Em Memória De – Parte 2

Esse é um conto dividido em três partes, a primeira parte se encontra aqui.

“Não falei nada, não tentei me explicar ou me defender, eu tive minha chance de tentar me explicar ou me defender, mas não tive a coragem então ela tinha razão sabe? Então só me levantei e fiz o que ela pediu, fiquei sentando na calçada na frente da casa dela e chorei, chorei até a hora que meu pai veio visitar algum pouco tempo depois, ela provavelmente ligou para meu pai e contou tudo, pois durante todo o trajeto de volta ele me tratou de maneira fria. Quando estávamos perto de chegar em casa ele parou o carro numa rua deserta e apenas falou que tanto ele quanto minha mãe estavam absolutamente envergonhados com minha atitude, falou que Monica havia ligado chorando em casa e minha mãe ficou persuadindo ela a conta o que havia acontecido.”

“Ele também falou que não tinha mais como nem olhar para a cara dos pais deles, essa não era a educação e a criação que eles tinham me dado e eu teria que ralar muito para recuperar minha honra não só perante eles. Também não tentei me explicar apenas ouvi tudo em silêncio enquanto observava minhas mãos sobre o colo, em casa fui direto para meu quarto e chorei o resto daquele dia. Mamãe não falou nada comigo, foi minha irmã que, veio ao meu quarto e me abraçou, ela deixou bem claro o quanto estava magoada comigo, mas falou que eu já estava apanhando o suficiente da vida e sentia o meu arrependido como verdadeiro, mesmo que estar arrependido não mudasse muita coisa.”

“As semanas que se seguiram foram horríveis, ninguém na minha casa tirando minha irmã conversava comigo. Minha mãe e meu pai ficaram extremamente magoados comigo e deixavam isso bem claro, no final de semana seguinte minha prima veio me visitar para deixar uma caixa com coisas minhas que tinha deixado na casa de Monica, entregou jogando a caixa no chão e sem olhar na minha cara, como se fosse um bicho repugnante. Sendo bem sincero contigo, dada as circunstancias, eu era.”

“Na outra semana nós havíamos combinado de irmos ao cinema, eu nutri alguma esperança de ela aparecer, poderíamos quem sabe conversar e resolver tudo aquilo. Não queria aceitar que a havia perdido de maneira nenhuma, então naquele sábado fiquei sentado na calçada esperando o carro do pai dela aparecer, obviamente que isso não aconteceu.”

“Fiquei ali sentado do tempo do sol nascer e um bom tempo depois dele se por. Não me levantei por motivo nenhum, seja para comer ou ir ao banheiro, o máximo que fazia era me levantar de vez enquanto para esticar as pernas que formigavam e ficava andando de um lado para o outro da calçada e acabava sentando de novo. Minha mãe aparecia na janela me observando e me chamou para almoçar e jantar apenas uma vez, era a única hora do dia que ela trocava alguma palavra comigo naquela semana, ela sempre foi muito ligada a Monica, era quase uma filha para ela e toda aquela história a entristeceu muito.”

“Minha irmã naquele dia tinha saído por volta das dez quando eu já estava sentado na varanda, iria passar o dia na casa do namorado, quando voltou à noite e viu que ainda estava lá, ela primeiro sentou ao meu lado, depois me convenceu a entrar e tomar um banho. Quando sai do banho ela sentou e ficou conversando comigo me fazendo companhia até a hora que o sono chegou e formos dormir. Ela era uma pessoa incrível.”

“As semanas se tornaram meses e assim o mundo seguiu em frente como a de ser. Meu pai e minha mãe com o passar do tempo voltaram a falar comigo normal, menos minha prima que não me perdoou, ela continuou não falando comigo, não olhando na minha cara e às vezes até parecia brava com meus pais e com minha irmã por estar falando comigo normal. Eu não a culpo de jeito nenhum, Monica era sua melhor amiga e é normal que você tome as dores de alguém que você goste.”

“Falando nela, nesse tempo só a vi uma vez. Foi apenas dois meses depois de tudo acontecer, quase todo mês minha mãe e minha tia marcavam de fazer um jantar reunindo as duas famílias, pra não perder contato sabe? Naquele mês na casa de minha tia e fomos todos para lá naquele final de semana, na vez anterior em casa foi bem estranho principalmente pelo fato da minha prima ter se negado a ir.”

“Acabei indo, não aparecer provavelmente teria sido pior, enquanto os mais velhos conversavam na sala e bebiam, eu fiquei sentado na varanda tomando um pouco de sol naquele começo de dia. Quando vi minha prima surgindo no fim da rua com Monica ao seu lado conversando tranquilamente.”

“Não vou mentir e falar que não esperava ou que a esperança de vê-la não foi uma dos motivos pelo qual eu fui para lá, pois obviamente que foi. Claro que não teria a coragem e muito menos seria filha da puta a ponto de ir bater na casa depois do que ela disse. Mas esperava pelo menos ter a sorte de encontrar com ela na rua, tentar ver se estava bem e talvez por um milagre tentar conversar.”

“É claro que o que aconteceu foi o total oposto. As duas continuaram conversando até o quarteirão da casa da minha tia, quando Monica olhou na direção da casa e me viu sentado na varada, nos encaramos por algum momento e isso fez meu coração afundar. Seus lindos olhos estavam um pouco inchados e marcados por olheiras, o rosto dela estava mais magro, quando me viu ela subitamente virou de costas, falou algo com minha prima e foi embora sem falar nada com passos largo. Minha prima entrou na casa sem falar uma palavra comigo ou olhar em minha direção, acabei de novo sentado sozinho me sentindo um merda”

“Então o tempo continuou passando, quando menos vi já haviam se passado dois anos. Estava estudando para fazer direito em São Paulo, assim dar algum orgulho aos meus pais e principalmente a minha mãe que brigou muito para me dar estudar. Estudava o dia inteiro, era escola, casa e passar o dia estudando, até gostava disso por ser uma ótima maneira de ocupar a cabeça ainda mais numa época que internet e videogame não eram tão populares quanto são hoje.”

“Ainda pensava muito na Monica, mas já havia aceitado que era uma batalha perdida e tentava supera-la de alguma maneira. Nesse meio tempo acabei criando alguns amigos e por incrível que pareça até consegui me aproximar da Lurdes, pelas coincidências da vida ela era amiga de um desses meus novos amigos. Um dia nos encontramos e conversamos um pouco, com aquela vergonha de não saber lidar normal com alguém que você já beijou e mal se conhecem.”

“Ela era realmente muito bonita, não fora uma ilusão da bebida ou somente naquele dia e, além disso, era uma ótima pessoa, começamos a ficar mais próximos e a conversar. Uma coisa que eu não sabia é o fato dela saber de toda a confusão e por incrível que pareça se desculpou, se soubesse que eu namorava não teria me beijado naquela festa, logicamente falei que a culpa não tinha sido dela. Aquilo fora totalmente minha culpa.”

“Mas foi também nessa época que as pessoas começaram a ir embora, alguns amigos passaram em faculdades fora da cidade e foram embora, Lurdes passou em São Paulo e rapidamente foi embora. Pra falar a verdade isso até teve um lado bom porque havia começado um boato que estávamos namorando e se isso crescesse muito poderia ferrar mais ainda as coisas.”

“Minha irmã também foi embora e essa foi com certeza a despedida que mais me doeu, ela havia realizado um sonho de passar em medicina e iria para o Rio de Janeiro, ela chorou muito se despedindo de mim e dos meus pais na rodoviária e continuou chorando no ônibus. Quando voltamos pra casa, o quão vazio a casa estava era assustador, parecia que faltava algo e me senti sozinho pela primeira vez na vida.”

“Acho que essa foi à época que a depressão me atingiu pela primeira vez, falhei no vestibular daquele ano, do ano seguinte, do ano depois desse e só consegui entrar na faculdade pouco tempo depois de completar vinte e um anos quando ninguém mais acreditava em algum sucesso meu. Mas não pulando totalmente essa época, até porque realmente foram anos bem inúteis, vou falar apenas alguns fatos.”

“Primeiramente voltei para Rio do Norte, aquela cidadezinha que cresci da piada ruim do começo, para cuidar da fazenda da família, precisava ocupar a cabeça com o tempo que a escola deixara vago e também queria dar um descanso merecido ao meu pai que tanto havia trabalhado naqueles anos. Também um pouco para me redimir com meus pais da imensa decepção que havia lhes proporcionado anos antes.”

“Passava a manha e a tarde ajudando os funcionários. Ajudava na plantação, na colheita, no transporte, da mesma maneira como meu pai fazia e durante a noite estudava até a hora que o sono chegava. Essa foi praticamente minha rotina naqueles três anos que se passaram.”

Coçou o rosto e se deu conta que havia deixado a barba por fazer, não deixava a barba por fazer fazia uns longos anos, o quão desligado do mundo real ele estava naquela ultima semana? Não sabia responder

– Eu não vou mentir pra você, me sentia sozinho a maior parte do tempo. — Disse enquanto coçava o queixo devagar. — Nessa época até consegui aprender a gostar um pouco de minha própria companhia, mas de qualquer jeito a raiva de mim mesmo por estar naquela solidão era maior às vezes e acho que ali, mesmo sem ter ido nunca a um psicólogo, tive a minha primeira grande crise de depressão.

“Não chegava a chorar e me lamentar, não tinha muito tempo para isso, mas a cabeça vazia na maior parte do tempo enquanto trabalhava era literalmente uma oficina do diabo. Resumindo foi uma época muito difícil da minha vida, mas engraçado que pensando muito aqui não tenho muitas memórias dessa época é como um borrão, mas um borrão que eu sei que não tem muita coisa boa se tornar nítido.”

“Acabava indo uma vez por mês visitar meus pais para ver se estavam bem, era muito bom quando coincidia com as vezes que minha irmã ia e matava a saudade, eram os dias mais alegres daquela época, mas também os mais tristes quando nos despedíamos e voltávamos para nossas vidas. Foi numa dessa vez que aconteceu.”

“Tinha acabado de completar dezenove anos e também acabado de falhar pela segunda vez na tentativa de entrar na faculdade. Estava na cidade para visita-los e coincidiu de no terceiro dia minha prima vir a casa, havia vindo entregar algumas roupas que minha mãe tinha pedido para minha tia costurar e acabei as ouvindo conversando na cozinha.”

“Não que eu estivesse as espionando ou querendo ouvir a conversa delas, estava sentado na mesa de jantar escolhendo feijão para o jantar quando ouvi minha prima comentando com minha mãe, com a voz alta o suficiente para que tivesse a certeza que eu estaria ouvindo, que Monica estava saindo com um rapaz qualquer da cidade dela e estava muito feliz com isso.”

“Aquilo me atingiu de uma maneira que você não imagina. Esperava sim que cedo ou tarde isso acontecesse, ela não ia se prender a um fantasma do passado por muito tempo, uma verdade é que coração quebrado pode levar o tempo que for, mas sempre se ajeita. Só que mesmo assim aquilo me desabou, você nunca vai estar preparado para ouvir que a pessoa que você ama está gostando de outra pessoa e naquela noite eu não consegui não chorar. Enfim a havia perdido de vez, tá eu já havia perdido dela quatro anos antes quando fiz aquela merda, mas aquilo era o derradeiro ponto final em qualquer vã esperança que eu tivesse, estava completamente enfim derrotado.”

“O mais cruel de tudo isso é que o tempo nunca parou para me recuperar, ele continuou me empurrando para frente como um dono chutando o traseiro de um cachorro que quer se deitar no meio de um passeio e eu sem muita escolha apenas fui seguindo em frente. Dois anos se passaram até eu conseguir passar na faculdade, foi uma festa que você não acreditaria, minha mãe chamou os parentes e fizemos uma pequena comemoração com um toque de finalmente, mas o que importava é que eu finalmente ia conseguir deixar tudo isso pra trás e seguir em frente. Pelo menos era o que eu achava.”

“Foi meio chocante o fato de um dia estar dormindo na minha casa tranquilamente e no outro estar em São Paulo. Com o dinheiro que havia juntado nesse tempo consegui alugar sozinho um pequeno apartamento, era mais do que eu precisava, mas é bom ter um espaço extra, menos quando o espaço extra é tão grande que te faz se sentir solitário é claro. As primeiras noites foram um inferno, era uma barulheira infernal que não estava acostumado e acabava pegando no sono só por cansaço, mas com o tempo fui me acostumando e comecei a gostar mesmo da cidade quando descobri como se come bem lá, fome pelo menos não passei.”

“Ao contrário do que eu imaginava consegui acostumar bem com a faculdade de direito. Conversava com poucas pessoas da faculdade, pois algumas até achavam engraçado o meu sotaque leve e o jeito como falava, mas a maior ironia daquela época foi um dia quando andava na faculdade conversando com um amigo sobre futebol e encontrei com Lurdes.”

“Foi a primeira grande ironia do destino, ela na época que a conheci já era linda, mas o quão linda estava naquela época era um absurdo. A maquiagem leve que usava realçava cada traço do rosto dela, os olhos e os cabelos longos dela brilhavam de uma maneira assombrosa e a roupa que ela usava realçava todo o corpo dela. Não consegui não babar por aquela mulher, conversamos por um tempo sobre o passado e como estavam as pessoas da nossa antiga roda de amigos e combinamos de ir jantar naquele final de semana.”

“Sabe eu tinha acabado de deixar minha cidade para trás, queria deixar meu passado e tudo que passou para trás como Monica havia feito. Agora ela estava namorando, a minha memória na cabeça dela era apenas uma memória ruim do passado que ela devia comentar com esse cara e ele a abraçava falando que eu não a merecia, Monica nem devia mais perder tempo da vida dela pensando em mim. Então considerei chamar Lurdes para sair, tentar superar tudo o que passou, dar tudo como perdido, seguir em frente e naquela semana a observando de longe até comecei a achar que estava gostando dela.”

“Corta para o dia que saímos. Naquela noite ela estava mais bonita do que nunca, estava com um vestido preto e com o cabelo preso, parecia um anjo sabe? Puta merda era até um pouco assustador olhar para ela, parecia que não era real, que estava tendo alguma miragem, não era cabível algum ser humano ser tão bonita. Toda a beleza dela preenchia o lugar e me intimidava, precisava ter aquela mulher para mim, mesmo tendo conversado poucas vezes com ela eu sentia isso, precisava a ter de qualquer jeito.”

“Conversamos qualquer coisa durante o jantar, ela falou bastante sobre sua família, como seu pai era controlador e não queria deixar de jeito nenhum ela fazer faculdade fora, principalmente em São Paulo. Também falou do quanto ela gostava da faculdade e de São Paulo, eu apenas ficava afirmando com a cabeça e fazendo de tudo para a conversa não acabar enquanto no fundo ficava observando ela falar animadamente. O jeito como falava com o brilho no olhar, aquilo tudo me fascinava e dominava minha cabeça de uma maneira absurda, nunca na vida tinha ficado tão hipnotizado e sentia tanta atração por uma mulher.”

“Fiquei pensando de como era beija-la e do quanto eu queria aquela mulher, pensando no quão bonito o corpo dela devia ser por debaixo do vestido e essa linha de pensamento mesmo, não vou me estender muito porque deve estar foda de ouvir isso. Agora sim to parecendo um velho tarado babão, mas só estou tentando passar pra você como minha cabeça tava naquele momento, acho que devo me desculpar por isso, mas acho que isso é essencial para entender algumas coisas que acontecem daqui pra frente.”

“Então continuando. Já estávamos na sobremesa quando ela sorriu com o rosto apoiado na mão e perguntou se poderia me contar um segredo, meu coração na hora acelerou imaginando que ela falaria que sempre fora apaixonado por mim ou coisa parecida e afirmei que sim, então ela parou um pouco, suspirou e falou.”

“- Me pediram em namoro essa semana. — Ela começou um sorriso no rosto que desejei muito que tivesse minha culpa”

“Eu apenas fiquei parado sentindo aquela outra pedrada da vida na minha cara e acabei não prestando atenção no que ela começou a falar a seguir, só consegui pescar que era um cara do curso dela e que tinha uma queda por ele desde a primeira vez que tinha o visto e que com certeza ia dizer sim. Eu não tive muita reação, consegui forçar um sorriso no rosto e parabeniza-la, logo depois nos despedimos combinando de sairmos outro dia, coisa que só para citar nunca aconteceu, foi bem naquela de encontrar um amigo e falar para marcar de sair um dia. Fui para a casa, derrotado de novo praguejando deus e o mundo.”

“A depressão voltou com tudo, não era possível que fosse viver minha vida para perder tudo, eu então comecei a sair bastante para beber cada vez com uma frequência maior e a considerar cada vez mais suicídio. Comecei a também vigiar ela e o namorado de longe para descobrir o que ele tinha que eu não, esse foi outro motivo pelo qual eu comecei a beber nessa época, pois percebi que ele gostava de sair bastante para beber com ela, comecei também a fumar quando percebi que ele fumava e até cheguei a tirar carteira de moto quando o vi dirigindo uma. Mas obvio que isso não adiantou de nada, na minha cabeça imbecil e imatura daquela época fazer as coisas que ele fazia seria suficiente, apenas ser parecido já mudaria o jogo pro meu lado, mas ela possivelmente não gostava do personagem dele e sim da pessoa que ele era e emular uma pessoa é impossível, você pode até imitar o jeito dela, mas ser ela nunca.”

“O tempo foi passando e eu cada vez mais afundado naquilo. Aprendi a tocar violão com um amigo e levantava um dinheiro tocando num bar próximo de casa, era fácil já que minha presença era quase inexistente, só precisava tocar algumas musicas que dava vontade e quando às vezes notavam minha existência e faziam pedidos. Tinha o direito de tomar alguns drinks de graça e ainda ganhava dinheiro, lógico que o dinheiro não era o principal se eu precisasse poderia pedir ao meu pai, o principal motivo era ficar o mais longe possível de casa para não ficar sozinho com a cabeça cheia de ideias ruins.”

“Pulamos de novo no tempo e agora estava no quarto ano de faculdade. Já tinha um estágio num escritório, mas, mesmo assim, as vezes quando tinha os finais de semana livre ia tocar no bar pra ocupar a cabeça naqueles sábados a noite, minha cabeça continuava estando nada bem e ainda sofria por Lurdes, quando a própria, numa das noites que por coincidência eu estava lá, entra naquele bar.”

“Assustei primeiramente por nunca ter encontrado com ela por aquelas bandas, segundo por notar que ela estava sozinha, o que era bem raro já que estava sempre grudada com o namorado e terceiro por estar chorando de soluçar. Eu fiquei um tempo a observando de longe continuando tocando, mas quando notei que alguns engraçadinhos tentavam se aproximar dela isso subiu um pouco meu sangue e tomei coragem para falar com ela.”

“Quando me viu se assustou tanto quanto eu quando a vi entrando lá, tentou primeiro esconder o rosto com a mão, quando perguntei o que houve ela sem olhar diretamente e desviando o rosto para que eu não a visse começou a explicar. Tinha tido uma briga feia com o namorado, nada de agressão ou coisa parecida antes que pense nisso, que falaram umas coisas se pensar e acabaram dando um tempo. Na hora fiquei feliz, por mais cruel que fosse se sentir assim, com a possibilidade que eu tinha de poder assim me aproximar dela, então comecei a puxar assunto e dar algumas cantadas eventuais, tentando acalmá-la e dar uma animada nela sabe? Até quando ela olhou diretamente pra mim sorrindo.”

“Na hora que olhou para mim entendi o porquê dela não querer que eu a visse, ela não estava maquiada, seus olhos estavam fundos e cobertos de olheiras grandes parecidas com a do rosto da Monica naquele dia, as pintas e espinhas que a maquiagem escondia estavam espalhadas pelo rosto. Por algum motivo olhar aquilo me assustou profundamente e o amor que eu tinha por ela, ou somente o que achava que era amor, foi se esvaziando dentro de mim como se fosse uma bexiga cheia que você solta a ponta antes de amarrar.”

“Comecei a notar nas imperfeições do rosto dela, notei como era levemente vesga, como os dentes da frente eram um pouco separados e aquilo foi me dando um desespero, ela não era nada do que esperava como ela ousava me enganar assim? Então a maior epifania da minha vida aconteceu.”

“Percebi que não gostava dela, nem chegava perto disso, percebi que somente me apaixonei por uma imagem, nunca cheguei a me apaixonar pela pessoa, pra falar a verdade nem ligava para a pessoa que ela era, apenas a queria como um troféu bonito, para se colocar na parede e dar inveja aos amigos. Naquele momento sim me senti genuinamente triste e com nojo de mim mesmo, como eu poderia ter idealizado uma pessoa daquela maneira? Ter idealizado nela todo um amor e uma felicidade que não existia de verdade e era tudo superficial, em nenhum momento eu pensei no que era o melhor para ela e não é assim que amor funciona.”

“Continuamos conversando, mas minha cabeça distante demais presa nisso tudo. Percebi que desde que eu e ela havíamos nos conhecidos aquela fora a primeira conversa nossa que eu realmente me preocupei com o bem estar dela e não só comigo mesmo e isso fez a vergonha do meu egoísmo crescer mais ainda em meu peito. Acompanhei-a no taxi até a casa dela, já estava muito tarde e não teria coragem de deixa-la sozinha num taxi naquele estado e aproveitei o trajeto de volta para pensar em tudo o que sentia e talvez achar o meu verdadeiro eu que havia perdido no meio disso tudo.”

“Pensei no quão injusto eu estava sendo comigo mesmo e com a Lurdes. Estava tentando colocá-la como uma substituta para a Monica ao mesmo tempo em que a usava para preencher a minha carência, era obvio que não tinha conseguido o principal objetivo que tinha na cabeça quando me mudei era deixar tudo para trás e recomeçar minha vida.”

“Não tinha conseguido porque não havia resolvido tudo. Não poderia fugir sem pagar pelo meu crime, não, esse não é o temo certo. Não poderia fugir sem ter o perdão pelo meu crime, então naquele momento ali voltando pela rua vazia e no meio da noite eu decidi que quando voltasse para visitar meus pais naquelas férias iria ter, pelo menos, a hombridade de me desculpar com a Monica pelo que havia feito.”

“Talvez essa fosse a única coisa que faltava para conseguir enfim superar tudo aquilo e seguir em frente. Mesmo que não me desculpasse, mesmo que ela estivesse noiva de outra pessoa e mesmo que ela nem me ouvisse ou até batesse em mim sei lá, eu precisava exorcizar esse demônio dentro de mim para poder voltar a viver, para poder me perdoar.”

“Sim, estava dez anos atrasado, mas mesmo assim queria pelo menos tentar. Dez anos, quando tinha quinze anos, dez parecia uma eternidade, mas naquela hora dez anos pareciam ter passado voando, como se o tempo fosse areia escorrendo pelos meus dedos e não consegui não me assustar quando notei que estava com vinte e cinco anos nas costas e cheio de responsabilidade.”

“Nesse momento já passamos da metade do que quero te contar, fico feliz de já ter passado por essa parte e que agora as coisas voltam a melhorar um pouco, obrigado por ouvir garoto, mesmo que você não tenha muita escolha acho.”

Ele riu um pouco com essa ultima frase, pois sentiu que ela fora incrivelmente babaca, sentia seu coração leve como o de uma criança e uma energia e força de vontade que não sentia por anos. O que era maravilhoso, pois precisaria daquela energia para mais tarde, sentiu que se quisesse conseguiria fumar não só um ou dois cigarros, mas um maço inteiro, sem sua garganta reclamar, mas a vontade de fumar havia passado e queria acabar com a história logo já que se aproximava do final. Ele então apenas esticou as costas mais uma vez tendo de novo aquela sensação de cordas sendo esticadas no limite e continuou.

– Eu mantive a amizade com a Lurdes, mesmo depois de tudo o que aconteceu que vou contar a seguir. — Esticava as costas virando o tronco de um lado para o outro. — Fui convidado para o casamento dela e tudo, ela acabou casando com aquele namorado mesmo que era um cara incrivelmente gente boa. — Agora estralava o pescoço com cuidado para não trava-lo, havia feito isso uma vez e fora uma dor absurda que durou dias. — Obviamente fui e continuei ao seu lado até quando o câncer de fígado a levou com apenas cinquenta e três anos. Isso infelizmente encerra o arco dela na minha vida, mas esse é o fim de qualquer arco que envolva seres humanos, a morte.

“Nas duas semanas seguintes entre os intervalos de estudo, do tempo de trabalhar e entre as oito horas de sono diárias para não enlouquecer. Escrevi e reescrevi uma carta que entregaria para a Monica, foi um exercício muito bacana, colocar todo meu sentimento no papel e foi bem difícil conseguir chegar num ponto que olhasse e achasse aquilo o suficiente ou ao menos uma desculpa a nível que ela merecia.”

“Acho engraçado como em momento nenhum eu pensei na possibilidade dela e eu voltarmos, tinha a esperança lá no fundo do meu coração sendo sincero, mas eu tinha a certeza que ela já estava noiva ou casada com alguém. O que importava pra mim naquele momento era ter o perdão dela e isso ocupava totalmente minha cabeça, pelo menos voltar a conversar não só com ela, mas também com minha prima, sentia uma falta absurda delas na minha vida.”

“Mas ai o destino jogou os dados e aconteceu a coisa que eu menos esperava naquele momento e normalmente é assim mesmo que as coisas acontecem, até porque você nunca vai estar preparado para isso.”

“Estávamos entrando na ultima semana de aula após as provas, sendo exato era madrugada de sábado para domingo e estava voltando do bar. Dessa vez tinha ido com alguns amigos para comemorar o fim das provas, estávamos entrando no ultimo e tão aguardado ano de faculdade, menos Felipe que ficaria ainda uns bons anos por lá. Isso era o principal motivo de piada e gozação de todo mundo, menos Felipe que ficava sério e não achava graça nenhuma naquela brincadeira.”

“Ainda levemente alcoolizado eu caminhava tranquilamente pela rua, me sentia feliz e livre como não me sentia por um longo tempo. Sabe acho que a adolescência acaba quando você percebe que boa parte da sua tristeza é causada pela sua cabeça, quando percebe que quem mais impede você de ser feliz é você mesmo, pelo menos foi assim comigo, não conheço sua história e não queria te julgar ou diminuir sua tristeza, desculpa se soou assim.”

“Bom onde estávamos mesmo? Ah sim, naquele momento eu sentia uma felicidade genuína pela primeira vez em um bom tempo, não que tudo tivesse resolvido, mas sempre tinha a chance de começar de novo sabe? Sentia-me como se tivesse respirando de novo após passar um tempo me afogando. Foi quando o sol começou a nascer e observar aquele nascer o sol com toda aquela sensação de leveza no meu peito foi com certeza um dos momentos mais bonitos da minha vida, igual hoje.”

“Então cheguei ao pequeno prédio antigo que morava, entrei pelo hall e olhei pro senhor que cuidava da portaria, não me entenda mal eu sou velho, mas aquele cara parecia ter uns trezentos anos de serviço somente naquele prédio. Fiquei olhando de longe achando engraçado o jeito que ele me olhava até o momento que reparei que fazia um gesto me chamando.”

“- To recebendo reclamação a noite toda que o telefone no seu apartamento não para de tocar. — Foi o que ele disse rispidamente por entre a dentadura, me lembro com precisão dessas palavras. — Dá próxima vez tira o fone do gancho quando for sair para não atrapalhar os outros moradores, por favor, se não eles ficam falando na porra do meu ouvido a noite toda.”

“Eu estranhei aquilo, mas mesmo assim me desculpei e subi pro meu quarto, cheguei lá e o telefone estava quieto, continuei achando estranho o fato de ele ter tocando a noite toda. Será que havia acontecido algo com meus pais?Claro que não para de ser idiota, pensei, deve ser alguns adolescentes idiotas tentando passar trote só isso. Confiei na minha consciência e fui à cozinha pegar um copo d’água e comer alguma coisa.”

“Quinze minutos depois, mais ou menos, estava trocando de roupa para dormir quando o telefone tocou e fui correndo atender. Já estava me preparando para xingar os adolescentes quando atendi e ouvi a voz um pouco chorosa e cansada de minha mãe e o que ela falou no momento que eu atendi me fez agradecer a deus por pelo menos estar de short, pois depois minha pressão desabou e eu desmaiei enquanto ouvia a voz de longe da minha mãe me chamando.”

“Quando ouvi a voz dela, mesmo com toda aquela dor na voz, me acalmei um pouco pelo fato de não ter acontecido nada a ela, perder minha mãe naquela altura do campeonato seria destruir tudo o que havia construído naquelas semanas. Mas a calma durou pouco, muito pouco, quando a voz dela conseguiu unir uma frase compreensível, eu só senti o mundo ao meu redor ficar cada vez mais nítido e ao mesmo tempo turvo, então senti minhas pernas desistindo de segurar meu peso e como já falei anteriormente, desmaiei.”

“Monica e minha prima estavam voltando de carro de uma viagem na tarde daquele dia, outro motorista provavelmente bêbado e em alta velocidade foi tentar uma ultrapassagem, não viu o carro delas, minha prima tentando desviar para não colidir de frente e jogou o carro pra fora da estrada. As pessoas que viam atrás e presenciaram o acidente me contaram depois que o carro capotou sete vezes e por muito pouco não explodiu. Minha prima morreu na hora, anunciou a voz da minha mãe do outro lado da linha, Monica sobreviveu, mas estava internada em estado critico.”

Clique aqui para ler como acaba.

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2 comentários sobre “Em Memória De – Parte 2

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