Um pouco sobre gostar de Evangelion e mais sobre a importância dos episódios finais.

411845 Não, isso não vai ser uma resenha ou um review sobre Evangelion. Não vou falar da obra como um todo, se vale a pena ou não assistir, menos ainda sobre a minha opinião do anime como um todo e não pretendo explicar o final de Evangelion nesse texto. Sim, ainda pretendo, algum dia, fazer tudo isso um dia num texto enorme, quem sabe até uma edição completa de 10 horas de podcast inteiro sobre, ok um exagero, mas não hoje.

Hoje vamos ser mais simples.

Sempre quis falar o porque eu gosto tanto de Eva, também poderia somente fazer um texto listando um por um, mas acho que isso ficaria muito chato e apenas reafirmando o obvio. Então revendo alguns episódios, algo que faço regularmente, decidi que queria fazer um texto pegando um episódio (No caso só metade dele) e usando ele como exemplo para explicar um dos pontos que mais me faz gostar da série. Os personagens.

A escolha do episódio 25 foi por causa disso, acho que é um episódio injustamente odiado e bem subestimado, pois ele é vital para entender a cabeça dos personagens e suas motivações tanto antes do End of Eva quanto após ele e até durante todo o Rebuild.

Ah, vai ter spoiler. Se você não viu Evangelion não leia, vai estragar sua experiencia com a obra, sério.

A história todo mundo conhece: por conta da violência exagerada e das cenas de insinuação de sexo entre a Misato e o Kaji, a verba pra Evangelion foi reduzida e o trabalho que já era difícil ficou mais complicado ainda.

Sem contar também que acredito que o Anno já tinha em mente fazer o End of Evangelion, por isso fez os dois últimos episódios dessa maneira: para conseguir explicar a cabeça dos personagens (antes de passar para as suas ações no EoE) e também por possivelmente acreditar que é/era possível alcançar algumas pessoas dentro do tema da depressão e ajudá-las a não se perderem dentro de si mesmas, visto que ele próprio passou e até convive com. Isso tudo somado resultou no episódio tal qual ele foi.

(Antes de irmos para os episódios, desculpa pelas legendas, foram as melhores em português que eu consegui encontrar então, né, fazer o que.)

a

Bom, vamos lá. Após matar a única pessoa que o amou pelo o que ele realmente era, Shinji está cheio de remorso. Por mais que tenha feito isso pelos outros, para proteger a raça humana e impedir o Kaworu de acabar com a humanidade, ele sente culpa.

Ele tenta justificar para si mesmo falando que fez isso pelo bem comum e que precisava fazê-lo, que era seu objetivo. Mas mesmo assim, isso não é o suficiente para acabar com a culpa, que acaba o consumindo por dentro. Quem nunca fez algo certo mas mesmo assim depois ficou remoendo a culpa, não é mesmo?

Então flashback, ou ocorrendo cronologicamente, mas dessa vez fora da mente dele. A Misato então explica para ele que o Kaworu que quis morrer, que aquilo não era culpa dele e o Shinji começa a duvidar novamente de si mesmo. Começa a se perguntar de novo o que deve fazer, o que ele está fazendo ali, o que ele teme e chega a conclusão que o que ele mais teme é ser odiado.

Ele percebe que o pai tê-lo abandonado o fez temer ser odiado e rejeitado. Shinji não sabe o que fazer se for rejeitado de novo, agora que ele havia se encontrado novamente, não poderia simplesmente perder tudo depois que havia conseguido; Amigos, pessoas próximas que se importavam, o apoiavam e até mesmo chegou a ser elogiado pelo pai.

Shinji havia passado os anos anteriores de sua vida se escondendo, excluído e fingindo que não existia, por medo de ser rejeitado por alguém. Mas todos os acontecimentos em Evangelion o fizeram sair de seu casulo, fizeram ele se expor, se abrir com os outros e agora que todos estão dando as costas para ele por estarem preocupados demais com eles mesmos. Shinji de novo se sente sozinho e abandonado, como costumava ser nessa época que se escondia, mas agora ele não consegue se adaptar mais a essa vida, acabou gostando e se adaptando a aquela vida de ter outras pessoas ao lado.

Aquele mundo de névoa e vazio é como ele se sente por dentro, sozinho.

Nesse momento ele busca ajuda das outras pessoas, ele quer entender o que ele precisa fazer – não somente por precisar que os outros lhe digam o que fazer, mas quer que os outros voltem a gostar dele e o elogiar como faziam antes.

Então, nesse momento ele começa a se perguntar o porque dele pilotar o Eva 01 e responde para si mesmo dizendo que faz isso pelos outros. Após isso, a Asuka aparece e dá uma bronca nele – que não precisa nem ser explicada, só ler abaixo:

b

Bateu ai? Não? Ok né, vamos continuar.

Após essa bronca da Asuka e esse choque de realidade que a Rei dá na Asuka passamos para o caso dela, que na superfície pode até ser comparado com o do Shinji, mas é levemente diferente.

Nos episódios anteriores ela foge após ser superada pelo Shinji e após falhar seguidas vezes com o Eva 02 sendo até “humilhantemente” salva pela Rei no momento em que sua mente era invadida e dissecada por um dos Angels. Vemos se destruindo cada vez mais, principalmente por ter perdido sua maior vontade de viver, ela vivia para ser a melhor piloto, para ser reconhecida, amada, idolatra e terem as outras pessoas necessitando dela.

Asuka como o Shinji foi deixada de lado quando criança, sua mãe enlouqueceu após contato com o Eva 02, começou a trata-la como uma boneca e por fim não aguentou e se matou sendo encontrada pela filha enforcada. Isso causou sérios problemas na Asuka que precisava se provar, precisava mostrar para o mundo que era mais do que uma boneca, não precisava de ninguém para ser a melhor e queria que todos a vissem como adulta e necessitassem dela.

Quando ela perdeu isso, ela perdeu tudo o que havia construído e desejado na vida. Ela se viu perdida e sem motivo nenhum para continuar, pois ela era nada mais do que uma falha.

Isso a afunda de tal maneira que ela chega a tentar suicídio, sim a cena da banheira ela tentou suicídio, na versão não censurada não é água no fundo da banheira e sim sangue. Sem contar que é natural, não só no Japão, mas suicidas arrumarem suas roupas perfeitamente próximo ao local que cometem suicídio. Só que ela é encontrada pelo pessoal da Nerv a tempo que a salvam e a sedam.

Agora vamos ao confronto pessoal dela nesse episódio em questão.

Ela se vê novamente dentro do Eva 02, o motivo pelo qual não vou entrar em muitos detalhes, pois entraria em Endo f Evangelion e não quero fazer isso aqui, tendo novamente todo aquele conflito anterior de se sentir um lixo por não conseguir mais pilota-lo, pois ela é inútil, quem precisa de uma piloto que não consegue pilotar? Ninguém mais precisa dela.

Nesse momento a voz calmamente fala que ela busca muito ela mesma nos outros, que ela teme ficar sozinha por isso, por ela depender muito das outras pessoas para que assim possa se dar algum valor, que ela só pilota para isso, porque ela precisa do valor dos outros para se dar algum valor.

Nisso pulamos para a terceira e que diferencia um pouco do Shinji e da Asuka. A Rei.

ce

A Rei é uma personagem absurdamente interessante, mas vejo ela sendo bem má interpretada pelas pessoas que não se aprofundam muito em Evangelion.

Anno a criou principalmente como uma crítica à passividade das mulheres japoneses em relação aos homens, que assim como a Rei, negam seus próprios sentimentos e vontades em troca dos de seus homens – só que na personagem isso é absurdamente exagerado e caricato.

É uma pena que esse tipo de personagem tenha sido levada para outras obras sem o tom de crítica e contexto, sendo considerado algo normal e até bonitinho e desejável.

A Rei é apenas um receptor com um único objetivo, uma casca vazia, feita a partir do DNA da Yui com a alma de Lillith dentro dela. Sendo assim, ela não é uma pessoa comum, ela não realmente existe e essa dualidade entre ser uma casca vazia e ao mesmo tempo ser alguém que pensa e vive a faz ter dúvida sobre quem realmente ela é.

Nesse episódio como e em outros episódios anteriores vemos ela conversando com Reis anteriores que já morreram, mas mesmo assim se mantém vivas na consciência dela de alguma maneira. Mesmo que a casca tenha morrido, as consciências delas ainda existem.

Ela pergunta quem ela é e quem essas outras consciências são e todas respondem que elas são Ayanami Rei, mas como todas podem ser ela? Bem, o motivo é que ela tem uma só mente e vários corpos falsos, mas como ela pode ser falsa sendo que ela existe e pensa de verdade?

Então a Rei fala que ela, mesmo sendo “falsa”, é ela mesma por conta dos laços que construiu com as outras pessoas, que a convivência com eles a fez ser quem ela é e a mudou. Que foi a convivência com os outros que a construiu como Ayanami Rei, por isso a convivência com os outros é importante.

Mas mesmo com tudo isso, ela continua sendo apenas uma hospedeira para Lillith. A verdadeira forma dela não pode existir em forma humana, logo o dever dela vai estar cumprido e ela vai deixar de existir. Rei sempre desejou deixar essa forma humana e voltar a ser o que era antes como Lilith, sempre desejou voltar a ser nada, mas naquele momento que o dever dela se aproxima ela tem medo. Ela, assim como o Shinji, deixou se envolver demais com os outros para não se importar com voltar a ser nada.

A parte dela acaba com Gendo a chamando para começar a Instrumentalidade humana. Então se você viu End of Evangelion pode perceber que a ordem dos acontecimentos, mesmo que psicológicos, condiz com o filme.

de

Da metade pra frente do episódio temos mais momentos explicando a instrumentalidade, que como disse anteriormente prefiro deixar para um texto ou um podcast, no futuro escrito bonitinho explicando cada acontecimento e momentos importantes. Nesse texto queria mais falar sobre cada um dos pilotos um pouco, para dar a minha visão sobre eles e até ajudar você a construir a sua.

Cada personagem talvez tenha uma faceta não só do Anno, mas de todos nós. O Shinji representa a reclusão e até um pouco do egoísmo que cada um tem dentro de si, de precisar ser elogiado e que as pessoas precisem dele. Asuka também representa esse egoísmo, mas também representa a necessidade que temos de sermos algo para os outros para que assim possamos nos dar algum valor. O quanto precisamos da opinião dos outros para que assim possamos ser algo. A Rei por outro lado é a ausência total de ego somado a uma vontade de deixar de existir.

Todos esses são sentimentos que rodeiam a depressão. Anno, antes de escrever Evangelion, passou por uma depressão severa, e talvez se não tivesse sido apresentado a Miyazaki e trabalhado no primeiro filme da Ghibli (sim, os dois são amigos próximos) ele pudesse ter até se matado.

Por ter passado por isso e ter chegado a um ponto tão baixo da depressão, ele escreveu Evangelion, para poder ajudar pessoas que passam ou vão passar por tudo isso. Evangelion não é só uma história sobre luta de robô gigante, nem muito menos é uma puta história 2deep4u. É apenas uma história de personagens destrutivos e auto-destrutivos se descobrindo, e que mesmo piorando em alguns momentos e chegando ao fundo do poço, conseguem se levantar e se superar.

Por isso Evangelion é tão importante para mim, para outras pessoas e para os animes em geral. Porque ele passa a mensagem de que “é, meu amigo, o mundo é uma bosta, conviver com as outras pessoas é difícil, mas vale a pena estar vivo, ok?”. Porque ele mostra o pior de cada um de nós e como isso não nos torna pessoas fracas. Se você odeia o Shinji, você entendeu tudo errado.

É uma obra pesada, revolucionária e densa. Ela cutuca em vários pontos que nenhuma obra anterior teve a coragem de cutucar e por isso é tão importante, mesmo se você eventualmente acha uma merda overrated.

O final do anime pode sim ter falhado como encerramento da obra, isso eu concordo, mas como você pode ver, ele tem uma importância vital para entender a cabeça e a motivação dos personagens tanto no anime inteiro, quanto no End of Eva como também no próprio Rebuild. São dois episódios que na primeira vez que você assiste pode até achar uma merda, mas depois do End of Evangelion, acabam mostrando seu valor para a obra.

São episódios bizarros, construídos de forma completamente diferente e bastante odiados, mas mesmo assim o episódio 25 é talvez o que eu mais goste na obra inteira por conseguir mostrar o que é Evangelion e os personagens ao seu redor perfeitamente.

Chato? Talvez até seja, mas não deixa de ser lindo. Muito lindo.

574193

Anúncios

3 comentários sobre “Um pouco sobre gostar de Evangelion e mais sobre a importância dos episódios finais.

  1. Boa análise e organização desses momentos finais de Evangelion, pessoalmente eu acho que quando evangelion tem o foco em seus personagens principais e seus conflitos é o que melhor temos da serie (diferente do fixação que algumas pessoas tem com a filosofia, conspiração e mitologia por trás de tudo isso, que não acho que mereça tanta atenção). Nesses últimos episódios temos nuance, confusão, pontos de vistas diferente, uma pessoa sendo várias coisas ao mesmo tempo em outras palavras – complexidade. Não dou a mínima se a apresentação foi feita com baixo orçamento ou usando atalhos de animação, por que a combinação das ideias e dos visuais é perfeita.

    EoE peca em todos os pontos positivos desse final pra mim. Ele troca introspecção por extrospecção, conversa por ação, sutileza por caricaturas. Podem usar o argumento “mas é essa a ideia mesmo!” mas não tira o fato de eu achar bem inferior ao final original e diminui minha experiência como um todo em Evangelion, acho bem desnecessário (mas tem cenas de lutas legais com a Asuka :P).

    Algo que eu sempre comento e acho engraçado é como outras series que vieram depois e até mesmo fãs de Evangelion gostam de simplificar e destilar os personagens para uma versão que eles nunca foram na serie original. É o que tu comentou da Rei (que tratam o fato dela ser dócil como algo bom), mas também serve para a Asuka (que muitas vezes é só alguém machucado que precisa de amor para curar) ou o Shinji (que é tratado apenas como um cagão). Nada disso é verdade na serie original, mas de algum modo é o que acabou colando nas pessoas e nas cópias ao longo dos anos… e eu até diria que num ciclo maluco são essas versões destiladas e menores que acabaram chegando na versão Rebuild.

    Enfim, concordo contigo, os episódios finais são muito importantes mas chego a ir um passo além e achar que isso é o que melhor tivemos na serie, todo o resto me parece desnecessário e não vejo adicionando à discussão final do episódio 25.

    • Eu entendo o seu lado mas discordo levemente.
      Por mais que concorde que o ponto central pelo qual Evangelion foi feito seja os personagens e seus conflitos, eu gosto muito do universo criado, da filosofia por trás e dos simbolismos religiosos ou não que o Anno colocou no meio. Acho divertido notar e debater algumas nuances, isso é claro sem colocar esses pontos acima do mais importante que é os personagens.
      Eu também não concordo com o seu ponto sobre EoE, simplesmente pelo fato de na minha interpretação serem as mesmas coisas, só que o final do anime sendo um final mais “positivo” e o final do EoE algo mais “pessimista” algo mais “O mundo é uma merda, mas é melhor estar vivo do que não estar’ e etc.
      Então não vejo diferença nenhuma entre os dois, somente o fato que num mostra a instrumentalidade na cabeça de todos e no outro mostra somente o lado do Shinji. Enquanto o anime acaba no momento que o Shinji tem a epifania que viver com as outras pessoas é bom e saudável que é coincidentemente o momento que o filme “acaba” sendo o momento “o mundo é uma merda” que eu citei ali atrás a parte do epilogo.
      Por isso não acho que um final desmereça o outro, pelo contrário, eles são complementares em alguns momentos que o final do anime falhou o EoE compensa e nos momentos que o EoE se omitiu foi porque já havia falado antes no anime.
      Tanto que End of Evangelion é pra mim o melhor filme de animação já feito na história, por esse detalhe e pelo fato de puta que pariu que filme lindo.

      Sobre o Rebuild eu prefiro esperar o Final para falar 100% sobre, mas como na minha opinião ele é uma continuação direta do filme, o que é quase confirmado pelo Anno, eu diria que os personagens não estão “mais fracos” ou “enlatados”. Eles apenas estão na evolução natural do que aconteceu anteriormente no anime e no EoE, não faria sentido o Anno fazer eles passarem por tudo o que já haviam passado, tanto que a maior mudança da Rei e da Asuka no Rebuild é o que elas aprenderam nesse ciclo inicial, que eu falei no texto.
      A Rei é mais aberta ao mundo ao seu redor e é menos destrutiva, ela se importa mais com os outros. O mesmo pode ser dito sobre a Asuka que depende menos da aceitação dos outros, tanto que por isso o seu amor platônico pelo Kaji foi abandonado nesse novo clico, principalmente pelo fato de, na minha teoria maluca sobre a Mari e tudo, nesse clico a mãe dela não ter se matado.
      O Rebuild não tenta ser “melhor” que os ciclos anteriores, como o próprio Anno diz é os mesmo acontecimentos, os mesmos personagens, mas diferentes na sua essência, que causam diferentes conflitos para cada personagem.

      Ou você acha que a Asuka no Rebuild deita de costas para o Shinji, e não de frente como no anime, a toa?

      Obrigado por ler e pelo comentário ❤

      • Eu entendo quem goste do filme e do material subsequente – tanto que a maioria adora, eu estou na minoria até. Eu só senti os 25 episódios iniciais como um pacote completo e algumas coisas extras dos filmes não combinaram mt na minha opinião. Sobre Rebuild e a relação de tudo temos que esperar o último filme mesmo, espero que saia logo. Tuas teorias parecem bem legais, espero que se confirmem com uma boa e convincente apresentação (se não tu pode explicar aqui depois XD)

        Mas no mais meu comentário era para realçar o quanto esse final original é importante e bom mesmo, já que pra mim, só ele já bastaria (o que já é uma opinião bem minoritária). Valeu pelo texto!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s