Em Memória De – Parte 1

                                               “Um homem enforcado na minha árvore”.

Por incrível que pareça, o primeiro sentimento que veio somado à surpresa não fora o choque ou tristeza, fora a raiva. Ele correu lentamente em direção à árvore, com a maior velocidade que os seus joelhos gastos nos últimos setenta anos deixavam-no correr. Parou na frente da árvore com os punhos fechados e o coração batendo como se fosse explodir. “Tenha calma, Lu, você vai acabar tendo um infarto”, disse a voz da esposa em sua cabeça. Havia desenvolvido nessa semana após o falecimento dela a assustadora mania de conversar com ela em raciocínio.

Uma das que subiu e tomou sua cabeça foi como esse garoto teve a coragem de desonrar assim a árvore dele. A mesma árvore que dava para ver daquela distancia que tinha o nome dele e o da esposa cravado na madeira cercado por um coração torto, havia feito isso quando tinha apenas quatorze anos como presente de aniversário de namoro e lembrava-se do sorriso no rosto dela. Na época, aquele sítio ainda era de seu tio, que também era seu padrinho.

Sim aquilo era totalmente filme de sessão da tarde e ele sabia bem disso, pra falar a verdade tivera a ideia de fazer isso depois de assistir um filme de romance com ela numa dessas sessões duplas de cinema que iam quase sempre quando se viam. Ao notar o quanto ela se emocionava vendo o filme e decidiu que faria algo parecido para demonstrar o quanto a amava.

O aperto no peito que vinha sentido desde que o médico veio falar com ele que não havia mais nada a ser feito para salvar a vida de sua esposa voltou com tudo. Aquela sensação de vazio e solidão absoluta que por algum motivo sempre trazia a lembrança de quando era criança e se perdeu da mãe na feira, aquela vontade de gritar pela ajuda de alguém somada à sensação de desespero de não saber para onde correr.

Balançou a cabeça rispidamente para afastar aqueles pensamentos e voltou a olhar para o garoto. A corda ele tinha a certeza que o garoto pegou no pequeno armazém do sítio, tivera essa certeza ao notar a porta encostada, pois sempre se lembrava de fecha-la bem. O garoto deveria ter pouco mais de dezoito anos pela pequena barba rala que se formava em seu rosto, o cabelo era negro e bem curto, usava uma blusa toda branca, uma calça jeans um pouco rasgada na barra e um tênis verde todo sujo de terra. Sua pele já estava pálida, os olhos castanhos estavam vidrados e injetados de sangue e os braços colados ao corpo com os punhos fechados.

Uma visão de fazer qualquer criancinha ter pesadelo com absoluta certeza, havia chegado à idade em que ver uma pessoa morta já não o chocava tanto, nunca tinha encontrado alguém morto enforcado antes, mas mesmo assim não ficou tão assustado ou enojado quanto deveria ficar, estava meio anestesiado com esse negocio de morrer. A morte não era mais uma conhecida distante que raramente vem fazer uma visita breve, já era quase uma amiga, uma visitante cada vez mais frequente na vida dele.

Permaneceu em silêncio um tempo apenas observando o rapaz pendurado com a corda no pescoço, aquela, com certeza, não era a visão que esperava ter ao chegar lá. Havia saído de casa pelas três da manha, após outra noite dormindo mal, decidira ir para lá no meio da noite e sem alarmar ninguém, pra falar a verdade, nem faria muita diferença já que em nenhum dos dias anteriores algum dos três filhos ligou para perguntar se estava bem. Quando era novo fazia aquela viagem em menos de três horas com as crianças reclamando no carro, mas não confiava mais tanto assim nos próprios reflexos, ainda mais de madrugada, então dirigiu da forma mais tranquila que conseguiu.

Pegou-se pensando porque o garoto havia andado tanto, a cidade mais próxima ficava à uma hora e devia ter somente duas propriedades na região além da dele, uma mais para o sul e outra mais afastada ainda. Tinha uma parada de caminhoneiro poucos quilômetros dali, talvez o garoto tenha vindo de carona num caminhão e o caminhoneiro possa ter parado ali para passar a noite. O garoto não deve ter se sentindo seguro o suficiente para dormir lá e foi andando até ver a entrada pra estradinha de terra e seguiu por ela.

Mas não sabia, provavelmente nunca ia saber, o porquê ele decidiu seguir por aquela estradinha e principalmente o porquê dele ter vindo tão longe para se matar. Algo que podia muito bem ser feito no conforto do lar e pouparia todo aquele esforço físico, sendo sincero ele tinha uma suposição, mas permaneceu em silêncio quanto a isso no momento. Decidiu que investigaria os bolsos do falecido para ver se encontrava algum bilhete ou a carteira para descobrir pelo menos o nome do garoto.

Deu alguns passos para frente tomando cuidado para não pisar em um dos formigueiros que lembrava que tinha ali, uma vez quando tinha uns sete ou oito anos acabou pisando em um sem querer, tanto que nem notou na hora, só foi notar quando as formigas começaram a picar sua perna. Foi assustador e as marcas das mordidas demoraram um bom tempo para cicatrizar, desde então desenvolvera esse cuidado extra de não pisar em formigueiro nenhum, mesmo que no momento ele estivesse de bota de couro e calça jeans. Quando estava à alguns passos do corpo do garoto o reflexo de luz de alguma coisa no chão o acertou nos olhos o deixando cego por alguns poucos segundos, colocou a mão a frente do rosto e notou a silhueta de alguns objetos aos pés do garoto, estivera tão preocupado com o corpo que nem notou isso, mas também sabia que os olhos já não eram mais a mesma coisa do passado.

Deu mais alguns passos para frente com os olhos cerrados tentando enxergar melhor, se odiou muito por ter deixado os óculos no carro. Quando chegou a poucos passos do corpo o cheiro dele começou a invadir suas narinas. “Bom, pelo menos não começou a cheirar muito mal”, pensou, quando olhou para o chão procurando o objeto que havia refletido a luz do sol em seus olhos quando notou que logo abaixo do garoto havia uma mochila escolar verde camuflada entre o mato raso.

Quando olhou para os lados notou a silueta de alguns objetos alinhados numa linha horizontal abaixo com a mochila no centro. “Eu to realmente ficando cego”, foi o que pensou com um sorriso no rosto enquanto se agachava para ver melhor os objetos, os joelhos rangeram como dobradiças enferrujadas quando fez isso. Alguns centímetros da mochila tinha uma lata de guaraná vazia e um pequeno maço preto de cigarros que nunca viu na vida, pegou ele e leu Marlboro Blue Ice escrito em letras grandes na caixa, ele que passou a vida toda fumado Hollywood vermelho, antes de ter parado de fumar subitamente dez anos atrás, nunca tinha nem ouvido falar naquele tipo de Marlboro.

Abriu o maço e viu que tinha sobrado apenas três cigarros lá dentro, fechou o maço e guardou no bolso esquerdo da calça. Então voltou a sua atenção para o outro lado da mochila no final da linha tinha um pacote de Doritos vazio, mais próximo a mochila havia um relógio de pulso normal, era dali que o reflexo de luz havia vindo e ao lado da mochila tinha carteira de couro que pegou e abriu.

A primeira coisa que viu e pegou foi o RG. Tentou dar uma lida afastando o documento o máximo que podia do rosto para enxergar melhor, então voltou à atenção para a carteira enquanto colocava o RG também no bolso, viu que havia duas notas de vinte e uma de cinco e rapidamente as colocou no bolso. “Acho que você não vai mais precisar disso né”, colocou a carteira da mesma maneira que a encontrou e voltou atenção ao corpo do garoto, deu um passo para o lado quando sentiu algo arrebentando em baixo do seu pé. Acabou dando um leve pulo para trás pelo susto e se abaixou para ver o que tinha sido torcendo para que não fosse uma barata ou coisa parecida, mas só encontrou uma caixa de fósforos esmagadas, pegou os cinco fósforos que conseguiu encontrar no chão e botou no bolso junto com a caixa quebrada. “Só o que faltava, depois de velho ficar cleptomaníaco” e riu de si mesmo.

Com cuidado e até com um pouco nojo, checou os bolsos do rapaz e encontrou nada, então passou a olhar o chão com calma para ver se não tinha deixado passar nenhuma carta de despedida, mas não encontrou nada de diferente. Então pegou a mochila e começou a mexer dentro dela, estava completamente vazia também. Deu de ombros e andou na direção contrária ao garoto e se sentou num toco de uma árvore que uma tempestade tempos atrás tinha derrubado, sentou e esticou as costas lentamente sentindo as costas rangerem como cordas velhas esticadas no limite.

Ficou sentado ali algum tempo apenas olhando o rapaz, enfiou a mão no bolso tirando o maço preto do bolso e colocou o cigarro na boca, mas sem acendê-lo ainda e ficou ali em silêncio com o cigarro pendurado nos lábios. Respirava devagar enchendo os pulmões de ar para se acalmar enquanto pensava se realmente valia a pena acender aquele cigarro, então depois de um tempo enfiou a mão no bolso e ao invés dos fósforos pegou o RG do rapaz e voltou a tentar ler.

– Mauro — Disse enquanto afastava o RG do rosto e cerrava os olhos para tentar ler. — ou Mario não sei, mas tenho quase certeza que é Mauro. — Então sorriu e colocou o RG de volta no bolso. — Então, primeiro de tudo tenho algumas coisas para te contar porque eu preciso muito confessar com alguém e a minha única companhia nessas ultimas tem sido a voz da minha falecida esposa na minha cabeça. — Tirou o cigarro do lábio e ficou brincando de passa-lo pelos dedos e riu um pouco com um pensamento que veio a cabeça. — Se alguém visse essa cena com certeza chamaria a policia e teria certeza que enlouqueci de vez e sabe? Não tiraria a razão dela, não é uma cena que se vê todo dia, um velho conversando com um adolescente morto enforcado numa árvore.

“Me pergunto se a inscrição na árvore foi decisivo para você a escolher para isso, nunca vou descobrir isso com certeza, mas prefiro acreditar que sim. Olhando aqui seu RG, se eu enxerguei certo porque você sabe que meus olhos não são a mesma coisa de antes, você tem dezenove anos, somente cinco a mais da idade que eu tinha quando as fiz nessa árvore como um presente pra minha esposa.”

Enfiou as mãos no bolso e passou um tempo tentando pegar um fósforo e a caixa, perdeu alguns segundos tentando acender o fósforo e quando conseguiu acendeu o cigarro. Achou o gosto diferente do cigarro que fumava antigamente, ficou em silêncio fumando devagar pensando no que falaria a seguir quando acabou lendo “Ice Ball” no filtro e a curiosidade foi tamanha que não resistiu a tentação e apertou a região com os dedos. Foi quando de surpresa o aroma de menta invadiu sua garganta e começou a tossir sem parar deixando o cigarro cair no chão.

– Merda, me sinto um adolescente fumando pela primeira vez de novo. — Foi o que disse quando conseguiu falar entre as tossidas. — Você e esse seu cigarro de menta.

Eu realmente to conversando com um morto como se ele estivesse vivo, com certeza iriam me internar depois dessa”, por algum motivo achou graça desse pensamento e deu uma leve gargalhada que piorou a situação aumentando as tosses de novo.

– Faz um bom tempo que não fumo um cigarro e o motivo principal para eu ter parado de fumar contarei mais adiante, até porque para isso pularia para o final da minha história e ninguém começa uma história pelo fim. — Deu um último cuspe no chão pra tirar o gosto da garganta. — Então, como disse eu preciso muito conversar com alguém e espero que você não se importe de ouvir tudo isso. Não tem nada demais na minha história, nada de muito diferente, mas de qualquer jeito é a única coisa que eu tenho no momento.

Notou que o cigarro ainda estava acesso no chão e antes que causasse um incêndio pisou nele o apagando, não teria coragem de pegar um cigarro que tinha caído no chão.

– Bom eu só conheço o meu lado, o resto posso apenas supor e posso até acabar omitindo algumas coisas, nem sempre por querer é só que minha cabeça já não é a mesma coisa antes. Mas ok, lembrando que essa é a apenas minha interpretação da situação, de qualquer jeito começa mais ou menos assim.

“Prazer Mauro, meu nome é Luis Antonio, eu nasci e cresci numa cidadezinha pequena bem longe daqui chamada Rio do Norte em Minas, que na verdade fica ao sul daqui. Ok eu sei que essa piadinha é uma merda, mas juro que algum tempo atrás tinha graça ou a Monica, minha falecida esposa que já comentei contigo, ria apenas por educação. Acredito mais na segunda opção, ela sempre fora uma mulher maravilhosa e educada, uma pena que você não tenha tido a sorte de conhecê-la, ela provavelmente iria gostar de você e o convidaria para jantar conosco, a carne com batata dela era uma coisa de louco, você iria adorar.”

“Como ia dizendo, minha família tinha alguma grana, não era nenhuma família de barão ou coisa parecida, mas vivíamos bem naquela época, era uma das milhares de famílias que viviam da plantação de batata naquela região. Lembro de crescer brincando pela plantação sempre tentando ajudar, mas mais atrapalhando que ajudando, meu pai que trabalhava dia e noite para conseguir o dinheiro necessário para sustentar uma família de quatro pessoas, era apenas eu, minha mãe, meu pai e minha irmã mais velha.”

“Era uma família muito pequena para a sociedade da época que o normal era ter cinco, seis, sete filhos. Mas meus pais tinham na cabeça que só teriam o número de filhos que pudessem criar bem o que era um pensamento ótimo, enquanto meu pai cuidava da fazenda minha mãe tentava nos ensinar a ler e outras coisas mais básicas, minha irmã se esforçava mais para tentar agrada-la, ela sempre fora muito mais ligada a mamãe enquanto eu no meu pai. Acho que isso é uma coisa natural.”

“Quando tinha oito anos mais ou menos, mamãe decidiu que estudar em casa não era a melhor opção de educação para mim e para minha irmã. Ela sempre acreditou e falava que a educação era a coisa mais importante na vida da pessoa e crucial para sermos alguém no mundo, então começou a conversar com meu pai, que no começo foi contra por não querer morar longe da fazenda, pois poderia trazer leves prejuízos. Mas com o tempo foi aceitando melhor a ideia, primeiro porque amava muito minha mãe e segundo porque ele concordava que aquilo era crucial para nosso futuro.”

“Acabamos nos mudando para uma cidade pequena aqui perto, um dos motivos para terem a escolhido é pela escola pública muito boa que tinha e também por conta desse sítio. Ele pertencia ao meu tio, que também era meu padrinho e morar perto de um parente que já conhecia a região era sempre bom. Não lembro muito dessa época sendo sincero, só me lembro de pequenos detalhes como quando pedi pro meu tio deixar esse sítio de herança para mim quando ele morresse, sempre gostei muito desse lugar e ele atendeu esse pedido meu me deixando muito surpreso quando vi o testamento dele.”

“Outra lembrança que eu tenho dessa época é o quão difícil foi me adaptar a cidade grande. Me lembro de chorar muito quando meu pai viajava e passava dias fora, lembro também que chorava muito com a pressão que minha mãe e meus professores faziam para me ensinar matemática, nunca fui muito bom com números. Sim eu era muito bebê chorão nessa época, minha irmã adorava tirar sarro comigo por conta disso, só fui melhorar mesmo quando precisei ser forte para ajudar a Monica.”

“Mas já estou me avançando na história de novo, uma mania horrível que tenho me perdoe por isso. Foi nessa época que a conheci, já estava com onze anos, ela era a melhor amiga de minha prima, não ela não era filha do meu tio e padrinho, mas sim da irmã da minha mãe que se mudou para a cidade vizinha depois que meu tio fora transferido da empresa. Então, era a melhor amiga da minha prima e por algum motivo que não sei responder, pensando bem morei junto a ela a vida quase toda e nunca passou pela minha cabeça perguntar isso, mas ela decidiu vir junto numa das vezes que a minha tia e prima vinha nos visitar.”

“Adoraria falar que foi amor à primeira vista, mas não foi o que aconteceu, brincamos o dia todo, jogamos conversa fora e assistimos televisão, mas nada do tipo meu coração se acelerava quando ela se aproximava de mim ou coisa parecida. Éramos apenas crianças entende? Mesmo que eu achasse ela linda, sempre fora absurdamente linda e continuava radiante até mesmo quando a idade chegou e começou a deixar suas marcas na pele. Ela tinha o par de olhos mais bonitos que eu vi na vida, não somente pela cor dos olhos, mas pelo formato, o jeito de olhar era encantador, ela era nada mais nada menos do que perfeita.”

“Antes de qualquer coisa nasceu à amizade, acredito que isso é essencial para um casal dar certo, você primeiro gostar do companheirismo da pessoa para depois aprender a gostar dela e principalmente dos defeitos dela. Revezamos um final de semana aqui e outro final de semana na casa da minha tia, mas como meu pai trabalhava e não gostava muito de me ver lá as vezes acabávamos fazendo três ou quatro semanas seguidas na minha casa. Até porque era mais fácil para elas virem já que os pais de Monica tinham mais dinheiro que os meus, os pais dela eram donos de uma plantação de café ali próximo, então tinham o grande luxo de ter dois carros na garagem e quando um não podia levar o outro sempre levava.”

“Minha relação com os pais dela foi sempre tranquila, a mãe dela gostava de mim e o pai sempre me tratou com educação, mesmo depois de tudo o que eu fiz eles não me destratavam quando nos encontrávamos e me perdoaram quando pedi desculpas. Mas voltando eu devia estar com uns treze anos quando o amor começou a surgir e inflar no meu peito lentamente como um balão.”

“Só percebi o quanto gostava dela quando o ciúme e o medo de perder a atenção dela para outra pessoa bateu pela primeira vez. Foi naquelas férias de julho e estava eu, Monica, minha irmã e minha prima sentados na varanda de casa descascando cenoura e batatas pro jantar daquela noite quando a minha prima comentou de um colega de classe que havia chamado
Monica para sair. Foi engraçado que quanto mais o rosto dela corava, mais o meu coração afundava dentro do meu peito e só piorou o cenário quando minha irmã começou a zombar dela falando que estava namorando. Mas consegui pelo menos recuperar um pouco do fôlego quando ela falou que não estava e que tinha recusado o convite.”

“Foi uma noite muito longa aquela, mal consegui dormir direito, minha cabeça ficava me empurrando cada vez mais para a ideia de chama-la para sair porque ela já começou a chamar a atenção de outras pessoas e se eu demorasse demais ela poderia acabar namorando outra pessoa. Esse pensamento fazia o meu coração gelar de uma maneira assustadora, então ali no escuro enquanto encarava o teto eu comecei a tomar a coragem e planejar como eu iria chama-la para sair. Minha vontade era de levantar e ir ao quarto de hospedes onde ela dormia e acordar ela e depois chama-la para sair, mas eu sabia que aquilo poderia a assustar um pouco, então só esperei o dia clarear enquanto tirava cochilos eventuais.”

“Foi engraçado pra falar a verdade, porque eu não tinha notado o quanto a minha família e a dela já esperavam por isso, ele fazia comentários de brincadeira sobre ela ser minha namorada e vice-versa, mas sempre vi isso como meus pais brincando com a gente sabe? Mas principalmente quem mais esperava era minha prima que diz a minha irmã que um dia confessou para ela que fez aquele comentário para ver se eu acordava pra vida e enfim chamava Monica para sair. Bom sendo ou não premeditado o que importa é que funcionou.”

“Aquela manha foi engraçada, Monica ficou grudada com minha prima a manha inteira e eu fiquei tentando buscar uma brecha para falar com ela a sós, mas não consegui o que me frustrou bastante e acabei no final da manha ficado no meu quarto irritado enquanto lia um livro. Na parte da tarde minha prima e minha irmã foram no mercado a mando de minha mãe e Monica que não estava se sentindo muito bem preferiu ficar em casa, ali vi a oportunidade.”

“Estava voltando para o meu quarto depois de ter conversado com minha mãe quando passei pela porta do quarto dela e a vi sentada na cama olhando para o teto. Pensei é agora ou nunca, respirei fundo juntando o máximo de coragem que consegui.”

“- Oi? — Foi o que eu consegui falar enquanto entrava no quarto.”

“Ela se sentou na cama com um sorriso no rosto e me olhando curiosa até porque eu nunca começava uma conversa com ela assim. Naquele começo de tarde ela estava toda simples, usava uma camisa branca de abotoar que minha mãe havia lhe dado de presente, uma saia velha de escola e o cabelo estavam preso num rabo de cavalo. Mas mesmo sem estar toda arrumada ela estava linda demais, era uma beleza até intimidadora, como eu me atreveria a chamar uma menina tão bonita para sair?”

“- Oi Lu”

“Ela era a única que me chamava de Lu e foi assim por minha vida toda, meus pais sempre preferiram me chamar de Antônio e minha irmã me chamava de Luiz a maior parte do tempo. Sempre achei extremamente adorável ela me chamando de Lu.”

“- Você tá bem? Mamãe disse que você ficou em casa por estar passando mal — Foi o que consegui dizer enquanto sentava ao lado dela na cama.”

“- Sim sim — disse sorrindo enquanto corava levemente — só com um pouco de cólica.”

“- Ah sim.”

“Ficamos em silêncio por alguns segundos, fiquei observando o chão e ela ficou me olhando levemente, não encarando brava, mas apenas como se me observasse lentamente. Então respirei fundo e olhei para ela.”

“- V-você aceitaria sair comigo? — Foi horrível, gaguejei igual um garoto da minha sala e se a minha professora me visse gaguejando daquele jeito me daria uma reguada na mão igual costumava dar na mão daquele pobre garoto — S-sabe tem um cinema novo na cidade se você quiser ir.”

“Depois de falar isso desviei os olhos e achei melhor contar os quadrados do piso enquanto sentia o rosto ficando vermelho de vergonha. Quem me tirou dessa concentração fora ela mesmo quando tocou de leve minha mão, quando a encarei percebi que Monica sorria o sorriso mais lindo que vi na minha vida e também estava corada.”

“- Lógico que aceito sair contigo.”

Então fechou os olhos, encostou a mão no rosto e ficou ali quieto, o sol saiu de trás de uma nuvem e começou a queimar sua nuca, continuou quieto um tempo de olhos fechados. Parou de falar porque sentiu a garganta fechar e o peito doer um pouco, reviver isso tudo aquilo que parecia ter acontecido em outra vida de tão distante era doloroso demais, mas tirar isso tudo do peito o estava ajudando de alguma maneira.

Mesmo querendo as lagrimas não vieram, tinha certeza que não viriam pelo menos àquela hora. Então só ficou ali afundado nas próprias, lembrando-se de como foi adorável aquele momento, os dois sorrindo igual dois idiotas um para o outro e o quanto os dois coraram quando ele tomou coragem para segurar a mão dela.

– Fomos no cinema aquela tarde mesmo, conseguimos comprar ingressos para a sessão dupla daquela tarde e ficamos sentados num canto mais isolado do cinema. — Sorriu levemente enquanto voltava a colocar as mãos sob o colo. — Não vou te dar muitos detalhes até porque tenho certeza que você não está interessado, mas só vou dizer que você vai notar uma semelhança em como todas as minhas primeiras vezes em algo foram bem ruins e até um pouco traumatizantes.

Observou uma formiga andando pela sua mão e ficou um tempo a observando andar pelos eu braço, observou ela desbravando as dobras de seu braço que surgiram com o tempo, pelo menos alguém se divertia com sua velhice. Sorriu com essa cena, colocou a mão na madeira esperando a formiga descer e seguir sua vida.

– Depois de todo aquele clichê de passar o braço em volta dela e ela deitar a cabeça em meu ombro, acabamos dando o nosso beijo no cinema mesmo e sendo sincero eu acho que fui péssimo, Monica nunca reclamou, mas chegamos a bater dente e tudo. — Ele riu um pouco, metade por achar engraçado e metade de vergonha — Eu nunca tinha tido essas dicas de treinar com a mão ou coisa parecida, nem acho que isso funcione realmente, mas mesmo assim fiquei muito envergonhado quando saímos do cinema.

“Depois daquilo começamos a namorar, nem eu nem muito menos ela fizemos nenhum pedido formal, mas só de estarmos andando de mãos dadas de volta pra casa já selava esse nosso relacionamento. Engraçado foi que voltamos para a casa um pouco receosos em como contar para os meus pais e depois para os dela que estávamos juntos, mas assim que chegamos em casa já começaram as brincadeiras de minha irmã e de minha prima, já estava mais do que na cara o que havia acontecido e só deixamos a coisa seguir.”

“Meus pais e os dela foram bem tranquilos e apoiaram o nosso namoro, lógico que as coisas mudaram bastante depois disso, por exemplo, não deixar de jeito nenhum eu e ela dormimos no mesmo quarto ou não deixar que ficássemos sozinhos num cômodo por muito tempo. Não os julgo por isso, pelo contrário, quando tive filhos eu entendi bem o outro lado da moeda, mas isso não adianta muita coisa pra ser sincero. Adolescente é foda e sempre acaba arrumando um jeito.“

“Por conta disso a nossa primeira vez foi quando já tínhamos dois anos de namoro, eu era um garoto de ingênuo de quinze anos que o máximo que já tinha ouvido falar de sexo tinha sido com colegas de escola e em filmes então obviamente que eu fui péssimo. Não vou entrar em muitos detalhes porque ninguém merece ouvir um velho falando de suas experiências sexuais, mas digamos assim que além de não ter dado prazer nenhum para ela eu ainda acabei quase a engravidando.”

“Naquela cidadezinha de interior e principalmente naquela época, mesmo com todos os métodos anticoncepcionais como a pílula anticoncepcional já tendo sido inventada e a camisinha já estando popular. Não tinhamos muito acesso a essas coisas, principalmente pelo fato de sermos muito jovens, não tinha como eu simplesmente chegar e pedir uma camisinha pros meus pais, não só pela situação que geraria, mas também por vergonha mesmo.”

“Mas então, as semanas que se seguiram aquilo foram terríveis pelo medo dela estar grávida, ela sempre fora sensível, mas naquela época e ainda somada a toda essa confusão de sentimento acabou a colocando no limite do próprio stress e de seus sentimentos. Sempre que nos encontrávamos me perguntava se eu assumiria a criança e ficaria ao lado dela caso estivesse realmente grávida. Eu sempre a abraçava e dizia que sim, lógico que ficaria ao lado dela, mas mentiria para você se falasse que não pensei numa maneira de me livrar dessa situação, sim é horrível eu sei, mas eu era apenas um garoto de quinze anos numa situação de merda.”

“Acabou que mesmo atrasando duas semanas a menstruação dela veio, com certeza esse foi um dos momentos de maior alivio da minha vida, junto de quando fui liberado do alistamento militar na ultima chamada e de outros por menores que não vale a pena citar. Lembro-me de quando ela chegou naquele final de semana para me visitar, estava linda de vestido amarelo e um laço no cabeço, quando me viu me abraçou tanto forte que me derrubou no chão e sussurrou no meu ouvido que havia menstruado. Foi uma alegria sem fim de rolarmos no chão rindo e comemorando, mas durou muito pouco, ela sempre tivera cólicas muito forte e eu acabei tendo que ficar o dia todo tomando conta dela.”

“O engraçado disso é que às vezes me pego pensando o quanto ela estar grávida mudaria drasticamente não só os acontecimentos futuros, que já entro em detalhes, mas quanto não só a minha vida, como a dela e de pessoas próximas a nós. É engraçado chegar à minha idade e notar o quanto pequenos feitos e detalhes mudariam completamente o resto da sua vida, como o que nós somos é moldado muito pelas pequenas e grandes coisas, coisas que às vezes nem tem haver contigo.”

“É até um pouco assustador notar como atitudes que nem suas foram acabam gerando uma série de acontecimentos que moldam o que nós somos e fazemos. Nos últimos anos desenvolvi a mania de antes de dormir sempre ficar pensando o quanto minha vida teria sido diferente se tivesse feito isso ou aquilo ou falado aquilo naquele momento e as vezes isso é bem divertido, mas outras vezes é até bem doloroso, por você notar o que podia ter feito de melhor e não ter magoado tantas pessoas”

“A vida acaba sendo bem cruel e irônica por isso. Quando era mais novo não me lembro de parar muito para pensar no quanto minhas pequenas decisões atingiriam outras pessoas ou poderiam mudar minha vida, acho que isso faz a juventude ser tão injusta com os mais jovens, eles conhecem muito pouco do mundo e da vida, mesmo acreditando o contrário. Você, por exemplo, imagino, deve ter pensado como essa sua atitude atingiria as pessoas que você conhece, mas nunca parou para pensar que você escolher precisamente essa arvore poderia causar algum efeito numa pessoa que nunca conheceu certo? Deve ter até pensado, mas nunca com muita atenção com o que aconteceria com a pessoa que te encontrasse desse jeito.”

Então cruzou os braços e passou mais um tempo apenas olhando o rapaz pendurado enquanto dava um tempo para a garganta se recuperar, não falava assim sem parar fazia um bom tempo e as cordas vocais estavam quase enferrujadas. Balançava a perna por conta da mania que tinha desde criança e ficou pensando como deveria contar os acontecimentos a seguir, agora marcava o começo que a montanha-russa começava a descer e não costumava mexer muito nessas lembranças, pra falar a verdade nunca havia falado com ninguém sobre isso.

– Quanto mais você vive mais você vai acumulando pequenos e grandes arrependimentos — Começou a falar com os braços cruzados sobre as costelas e olhando para baixo — Aquelas coisas que você olha e pensa como que deixou essas merdas acontecerem.

“O pior de tudo é nem fazer essas merdas e acabarem te atingindo de volta, até porque quando você faz uma ação você sempre espera uma reação, mas o pior é quando atinge as pessoas próximas que você gosta. Sempre acaba sendo egoísta, ridículo e injusto principalmente com as pessoas que não mereciam, isso acaba gerando sempre a pior sensação do mundo, pelo menos para mim. Mas chega de enrolar e vamos voltar para a história.”

“Como já disse algumas vezes, todas as minhas primeiras vezes foram bem estranhas e ruins, mas com certeza a pior de todas foi a primeira vez que enchi a cara. Agora avançamos mais um pouco na história e já estou com dezesseis anos, tinha sido convidado, pela vigésima vez, para uma festa de quinze anos, sabe não era o mais popular da escola, mas também não era nenhum excluído então costumava ser chamado eventualmente para uma festa ou outra.”

“Não costumava ir, entre outros motivos o principal é porque namorava e não gostava de sair sem a Monica, mas nessa acabei indo primeiramente por conta de um amigo próximo que queria ir por conta de uma menina que ele gostava. Todos os meus amigos inventaram uma boa desculpa para não ir e acabei me sentindo na obrigação de ir junto a ele, já que ele não queria ficar sozinho. Segundo porque Monica não só deixou como me incentivou a ir, ela achava que eu saia muito pouco de casa e devia me divertir as vezes, infelizmente acabei cedendo e indo.”

Coçou os olhos e sentiu vontade de acender outro cigarro, acabou desistindo da ideia por lembrar que só restavam dois no maço, então somente esticou as costas, estalou o pescoço e continuou.

– Sei que não é nenhuma desculpa, mas acabei ficando entediado — Coçou os olhos com as duas mãos e soltou um longo bocejo — Era no maior salão da cidade e estava cheia de gente dançando e conversando alto. Não tinha ninguém que eu conhecia além do meu amigo, ele acabou passando a noite toda correndo atrás da menina e diz ele que conseguiu pelo menos um beijo. — Sorriu lembrando-se do amigo roxo de vergonha na roda de amigos falando que tinha conseguido beijar a menina enquanto os outros tiravam sarro da cara dele — Acabei ficando na mesa com os mais velhos bebendo e rindo das histórias que eles contavam.

“As memórias que eu tenho daquela noite são todas picotadas, parte pela bebida e parte porque minha cabeça deve ter preferido esquecer que aquilo tudo aconteceu. O meu amigo que tinha ido comigo a festa me ajudou a construir uma linha do tempo dos acontecimentos. Eu, por exemplo, lembro-me de me levantar para ir ao banheiro e passar por um grupo de meninas, mas já não me lembro delas me chamando para sentar com elas, isso quem falou foi meu amigo.”

“Uma das meninas naquele pequeno grupo era muito bonita e me chamou a atenção logo de cara. Seu nome era Lurdes, sim por incrível que pareça em algum momento da humanidade existiu uma menina jovem e bonita com esse nome de gente velha, não me lembro de como aconteceu, nem muito menos como tive coragem, mas me lembro de estar conversando com ela isolado num canto sobre música. Então a memória se apaga de novo e o que eu lembro a seguir é de estar me aproximando do rosto dela e a beijando.”

Cobriu o rosto com as mãos de vergonha como um criminoso confesso de seu crime, ficou mais um tempo quieto com os olhos fechados. Desceu a mão pelo rosto enquanto abria os olhos olhando fixo para um ponto com os olhos distantes. “Como pude fazer isso com ela?”, mesmo anos depois ele não sabia responder, então somente respirou fundo e continuou sem olhar para o garoto.

– Sabe a minha vida toda, principalmente quando fiquei adulto, acabei tendo que conviver com pessoas que traiam seus companheiros numa boa — Começou de forma seca, pela primeira vez desde o começo demonstrando alguma tristeza em sua voz. — Mesmo alguns deles tendo até família construída e nunca consegui entender como eles conseguem ser tão frios quando a isso, como conseguem achar normal.

“Nunca consegui entender como eles consegue principalmente porque o que senti no dia seguinte quando acordei e lembrei-me de tudo o que havia acontecido, foi com certeza uma das piores sensações da minha vida. Eu me senti um merda, sujo, o pior e mais nojento ser humano que já pisou naquele planeta. Depois da culpa veio obviamente a vergonha, como iria contar aquilo para a Monica? Como iria explicar o inexplicável? Como iria pedir perdão de algo que não perdoaria de jeito nenhum? E junto com esse pensamento veio o medo, medo de perde-la.”

“Então cometi o segundo grande erro e uma das maiores covardias de minha vida que foi não conta-la quando a fui visitar alguns dias depois. Ela já sabia, na hora não sabia disso e nem ela, mas a prima de uma amiga dela estava na festa, me reconheceu, comentou com a prima o que viu e isso rodou a semana inteira até cair nos ouvidos de Monica. Eu sei, devia ter tido coragem para falar para ela, principalmente por ter tido a coragem de fazer aquilo com ela, mas não tive, fui covarde, fui um bunda mole e mereci o que aconteceu a seguir.”

“Quando cheguei àquele final de semana não notei nada de diferente nela, estava com uma roupa larga e assim que entramos sentamos no sofá e ficamos conversando trivialidades por quase meia-hora quando o silencio bateu. Ela ficou me olhando atenta e curiosa da mesma maneira que me olhou no dia que a chamei para sair, como se esperasse alguma coisa, mas não fiz nada, fiquei quieto apenas olhando para meus próprios pés. Então uma hora ela percebeu que eu não falaria nada e subitamente se colocou de pé, eu olhei para ela e a vi chorando, naquele momento eu percebi que ela já sabia de tudo e senti mais merda ainda. Ela caminhou decidida para a porta e a abriu com violência”

“- Saia daqui e nunca mais ouse dirigir uma palavra a minha pessoa — Foi o que ela me disse de cabeça baixo por entre os soluços e com os punhos fechados — Eu te odeio. Você é de longe a pessoa mais nojenta que já conheci.”

Clique aqui para ler a segunda parte

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2 comentários sobre “Em Memória De – Parte 1

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