Vingadores 2: A Era de Ultron – O Tema Que Ninguém Viu

Hawkeye

“Há uma intensidade e uma seriedade no propósito em alguns desses personagens. Os cineastas que estão trabalhando com esses personagens estão fazendo grandes filmes sobre super-heróis; não estão fazendo filmes de super-heróis. E quando você está tentando fazer um bom filme, você aborda filosofias interessantes e desenvolvimento de personagem. Há também humor, que é uma parte importante”

Ou pelo menos foi o que o diretor de cinema da Warner Bros. disse sobre o tom de Batman v Superman. Mas deixando de lado essa afirmação referente aos filmes já lançados da DC, porque isso será tratado em outro artigo (aguardem!), pergunto à você, leitor, será que a concorrente já não fez um filme sobre super-heróis? Digo mais, será que a Marvel já não fez o melhor filme sobre super-heróis até o momento em que esse texto foi publicado?

Eu digo que sim! (e explico com muitos spoilers, esteja avisado)

E que fique claro antes de tudo que esse não é um texto sobre a qualidade do filme no geral, mas sim da qualidade temática que este estabelece através das ótimas relações entre os personagens. Bem, vamos ao texto.

“Vingadores 2 – A Era de Ultron” aborda diversas temáticas que rondam o arquétipo do Ubermensch e que estão presentes nos quadrinhos há décadas. Com estas o filme se torna um comentário sobre o mundo dos super-seres em diferentes espectros, além de ser, acima de tudo, uma lição sutil do que é ser um super-herói.

O plot principal começa quando Tony Stark secretamente e somente com ajuda do Bruce Banner tenta criar algo que salve o mundo inteiro de uma só vez. Ele diz querer “envolver o mundo em uma armadura”, mas no processo cria um vilão que é uma armadura que quer envolver o mundo em destruição. Como um leitor do Superman, já vi que o super-herói nunca pode salvar o mundo todo. Ou pelo menos não sozinho. Ou a tentativa é pouco efetiva, como em Paz na Terra, ou se torna danosa, como em Entre a Foice e o Martelo.

Em Vingadores 2 a temática aponta para o segundo caso, mas o longa não para seus comentários sobre super-heróis aí. Esse é só o começo. Em contrapartida do herói que quer salvar o mundo sozinho e até esconde seus planos dos outros, o personagem com maior destaque no filme é o Gavião Arqueiro, que é só um cara com arco e flecha. E é interessante como o roteiro comenta essa dicotomia entre a visão do que é ser um herói para ambos os personagens sem fazer uma ligação direta entre eles.

O Gavião já começa o filme subjugado pelo Mercúrio, se machucando gravemente e tendo que ser operado enquanto alguns personagens comentam sobre essa fragilidade. Em outro momento o plot se volta totalmente à família dele, que ao mesmo denota simplicidade e fragilidade por parte do personagem. Mas apesar de tudo, as cenas são bem cuidadosas em mostrar o quanto o “Olhos de Gavião” é na prática um membro fundamental da equipe. Ele escapa do controle da Feiticeira, se dispõe a pilotar a nave dos Vingadores, com o intuito de ser útil em meio aos super-seres, e acaba salvando os personagens com ela, pega o Mercúrio de surpresa em certo momento onde este tinha controle da situação e ainda é o responsável pelo fechamento do arco de personagem da Wanda se descobrindo como uma heroína. Este último momento tem até o diálogo que resume toda a ideia do herói que faz o que pode com o que tem, onde o próprio personagem admite sua incapacidade comparada à situação, mas mostra que ainda assim não deixa de agir.

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Além disso, cria-se uma dualidade direta entre Gavião Arqueiro e Mercúrio, onde um representa a fragilidade e o outro o inalcançável (literalmente). Essa dualidade culmina em uma cena onde o Arqueiro vê uma criança a ser salva e o Pietro acaba por resgatar ambos, se sacrificando. Independente do peso dramático fraquíssimo relacionado à morte do herói, a cena ainda representa esse entendimento entre esses dois símbolos.

Aqui, Vingadores 2 já parece mais rico do que antes, certo? E ainda não estamos nem na metade…

Alguns personagens e atitudes fazem comentários bem pontuais sobre essa temática. A Wanda, como dito, é a personagem que se descobre como super-heroína ao longo do filme, mostrando respeito pela vida ante aos planos do Ultron. O Hulk é outro personagem que se preocupa com a vida das pessoas e por isso teme a si mesmo. Nesse sentido a cena da Verônica é bem representativa, mostrando o quanto os Vingadores querem preservar as pessoas da destruição e o quanto o Bruce talvez seja o Vingador mais preocupado com essa questão, tendo ajudado a criar uma armadura que parava a ele próprio. E no fim do filme, é claro, o personagem ainda inseguro sobre poder ou não ajudar, foge. Até mesmo as piadas com o Máquina de Combate acrescentam ao tema, mostrando um personagem que é deixado de lado também como uma ajuda de valia.

Outros personagens são arquétipos mais profundos e, logo, acrescentam mais densamente ao tema e aqui falo bem especificamente da dualidade entre Ultron e Visão. A diferença principal na concepção dos dois personagens é a interferência do Thor, que serve como uma inspiração divina para o Visão. O herói nasce com o aspecto visual de um corpo humano nu, sem pele, só com os músculos aparecendo. A nudez por si só funciona como um símbolo de pureza (que vai ser provada mais para frente).

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Uma das primeiras ações do personagem nascido de Deus é encarar a cidade (e por consequência os humanos que estão nela) de cima, com certa admiração, enquanto voa sem auxílio de nenhum aparelho. Logo depois ele se inspira no Thor enquanto pensa na sua vestimenta, fechando de vez a imagem do personagem que é ao mesmo tempo tempo humano e divino. Essa imagem também é um arquétipo clássico nos quadrinhos. Reino do Amanhã trata justamente dessa dualidade, por exemplo. A imagem do personagem voando por cima da cidade já foi comentada por Lex Luthor em algumas revistas, vista com certa inveja pelo personagem que não tem tal privilégio o tempo inteiro. Óbvio que para alguém como Luthor a posição é vista como feita para alguém superior, mas para os heróis essa é sempre uma posição de responsabilidade (e isso também se prova para o Visão mais à frente)

E como dito sobre a pureza do Visão ser provada, ele levanta o Mjonir.

Só essas características já classificariam o androide com a gema da mente como um Ubermensch, mas ainda há filosofia nisso. O personagem mostra que, assim como Ultron, entende que a humanidade é falha e efêmera. A diferença entre os dois é que o herói aceita a imperfeição e a vê como algo belo, vê valor na suposta mediocridade da vida. E isso basicamente define o conceito de Ubermensch. Niilista sim*, vitimista não.

Ultron, por outro lado, é a imagem do seu criador e acredita que a humanidade tem uma salvação definitiva. Mas para alcançar essa salvação ele toma papel de juiz e executor (um papel egoísta para a salvação, assim como Tony, só que muito mais radical), não respeitando as vidas, mas acreditando em um bem maior através da sobrevivência dos mais fortes. Assim, ele é a antítese não só do Visão, mas também dos Vingadores, e cria um clímax onde o principal não é derrotá-lo, mas sim preservar o máximo de vidas possível naquele país atacado pelo personagem.

Vision

Outro ponto interessante da dicotomia entre esses dois super-seres é a postura de ambos. Visão é íntegro e soa como alguém maduro, enquanto Ultron é revoltado e soa como alguém ingênuo.

Vingadores 2 – A Era de Ultron pode não ser o melhor filme que lançou no verão, nem o mais bem aceito pelo público, muito menos o melhor filme de herói. Mas é de longe o filme mais rico sobre super-heróis não só na Marvel, mas em todo o seu meio. Uma obra que diz muito não só com excelentes diálogos, mas também com uma direção muito cuidadosa e cheia de signos visuais. O que é salvar o mundo? O que é ser um super-herói? Graças à essas discussões esse talvez fique por muio tempo sendo o longa-metragem definitivo sobre os arquétipos dos quadrinhos que são tão fortes no inconsciente popular.

Uma pena que no fim das contas o público não o aceitou tão bem e o Joss Whedon se sentiu pressionado de mais com as exigências da Marvel, se afastando de projetos similares e talvez até prejudicando a qualidade deste graças ao estúdio.

*uma pequena tecnicidade aqui: o Ubermensch não é niilista, já que para estar além, o homem precisa estar acima dessas filosofias. Mas como na frase tratei niilismo não como uma ideologia complexa, e sim como a simples descrença na razão e no propósito, o termo se encaixa para definir o conceito. Sim, é uma visão mais particular sobre niilismo.

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Um comentário sobre “Vingadores 2: A Era de Ultron – O Tema Que Ninguém Viu

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