O samurai, a esposa e o bandido em Rashomon

RASHOMON 2

“Ouvi dizer que o demônio vive aqui em Rashomon, fugindo com medo da ferocidade do homem”

Há um tempo atrás eu resolvi mergulhar de cabeça na filmografia de Akira Kurosawa, mas não consegui arrumar coragem de encarar aquela quantidade de filmes, então a ideia ficou estagnada por um tempo. Recentemente, em um feriado, decidi pegar Ran do diretor para ver e ao concluí-lo não deu outra, acabei me apaixonando pelo filme e pelo diretor. Talvez seja a fotografia que tenha me encantado, ou talvez tenha sido a forma com a qual ele compõe cenas, ou talvez tenha sido até a forma de contar histórias o que me chamou atenção. Foi naquele momento em que eu decidi ver todos os filmes dele. Deu para perceber também que sem Akira Kurosawa não existiria o cinema que conhecemos hoje em dia. O diretor inovou muito nas formas de narrar histórias e em termos técnicos. E nessa minha saga através da carreira dele, me deparei com Rashomon, um filme de 1950 e que foi o que introduziu Kurosawa ao ocidente.

Baseado em dois contos de Ryunosuke Akutagawa. a história gira em torno de um estupro e um assassinato através da ótica divergente de quatro pessoas, incluindo o próprio criminoso e um médium que serve de ponte ao mundo espiritual para trazer o relato da vítima que foi morta. As quatro testemunhas são Tajomaru, o bandido; Takehiru, o samurai assassinado; Masako, a esposa do samurai; e o lenhador sem nome.

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A narrativa de Rashomon é construída através de Flashbacks. O filme começa com dois personagens, um deles o lenhador que é uma das testemunhas, nas ruínas de um templo chamado de “Rashomon” se escondendo da chuva, e com a chegada de um novo personagem nesse cenário, começa uma interação em que eles começam a contar uma história estranha, como eles dizem. Essa história estranha é o julgamento sobre o assassinato do samurai. E dentro dessa cena do julgamento as testemunhas contam seus relatos sobre o ponto de vista de cada um, assim pulamos para uma outra cena onde o assassinato ocorre. Assim, a história vai se construindo em um flashback dentro de outro em diversas camadas.

Pode se dizer que Rashomon foi um filme bem barato. O elenco é bem ínfimo, contando com apenas oito personagens: o bandido, o samurai, a esposa do samurai, o lenhador, a médium, um sacerdote, um policial e um homem que estava de passagem.  E também o número de cenários é curto. Um deles é a floresta onde o assassinato e o estupro acontecem, o outro é o local do julgamento e por último é o templo Rashomon, onde o sacerdote e o lenhador contam a história para o homem que estava de passagem. Mesmo o filme sendo barato, o elenco sendo pequeno e tendo poucos cenários, a obra consegue ser ótima.

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Um dos grandes trunfos é o uso dos quatro discursos diferentes de cada uma das testemunhas. Kurosawa, em momento algum, tenta nos forçar a ideia de que um deles está certo ou que algum está errado. Será que no fim algum disse a verdade? Será que algum deles escondeu algo? E pelo fato de não existir o personagem de um juiz aparecendo no filme, acaba que as testemunhas contam seus relatos olhando para a câmera que é a visão de nós, espectadores, para aquela história. Ou seja, nós somos os juízes e cabe a nós decidirmos qual história é a mais verídica.

A fotografia do longa se aproveita da luz natural para embelezar as cenas. Utiliza eventos climáticos e as sombras para ampliar o que os personagens estão sentindo ou o que estão representando naquele momento. Kurosawa dá um show de direção. Para ilustrar melhor isso, deixo aqui esse singelo vídeo que explica o monstro que esse cara é.

O filme é uma crítica a condição humana, nos mostra o bem, o mal. Pode não parecer isso tudo, mas a sequência final, junto com seus diálogos, nos prova isso, jogando que ali tudo o que a película nos queria passar eram os sentimentos pelos quais os personagens passaram, algo que até parece um ciclo, um pouco de fé, esperança, desespero e redenção. Toda essa sequência somando a imagem e o diálogo te deixa sem palavras, perplexo, emocionado e te faz crer que ainda resta sim esperança nos seres humanos. Sendo um filme gravado um pouco após a tragédia das bombas atômicas no Japão, talvez ele seja uma mensagem de esperança não só para os japoneses, mas para o mundo todo, para que a gente não desista de nós ou de nossos semelhantes. Um clássico que tem que ser levado para a vida.

Resumindo, Rashomon é rico, filosófico e contém uma incrível aula sobre moralidade e como contar histórias. Não é somente um filme sobre um crime a partir de diversos pontos de vista. Dá para ver um pedaço do próprio Kurosawa aqui, talvez seja por ele mesmo tê-lo editado parte por parte, o que até o deixa mais fluido. O longa se tornou uma grande influência na cultura pop, tanto por sua narrativa peculiar pra época ou pelas inovações cinematográficas do próprio diretor aqui. Basta olhar algumas obras do Tarantino, como por exemplo Reservoir Dogs e sua narrativa não linear

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