Rose of Versailles, o retrato de uma velha França

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“Rosa de Versalhes” é um baita nome maneiro, hein…

Lidar com fatos históricos reais na ficção é uma parada meio complicada, principalmente quando muitos já conhecem a história, pra deixar a galera interessada e também, pra fazer um material de qualidade. O mundo dos quadrinhos japoneses é repleto de obras “de época”, mas a imensa maioria delas ambientada em próprio ambiente japonês, ainda é meio raro ver os japoneses explorarem a história de outros países em suas obras da mesma maneira que vemos os samurais, os Daimyous, os Ninjas e por aí vai, mas obras assim existem, e Rose of Versailles é uma dessas e, deixou um imenso legado dentro da mídia e até hoje, quando se fala em Revolução Francesa, é mais fácil os japoneses se lembrarem do mangá do que das aulas de história que tiveram na escola e não é incomum reproduzirem a saga da última familia real da França em peças de teatro, nem que sejam aquelas de escola ou algo mais profissional.

Mas o que tornou essa história um grande clássico afinal de contas? Antes, acho válido dar um pouco de contexto histórico. O mangá é de autoria de Ryoko Ikeda, e considerado por muitos, a sua obra-prima, viria a se tornar uma grande referência dentro da demografia Shoujo, e foi publicado na revista Margaret, da Shueisha (a mesma editora que publica a famosíssima linha Jump de revistas), entre os anos de 1972 e 1973, um período pelo qual o mundo dos mangás tava passando por mudanças drásticas, e engatando no processo de evolução para a mídia chegar no que é hoje.

Mas sobre o que é essa história? Muitos podem dizer que é sobre uma mulher em trajes militares masculinos desafiando as barreiras de gênero impostas por uma sociedade extremamente sexista do século XVIII, outros podem dizer que é sobre o romance extraconjugal da rainha Maria Antonieta com o conde Hans Axel Von Fersen, sobre os dramas da corte francesa e por aí vai…

Tudo isso aí está lá como tema recorrente na história, mas pra mim, o mangá é basicamente sobre uma coisa: o retrato da sociedade francesa da época que antecedeu a revolução francesa até o seu fim, só que, bem…. temos que lembrar que é um mangá de 1972 que saiu numa revista voltada primariamente pro público feminino mais jovem, então, ainda que baseada numa história real, a obra passou por todo um processo de maquiagem pra se destacar na mídia, então temos uma narrativa bastante teatral com tons melodramáticos  e toda aquela breguice que eram comuns em mangás dos anos 70, e porra, eu gosto disso, fica bem legal aqui e dá todo um charme à história que é difícil que ela ao menos não fique carimbada a ferro quente na sua mente de alguma maneira.

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Oscar e a Rainha Maria Antonieta.

Ok, mas isso foi meio que uma breve visão geral de sobre o quê é a história de Rose of Versailles, mas serei mais direto agora. Tudo começa no ano de 1755, quando em 3 países diferentes da Europa, nascem 3 pessoas que serão tragas para o mesmo palco por ironia do destino no futuro, são elas Hans Axel Von Fersen, que é o filho mais velho de um nobre conde da Suécia; Oscar de François de Jarjeyes, a filha mais nova de uma família cujos membros são os principais protetores da família real francesa, e é criada por seu pai como um menino para poder servir à futura rainha da França, que seria a referida terceira pessoa que nascera naquele ano na Áustria, Maria Antonieta.

Maria Antonieta é mandada ainda criança para a França para se casar com o herdeiro do trono Francês, Luís XVI. Oscar é treinada pelo próprio pai e se torna uma das figuras militares mais respeitadas da região, enfrentando todo o preconceito e a desconfiança das pessoas por ser uma mulher num cargo tão importante que até então era exclusivo dos homens, e então vira a general da guarda real Francesa. Já Fersen vira um grande aliado da corte e se envolve num romance proibido, porém sincero, com a rainha. E a partir dessas tramas, a história do mangá se entrelaça com vários outros temas que nos mostram o retrato da sociedade francesa daquele tempo e acompanhamos isso até os eventos que culminam no fim da Revolução Francesa.

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O elenco dos principais personagens da história:.

Curiosamente, a obra é bastante fiel aos fatos históricos reais, ao ponto de que pelo menos 95% dos personagens mais importantes são, sem tirar nem pôr, as mesmas figuras sobre as quais lemos nos livros de história. Mesmo pros que por ventura já saibam o que vai acontecer, por prestarem atenção na aula de história (o que, bizarramente, pra minha sorte não foi o meu caso, pois eu era o tipo de aluno que enquanto o professor estava falando sobre guilhotinhas e umas paradas assim, estava mais ocupado atirando bolinha de papel nos amigos. Isso acabou deixando tudo com um ar bem maior de “novidade” pra mim), a narrativa ainda prende a atenção por conta da excelente caracterização dos personagens. Mesmo com toda a maquiagem melodramática, tudo ali é bem crível e impactante para quem lê.

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O charme é tanto que nem as moças resistem.

Sobre os personagens, um detalhe engraçado que vale a pena ser citado é que originalmente, a autora Ryoko Ikeda, planejou em fazer o mangá como se fosse uma biografia de Maria Antonieta e… de fato, a obra começa se focando nisso, porém, Rose of Versailles é mais lembrado por causa de outro personagem, que no caso é, ninguém menos que a Oscar. A personagem ficou tão popular (com razão, diga-se de passagem), que a história passa, aos poucos, a dar mais palco pra ela se destacar mais ainda do que já se destaca. A popularidade da personagem chega num nível tão absurdo que em alguns países da Europa onde a série chegou a ser publicada e ter o seu anime exibido (por sinal, vale lembrar que o anime parece saber da popularidade da personagem e dá bem mais foco nela do que o mangá), a história chegou ao conhecimento do povo sob o nome de “Lady Oscar”.

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Ainda que romantizada, Oscar é uma figura bastante cativante, tanto para os personagens quanto para os leitores.

Mas afinal, o que há de tão interessante na mademoiselle Oscar? Acho que é bom pensarmos no contexto social da época em que o mangá saiu, o ano de 1972 e lembrarmos de como o Japão é um país, historicamente, sexista pra caralho (até hoje, na real), e o que a Oscar é? Oscar nasceu como mulher numa sociedade em que apenas os homens tinham direito de sucessão e coisas do tipo, e foi a última filha da família Jarjeyes, que, veja você, teve apenas meninas, e eis que o pai de Oscar resolve pensar “ah, mano, só tive filha mulher até agora e a essa altura do campeonato não vai vir menino mais não. Quer saber? Foda-se, vou criar ela como se fosse menino mesmo e ensinar tudo”.

Resultado disso: Oscar é uma mulher refinada. Ela não tenta ser masculina, e sabe muito bem que é uma mulher. Ela é forte, impõe respeito com toda sua elegância e é uma figura galante que cativa os que estão à sua volta, e o fato de ser mulher aparentemente não é nenhum obstáculo para que ela faça seu trabalho (ainda que muitos na corte duvidem de sua competência por causa do preconceito). Agora, vamos parar e fazer um pequeno exercício mental: Imagine o impacto que uma personagem dessas teria numa história que foi publicada em uma revista cujo maior público-alvo eram jovens meninas no início dos anos 70 num país como o Japão?

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A imagem é do anime mas usei aqui para fins meramente ilustrativos

Da mesma forma que, pros meninos, o boxeador Joe Yabuki (protagonista de Ashita no Joe, que havia sido concluído pouco tempo antes de RoV começar) podia ser visto como um herói inspirador (apesar de que ele acabou indo além disso e se tornando um símbolo da esquerda do país, num período de grande reforma política), Oscar acabou se tornando um ícone parecido pro público feminino. É engraçado que naqueles tempos, a molecada chegava até mesmo a perguntar pros seus professores de história se ela existiu de verdade ou não, de tão convincente que é a caracterização dela no mangá. Ela é uma das poucas personagens do mangá que não existiram de verdade, mas foi baseada numa figura histórica que existiu de verdade, que, curiosamente, era do sexo masculino, porém Ikeda decidiu trabalhar com uma personagem do sexo feminino, e assim, acabou tendo mais liberdade pra brincar com a narrativa mesmo sem alterar drasticamente os fatos reais. Oscar pode não ter sido a primeira mulher a vestir uma farda militar nos mangás (afinal, a Safiri/Sapphire do Tezuka veio antes, né?) mas provavelmente foi a que mais marcou uma geração (e, bom, o desenvolvimento dado a ela no mangá é realmente interessante, mas não acho necessário me estender muito falando disso por agora).

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Tanto como estudo histórico sobre a mídia ou como simplesmente “quero ler algo legal”, Rose of Versailles funciona muito bem para quem procura algo de qualidade pra ler. É uma obra sólida, cativante e narrativamente bem poderosa, que resistiu muito bem ao tempo e ainda continua bem eficiente nos tempos atuais. Querendo ou não, é uma obra que foi importantíssima pro crescimento do que conhecemos como mangá e até hoje vemos as consequências disso. Não sei se é um dos melhores mangás que eu já li ou se é um dos meus favoritos porque isso é algo muito subjetivo, mas certamente posso dizer que foi talvez uma das experiências mais memoráveis que eu tive em anos acompanhando quadrinhos nipônicos.

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Oscar com todo seu garbo e elegância

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Esse texto foi a minha participação para o #MêsDoShoujo (março, no caso), iniciado no grupo Campanha Shoujos no Brasil no Facebook, encabeçado pelo Gustavo, vulgo Vowlenhart. Por que escolhi Esse mangá? Olha, vou ser cara-de-pau e admitir que usei o evento como desculpa pra finalmente ir ler esse mangá, que já tava na minha lista de leituras planejadas há muitos anos, porém, eu precisava de um impulso. Agradeço ao #MêsdoShoujo porque, se não fosse esse empurrãozinho, eu não teria lido um negócio tão bom desses tão cedo. Há tempos não tinha uma leitura tão gratificante.

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Admitindo na maior cara-de-pau, Nintakun adora uma breguice trovadoresca.

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