Hoshi no Samidare – Uma incrível ode ao battle shonen

 

Eu sei que é um mangá seinen, eu sei.

Atualmente, existem basicamente três razões que me motivam a querer fazer uma review de uma obra. A primeira é ela ser razoavelmente desconhecida e eu querer apresentá-la ao mundo, e isso definitivamente não é o caso dessa. A segunda é considerar que tenho algo a acrescentar em relação aos outros textos sobre a obra, e enquanto eu estou menos certo de que não é o caso, também não seria a motivação aqui. A terceira é ter adorado a obra e simplesmente querer mostrar ao mundo o quão eu achei ela fantástica.

E definitivamente Hoshi no Samidare está nesse terceiro caso.

Para tirar a premissa básica do caminho logo, a obra – um mangá de 10 volumes de Satoshi Mizukami – conta a história de Yuuhi Amamiya, um universitário que é acordado um dia por um lagarto, que o avisa que a Terra está prestes a ser destruída por um martelo gigante que está orbitando a Terra e ele tem que, junto de outros 11 cavaleiros e uma “princesa” (Asahina Samidare), ajudar a salvá-la. Yuuhi é relutante no início, mas ele aceita, ou aparenta aceitar, quando descobre que o plano da princesa, secreto a todos, é derrotar o mago que está ameaçando a Terra para depois destruí-la ela própria. E assim começa uma trama com secretamente três facções: os cavaleiros e seus companheiros animais, o mago, o martelo e seus capangas golens, e a princesa e Amamiya nas sombras para seu próprio objetivo.

 

Hoshi no Samidare (Ou Lucífer and the Biscuit Hammer, ou Lúcifer e o Martelo, como foi lançado pela JBC) é um mangá com um grande número de fãs devotados, ao menos na internet. A obra pode ser considerada um dos mangás mais populares a não possuir uma adaptação animada. É uma história quase universalmente elogiada por razões em que entrarei em detalhe, e ainda era feita pelo mesmo autor de um dos meus mangás favoritos da atualidade, Spirit Circle. Todo esse pedigree que ela possuía criava um hype grande pra ela que me deixava receoso – afinal, não é segredo que esperar demais de algo pode piorar a experiência, certo?

Uma dessas razões é como o roteiro da história é bem trabalhado. Desde o começo, é perceptível quanto cuidado Mizukami teve com a história, construindo uma história perfeitamente fechada e coerente, com uma progressão dos acontecimentos bem planejada (ou talvez não tenha sido planejada, o que seria mais impressionante ainda; mas o que importa é a sensação de que foi). Enquanto isso é algo realmente muito bom na obra, acabu causando alguns pequenos incômodos numa leitura inicial; eu senti em alguns momentos que o autor poderia ter deixado mais claro que ele estava, sim, com a história em pleno controle, e assim alguns momentos que pareciam aleatórios a primeira vista poderiam ter mais impacto. Talvez isso nem seja um problema real, mas se não fosse por amigos meus me assegurando da qualidade do roteiro antes da leitura, alguns momentos no começo da obra talvez não tivessem funcionado tão bem.

Mas esse planejamento da história, tanto em questão de ritmo quanto de eventos, dá frutos conforme a obra avança; enquanto no começo ainda havia uma incerteza e a apresentação dos vários conceitos e personagens ainda não fluia perfeitamente (o elenco cresce muito muito rapidamente, e algumas introduções funcionam melhor que outras), volumes posteriores conseguem desenvolver muito bem todos os personagens e ir avançando cada vez mais a escala da história, de forma que soa natural e ao mesmo tempo em pleno controle do autor, como é informado em algumas caixas de narração no final de volumes. Cada volume que eu lia era melhor que o outro, e a história começa a aprofundar os personagens e criar momentos emocionais eficazes, e o começo que parecia “interessante” e só era um passado distante. Em uma obra de 10 volumes, um mangá que já começou bom foi melhorando exponencialmente.

Isso acaba culminando em um dos finais que talvez seja um dos mais satisfatórios que eu vi em mangás, e que foi, de fato, o que alçou a obra para o patamar de uma das minhas favoritas. É muito bom ver um final que consegue ser satisfatório em todas as frentes; termina o plot de forma coerente e muito interessante, representa bem a temática da obra e coloca todos os personagens no ponto certo após o arco de cada um em toda a história, e consegue ser realmente o ápice da obra em “espetáculo” (o combate, ação, ultimos confrontos) e no fator emocional.

Falar de todos os personagens tomaria muito espaço e talvez requeresse muitos spoilers para realmente ser uma visão compreensiva, mas a série faz uso de umas das minhas técnicas favoritas, e no momento certo, que é usar um volume mais calmo após um grande evento para apresentar com mais detalhes o passado e personalidade dos personagens, com capítulos focados em cada um; assim, isso tem a função dupla de desenvolver personagens e acalmar o ritmo.

Também é notável como a série consegue construir a relação entre esses 12 cavaleiros de forma natural e variada; é comum que só vejamos a relação desses personagens pela ótica do protagonista, mas Samidare cria várias amizades, rivalidades e outros relacionamentos entre os personagens, mas conseguindo fazer isso sem tirar demais o foco de seus protagonistas, que ainda são o principal elemento da série.

É bastante gente

 

Existem vários outros detalhes que merecem ser elogiados no mangá, como a criatividade que ele tem a construir os poderes dos personagens, que partem todos de uma mesma base, o uso de vários cenários que vão ficando familiares com o tempo, aumentando a identificação do leitor com a história, a forma como a série consegue alternar com eficácia entre os momentos casuais e os momentos sérios de combate, usando bem o diálogo, expressões dos personagens e a composição de páginas para mostrar isso, o próprio uso da composição de páginas e dos quadros (em especial como em diversos momentos o Biscuit Hammer fica no fundo do cenário, como uma força ameaçadora aos personagens), a forma como cada personagem, além de uma personalidade sólida e bem pensada, tem vários detalhes e trejeitos únicos, etc. (gosto em especial de como cada cavaleiro tem uma relação diferente e que é mostrada com seu companheiro animal; não é nos mostrado somente como Amamiya e Neu, o lagarto, se relacionam) Talvez cada um desses detalhes merecesse um parágrafro próprio, mas seria uma missão muito difícil para mim. Considerem isso uma representação de como é uma obra completa em vários quesitos.

Enfim, essas são quase todas as razões pela qual a série teve e merece os diversos elogios, mas ainda falta um outro fator, bastante importante, que é Samidare ser bastante comentado como uma desconstrução do Battle Shounen, ou ao menos uma subversão ou satirização.

Shounen pode ser só uma demografia e não muito representativo de gênero, mas o termo battle shounen ganhou um significado próprio, relacionado a histórias de ação como Dragon Ball, Fairy Tail, One Piece, com poderes nomeados, grandes batalhas, ameaças ao mundo ou aos amigos do protagonista… enfim, esse tipo de coisa, bastante adorada.

Não é difícil ver como Hoshi no Samidare se encaixaria nessa. São mostradas varias reações diferentes, mais realistas, a ideias comuns como o chamado para aventura, o combate contra monstros… várias situações comuns também são satirizadas, como a introdução de personagens, rivalidades; até mesmo a premissa do mangá já mostra isso, com a ‘princesa’ desse confronto querendo destruir o mundo ela mesma… mas eu acredito que Hoshi no Samidare vá além disso.

Por todos esses “ataques” aos conceitos que constroem esse gênero, Hoshi no Samidare acaba no final sendo um mangá que pode ser genuinamente considerado um battle shounen, e que reconhece o melhor uso para todas essas ideias.

Um grande exemplo é o uso de golpes nomeados, algo comum em obras do tipo. No começo, a necessidade é questionada, e só uns poucos personagens usam isso, e eles usam isso justamente para entrar no estado mental de um confronto contra o mal; para motivar a eles e aos outros; ao final da obra, isso já está sendo usado por todos, em respeito a esses personagens e ao ideal que eles representavam.

Os personagens mais velhos da obra constantemente se esforçam para parecerem melhores do que são para os mais novos, para inspirá-los, e isso está presente na luta contra o mal, ou nas cenas “épicas” que são normais no gênero. Essa é a motivação, a razão delas existirem, e a importância dela. Samidare mostra como todos esses clichês tem importância. É uma história decididamente positiva sobre a luta pelo bem e sobre a amizade, por todas as desconstruções e subversões que existem nela.

E para terminar, a obra tem uma temática muito forte de crescimento, não só no sentido coming-of-age, embora esse também esteja presente, mas principalmente em questão de evolução pessoal, de melhorar como pessoa, de seguir em frente. E isso é mostrado um pouco em cada um dos personagens, mas principalmente em Amamiya, que começa a série como um quase misantropo graças a sua infância e passa a ser uma pessoa respeitável, em parte pela influência dos mais velhos (como eu comentei acima). E uma história sobre crescimento está perfeitamente encaixada em um battle shounen, não está? Cada personagem fica mais forte para enfrentar os inimigos, e em Samidare essa força é tanto física quanto mental. Não a toa, a ultima frase de Samidare (isso não é um spoiler, nem vem) é “We all have grown up a little.” Não a toa, o vilão da série é um personagem preso na mentalidade de uma criança, usando as mesmas roupas de criança e um instrumento de destruição definitivamente infantil.

Por isso Samidare não é só uma sátira de battle shounens. É um battle shounen perfeito, um mangá que mostra a razão para adorarmos battle shounen. E é um mangá incrível.

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