Gundam – G no Reconguista: A importância do ritmo adequado de cada história

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Aquele Mobile Suit que tira foto de si mesmo, o G-selfie (fecha a aba não, por favor!)

Recentemente terminado, a mais nova série da franquia GUNDAM, “G no Reconguista”, dividiu muitas opiniões pelo fandom (maior parte delas, mornas ou negativas) e talvez o maior causador desse estigma de “Puta que pariu, que Gundam HORRÍVEL! ARRRRGH!” que muitos decidiram pregar seja o fato de ter sido dirigida pelo criador original da franquia, Yoshiyuki Tomino, que não dirigia alguma série inédita de Gundam desde Turn A Gundam, em 1999. Se tivesse sido qualquer zé ruela, talvez o espanto do fandom não teria sido tanto, ia ser só “é ruim, esquece isso aí, véi!” (igual com Gundam Wing ou Seed Destiny, por exemplo, que são considerados por muitos, as piores séries de todo esse metauniverso).

 Acho que antes de prosseguir, vou tirar logo esse elefante branco da sala: num geral, eu gostei de G-reco, mas ele tem tantos problemas que me impedem de gostar mais dele e que, me fazem entender bem as críticas negativas que recebeu. G-reco é um anime esquisito, MUITO esquisito, em termos técnicos. Um marinheiro de primeira viagem em Gundam talvez possa achar MUITO ruim, mas alguém que já conhece o trabalho do diretor de outras ocasiões talvez entenda melhor os problemas do anime e não tenha uma impressão tão negativa. Ou há aqueles (poucos) que até amaram G-reco. É como dizem, o lixo de uns pode ser o luxo dos outros.

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O elenco da série.

 Eu às vezes costumo ter a impressão de que Tomino é um artista um tanto quanto peculiar no seu jeito de produzir. Se derem folga demais pra ele, faz coisas muito boas, porém pode acabar abusando (Zeta Gundam, 50 episódios, 1985); Se ele já tinha um plano e você cortar o barato dele pedindo pra ele fazer aquilo de maneira diferente, ele vai transformar algo que poderia ser ótimo, numa catástrofe por pirraça (Gundam F91, Filme, 1991); Agora, se houver o meio termo entre a liberdade criativa e a puxada de rédea quando necessário, mas dando prioridade para a liberdade criativa, podem sair coisas maravilhosas (Victory Gundam, 51 episódios, 1993… ou se você for da turminha feia que não gosta do Victory, pode escolher o Turn A pra representar essa opção também, eu deixo). Tá, mas onde G-reco se encaixa nessa história toda? Eu diria que ele tá pendendo mais pra do segundo grupo, o da pirraça, só que longe de ser um desastre como F91 é, apesar de sofrer gravemente de um problema semelhante: o ritmo. 

Vou tentar resumir brevemente qual é o problema de F91: ao assistir, a gente percebe CLARAMENTE que aquilo não era pra ter sido concebido como um filme, e que Tomino já tinha um roteiro escrito pro formato série de TV, mas ao invés de reescrever esse roteiro de uma forma cabível ao novo formato (o que seria a decisão mais inteligente), ele simplesmente deu um jeito de socar aquilo dentro de um filme de 2 horas e fica um bagulho tão sem-alma que eu só não esqueci dos personagens dali porque foram bem usados em Crossbone Gundam, a sequência desse filme feita pra mangá. E bom, isso foi, de fato, o que aconteceu no processo de produção de F91.

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ORAORAORAORAORAOR- Calma, anime errado!

 Agora, o que isso tem a ver com G-reco? Eu disse que ele sofre do mesmo problema, só que em proporções menores. Se analisarmos o histórico de TODAS as séries de TV de Gundam lançadas até hoje, sempre giram em torno de 47-51 episódios (exceção é o primeiro, com 43 e o Gundam X, com 39), mas… G-reco tem VINTE E SEIS. Novamente, quem conhece o trabalho desse cara de outros carnavais, pode ficar com a pulga atrás da orelha ao saber de um Gundam assim antes de assistir e… quando vamos assistir, a gente sente o mesmo problema acontecendo. Ao contrário do que aconteceu com F91, não sei se essa coisa de “ah, quer fazer série? Faz um negócio mais curto aí, por favor, Tomino!” rolou com G-Reco também, mas a série dá indícios fortes disso (ainda mais sabendo do histórico dele com animes curtos e filmes que fez após a explosão de sucesso de Gundam, que passa a impressão de que ele não se dá tão bem com esses formatos). 

G no Reconguista começa bem tranquilo até, com uma ambientação muito legal, um elenco bacana de personagens e com algumas das lutas mais bem coreografadas da franquia inteira(e esses três elementos se mantêm bons até o final, e são o que provavelmente irá te segurar assistindo até o fim), mas em poucos episódios depois, já tá jogando tanta informação na sua cara ao mesmo tempo que assistí-lo acaba se tornando uma tarefa desconfortável pra maioria. Longe de ser uma parada “2deep4u”, mas esse ritmo em fast-foward extrema sem necessidade nenhuma prejudica muito o desenvolvimento da história e dos personagens.

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Até que os Mobile Suits desse negócio são legais (e lembram um pouco os mostrados em Turn A Gundam).

 Mas então, G-Reco é, de todo, ruim? Na minha opinião, de maneira alguma, mas é aquilo: há muitas ideias legais ali, a “parte crua” da história é legal, mas ela é contada de maneira estabanada na maior parte do tempo. Ou melhor, talvez não tão estabanada, mas ela não desce muito bem pra todo mundo. Chega num ponto de que se você não está prestando uns 200% de atenção no que tá rolando é fácil ficar perdido na história sem entender direito o que diabos está acontecendo enquanto a narrativa joga trocentas informações na sua cara o tempo inteiro, coisa que Zeta Gundam fazia, só que de uma maneira mais apropriada, mas ele teve a oportunidade de ter mais espaço pra fazer isso de jeito mais calmo (ainda que eu ache que ele tenha tido espaço além do necessário pra isso, mas não vem ao caso). E como gosto de fazer alusões para tentar ilustrar o que digo, imagine duas peças de carne do mesmo tipo, nas mãos do mesmo cozinheiro, porém feitas em momentos diferentes; com uma delas ele se deu um tempo maior para estudar o que ia fazer, como temperar, qual o ponto certo e tudo mais; a outra ele só cozinhou uns muitos anos depois, talvez um pouco desacostumado a cozinhar após passar tanto tempo de molho, mas agora tão falando “BORA LOGO, COZINHA ISSO AÍ, CARAIO, QUE EU TÔ COM FOME OU TU TÁ NA RUA!!!” e ele não trabalha muito bem sobre pressão, daí fez tudo na correria de uma vez só em metade do tempo e… o resultado final foi um bife sem o toque especial do que ele fez antigamente, mas ok, dava pra comer, mesmo que ele tenha errado a dose do tempero. Poxa, pelo menos ele tentou.

PS: O bifão bem temperado dessa analogia não é necessariamente Zeta Gundam (mas sim, Turn A, pelo menos pra mim e pro meu gosto)

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Acho que essa frase resume bem o que aconteceu com esse anime. Se isso é bom ou ruim, fica pra interpretação de cada um.

 Estranhamente, G no Reconguista, mesmo com esse punhado de problemas, tem lá seu charme. Gosto de muita coisa ali, mesmo que as coisas ruins me incomodem a ponto de eu não gostar tanto quanto gostaria. Talvez as coisas que ele tem de bom não sejam tão atrativas pra quem não tem a bagagem de ter visto as outras séries (um conselho pra quem ainda não viu: não assista esse anime sem ver pelo menos a história principal do Early Universal Century e o Turn A. Torna G-Reco algo bem melhor de se compreender e digerir). Maior parte desse texto até agora foi eu martelando nos problemas da série, mas olha, ela nem é ruim, apesar de que eu consigo compreender quem ache isso. É bom, mas poderia ter sido algo maravilhoso se tanta coisa não tivesse atrapalhado. Quando terminei, ficou um gostinho de “eu queria ver mais disso aqui”. Se bobear, talvez eu (e todo mundo, em geral) aprenda a gostar mais dele com o tempo se tentar investigá-lo por outros ângulos e “usando outros temperos”, afinal, ele é um espécime interessante o suficiente pra isso e meio que parece pedir por isso. Não é lá muito convencional, mas é algo bem curioso de observar.

Tomino, se você não se aposentar antes, lhe desejo boa sorte para que não atrapalhem seu próximo trabalho. 

Céus, a Raraiya me lembra MUITO a Lalah do primeiro Gundam.

Céus, a Raraiya me lembra MUITO a Lalah do primeiro Gundam.

Faltou eu falar sinopse ou do que se trata a história? Faltou nada, isso você encontra facilmente pela internet, e acho melhor ver sem saber o que esperar além das coisas que falei. Meio que faz parte da experiência bater de frente com ele e tentar desvendar o que ele nos desafia a desvendar, da mesma maneira como você provavelmente abriria o Google pra tentar descobrir a sinopse disso, afinal esse é o maior charme de G no Reconguista.

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Sei lá o que escrever aqui, mas acho o G-Self um Mobile Suit legal pra cacete e adoraria ter um montado na minha estante.

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3 comentários sobre “Gundam – G no Reconguista: A importância do ritmo adequado de cada história

  1. Pingback: Gundam – guia completo para iniciantes | Missão Ficção
  2. Cara gostei muito do teu review, sem spoilers e bem honesta. Assisti os dois primeiros episódios ontem e o traço tá lindo, a estória me pareceu iniciando legal. se tiver uma pitada de turn A então, tô dentro.

    • Opa, obrigado. A “pitada” de Turn A nele é bem sutil. Tá mais pra umas “cutucadas” que a história faz mesmo (consigo dizer que em narrativa ele é o extremo oposto do Turn A), que nos dão a entender que parte do que aconteceu em G no Reconguista ocasionou no que vemos no worldbuilding do Turn A (em episódios mais a frente você deve perceber melhor isso, no começo não parece muito).

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