Uma noite de sexta ou último amigo

Foi tudo muito rápido e principalmente muito estranho.

Naquela noite o plano era somente esperar uma amiga, precisava buscar uma coisa que havia deixado com ela, então sentei na mureta de frente a um banco, não vou falar qual para evitar fazer propaganda gratuitamente, fiquei esperando. Ela deve ter se atrasado ou eu acabei saindo cedo demais, tenho essa terrível mania de chegar muito cedo nos lugares e passar um bom tempo esperando, então deu tempo dele se aproximar. Era um homem até que novo, não sei especificar direito a idade, mas devia ter pouco mais de trinta anos.

Era obviamente um morador de rua, como eu sabia disso? Simples, estava fazendo pouco mais de dez graus e ele estava de bermuda e chinelo de dedo. Senti-me um pouco mal por estar de casaco e ainda assim tremendo levemente de frio enquanto aquele homem vestido daquele jeito agia naturalmente como se já estivesse calejado.

Ele sentou-se ao meu lado sem cerimônia nenhuma, havia conseguido algumas bananas e duas maças na quitanda que havia ao lado do banco e as comeu sem fazer alarde. Dado momento me cutucou levemente com a ponta dos dedos, achei que me pediria dinheiro ou coisa parecida, mas pelo contrário, me ofereceu uma de suas maças e neguei levemente com a cabeça falando que havia acabado de comer algo e agradeci. Era mentira obviamente, mas não iria roubar o pouco de comida que aquele homem havia conseguido.

A garota estava demorando bastante, ele terminou de comer tudo, e se levantou. Primeiramente colocou o lixo dentro de um saco de lixo encostado próximo a um poste e depois foi para a porta do banco pedir dinheiro para as pessoas que entravam e saiam de lá, fiquei o observando levemente fazer isso. Primeiro veio um casal, o rapaz inventou qualquer coisa e a moça apertou o abraço em volta do braço do moço como se tivesse medo daquele homem.

Segundo veio um senhor sozinho que fez que não ouviu e seguiu em frente, terceiro foi uma mulher que falou algo que não consegui ouvir e também negou veemente com a cabeça. Ele então voltou e se sentou ao meu lado. Na hora havia puxado um cigarro, a minha amiga devia ser atrasado ou coisa parecida, quando fiz isso ele meio sem graça olhou para mim e perguntou.

– O senhor poderia me dar um cigarro?

“Só se prometer não me chamar de senhor” Foi o que respondi, ele deu uma risada baixa que retribui e entreguei um dos cigarros do meu maço para ele, acendi o meu cigarro e o dele. Fumamos sem trocar nenhuma palavra, quando terminou de fumar ele apagou o cigarro usando o chinelo e voltou à porta do banco.

Uma senhora meio assustado passou reto fingindo não ouvi-lo, um senhor mais nervoso o chamou de vagabundo, mandou arrumar um emprego e falou que chamaria a policia. Outro homem com esposa continuou conversando com a esposa e seguiu em frente ignorando completamente sua existencia. Ele desistiu e voltou à mureta, pediu outro cigarro e logo após isso pediu desculpas, estava frio e o cigarro ajudava com isso ele disse. Entreguei e lhe disse que estava tudo bem.

Dessa vez não fumei, só fiquei quieto olhando para o fim da rua esperando minha amiga aparecer, é ela realmente estava atrasada, espero que não tenha acontecido nada.

O mesmo ritual, acabou de fumar e voltou a porta do banco. Um senhor saindo num carro fechou o vidro, outra mulher se desculpou falando que só tinha ido fazer um deposito e não tinha nada. Por fim uma mãe com uma criança acelerou o passo quando passou ao lado dele. Voltou a mureta, três tentativa e de volta a lona derrotado.

Pediu um terceiro cigarro e novamente pediu desculpas, entreguei e dessa vez fumei também.

– Posso te perguntar uma coisa? – Comecei entre uma tragada e outra enquanto soltava a fumaça, ele acenou com a cabeça positivamente enquanto tragava – Porque você não pediu dinheiro para mim?

Ele parou um tempo olhando para o nada, tirou o cigarro da boca e soltou a fumaça lentamente enquanto parecia que pensava numa resposta.

– Preferi roubar seus cigarros – Respondeu ele sorrindo, lhe faltavam alguns dentes, mas isso não tirava a sinceridade naquele sorriso – Na verdade não sei, você tava meio triste olhando lá pra puta que pariu e fiquei com vergonha acho.

Ri, coloquei a mão nos bolsos, pesquei algumas moedas perdidas que tinha no bolso, não devia ter mais de dois reais ali, mas pelo menos poderia ajuda-lo em alguma coisa. Entreguei para ele e agradeceu prontamente colocando no bolso da bermuda, mas antes checando se ele estava furado ou não.

– Nem sempre estive nessa situação entende? – Falou ele enquanto fumava, não olhava diretamente pra mim e sim pros carros passando – Tinha uma mulher, um filho e uma cachorrinha chamada Fofura, meu filho tinha uns cinco anos quando deu esse nome pra ela. A vida começou a complicar, ficar um saco sabe? tudo era a mesma coisa sempre, comecei a beber muito, depois de um tempo a bebida acabou não fazendo o mesmo efeito então com a sugestão e ajuda de um amigo comecei a cheirar pó.

Acabou o cigarro e o apagou no muro aquela vez, esticou as costas e continuou.

– Ficava fora de casa quase o final de semana inteiro no começo, depois de um tempo comecei a ficar alguns dias a mais quando perdi o emprego, por fim comecei a passar semanas fora, bêbado, drogado, dormindo na rua e acordando só para cheirar e beber. Como um verme mesmo, um dia voltando pra casa e ela estava vazia, minha esposa havia ido pra casa da mãe – Cuspiu no chão, olhou para mim e continuou – Aquele momento foi quando minha vida acabou, acabei perdendo a casa e desde então moro na rua. Desculpa te encher com isso, faz tempo que não converso com alguém.

Falei que estava tudo bem, avistei minha amiga se aproximando e estiquei minha mão para ele, que olhou aquele gesto como se fosse algo alienígena, mas me cumprimentou mesmo assim, desejei boa sorte para ele conseguir sair daquela vida, ele agradeceu por ouvi-lo e pela companhia e voltou à porta do banco para dessa vez pedir dinheiro para uma família. Minha amiga se aproximou e nos cumprimentamos, ela se desculpou falando que a chefe dela a tinha chamado para conversar bem na hora que estava saindo da empresa, falei que estava tudo bem, ela me entregou o que eu havia ido buscar e a acompanhei o resto do caminho até sua casa.

Em momento nenhum ela me perguntou o que e muito mesmo o motivo pelo qual eu conversava com o mendigo, pelo contrário falamos de coisas totalmente diferentes. Após uns dez minutos de caminhada chegamos a porta da casa dela, nos despedimos e voltei subindo a rua calmamente, fazia um frio filha da puta e cada vento era um castigo. Mesmo assim andei devagar por algum motivo, talvez preguiça.

Por algum motivo toda essa situação com esse cara não saia da minha cabeça, no jeito simples e sincero como ele se abriu comigo do nada, na história dele que devia ser tão assustadoramente comum, poderia ser eu ou alguém que conheço naquela situação, pra ser sincero do jeito que a vida estava indo aquele talvez até fosse o meu futuro. Ri um pouco pensando nisso, um pouco por achar engraçado e um pouco pelo medo.

Estava chegando na rua de casa, passando pela mesma agencia bancaria quando vi. Ele devia ter tentado atravessar a rua indo atrás de alguém pedindo dinheiro e um carro o atingiu em cheio, a pancada foi tão violenta que um dos chinelos dele, o mesmo que ele apagara o cigarro alguns poucos minutos atrás, estava uns três metros do seu corpo caído na rua.

Não havia ambulância, até porque perderiam tempo chamando resgate para um morador de rua? Somente havia um carro de policia desviando o trânsito que passava devagar para olhar morbidamente o corpo. Torci para que sua morte ao menos tivesse sido rápida.

Passei ao lado dele, quando um policial não via eu joguei o ultimo cigarro que eu tinha no maço no seu corpo, por algum motivo a vida havia me colocado como o ultimo amigo, ou algo próximo disso daquele homem. Pior que eu nem devo ter feito grande diferença na vida dele, talvez com o dinheiro que eu dei ele conseguiria comprar um salgado em algum lugar ou beber um pouco naquela noite de sexta. Mas continuaria sendo só um cara legal que deu cigarro e dinheiro para ele, talvez quem sabe também tenha sido a última esmola que ele conseguiu naquela vida.

Eu por outro lado às vezes me pego pensando nele, principalmente quando tenho sonhos ruins.

Como diz uma música ai, ninguém foi salvo.

Se houvesse um céu torci para que ele fosse para lá e falasse bem de mim para o proprietario.

A vida me assusta.

Gustavo C Franqueira

15/05/2015

Morreu na contramão atrapalhando a sexta

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