Em Memória De – Final

Esse é o final de um conto dividido em três partes, você pode ler a primeira parte clicando aqui e a segunda aqui.

“A sorte que a vizinha que passou a madrugada acordada por conta do meu telefone acabou ouvindo o barulho pesado que fiz ao cair e interfonou correndo pro porteiro. Uns dez minutos depois o sindico entrou no meu apartamento com uma chave reserva que tinha, me encontrou desfalecido no chão, com a ajuda do porteiro conseguiram me levantar e me colocar sentado no sofá enquanto tentavam me acordar para dar um copo de água. Antes que pudesse tentar explicar o que havia acontecido comecei a cair num choro, minha prima que eu tanto amava havia morrido sem que eu tivesse a chance de ter o perdão dela, tudo isso porque não tive a coragem de me desculpar no momento certo e o pior de tudo, isso também poderia acontecer com a pessoa que eu amava.”

“Eu tentei me explicar o melhor que pude entre os soluços, mas as palavras não saiam, haviam todas fugido enquanto minha cabeça estava à milhão. Tentava falar enquanto arrumava correndo uma mochila com as primeiras roupas que encontrei a frente e acho que eles conseguiram entender porque me deixaram sair correndo do prédio sem fazerem mais perguntas. Menos de duas horas depois estava num ônibus direto para casa, nem sabia quanto tinha na carteira quando sai, só torci para ser o suficiente para pelo menos chegar em casa, andaria a pé se fosse preciso.”

Então ele subitamente se levantou pela primeira vez em um bom tempo, o canivete caiu no bolso e ele teve que se abaixar e pegar, as suas costas surpreendentemente não reclamaram pelo gesto rápido, a energia que sentia naquele momento era absurdamente jovial. Começou a andar em direção ao carro enquanto falava.

– O cenário que encontrei em casa era devastador.

Aquela distancia do corpo já começara a falar quase gritando, como se fizesse alguma diferença para falecido. Abriu a porta do carro, pegou uma garrafa de água numa sacola e voltou lentamente para seu lugar bebendo a água, sentando-se devagar e enfim voltou a falar.

– Minha mãe chorava muito, as duas eram realmente como filhas para ela. — Limpava a água que escorria pelo canto da boca com as costas das mãos — Depois que fui embora minha mãe conseguiu fazer com que as duas frequentassem mais minha casa, isso só fui descobrir naquele momento, era um pequeno e inocente segredo de família.

“A primeira coisa que minha mãe fez quando me viu foi me abraçar, mas não fiquei muito tempo naquele sofrimento familiar, me desvencilhei de todo mundo e perguntei a recepcionista que quarto ela estava. Parti quase correndo pelo corredor do hospital, procurava desesperado pelo quarto 232.”

“Passava por médicos e enfermeiros conversando sobre coisas totalmente aleatórias, por exemplo, ouvi um médico comentando com o outro sobre futebol, como eles conseguiam conversar essas aleatoriedades enquanto a vida de Monica corria perigo? Juro pra você que senti uma raiva descomunal e desnecessária.”

“Por mais que tentasse não fazer barulho meus passos faziam ecos regulares no chão como um relógio, como a porra de um relógio da morte sabe? Aquilo me assustou demais, a morte ali era visita constante, era mais constate até do que na vida de alguém na minha idade, ela estava ali todo dia para fazer seu trabalho, talvez até batesse cartão na entrada.”

“Finalmente encontrei o quarto, fiquei um tempo parado encarando aquela porta branca fechada, me assustou pela primeira vez pelo fato de aquilo ser real, eu realmente podia perdê-la. Juntei o máximo de coragem que tinha e abri a porta.”

“Ela ainda estava dormindo, respirava com ajuda de aparelho, o rosto estava cheio de ferimentos superficiais e vários curativos, uma atadura maior e manchada de sangue cobria a parte de trás da cabeça dela. Não dava para ver a gravidade dos ferimentos na perna e dos braços, pois ela estava coberta até o pescoço, mas só de ver que ainda estavam ali já me deixou mais. Vendo aquela cena não consegui não chorar pelo desespero, chorei sentado ao lado dela, eu queria muito pelo menos poder segurar a mão dela, mesmo que talvez ela me xingasse depois por fazer isso.”

“Quatro dias depois da minha chegada tivemos o enterro da minha prima, meus tios estavam desconsolados, pior que eles ali acho que somente eu. Nos últimos dez anos da vida dela eu fora inexistente pra ela, alguém para se odiar, sentir nojo e falar mal, não consigo te explicar o quão isso me deixa triste até hoje. Esse foi o único enterro até hoje que chorei acredita? Chorei sem parar e continuei chorando quando voltei para o quarto da Monica para ficar com ela, não poderia deixa-la sozinha, não de novo e fiquei lá chorando sozinho enquanto rezava baixo para que ela acordasse.”

“Duas semanas passaram voando, passava o dia todo no hospital, acabei até criando amizade com algum dos funcionários que me viam lá dia e noite, às vezes um ou outro perguntava se éramos namorados, essa pergunta sempre me deixava cabisbaixo e respondia prontamente que não. A cada três dias minhas costas reclamavam por dormir na poltrona do hospital, acabava indo dormir em casa e minha mãe ficava tomando conta de Monica. Minha mãe também vinha me trazer comida e foi mais ou menos assim que passei aquelas duas semanas.”

“Havia deixado minha carta na cabeceira da cama, foi uma sorte gigantesca não a ter esquecido quando sai correndo de casa. Passava maior parte do meu tempo lendo Capitães de Areia e de vez em quando olhando por cima do livro torcendo para ela estar acordada me observando, mas não fui eu que tive a sorte de vê-la acordando.”

“Tinha ido para casa e dormido doze horas seguidas, hospital tava realmente tomando toda a minha energia e impressionantemente passava o dia todo lendo livro e andando pelo quarto. Ainda estava sonhando quando telefone tocou me acordando, ainda meio sonolento, acabei tropeçando em tudo pela casa, mas consegui atender e era minha mãe avisando que a Monica havia acordado.”

“É até engraçado porque junto com o alivio veio o medo entende? O medo egoísta de ela não querer mais falar comigo mesmo depois das minhas desculpas voltou naquele momento, sabia que cedo ou tarde ela iria acordar e desejava muito por isso, vivera minha ultima semana rezando pra isso, mas agora que tinha acontecido senti medo. Foi idiota e egoísta eu sei, mas eu nunca consegui nunca deixar de sentir pena de mim mesmo e me preocupar comigo, esse lado sempre esteve presente mesmo que tenha aparecido pouco para as outras pessoas com quem convivi.”

“Quando entrei no quarto ela estava sentada na cama, estava de olhos fechados com as mãos pousadas na minha carta aberta em seu colo, o rosto dela estava surpreendentemente calmo, até pude notar um leve sorriso no rosto. Ela permaneceu de olhos fechados quando entrei no quarto, mas notou que havia entrado, pois quando entrei acabei a assustando com o som dos meus passos, continuou sem abrir os olhos por todo o momento em que entrei no quarto em sua direção.”

“Meu coração parecia que ia explodir dentro do meu peito. Acabei me ajoelhando ao lado dela, seu rosto estava pálido, mais magro e ainda marcado pelos ferimentos do acidente, mas mesmo assim continuava linda. Conseguia ver perfeitamente dali todos os lugares do rosto dela que eu havia dado beijo ou feito carinho, fiquei em silencio a observando por um tempo enquanto ela ainda permanecia com os olhos fechados, parecia um sonho estar próximo a ela de novo, então não resisti à tentação e toquei sua mão. Ela abriu os olhos na hora como se tivesse tomado um choque.”

“Ela ficou alguns poucos segundos apenas olhando para frente e então subitamente virou o rosto para mim me encarando no fundo dos meus olhos. Dez anos depois e ver a mudança me assustou um pouco, o olhar dela continuava lindo, mas havia mudado, não tinha mais os olhos de uma menina e sim de uma mulher. Estavam mais frios, não tinha mais aquele brilho sonhador de uma criança, estava muito mais marcado pelo tempo pelas coisas ruins eu diria, quase como meus joelhos hoje em dia, pensar que muito daquele olhar frio era minha culpa.”

“Ficamos um tempo um olhando o outro, esperando quem agiria primeiro. Não deve ter passado mais de quinze segundos, mas pareceu uma eternidade, então os olhos dela começaram a encher d’água, ela rispidamente tirou a mão de perto de mim, cobriu os olhos e começou a chorar. Minha primeira reação foi levantar e chegar próximo a ela, esperei que ela me empurrasse pra longe ou me mandasse sair de perto dela, mas isso não aconteceu, pelo contrário, ela me abraçou.”

“A primeira coisa que ela me disse foi se algum dia eu iria perdoa-la, logicamente não entendi direito aquilo e achei que ela tivesse com a memória confusa ou algo parecido por causa do acidente. Porra era eu quem precisava me desculpar, mas ela continuou repetindo sem parar entre os soluços isso até o momento que se acalmou e se explicou. Ela se desculpava pela morte da minha prima, minha prima não queria voltar aquela tarde e Monica queria, estava com dor de cabeça e acabou enchendo tanto a minha prima que ela se convenceu a voltar mais cedo, elas voltaram e tudo aquilo aconteceu.”

“Eu obviamente acalmei ela falando que não tinha culpa nenhuma daquilo, não tinha como saber prever que isso aconteceria e outras coisas. Mas acho que ela a vida toda acabou se culpando totalmente pelo acidente, tanto que uma das ultimas coisas que ela me falou antes de morrer foi um pelo menos vou encontrar com ela no céu e me desculpar.”

“Depois de um tempo ela soltou o abraço e prontamente entendi o recado de me afastar dela, pediu algo para enxugar os olhos e acabei indo no banheiro pegar papel higiênico. Quando voltei ela estava sentada com a minha carta nas mãos de novo, observando lentamente lendo calma, entreguei o papel e empurrei a poltrona para sentar próximo a dela.”

“- Por que você demorou tanto tempo pra se desculpar? — Disse enquanto secava as lágrimas.”

“- Sendo bem verdadeiro contigo — Comecei depois de um tempo quieto olhando diretamente para ela — Porque eu não tive coragem.”

“Ela abriu um sorriso como se já esperasse aquela resposta por muito tempo, como se falasse já sabia, voltou à atenção a carta ainda com o sorriso no rosto. Fiquei em silencio apenas a observando, já devo ter falado isso, mas estar do lado dela depois de dez anos era quase como um sonho que eu não queria acordar de jeito nenhum, relembrando os gestos dela e ouvindo a voz doce dela de novo. Era extremamente surreal.”

“- Você tá certo — Ela começou quebrando o silêncio e dobrando a carta e guardando no envelope num gesto cuidadoso — Na verdade você consegue estar errado e certo ao mesmo tempo.”

“- Como assim — Foi o que consegui responder com um nó na garganta e ela prontamente continuou.”

“- Você está certo quando diz que o que você fez não tem perdão — Não sei se você já leu O Corvo do Allan Poe, mas quando ela pousou os olhos em mim após falar isso eu na hora pensei nesse poema. — Mas errado por achar que isso me impede de ter dar outra chance em minha vida.”

“Na hora sorri e ela devolveu o sorriso, foi tão bom ver o sorriso dela de novo e naquele momento foi quando fiz a promessa comigo mesmo de fazer de tudo para que aquilo sorriso ficasse ali para sempre. Ficamos em silêncio, consegui segurar na mão dela de novo e fazia carinho levemente, mas logo ela abaixou o rosto e voltou a chorar. Novamente fui abraça-la e ela chorou por um tempo, falou como queria poder ter ido ao enterro da minha prima e como queria que ela tivesse ali. Foi difícil segurar o meu próprio choro, mas precisava acalma-la, tomar conta dela, então não poderia chorar também, precisava ser forte para sustentar ela foi ali que eu prometi a segunda coisa que era não demonstrar fraqueza nos momentos que Monica mais estivesse triste e precisasse de ajuda.”

Ele olhou para cima e notou que o sol já estava no meio do caminho para se por. “Lu se você ainda pretende fazer aquilo acho que deve começar logo, já devem ser três ou quatro da tarde e logo vai escurecer” A voz de Monica voltou suavemente a sua cabeça. “Eu sei meu amor, eu vou me apressar, mas de qualquer jeito já estou acabando.” Respondeu ele prontamente.

Parou um pouco e pensou “Estou conversando com minha esposa falecida na minha cabeça e com um rapaz enforcado numa árvore, minha maluquice já ultrapassou qualquer limite” e riu de si mesmo. Arrumou a postura e ficou esticando as costas por um tempo se preparando para o esforço físico que faria logo, enquanto isso voltou a falar.

– Não voltamos a namorar prontamente e nem queria que fosse assim — Disse enquanto colocava a mão nos quadris e esticava as costas — Pra ser sincero nem falamos em voltar a namorar ou coisa parecida, apenas fomos aos pouco voltamos a ser amigos e conversar todos os dias como era antes e durante o namoro.

“Ela saiu do hospital algumas semanas depois. Ficamos o dia todo e todos os dias conversando em casa ou andando pela cidade, tínhamos muito assunto para botar em dia, ela quis saber tudo sobre a faculdade e eu acabava passando a maior parte do tempo contava sobre o curso, sobre os professores. Ela gostava de ouvir sobre as histórias engraçadas que me metia com meus amigos, mas o que mais gostava era ouvir sobre São Paulo, queria saber mais sobre a cidade, tinha ido lá apenas uma vez e conhecera muito pouco do lugar, mas ficara extremante encantada e ouvia com atenção.”

“Eu evitava fazer perguntas sobre o passado dela porque praticamente todas as lembranças envolviam minha prima e sempre acabava com ela triste ou chorando, mas consegui pescar e juntar o quebra-cabeça com as pequenas coisas que ia me contando com o tempo. O namoro dela, tinha sido com um tal de Carlos que nunca tinha ouvido falar, havia durado bastante até, mas terminaram depois que viram que não já não gostavam mais tanto assim do outro e pra que cada um pudesse seguir sua vida. Ela não parecia muito triste quando falava disso pra ser sincero e até onde eu sei ela nunca mais falou com ele.”

“No tempo que eu tentava entra na faculdade de direito ela entrou e finalizou o curso de letras, acabei me esquecendo de contar isso lá atrás, mas ela sempre tivera o sonho de ser professora. Mas enquanto esperava abrir uma vaga de professora de português na cidade ela ficou ajudando minha prima na pequena loja de roupa que ela tinha aberto e agora quem cuidava era minha tia.”

“E assim passamos todos os nossos dias naquele mês de férias, passou tudo muito rápido e logo tive que voltar pra São Paulo. Monica foi junto com meus pais para me levar a rodoviária o que significou muito pra mim, combinamos de trocarmos cartas, deve ser difícil para você entender isso, mas numa época sem internet e que ligação era caro, era assim que as pessoas faziam pra não perder contato. Mas o mais engraçado de tudo é que em nenhum momento daquela viagem ela saiu da minha cabeça, muito menos quando cheguei a São Paulo ou quando minhas aulas voltaram.”

“Eu não queria para não estragar tudo, mas não consegui não me apaixonar por ela de novo, o que também me deixou triste pelo fato de ter certeza que nunca teria outra chance com ela. Então só segui minha vida como sempre fiz, um dia recebi uma ligação dela, que me pegou totalmente de surpresa, perguntando se poderia ficar uns dias em minha casa porque precisava resolver umas coisas na cidade. Obviamente que eu deixei e ela naquele final de semana mesmo.”

“Foi minha primeira experiência morando com alguém que não era meu parente. A primeira coisa que fizemos quando ela chegou foi limpar tudo enquanto ficava falando como é que eu conseguia viver naquela bagunça, eu não pedi para ela fazer nada, pelo contrário ficava pedindo para ela descansar que negava prontamente. Obviamente a ajudei com tudo, lavar louça, passar pano no chão e outras coisinhas, mas foi absurdamente divertido, passávamos o dia todo rindo enquanto arrumávamos o pequeno apartamento e no final dos dois dias de faxina capotávamos de cansaço.”

“Alguns dias depois tinha uma festa de um amigo para ir uns dias antes de ela ir embora, até pensei em não ir para aproveitar o tempo com ela, mas acabou que Monica quis ir na festa pra conhecer meus amigos e fomos juntos. Foi uma festa bem divertida, só tinha amigos próximos e gente boa então não teve confusão nem nada, passamos a maior parte do tempo em roda com meus amigos contando meus podres pra divertir Monica, que bebia e se divertia como nunca havia visto.”

“No meio da noite acabamos sentados numa mesa mais isolada e eu lembro perfeitamente de estar fazendo cafuné nela enquanto ela deitava em meu ombro e ficava sorrindo de olhos fechados de um jeito totalmente sereno. Uma hora ergueu a mão e começou a acariciar meu rosto com as costas da mão gentilmente, também ficou me olhando nos olhos por um tempo e disse o seguinte com uma voz calma e gentil que não ouvia fazia um bom tempo.”

“ — Eu te amo — Você pode imaginar o quanto meu coração acelerou naquele momento, digamos que se meu coração hoje em dia acelerasse daquela maneira eu enfartaria na hora. Voltando, ficamos um tempo encarando um ao outro e ela completou escondendo o rosto no meu peito. — Eu te amo muito.”

“- Eu também te amo — Foi o que conseguiu sair da minha garganta enquanto gaguejava levemente — Eu quero nunca mais te fazer mal, prefiro morrer a fazer isso.”

“O que aconteceu a seguir você deve imaginar, coloquei a mão embaixo do queixo dela e o ergui enquanto fazia carinho, ficamos nos olhando por algum tempo e nos beijamos. Ficamos um bom tempo ali intercalando beijos e juras de amor, então decidimos ir embora, pegamos um taxi, quando voltamos para o apartamento passamos o resto daquela noite transando e foi tudo maravilhoso.”

“Ela não voltou como pretendia e ficou morando comigo em São Paulo até eu me formar, aquela época com certeza foi uma das mais felizes da minha vida, isso se não for a melhor, ia pra aula a tarde toda e a noite ficávamos namorando. Meus pais e os dela ficaram extremamente felizes quando contamos da noticia, eu esperava que ficassem com um pé um pouco atrás por conta do passado, mas felizmente apoiaram cem por cento, até enviaram as coisas dela pelo correio.”

“Na minha formatura dançamos valsa juntos o que foi um dos momentos mais bonitos e especiais da minha vida, meus pais não puderam ir porque meu pai tava internado com pneumonia, doença que acabaria o tirando de minha vida dois anos depois.”

“Estávamos em São Paulo, tinha um pequeno trabalho num escritório e ela dava aula num colégio pequeno próximo ao apartamento onde morávamos. Quando minha mãe ligou avisando que meu pai estava morrendo. Na época já tínhamos comprado um carro com o dinheiro que juntamos e eu dei o meu melhor para não correr muito com o carro, assim fazendo Monica ficar com muito pânico. Ela não comentava comigo, era uma namorada maravilhosa e entendia a situação que eu estava passando, mas eu percebia que ela não conseguia se sentir confortável dentro do carro, ainda mais em alta velocidade.”

“Meu pai acabou morrendo alguns dias depois, foi numa quarta-feira nublada e extremamente triste, gosto de acreditar que ele esperou eu e Monica chegarmos para despedir de nós dois. É engraçado como às vezes você acaba demorando demais para decidir o que quer da vida, ai a vida vai e decide por você. Quando ele morreu eu e Monica não sabíamos direito o que queríamos da vida e ficávamos com um pouco de medo de tentar grandes mudanças, então só mantínhamos nossa vida tranquila, mas depois disso as coisas mudaram bastante.”

“O foi alguns dias depois enterro, que mesmo que estivesse extremamente abalado e triste acabei não derrubando nenhuma lagrima tentando ser forte para Monica e minha mãe que estavam profundamente tristes. Quando voltamos pra casa sentei com as duas para decidir o futuro e ficou decidido que eu e Monica iríamos voltar para o interior, eu cuidaria da administração da fazenda do meu pai e ela daria aula num colégio local, agora que já tinha experiência em colégio grande seria mais fácil. Assim conseguiríamos dar um descanso para minha mãe nos últimos anos de vida dela e não precisaríamos pagar ninguém para cuidar da fazenda.”

“A vida seguiu assim e seguiu muito bem obrigado, Monica logo virou uma professora muito querida e amada na cidade, eu consegui manter o lucro da fazenda no mesmo patamar, sempre fui bom para fazer negócios ainda mais que tinha aprendido tudo com meu pai que era um administrador nato. Quatro anos depois de meu pai morrer Monica engravidou e decidimos que era a hora de pararmos de enrolar e casar de uma vez.”

“O pedido de casamento foi bem besta, queria ter pensado em algo mais grandioso, algo mais cinema sabe? Mas acabou sendo num dia feriado, estávamos no parque sentados sozinho fazendo piquenique, alguns alunos de escola passavam e acenavam para Monica que aquela altura já estava com sete meses e com um barrigão enorme. Foi engraçado que mesmo sabendo que ela iria aceitar, mas quando peguei o anel no bolso para fazer o pedido, me senti de novo com aquele frio de barriga adolescente de quando a chamei para sair pela primeira vez. Ela se emocionou e abriu um sorriso lindo quando me viu ajoelhando a sua frente com o anel entre os dedos, prontamente aceitou e marcamos de nos casar no inverno seguinte logo após nosso filho nascer.”

“Casamos na igreja da cidade numa cerimônia toda linda e pomposa com todos nossos amigos presentes, casar na igreja era mais um desejo dos nossos pais desde a primeira vez que namoramos do que nosso, por nós casaríamos no civil e faríamos uma festinha com amigos mais próximos. Mas como pais são pais acabamos indo casar na igreja mesmo, eu mesmo tendo ido regularmente à igreja não acho que tenha sido um bom cristão nessa vida, você acreditaria se eu te falasse que essa é a primeira vez que eu confesso todos meus pecados e dores para alguém?”

“O tempo voltou a apressar seus passos. Depois do primeiro logo veio o segundo filho, digamos que não tinha muito para fazer naquela cidade pequena e a lua de mel foi bem animada. Com um intervalo de tempo maior entre esses dois, veio a ultima filha, tivemos três crianças maravilhosas, educadas e saudáveis, três era o número certo de crianças que queríamos ter, mais do que isso seria loucura, então logo após o nascimento da terceira eu marquei minha vasectomia. Foi um pouco assustador, mas foi tudo bem calmo e valeu a pena não precisa mais me preocupar com filho.”

“Dois meses depois do nascimento da nossa caçula minha mãe morreu, acho que ela queria esperar conhecer todos nossos filhos antes de partir. Monica e as crianças ficaram arrasadas, pra Monica ela era quase que uma mãe e as crianças mesmo muito novas eram muito ligadas a avó, principalmente pelos pequenos presentes e doces que ela adorava dar. De novo me vi numa situação que estava cada vez mais frequente, a de precisar ser forte para sustentar emocionalmente todos os presentes e novamente não consegui chorar no enterro. Quase esqueci de citar que essa foi a segunda vez que vi minha irmã num longo intervalo de tempo, a primeira foi no enterro de meu pai.”

“Dai pra frente frequentar velórios era cada vez mais frequentes, é como um amigo me disse uma vez, você sabe que é criança quando você frequenta mais a festa de aniversário, você sabe que é adolescente quando vai a festas de debutante e baladas, vira adulto no momento que passa a ir mais a casamento, batizados e por ultimo percebe o quão velho está no momento que percebe que frequenta mais enterro.”

“Sete anos depois de mamãe morrer foi à vez dos meus dois sogros morreram com um intervalo de três meses entre a morte de um e de outro, sempre achei que meu sogro não aguentou viver sem a esposa e se entregou nos braços da morte. Hoje em dia tenho a certeza que foi isso que aconteceu.”

“Mas pouco antes disso acontecer, já estava me adiantando de novo na história, logo após a minha mãe morrer e as crianças entraram na adolescência, eu e Monica decidimos que seria melhor para a educação delas se mudássemos para São Paulo. Mudamos para lá depois de conseguir vender a fazenda para um empresário qualquer por uma quantia considerável, eu sei que meus pais ficariam magoados por ter vendido a fazenda, mas meu pai entenderia que eu precisava fazer o que fosse pelo bem da minha família. Além do que não tinha restado mais motivo nenhum para ficarmos no interior.”

“Consegui montar um escritório de advocacia e finalmente seguir a carreira pelo qual havia me formado anos atrás e Monica começou a dar aula em alguns colégios da cidade. As crianças cresceram muito bem, todas elas conseguiram entrar na faculdade e fizeram o que queriam da vida, eu e ela não botamos pressão nenhuma nelas para que escolhessem esse ou aquele curso, queríamos que elas fossem acima de tudo felizes. Acabamos não ficando muito tempo na cidade daquela vez, pouco logo depois da nossa caçula ir para o ultimo de faculdade nos decidimos que não tínhamos mais nenhum papel principal ali em São Paulo e nos mudamos de novo para o interior do estado.”

“Não conhecíamos a cidade, a escolha foi principalmente por ser uma cidade até um pouco grande e por ficar bem no meio do caminho de todas as cidades em que nossos filhos faziam faculdade. Era uma cidade até que boa, tinha suas manias e maluquices igual qualquer outra cidade pequena que havia crescido um pouco e logo nos acomodamos lá.”

“Compramos uma casa grande até, sendo sincero era maior do que o que dois adultos indo para a velhice precisavam para viver bem em seus últimos anos de vida, mas Monica sempre falava que precisaríamos de muito espaço para quando nossos filhos, futuramente acompanhado com os nossos netos, fossem nos visitar. Eu segui essa linha de pensamento e acabei fazendo o que ela queria mais por amor do que querer mesmo uma casa grande, mas isso faz parte da vida a dois, você abrir mão às vezes do que você quer para agradar o outro.”

“E ai sim, chegamos ao período que começamos a frequentar muitos enterros. Professores que nos deram aula, ex-colegas de escola, pessoas do dia que você convive e nunca se aproxima muito, colegas de trabalho tanto meus quanto de Monica e assim por diante. Só começou a doer e fazer nós dois percebemos a idade que estávamos quando foi à vez dos nossos amigos começarem a morrer. A morte do meu padrinho também fora muito pesada para mim, ele era quase como um segundo pai e como já disse anteriormente foi ele quem me deixou esse sítio, mas o maior baque mesmo foi quando minha irmã mais velha morreu.”

“Pensando aqui eu não falei muito dela né? Acho que porque falar dela e lembrar que ela morreu sempre me abala muito, lembrar que ela não pertencem mais a essa mundo. Se fosse Monica sentada aqui contando a própria história, ela talvez negligenciaria a participação da minha prima na história do mesmo jeito que eu negligenciei a da minha irmã, pelo mesmo motivo, evitar a dor da lembrança. Mas como falei anteriormente éramos muito próximos, ela foi madrinha do meu casamento e ficou ao meu lado nos meus momentos mais difíceis, depois da Monica a pessoa que eu mais amo no mundo é ela.”

“Ela se mudou para o Rio de Janeiro depois de se formar e isso acabou fazendo com que nos víssemos muito pouco nos últimos anos de vida, mesmo as raras visitar dela tendo sido extremamente especiais e divertidas. No meu casamento com Monica ela foi a maior figura, contando piada e tirando sarro de nós dois. Eu e Monica adorávamos demais ela. Quando decidi vender a fazenda liguei rapidamente para ela que concordou na hora e dividimos o dinheiro igualmente como a de ser.”

“Ela morreu de câncer de pulmão, não é para menos já que fumava quase dois maços de cigarro por dia. Quando ela me ligou falando que estava com câncer foi um choque absurdo a ponto de chegar a tremer, devia ser a décima pessoa que essa doença terrível tirava de minha vida e ficamos ao lado dela até o fim. O enterro dela, junto com o da minha esposa, foi o único que eu cheguei perto de chorar, mas estava tão triste nos dois que não consegui, estava travado e enterrado na minha própria dor.”

“Só resta mais um pedaço pequeno para encerrar a história da minha vida, não é grande coisa eu sei, não teve nenhuma grande aventura ou fiz alguma grande diferença nesse mundo, mas essa foi toda a minha existência resumida em tópicos importantes. Antes de terminar, sério é bem pequeno o que falta, preciso buscar uma coisa.”

Luis então se levantou, sentia a bunda quadrada e dormente por ter ficado tanto tempo sentado. Foi em direção ao pequeno armazém, estava tudo em ordem, a única coisa que realmente estava faltando era à corda que o rapaz havia pegado para se enforcar na árvore. Pegou uma das pás e voltou para ficar de frente ao garoto.

– Minha esposa morreu semana passada. — Soltou um grande suspiro enquanto olhava para o chão. — Eu sempre acordava mais cedo que ela, tomava meu banho e preparava o nosso café da manha, ela sempre descia nesse momento. — Ajeitou a pá no ombro como costumava fazer anos antes quando trabalhava na fazenda — Mas naquela manha não, estranhei um pouco lógico, mas achei que ela só estivesse com preguiça, isso acontecia raramente, estava quieto comendo minha torrada e tomando meu café quando ouvi o barulho seco dela caindo ao chão.

“Foi o momento mais desesperador da minha vida, subi as escadas correndo, quase tropecei e cai umas duas vezes, mas isso não importava, precisava socorrer ela de qualquer jeito. Ela estava caída no chão, reclamando de uma dor forte no peito, fui correndo pegar o telefone que deixava na cabeceira da cama e liguei para a emergência, enquanto esperava a ambulância chegar, que pareceu uma eternidade, liguei para meus filhos que vieram correndo.”

“Foi tudo muito rápido e mal tive tempo de me despedir direito dela. Foi no caminho para o hospital enquanto estávamos na ambulância que ela segurando minha mão falou que pelo menos iria encontrar com minha prima e se desculpar. Falei para ela não dizer isso, que ficaria bem e ela apertando minha mão disse que se acontecesse algo com ela era para eu ser forte e continuar vivendo.”

Luis olhou para cima observando o sol calculando se ainda daria tempo de fazer o que queria, notou que se fizesse tudo rápido até sobraria tempo.

– E essa foi a última coisa que falei para minha esposa, a ultima vez que ouvi a doce e calma voz dela, a ultima vez que o lindo olhar dela veio de encontro ao meu — Disse sentindo a garganta ficar seca — Ela morreria algumas poucas horas depois, fora um ataque do coração fulminante o médico me diria, eles tentaram reanima-la de qualquer jeito, mas nada surtiu efeito.

“Pior de tudo é que estava um dia lindo, estava ensolarado com um céu aberto bonito de verão, com os pássaros voando e cantando, se hoje está um dia lindo, aquele estava dez vezes mais. Odiei profundamente o mundo, como ele ousava botar um dia tão lindo para o dia mais triste da minha vida? Aquilo era uma tremenda piada de mal gosto e o mundo deve ter achado alguma graça nela porque todos os dias que se seguiram desde então, contando o dia do enterro, foram dias semelhantes, ensolarados e bonitos. Eu odeio isso, odeio profundamente do fundo meu coração.”

“O enterro dela foi com certeza o momento mais triste da minha vida, não chorei também, estava tão vazio e perdido que não consegui, parecia que estava vivendo um longo pesadelo que não acordava. Como Monica havia morrido tão rapidamente? Só poderia ser um pesadelo, aquilo com certeza não tinha como ser a vida real, foi só depois dos meus filhos irem embora e voltarem para suas vidas que a ficha caiu. Era noite e tinha acabado de jantar, estava levando meu prato para a pia quando pensei em arrumar a pia e fazer uma surpresa para Monica quando a epifania veio, não teria como eu fazer aquela surpresa, ela nunca mais entraria pela porta da cozinha e sorriria depois dele lhe dar um beijo na testa. Nunca mais, estava morta para todo o sempre.”

“Isso foi dois dias atrás e dois dias após o enterro dela. Minhas mãos tremeram, minha pressão desabou, deixei o prato escapar por entre meus dedos, cair no chão e se espatifar em milhões de pedaços, enquanto apenas balançava a cabeça negando a verdade a minha frente, sentei encolhido pensando que aquilo era só um sonho ruim e logo acordaria ao lado dela.”

“Foi quando comecei a pensar que estava fazendo apenas hora extra na terra, não tinha mais motivo para viver, havia morrido junto a ela naquele dia. Minha única alegria nesses últimos dias era dormir e rezar para acabar sonhando com minha esposa e ficar junto a ela de novo, mas não sonhei com ela em nenhum desses últimos dias, parecia que Deus havia me abandonado.”

“Olhar ao meu redor só piorava tudo, aquela casa gigante e vazia, vendo o fantasma dela por todo o canto, seja em fotos, no lugar que ela sempre se sentava para comer, o lugar dela no sofá e principalmente a memórias que aquela casa trazia. Ontem de tarde que notei que estava sozinho no mundo, todas as pessoas que eu amava estavam mortas e meus filhos nem se davam ao trabalho de me ligar para perguntar se eu estava bem ou precisava de algo. Estava abandonado, sozinho, era o ultimo que sobrara, o amaldiçoado e foi ali que tomei a decisão.”

“Eu iria me matar.”

Começou a procurar o canivete do garoto nos bolsos da calça, era impressionante que havia esquecido em qual bolso o havia guardado, idade era realmente complicado você sempre acaba esquecendo-se de coisas pequenas, mas logo acabou achando no bolso da direita, o abriu e ficou encarando a lâmina.

– Sim isso mesmo que você ouviu. — Começou encarando o próprio reflexo na lamina, observando as rugas pelo rosto que a idade havia trazido. — Eu não só pensei em suicídio como havia tomado a decisão de fazer, não sei sinceramente se suicídio é comum entre pessoas idosas, pra falar a verdade eu nunca ouvi falar de um caso, acho que o natural é a pessoa eventualmente decidem parar de viver e vão definhando aos poucos. — Desviou o olhar da lamina e olhou de novo para o garoto — Confesso que achei um pouco de graça na ideia de um velho se matando sabe? Desistir da vida nos acréscimos do segundo tempo.

Então olhou pra cima e começou a andar lentamente na direção do garoto.

– Antes de continuar essa linha de pensamento, preciso explicar o que vou fazer. — Estava agora a poucos passos do garoto e começou a sentir o leve cheiro que ele emanava. — Parando um pouco para pensar é claro notar que se você veio até tão longe para se matar é porque você não queria ser encontrado.

“Então vou respeitar esse seu ultimo desejo Mauro. Na verdade vou fazer mais do que isso, vou enterra-lo aqui nos pés da árvore que marca um dos momentos mais importantes da minha vida, como forma de agradecimento por duas coisas que você me mostrou garoto.”

Ele se colocou na ponta dos pés para alcançar a corda acima do pescoço do garoto e a cortou rapidamente com o canivete. O corpo pesado caiu no chão com um barulho seco, com a força que tinha puxou o corpo do garoto para o lado, pegou a pá que havia deixado no chão e começou a cavar a terra dura.

– Eu entendo que possa ser cruel de minha parte não dar a chance para uma mãe ou um pai enterrar seu filho. — Olhou para o garoto agora deitado ao seu lado enquanto limpava o suor da testa. — Mas, como já disse, se você preferiu ir tão longe se matar acho que você preferia assim, até porque nem sei se você gostava dos seus pais ou vice-versa. — Limpava o suor da testa e passava a língua pelos lábios secos — Ou muito menos se eles estão vivos ou se importavam contigo, infelizmente tem pais assim no mundo.

“Mas ok, agora voltando para o que falava antes.”

“Eu tinha decidido me matar e essa era uma decisão que não iria mudar de jeito nenhum. Só não queria fazer na casa onde morei meus últimos anos ao lado de Monica e por isso decidi que faria aqui no antigo sítio de meu padrinho.”

“Não iria me enforcar igual você fez, pois achava que não teria força para isso, não iria cortar meus pulsos, pois sempre tive aflição com isso, fresco até a hora da morte pois é. Não teria como um senhor de minha idade conseguir uma arma rapidamente, então a única saída que consegui foi me entupir de remédio e esperar a morte vim me buscar.”

“Comprei várias caixas na tarde de ontem em farmácias diferente, é impressionante o quanto farmacêuticos deixam velhos comprarem qualquer coisa em qualquer quantidade. Se duvida de mim eu posso ir buscar as caixas de remédio, está na sacola ao lado da sacola que tirei aquela garrafa de água ali, era uma das três que eu trouxe para me ajudar a engolir todos aqueles comprimidos.”

“Quem era pra ser enterrado aqui era eu, esse seria meu ultimo pedido, ser enterrado aos pés da árvore que marca simbolicamente o começo da minha vida com Monica, iria deixar isso explicito no bilhete que escreveria hoje a noite após comer minha ultima refeição e antes de partir. Mas quando te vi enforcado na árvore num dia tão bonito como esse foi como se uma lâmpada acendesse na minha cabeça e essa é a primeira coisa pelo qual sou grato a você.”

“Quando te vi enforcado na árvore, morto, sem poder apreciar esse dia isso me deixou profundamente triste, principalmente por ver um rapaz tão jovem acabar com a vida de uma maneira tão triste. Foi nesse momento que eu parei para pensar se aquilo que pretendia fazer não era só o certo a se fazer, mas será que era aquilo o que Monica iria querer para mim? Depois da ultima coisa que ela havia me dito? O que pensaria meus pais? O que falaria minha irmã? Nessa hora eu notei a besteira que iria fazer.”

“Nenhuma das pessoas que conheci, amei e que compartilhei minha vida iriam querer que eu acabasse dessa maneira. Todos com certeza iriam querer que eu aproveitasse meus últimos anos de vida e foi nesse momento que eu respirei fundo pela primeira em um bom tempo sentindo o ar enchendo meus pulmões e relaxei lembrando do quão bom era estar vivo, depois de uma semana sobrevivendo como um zumbi me arrastando, lembrei o quão bom é poder estar vivo e poder aproveitar esse e outros dias.”

“É bem filha da puta agradecer por isso. Pois soa como um obrigado por ter acabado com sua vida e me feito notar de novo o quão ruim e triste a morte é, mas mesmo assim obrigado, você pode ter morrido achando que nada do que você fez na vida valeu a pena, mas no fim acabou fazendo algo muito bom e bonito que é dar de volta a um velho seus últimos anos de vida.”

“Por você e por todos os outros que já se foram, vou aproveitar esses últimos anos que me restam. Tomei a decisão de vender a casa que vivi nesses últimos anos. A casa é grande como já disse, vai render um bom dinheiro e somado com o que tenho guardado numa poupança, eu e ela tínhamo­s guardado pensando em deixar de herança, mas depois deles terem me ignorado por dias decidi que não merecem porra nenhuma.”

“Como dizia, vou pegar esse dinheiro que juntar e vou viajar pelo mundo, conhecer todos os lugares que sempre sonhei em conhecer e aproveitar cada um desses lugares. Depois se o dinheiro acabasse ou cansasse da viagem e voltasse aqui para o Brasil, se viver tempo suficiente para isso é claro, posso passar meus últimos anos de vida aqui mesmo no sítio. Acho que isso vai ser extremamente divertido, conhecer a Europa e a Ásia, não vejo a hora de começar a preparar tudo para viajar.”

Estava já no meio do buraco, de tempos em tempos limpava o suor que escorria da testa com o braço e sentia a camisa encharcada pelo suor. Seu ombro e costas reclamavam a cada cavada que dava, mas não cediam e ele agradeceu muito os anos trabalhando na fazendo do pai. Se não fosse por aquilo não conseguiria nunca cavar aquele buraco.

– A segunda coisa que você me mostrou é uma complementação da primeira e é mais simples — Começou a falar com a respiração já ofegante — É que…

Então a dor veio. Aquela sensação das cordas sendo esticadas ao limite nas costas voltou, mas daquela vez sentiu como se tivessem arrebentando, o ar fugiu dos pulmões dele e caiu de costas no chão com as pernas pra dentro do buraco. “Vai com calma Lu”, falou a voz da Monica em sua cabeça. “Você já não é mais um garoto, pode acabar tendo um ataque cardíaco e morrer ai mesmo”.

Achou graça naquela ideia, se tivesse restado alguma força ou ar em seu pulmão com certeza iria chorar de rir, morrer ali logo depois de decidir que queria viver a aproveitar os últimos anos de vida seria uma piada gigantesca. Também achou graça porque conseguia imaginar com perfeição a matéria sensacionalista no jornal falando do senhor pederasta que após a morte da esposa, enlouquecera e decidiu seduzir jovens rapazes. Ao encontrar a beira da estrada um rapaz que havia fugido de casa, conseguira a atenção dele oferecendo um lugar para dormir e comida, mais tarde naquela noite teria tentando convencer o garoto a transar com ele, que se recusou prontamente, os dois brigaram, o senhor acabou matando o garoto e ao tentar enterra-lo para ocultar o cadáver o velho sofrera um ataque cardíaco e morrera. Até conseguia imaginar as coisas que o apresentador diria.

Ficou ali um tempo recuperando o fôlego esperando a dor nas costas dar uma aliviada e tempo depois quando isso aconteceu olhou para o garoto e começou a rir pelo que havia pensado. Sentou-se, esperou o sangue voltar a circular e se colocou em pé de novo e voltou a cavar.

Dessa vez em silêncio para poder respirar melhor e com mais calma. Tempo depois acabou de fazer o buraco, teve um pouco de dificuldade para sair de lá de dentro, então começou a arrumar as coisas, colocou a corda no fundo do buraco como um forro, pegou o corpo do garoto com os dois braços e o deitou com cuidado dentro da cova. Depois recolheu os objetos espalhados pelo chão e colocou em volta dele, a mochila embaixo dos pés, o relógio ao lado, o RG em cima do peito e começou a mexer nos bolsos procurando o dinheiro.

– Olha vou te devolver vinte reais para que você possa pagar o barqueiro. — Colocou uma das notas de vinte dentro do buraco, mas colocou a outra nota de vinte e a de cinco de volta no bolso. — Mas cobro vinte e cinco pelo enterro combinado?

Sorriu e já ia se abaixando para devolver o canivete para o garoto quando teve duas ideias. Foi primeiro em direção ao carro, pegou as sacolas, tirou uma bandeja com comida pronta e uma lata de coca que tinha trazido para ser o ultimo jantar, deixou só as caixas de remédio dentro da sacola e voltou em direção ao garoto segurando as sacolas.

Virou todas as sacolas com as caixas de remédio dentro da pequena cova ao lado do garoto e com o canivete caminhou em direção à árvore e escreveu “RIP“ na madeira logo abaixo do coração com o nome dele e de Monica. Depois voltou em direção garoto e colocou o canivete fechado entre as mãos dele.

Então começou a fechar o buraco, o que foi muito mais rápido e fácil do que abri-lo, quando acabou ficou um tempo parado de cabeça baixa observando o lugar onde Mauro agora finalmente descansava.

– Também vou ficar com os cigarros e os fósforos se não se importar — Mexeu nos bolsos por um tempo até achar um dos cigarros e a caixa de fósforos destruída, colocou um na boca e depois de um tempo conseguiu acender o cigarro. — Voltando ao que falava na hora que quase morri ali, a segunda coisa que ia falar é bem simples.

“Posso sim ter perdido tudo, perdido colegas, meus amigos, meus parentes próximos, meus filhos podem ter ido viver a vida deles, ter perdido a mulher com que dividi minha vida e amei a vida toda. Mas pelo menos tive a sorte de ter tido tudo isso na vida e sinto muito que você não tenha tido a sorte de ter tido isso tudo garoto, eu realmente queria poder ter te ajudado da maneira como você me ajudou aqui hoje.”

Ele voltou a ficar em silêncio enquanto fumava o cigarro, o gosto de menta não o incomodava mais, pelo contrário até apreciava o sabor, quando o cigarro acabou ele jogou-o no chão e pisou levemente. Colocou a pá nos ombros, juntou todas as sacolas na mão e virou as costas em direção ao armazém, mas antes virou as costas e deu uma ultima olhada para a árvore.

– Quase ia me esquecendo. — Abriu um largo sorriso — Descanse em paz.

Abriu a porta do armazém, guardou a pá, jogou as sacolas lá de qualquer jeito e fechou a porta, deixaria para trancar no dia seguinte. Foi em direção ao seu carro tendo a certeza que naquela noite iria ter pesadelo com aquele garoto morto, abriu a porta, pegou a comida que havia deixado em cima do banco, trancou o carro e entrou na casa.

Preparou o jantar num forno de micro-ondas antigo que havia na casa. Enquanto esperava a comida esquentar ficou encostado na pia olhando para o chão sentindo as dores pelo corpo começando a se manifestar, quando finalmente o micro-ondas apitou sentou-se a mesa e começou a comer enquanto tomava uma lata de coca-cola morna. A comida tinha um gosto horrível de borracha, teria sido a pior ultima refeição da história, mas estava com tanta fome que acabou comendo tudo, não se sentia faminto assim por um bom tempo, quando acabou apenas empurrou tudo para longe e acendeu o ultimo cigarro que restara no bolso.

Ficou ali em silêncio fumando o cigarro, decidira que iria voltar a fumar, até porque não fazia diferença se preocupar tanto com a saúde naquela altura do campeonato e também decidiu que dali pra frente só fumaria aquele tipo de cigarro em homenagem a Mauro. Levantou-se e apagou o cigarro na pia, voltou a se sentar a mesa e ficou um tempo em silêncio olhando para cima encarando o teto até que subitamente começou a chorar.

Chorava de soluçar, chorava tudo o que não havia chorado a vida toda, chorou tanto e por tanto tempo que a cabeça começou a pesar, deitou a cabeça na mesa e por isso nem notou quando caiu num sono profundo. Dormir sentado daquele jeito, somado ao trabalho que tivera naquele dia o faria acordar no meio da madrugada com uma dor nas costas absurda, mas o mais importante é que naquele momento não sonhara com o rapaz enforcado na árvore como temia, mas sim sonhou enfim com sua falecida esposa.

Obrigado por ler e se desejar deixe seu comentário abaixo 

Gustavo C Franqueira

19/01/2015

16/02/2015

Anúncios

Um comentário sobre “Em Memória De – Final

  1. Pingback: Em Memória De – Parte 2 | Missão Ficção

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s