Demolidor – A Série Sem Medo

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Entre as opiniões que reverberam na cacofonia da internet, há uma sobre “filmes de super herois” que diz o seguinte: “Um bom filme de super heroi é um bom filme que, por acaso, tem um ou mais super herois envolvidos na trama”.

Tentando tirar algum sentido disso, e sendo menos vago, eu diria que um bom filme de super heroi é aquele que não foca só no cara fantasiado e tudo que o faz ser cool (não desmerecendo o quanto é bom ver isso), mas também nos temas por trás das ações dele, no desenvolvimento dos personagens, na construção do mundo em que ele vive e nos desafios que ele enfrenta no mesmo.

Claro, não estamos aqui para falar de um filme. No entanto, a lógica se aplica perfeitamente também para quadrinhos, seriados e todo o mais. E como já pode ser percebido pelo título do texto, hoje falarei sobre a serie do Demolidor, lançada recentemente no Netflix.

Sobre ela, tangenciando o que foi dito nos dois primeiros parágrafos, quero dizer o seguinte: Se você acredita nessa lógica, se você acredita que esse é o caminho para que as produções baseadas em quadrinhos alcancem níveis mais altos, mesmo já tendo chegado tão longe e demonstrando tanta qualidade, digo que você DEVE assistir Demolidor.

Sendo você fã ou não do personagem, serão treze episódios sensacionais dessa primeira temporada que não poderia ser melhor.

Eu explico o porquê.

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A Relação Com Os Quadrinhos

O Demolidor é um daqueles poucos herois dos quadrinhos que foi muito beneficiado por, em 95% das oportunidades, ter tido suas historias roteirizadas por grandes talentos. Frank Miller, Kevin Smith, David Mack, Brian Michael Bendis, Ed Brubaker, Mark Waid, entre outros. Eles seguiram, na maior parte do tempo, uma linha coerente com o personagem, auxiliada pela própria natureza mais falível e solitária do mesmo. Com isso, a evolução dos temas, a construção da continuidade e personalidade do ousado Matt Murdock não sofreram nenhum golpe duro e, assim, puderam se manter apreciáveis durante esses cinquenta anos de existência.

Tendo como material base uma obra tão consistente, fazer um bom trabalho se torna mais simples. Essa coerência, essa boa roteirização das HQS “vaza” para a serie, e ali pode-se reconhecer tudo o que sempre foi discutido nos quadrinhos do Demolidor: Os males do vigilantismo, os limites da lei, as questões dúbias da moralidade, o heroísmo e se é possível manter-se fiel a ele sem sacrificar as liberdades de uma vida mundana.

Também passa para o seriado o mesmo clima de crime noir que as historias originais tiveram em diversos casos. Aquele pessimismo, a dura sensação de causa e consequência, de que mesmo vencendo, o heroi perde, por muito pouco não sendo esmagado pelo lado mais sujo, mais sombrio da cidade, que não é conhecido ou atendido pelos herois mais poderosos. E uma vitoria significa sangue, significa perda, significa ficar próximo da linha que divide o bem e o mal.

E a produção faz valer sua classificação indicativa, a partir de 18 anos de idade, sendo incrivelmente gráfica em sua violência. Nunca tanto quanto os quadrinhos aqui e ali, mas já era de se esperar. Afinal sendo outra a mídia, os limites também são outros. Todavia, ainda impressiona.

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A Relação Com O Cinema

Uma das coisas que em particular me incomodavam sobre Agents of SHIELD (seriado que também se passa no universo cinematográfico/televisivo da Marvel, e é transmitida pelo canal ABC) quando a mesma estreou, era como ela tentava martelar na cabeça do espectador que o que ocorria ali era interligado com os filmes. Excesso de referências, se repetindo e se repetindo, sendo que o universo compartilhado já ficava subentendido. Por isso, fiquei bastante feliz quando notei que Demolidor era mais sutil nessa abordagem.

Um ou dois episódios fazem leves menções à Batalha de Nova York, acontecida em Vingadores. Há uma piada sobre o Capitão América. Uma outra sobre o Thor e o Homem de Ferro, entre outras citações às series e filmes. Tudo é bem colocado, daquela forma que causa um sorriso no canto da boca, mas sem ser apelativo, presumindo de forma correta que você já sabe que, sim, no mesmo universo onde o Demolidor luta contra o crime e a corrupção, há um gigante verde e musculoso que está sempre com raiva, e um guaxinim falante que gosta de atirar nos outros (inclusive, que coisa mágica, não?).

Essa dinâmica, que vem também dos quadrinhos e já funcionava bem lá há muito tempo, dá toda uma personalidade única à serie. Um ritmo único, para desenvolver a própria personalidade sem deixar de fazer parte de um todo. É confortável para quem assiste, e bom para a liberdade criativa dos roteiristas.

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O Roteiro

Seria impossível fazer este texto de apreciação à Demolidor sem citar o quão sólido é o roteiro da serie, em vários sentidos. É realmente acima da média, demandando bastante atenção mas proporcionando momentos incríveis devido a isso.

Em primeiro lugar, o roteiro distribui bem o desenvolvimento de cada personagem, dando espaço para que eles cresçam e se mostrem para o espectador. Não só Matt, o Homem Sem Medo, mas também seu amigo Foggy Nelson, a amiga e secretária Karen Page, o ameaçador Wilson Fisk, o experiente e obstinado Ben Urich… todos familiares para os que acompanham ou acompanharam as HQs, mas tendo espaço para aquele toque novo, direcionado aos que ainda não os conhecem.

Em segundo lugar, o ritmo em que isso se desenrola é sempre agradável. Os episódios de pouco menos de uma hora de duração nunca se arrastam, nunca tem sobras. As camadas são colocadas uma acima da outra na medida certa, e sabemos o que precisamos quando precisamos. Óbvio que o formato, comum às series que são distribuídas pelo Netflix, ajuda nessa firmeza, nessa solidez. Um seriado para a TV, com seus 22 – 23 capítulos por temporada, tem outras cotas a cumprir. Ainda assim, deve-se celebrar o trabalho feito em Demolidor.

E, por fim, os diálogos. Eles são ótimos. Inteligentes, mordazes, são simples o bastante para que se façam entender, mas complexos o suficiente para deixar quem assiste pensando neles por algum tempo. One-liners, as famosas frases de efeito, os momentos mais expositivos, são usados na hora certa, e sem se perderem da direção geral do que vinha sendo dito e feito.

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As Atuações

Eu esperava bastante do elenco, mas eles ainda conseguiram me surpreender.

Charlie Cox consegue trazer à vida um Matt Murdock com imenso carisma e profundidade. A fala comedida, os modos polidos, escondem fúria, indignação de alguém que conhece de perto a maldade do mundo, e graças a seus poderes consegue enxergá-lo como ele realmente está, por trás das distrações: Em chamas. Elden Henson nos apresenta um Foggy Nelson que não é só um sidekick, um melhor amigo para contrastar com o proceder soturno do personagem principal, mas alguém com sua própria vida, própria visão de mundo. Não haveria escolha melhor que Deborah Ann Woll para interpretar a bela Karen Page, que por trás do sorriso e da doçura esconde uma forte fibra moral, de quem não desiste de fazer o certo, mas também esconde dolorosos segredos do passado.

Porém, deve-se dar destaque à grandiosa atuação do Vincent D’Onofrio como Wilson Fisk, o Rei do Crime. Com certeza o melhor vilão do universo Marvel da TV e do cinema, Fisk é ameaçador, cruel, seguidor fanático de um código moral que advoga em favor de males necessários e baixas aceitáveis. Não obstante, esse é apenas um dos aspectos de sua personalidade. Na superfície, ele é alguém com grande dom de oratória, alguém que aparenta ter boas intenções. No íntimo, Fisk é idiossincrático, cheio de particularidades, vulnerabilidade, refinamento e traumas. Traumas de uma juventude que ainda o atormenta.

Ainda poderia citar outros que, mesmo com suas participações menores, conseguem ter momentos de brilhantismo, mas deixo essa parte para o jugo de vocês. A certeza que tenho é que, no mínimo, será considerado que todos fizeram um bom trabalho.

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Os Dois Lados Da Mesma Moeda

Muitas produções relacionadas a quadrinhos e super herois fazem uso da dicotomia para construir o conflito entre o heroi e o vilão. Enquanto um quer a paz, o outro quer guerra. Enquanto um quer igualdade, o outro quer reinar, supremo, sobre o resto da humanidade. Enquanto um quer a ordem, o outro quer o caos.

São motivações diferentes que caminham em direções terrivelmente opostas. São duas moedas, apesar de alguns usarem a expressão “dois lados da mesma moeda” nesses casos, para criar uma falsa sensação de escopo e entendimento.

Demolidor já envereda por outro caminho. Tanto Murdock quanto Fisk querem, no fundo, a mesma coisa. Tanto um quanto o outro acreditam na nobreza de suas cruzadas. O que os difere, no âmago da questão, e os separa em quem é bom e quem é ruim, são seus limites, suas crenças, o modo como cresceram e as pessoas que encontraram. Matt abomina o mal, só deixando seu coração próximo a ele para poder enfrentá-lo com mais eficiência. Wilson vê o mal como um meio que justifica os fins, mas sofre no fundo de seu ser por ter de utilizar tal meio. Matt não acredita num efeito duradouro ou significativo da sua cruzada pessoal, mas não quer parar, porque alguém tem de estar lá pelas pessoas que não tem ninguém. Wilson acredita na salvação vinda através de suas mãos, e que o resto é uma distração.

É um ponto de vista fresco, novo, num gênero onde o que mais se vê é uma visão maniqueísta da coisa (E não me entendam mal, também gosto de ver a luz contra as trevas. Há espaço para tudo). É complexo, é forte, e só vem para acrescentar outra bela nuance num trabalho já tão bem feito.

O que faltava mesmo pro post era uma imagem da Deborah Ann Woll.

O que faltava mesmo pro post era uma imagem da Deborah Ann Woll.

O Final… Do Texto

Não há muito mais o que acrescentar.

Demolidor, essa serie que há tanto tempo eu aguardava, e sei que muitos de vocês aguardavam, chegou e marcou com força sua presença, deixando mais que só um “gostinho de quero mais” para sua próxima temporada. Quando se ouviu sobre a parceria da Marvel com a Netflix, as expectativas foram altas, inevitavelmente. Para nossa felicidade, elas foram mais que atendidas.

A Disney/Marvel (através dos talentosos Drew Goddard e Steven DeKnight) mostra mais uma vez o quanto é capaz de fazer o melhor com esses personagens, e o quão grande é o carinho e a dedicação dos criadores envolvidos. Os riscos que foram assumidos criativamente, para trazer algo que se passasse dentro do universo do cinema, mas que fosse totalmente diferente do direcionamento que se mostra ali, foram enormes. Comprometimento com a qualidade é isso.

Mas, e aí? Querem discutir algo mais? Acham que esqueci de tocar em algum ponto importante do todo? Tem elogios, sugestões, críticas, Anthrax ou declarações de amor? Deixem aí nos comentários. Estamos aqui para escutá-los, eu e meu simbiote.

Até a próxima.

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Felipe só entende mesmo de demolir a própria vida.

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Um comentário sobre “Demolidor – A Série Sem Medo

  1. Eu achei bem legal a serie (principalmente a primeira metade) mas a segunda parte não foi tão legal assim. (Spoiler?) Ao invés de ver personagens inteligentes destruindo uma grande trama do crime pareciam mais umas galinhas sem cabeças correndo cada um para um lado e a Karen fazendo burrada e a solução de tudo meio que caindo no colo da galera…

    O Demolidor e o Fisk, além da atmosfera da cidade é o melhor da serie mesmo, pena que o encontro entre os dois não seja tão bom quanto outras lutas que tivemos antes na serie (apesar de mostrar bem a brutalidade do Fisk eu acho que ficou a desejar).

    Legalzinha a serie, com certeza entre as melhores series de super herois mas em questão de drama policial a competição é mt acirrada >.<'

    Até

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