em geral. A meta dele é destruir o inglês que faz parte do pacote do capitalismo americano que estava tomando o mundo. Essa imposição de linguagem para controlar uma cultura é algo que o próprio país de Hideo Kojima passou. O Japão após a segunda guerra virou quase um quintal norte americano. Lógico que essa imposição tornou o Japão a terceira maior economia do mundo hoje, mas trouxe para a população grandes perdas de identidade e alguns problemas sociais graves, como o grande número de suicídios de jovens por não saberem lidar direito com a pressão do capitalismo somada à cultura japonesa de que a engrenagem falha deve ser eliminada para manter a máquina rodando. Assunto este que, na minha interpretação, é a inspiração para outro jogo fantástico, que é Mother 3, do mestre Shigesato Itoi.

Skull Face retrata sobre uma cultura menor ser destruída pela entrada de outra dominante, como no exemplo dele dos Soviéticos com os países do leste Europeu. Mas é uma coisa que sempre existiu na história da humanidade, o conquistador impondo sobre o conquistado sua língua e cultura. Guerra e domínio populacional andam lado a lado.

Quiet, por outro lado, nos mostra uma realidade terrível: ser proibido de se comunicar com as pessoas. Tente passar um dia sem falar com ninguém para ver o terror que isso causa. Você praticamente perde sua identidade. E é isso que a Quiet é, uma pessoa que desiste de tudo pelos outros. Ela diz que a língua do ódio virou a dela e que após os eventos de TPP ela abdicou das palavras. Algo bem piegas, mas porque o amor transcende a palavra. No fim ela se sacrifica para salvar o Venom Snake que foi picado por uma cobra (carma é uma merda, né) para proteger ela.

QUIETNOOOOOOOOOO

Ela morre por ele, para proteger quem ela ama, e no fim, o ódio dela foi superado pelo amor. Basicamente, é o desejo da Boss: todos acabarem com o ódio e abaixarem as armas, e isso que a Quiet faz no final, sendo uma das primeiras e únicas a compreender este ideal. Nesse jogo ela é o oposto do Big Boss: podia ter sido tomada pela vingança e retaliado contra aqueles que a tornaram naquilo, mas no final ela se sacrificou por aquele que a fez ficar “Quiet“. A falta de roupa dela, que é motivo de comentários de outros personagens e de grande parte do público pouco importa para a personalidade dela.

Quiet não é só uma das personagens principais do jogo com é também é uma das mais poderosas da série e facilmente uma das três melhores personagens femininas em qualquer joguinho pra mim. A história deixa claro que ela não matou o Big Boss porque quis. Como podem falar que ela é uma personagem sexista com a cena dela esfaqueando as genitais de um soldado? Ela é livre, do começo ao fim, ela que faz as escolhas dela e no final escolhe se sacrificar para salvar o Boss. Quiet consegue se livrar das amarras do próprio ódio, da dor fantasma que a atormentava, ao contrário da figura principal do jogo que deixei por último, mas não menos importante, Big Boss, que por conta de seu desejo de vingança acaba traindo tudo o que acredita.

Big Boss é uma lenda, mas somente isso, lenda. O soldado lendário é desconstruído nesse jogo. Já era sabido que o fato dele ter matado a The Boss já havia sido planejado por ela, mas aqui descobrimos que por trás da missão, fazendo o trabalho sujo, estavam Skull Face e a XOF, nas sombras, sem receber méritos já que o Big Boss o levou por inteiro. A única coisa realmente heróica que ele fez foi em Peace Walker, onde impediu uma guerra nuclear, mas também só consegue tal feito por causa da própria fama, e legal citar também que na base de linguagem, para atingir esse resultado, enquanto a própria IA se destrói após receber danos dele.

Shatter

Big Boss é a construção de sua lenda, todos acham que ele matou a Boss heroicamente, porém, somente alguns poucos sabem da verdade por trás daquela missão. E nesse jogo, enquanto todos esperavam o Boss virando vilão ao ser cego pela vingança, na verdade ele foi pior que isso.

Ele não só pegou um soldado comum, mas o seu melhor e mais leal soldado e o transformou num fantoche, num fantasma. Isso traindo não só a vontade da Boss, mas a própria ideologia que sempre pregou contra o uso de soldados pelo governo. Usando uma falsa bandeira de liberdade, por debaixo dos panos, ele usou o seu melhor soldado como um fantoche, aquele que entrou à frente dele na explosão ocorrida no final dos eventos de Ground Zeroes para proteger ele. Esse soldado é ninguém mais ninguém menos que você, jogador.

Isso deve ser a maior genialidade do Kojima nesse aspecto. Não é um personagem qualquer que ele tá usando, é você. Ele tem seu nome e um rosto escolhido a sua maneira. Você foi usado pelo Boss e no momento certo foi descartado para proteger o rabo dele. Por isso que Big Boss é o homem que vendeu o mundo, um dos vilões do jogo e uma construção de lendas. Ele deixou o Venom como seu fantoche certo e depois o deixou para morrer e ser apagado da história.O mesmo Venom que sozinho, derrotou e livrou o mundo de Skull Face e seus demônios.

Eu posso estar errado mas o corpo carbonizado no Ato 3 de MGS4 era o dele, não? Mas a desculpa era que ele era o Solidus. Porque ele não existe, ele é um fantasma, foi apagado da história quando o Outer Heaven caiu.
O único herói na história, além da Boss que se sacrificou para salvar o mundo é Solid Snake, que livrou o mundo de Zero, Big Boss e os demônios de cada um deles. Além de no final de MGS4, Solid Snake ser o único que realiza o desejo da Boss de abaixar a arma e seguir em frente em paz após Big Boss falar que ele deveria fazer isso. Porque ali o Big Boss finalmente entendeu o desejo da Boss, ao contrário de no final do PW quando ele diz que a Boss foi fraca ao abaixar a arma e desistir de lutar.

OperationOuterHeaven

“Operation Intrude N313”. Isso soa familiar?

Big Boss é bom com as palavras, ele é um líder, mas não é e nunca vai ser um herói, ele é o homem que vendeu o mundo. A música de David Bowie, que ficou mais famosa após o cover do Nirvana (e neste jogo é usada a versão de Midge Uren), retrata o encontro de um homem com uma parte de si mesmo.Talvez seja do ponto de vista do Venom encontrando o Boss pela primeira vez e descobrindo tudo.

É legal notar como na música no primeiro refrão ele diz “I never lost control” (Nunca perdi o controle) e no segundo diz “We never lost control” (nunca perdemos o controle), como se fosse o Boss com aquele discurso de os dois serem o Big Boss. Lógico que isso é só isso mesmo, discurso, acho que o Boss até conseguiria sair melhor desse jogo se ele tivesse morrido em Outer Heaven e o Venom nos eventos em Zanzibar, ocorridos em Metal Gear 2, porque aí aquele discurso dos dois serem o Big Boss seria mais verdadeiro. Não faz diferença quem era o Boss ali, mas o jogo deixa claro que foi o Venom que se sacrificou ali. No fim, Big Boss mostrou para o Venom que aquilo era tudo papo furado, ele era somente um fantoche que seria descartado ali. Isso que o enfureceu e fez socar o vidro, no fim quando ele caminha para a escuridão é ele sabendo que foi usado, que sabia que estava caminhando para ser apagado da história. Quando ele olha no espelho e vê o reflexo dele mesmo, não mais o reflexo de seu líder, é ele entendendo que ele nunca foi realmente Big Boss. Só tem espaço para um Big Boss e esse usou ele até o último segundo com a bandeira de serem um só e no final quando o Venom já estava encurralado por Solid Snake, ele mostrou seu verdadeiro plano. Esse é o final de The Phantom Pain e o tal “Missing Link” da saga Metal Gear, esse é um final cruel e doloroso, que retrata o que a Guerra é, pessoas usando outras sem escrúpulos para alcançar seus objetivos megalomaníacos. Big Boss nunca foi o herói da Série, ela abre e fecha no mesmo ponto, com ele sendo vilão.

Acho legal salientar também como MGS4 e MGSV são jogos completamente opostos. Funcionavam como finais diferentes, o primeiro é o final que a série “precisava”, fechando a maioria das coisas que ficaram em aberto por causa de MGS2 e MGS3, encerrando com os demônios de Big Boss e do Zero. Enquanto o segundo já é um final que a série merecia, mostrando para o público a verdadeira face do Boss que para muitos, assim como eu por exemplo, não conseguia entender como ele virou vilão do MG1.

VHasComeTo

Eles também são diferentes na sua composição, MGS4 é mundialmente conhecido como o jogo construído em volta da sua história, que é basicamente o jogo inteiro ser cutscenes explicando coisas do passado, enquanto o MGSV contém poucas cutscenes, que não ocupam nem 5% do seu tempo de jogo. Mas isso não torna a história do V menos fantástica, ela só é mais pontual e isso torna as cenas do jogo mais fantásticas. A abertura do jogo é fantástica, a cena da Quiet no helicóptero abatendo um caça supersônico com um único tiro é deslumbrante já nos apresenta de cara o quão interessante é a personagem, só para citar duas.

MGSV é o meu Metal Gear favorito, enquanto MGS4 é o meu menos favorito. Acho que isso explica um pouco do porque eu achar eles jogos totalmente opostos. É por tudo isso acima que eu acho que TPP, desde o começo foi um jogo que me fez apaixonar, é um jogo que tem alma do começo ao fim, ele é preenchido com uma coisa que falta hoje em dia em qualquer ramo da arte: honestidade.

Vivemos numa época terrível que os jogos estão cada vez mais de plásticos e Metal Gear Solid V, mesmo tendo seus defeitos, não é. Ele é honesto e orgânico do começo ao fim. Ele não é um jogo que tenta emular um filme, ele é somente um jogo, te deixa se aprofundar na história o quanto você quiser. Além do que já disse dele desenvolver seu tema de uma forma que só um jogo conseguia, o choque de não entender russo é de cada um. Sem contar que é jogo que te deixa tenso, que mexe com você em alguns momentos porque é um jogo que é honesto contigo do começo ao fim. Ele me deixou mais tenso em alguns momentos que muito jogo de terror.

Acho legal que quando MGS4 terminou, me senti mal por ver minha série favorita acabando, mas com MGSV não senti tanto esse peso. Foi uma despedida tão boa que nem doeu tanto. A fita final de Paz retrata tudo o que o jogo é, uma crítica voraz à imbecilidade da guerra, que a vingança ou retaliação nunca vai mudar o que aconteceu, que a dor fantasma não deve ser combatida e sim aprender a viver com elas.

Considerações finais a seguir; TPP pra mim não é só o melhor jogo dos últimos dez anos, mas vai ser uma das melhores obras dessa década. Ele retrata linguagem, loucuras, ódio e futilidade da guerra de uma maneira que deixaria Orwell e outros autores orgulhosos. Eu não sei o que vai ser do Kojima daqui pra frente, mas faça um jogo de terror. O mundo, mesmo sendo um lugar ruim, merece isso.

MakePEACE

Obrigado, Hideo Kojima, pela série Metal Gear, que vai ser para sempre um clássico dessa jovem arte que são os joguinhos. É meio cedo pra falar que Metal Gear está para joguinhos o quanto The Godfather está para o cinema? Talvez, quem sabe. Metal Gear acabou, vamos ter que conviver com isso, não sei direito como terminar esse texto. Talvez, quem sabe, say Peace!

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2 comentários sobre “Pensamentos sobre Metal Gear Solid V: The Phantom Pain e as palavras que matam

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  2. Otimas palavras, parabens pelo post… Eu sou contrario a sua preferencia, MGS5 foi o que menos gostei, ja MGS4 é meu segundo favorito (o 3 é meu favorito), mas acho valida sua visão sobre o fechamento de cada jogo e sua importancia para a saga.. Eu particularmente esperava muito mais do 5, mas o final foi o que a serie precisava, mostrando o verdadeiro Big Boss, que já nao era o mesmo, segundo ele mesmo, após apagar a The Boss… Só uma pergunta, ate um pouco fora do contexto rs como o Venom era tão foda sendo que ele era apenas um medico? Kkk ele peita a Quiet, Metal Gear(s), manja mto CQC, etc… Acho que isso desmereceu um pouco a “fodice” do Big Boss e dos clones, ja que os feitos do Venom foram equivalentes (menores na vdd, mas comparavel) mesmo nao possuindo os genes do Naked

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