Wicked – Sobre a Extraordinária Bruxa do Oeste

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Era uma vez, numa terra distante, uma bruxa má, muito má.

E essa tal bruxa…

Ei, espera aí. Tem algo estranho. Eu queria contar a historia de uma “bruxa má”, mas… não parece que essa historia foi cortada? Editada, talvez? Como a bruxa se tornou má? Ela era mesmo má? E se ela estivesse tentando com todas as forças ser boa? Quem tenta ser bom não é efetivamente bom? Qual é a linha que separa a bondade da maldade, e quem determinou que ela fosse como é?

E, afinal de contas, o que é o “mal”? Pode ser, sem dúvida, uma imagem contrária às ideias do tempo em que surge. Ou aquilo que é contra uma base de poder desse mesmo tempo. Ou, talvez, simplificando até o fundo, o mal seja só aquilo que é diferente. Incompreensível. Incapaz de causar identificação na maioria.

Não é?

Muitas perguntas, e ninguém espera que você às responda no curto período de uma vida (talvez nem mesmo com umas vidas extras nós fossemos capazes de responder). Mas algumas obras por aí foram, ao menos, curiosas o bastante para levantar as questões, e começar levemente a respondê-las. Como se ajeitassem a bola na marca do pênalti, deixando o gol mais fácil de ser marcado por quem se interessar.

Uma dessas obras, recentemente lida por esta pessoa que escreve este texto, é “Wicked” (Ou “Maligna”, como é o título nacional, que não vou usar. Porque sim).

O autor, Gregory Maguire

O autor, Gregory Maguire

Wicked é, para quem nunca ouviu falar, um livro publicado em 1995, de autoria do escritor americano Gregory Maguire, especialista em reimaginar famosos contos de fada. Mais tarde, em 2003, foi adaptado para o formato de musical de teatro, fazendo enorme sucesso em várias partes do mundo e, curiosamente, se tornando mais conhecido que o material original. O texto que vocês estão lendo vai se focar exclusivamente na publicação de 1995(que tem continuações, as quais não interessam muito a este que vos fala, até o presente momento), contudo recomendo, e recomendo em dobro  (depois de ter recebido a grata recomendação do amigo e colaborador do Missão Ficção, @Edungeon) que vocês também procurem a trilha sonora do musical e a escutem. É incrível e vai ilustrar bastante sua experiência com o livro, enquanto a produção não chega por aqui, ou você não arruma condições de ir assistir em Nova York, ou Londres…

Enfim, vamos voltar ao que interessa.

“Wicked – The Life And Times of The Wicked Witch of The West”, é uma releitura do clássico “O Mágico de Oz”, contada principalmente através da visão da Bruxa Malvada do Oeste, aqui chamada de Elphaba (um nome criado pelo autor a partir das iniciais de L. Frank Baum, o autor da obra na qual Wicked se inspira). Entretanto, diferente de O Mágico de Oz, Wicked não é um livro voltado para o público infantil. Por muitas vezes ele é sujo, sexual e violento, mas vamos guardar esse tópico para depois.

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A já citada protagonista, Elphaba, nasce pouco depois do início do livro, e se você conhece um pouco de O Mágico de Oz, ou teve a paciência de jogar no Google, sabe que a garota nasce com a pele colorida por um chamativo tom de verde. Se sorte existisse na terra de Oz, esse seria o único problema a ser enfrentado por ela durante toda a vida (e já seria mais que suficiente). Mas Elphaba nasce pobre, num mundo cheio de preceitos, costumes e antigos atritos ideológicos e sociais. Sua mãe, Melena, a frustrada e lasciva filha de um nobre da região de Solos de Colwen, que acabou presa a uma vida de pobreza por causa de um momento juvenil de impulsividade. Seu pai, Frexpar, um Pastor Unionista (entenda-se como o equivalente da Igreja Católica naquele mundo), fanático pelas crenças que professa, distante de qualquer conceito de humanidade que venha de fora da religião, enfrentando a crescente rejeição dos dogmas por seu rebanho.

Junta-se a isso as características singulares do nascimento de Elphaba (A suspeita inicial de hermafroditismo, os dentes-de-leite pontiagudos, a curiosidade nata com relação ao mundo e o que estava por trás de tudo), e você tem uma personagem que, desde a mais tenra idade, foi atingida pela frequente rejeição da mãe e os preconceitos do pai. Entre um e outro, não havia salvação. Melena desejava abertamente ter dado a luz a um menino, forte e saudável, e não a uma menina da cor da grama nova. Frex desejava um filho ou uma filha que comprovassem a benção do Deus Inominável sobre ele e sua linhagem, que recompensassem seus anos de serviço para a causa divina. Para o que receberam, não se mostraram na lista de melhores pais do mundo.

Assim, temos a infância da protagonista cercada por todo tipo de eventos complicados. Desde a traição no casamento de seus pais, praticada por Melena com o viajante Coração de Tartaruga (vindo do miserável Estado de Quadling), passando pela ausência paterna e chegando numa breve menção a dificuldades sofridas na primeira escola na qual ingressou, por incentivo e insistência da antiga Babá de sua mãe.

Mais para a frente, há mais relatos sobre os primeiros quinze ou dezesseis anos de vida de Elphaba. Sobre como um acontecimento influenciou uma ação missionária da família, dando a ela e à irmã Nessarose (Nascida alguns anos depois, com a deficiência física que lhe privou dos dois braços) dias mais pobres que na morada anterior, localizada na Terra de Munchkin; Sobre como seu pai a apresentava para desconhecidos como uma punição, uma prova do fracasso como Pastor, e muitas outras coisas.

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Esses fragmentos da existência de Elphaba constroem bem um dos lados a serem desenvolvidos mais tardiamente na personalidade da jovem mulher: A disparidade entre a rudeza, a dureza de certos aspectos do seu emocional, e a total carência, tanto de amor e carinho, em todas as formas, quanto de reconhecimento pelo que é.

Além desse prelúdio, teremos Elphaba como uma jovem adulta, dos dezessete aos vinte e três anos, indo estudar num renomado colégio para garotas na grande cidade de Shiz. Uma mulher em formação, extremamente inteligente e questionadora, descobrindo os tons do amor e da amizade, enquanto enfrenta o esperado preconceito de colegas e professores. É nessa fase que ela conhece Galinda (posteriormente chamada de Glinda, a famosa Bruxa Boa do Norte da obra original), formando a amizade que desencadearia eventos muito influentes no decorrer de sua vida. Ainda nessa fase ela conhece seu amigo (e provável primeiro amor) Boq, seu futuro amante Fiyero e tantos outros personagens a quem ela reencontraria, entre idas e vindas, incluindo a ardilosa diretora Madame Morrible e o poderoso ditador das terras de Oz… o próprio Mágico, em carne, osso e despotismo.

Abrindo então um parêntese para essa mesma fase, é nela que a nossa protagonista também conhece a pessoa que moldaria parte dos ideais dela até sua morte: O Doutor Dillamond, um Bode. Sim, um Bode. Mas assim mesmo, com letra maiúscula. Há todo um contexto em Oz sobre a diferenciação entre animais e Animais, sendo os primeiros bastante normais, como os conhecemos aqui, no nosso mundo, e os outros já sendo antropomórficos, com consciência de si e capacidades intelectuais idênticas a dos seres humanos. E, existindo numa realidade onde isso é corriqueiro, Dillamond é um professor na Universidade de Shiz onde Elphaba estuda, e acaba dando-lhe aulas.

No meio disso, o Mágico coloca em voga um decreto que tira dos Animais todos os seus direitos. Não podem trabalhar, não podem mais circular livremente, e pouco a pouco vão sendo enviados para o campo, para servirem de mão de obra barata para latifundiários, acalmando os ânimos dos mesmos em tempos de estiagem, e assim criando uma base de apoio para o governo golpista (Daí você já pode notar como a política do livro é realista e intrincada). O argumento público para tal ação é que não haveria modo objetivo de diferenciar a biologia de animais e Animais, tornando os seres conscientes, de acordo com a decisão governamental, formas de vidas destinadas a trabalhos braçais e desvalorizados.

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Querendo contra-argumentar com o Mágico, para salvar seus semelhantes Animais e também o próprio cargo de professor universitário, o Doutor Dillamond começa uma complexa pesquisa científica e histórica relacionada a origem do mundo, a origem do intelecto Animal e as gigantescas semelhanças biológicas com a raça humana de Oz. Elphaba, após conseguir trabalho como assistente do velho Bode, participa ativamente das pesquisas (tendo ajuda dos amigos Boq, Crope e Tibbett), e isso se torna parte importantíssima do crescimento da personagem. De uma garota que só fazia se questionar sobre o Mal e sua origem, vivendo enfiada nos textos religiosos do pai por não ter mais o que ler, ela desabrocha numa pessoa informada sobre a política de Oz, envolvida, observadora, que passa a enxergar mais que as injustiças sociais apresentadas à sua frente. Uma garota que questiona o supostamente inquestionável, e não se dobra perante poderes que, para outros, seriam absolutos.

Infelizmente, tragédias se põem no caminho dessa revolucionária em formação, e a vemos crescer tentando lidar com isso do jeito que for possível (Nunca o “melhor modo”, que é inalcançável). Esse “lidar” é marcado pelas questões que o livro levanta sobre ela, e que ela levanta sobre si. Ela é boa ou má? Se a bondade significa conformismo e indiferença ao mal do mundo, a “maldade”, não sob uma visão maniqueísta mas sim como a coragem de ir contra a maré, não seria a única opção? Como o bem e suas boas intenções podem pavimentar um caminho rumo ao pior dos finais?

É um grande, grande tema, cheio de subdivisões, que fazem Elphaba ser fascinante. Porque, também, apesar de se questionar sobre isso, aceita a responsabilidade de agir de acordo com o que acredita (Ideia reforçada por uma declaração dada mais tarde). Ela não tem medo de como vão enxergá-la. Afinal, para alguém que nasceu verde e passou por tanta coisa, a opinião de um ou outro seria de pouca valia.

Duas artes seguidas de Elphaba e Glinda? Sim.

Duas artes seguidas de Elphaba e Glinda? Sim.

Tal coisa entra em conflito com a inescapável condição humana dela. Apesar de ser endurecida e capaz de se virar mesmo nas piores situações, Elphaba ainda não se livra de se sentir só. De ressentir, mesmo controladamente, a irmã caçula, preferida pelo pai por compartilhar as visões religiosas dele. Elphaba não escapa de pensar, de quando em quando, que seus maiores esforços contra os terrores de Oz não adiantarão de nada.

Foi acompanhando a jornada fictícia dessa mulher que fui me encantando mais e mais. O caminhar de Elphaba rumo à maldade, empurrada pelo destino e pelas ações de outros, é feito de fios de esperança partidos de forma brusca, remorso e decepção. Até o fim ela permanece incrível, altiva, admirável, mas cada vez menos engajada, menos ávida pelo bom combate, e mais resignada a uma vida de isolamento emocional e social, longe de um mundo onde sua capacidade de fazer a diferença diminui, mas sua falsa fama e importância passiva em esquemas maiores aumentam.

E aí talvez seja onde a obra brilha mais. No meio dos diálogos sobre o mal, sobre a justiça e a inevitabilidade do destino de alguns, levanta-se a questão: E a alma? Será que, debaixo da dor e do sofrimento, é certo ou errado desejar que haja uma alma, capaz de ir para outro mundo? Será que não temos o bastante, lutas o bastante, no tempo de uma só vida?

Coisas a serem pensadas por você, ao terminar a leitura.

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Wicked não é um livro para crianças. Nem é um livro para todo adulto. Se você procura uma protagonista forte e bem desenvolvida, um cenário complexo e diversas questões filosóficas conectando um e o outro, então eu recomendo que você leia o quanto antes. Não é um conto de fadas, não é belo por todo o tempo (Aguarde vocabulário chulo, sexo e sanguinolência), mas é belo de se acompanhar.

Repetindo um pouco o que falei lá no começo, se você conhece um mínimo de O Mágico de Oz, sabe mais ou menos como isso acaba. Você sabe a parte que não pode e não vai mudar. Mas como acontece… essa é a cartada final. Só se pode dizer que, após se encontrar com Dorothy, as impressões serão marcantes.

Errático e cheio dos atrasos, termino este review, resenha, ou como você queira chamar, de Wicked. Após lê-lo há alguns dias, resolvi falar um pouco dessa obra que tanto gostei, e tentar fazer com que se interessassem por ela. E é isso aí.

Espero também demorar menos para trazer mais textos para cá.

Até a próxima!

PS: Se nada der errado, teremos um filme de Wicked em 2016. E do Stephen Daldry, mesmo diretor de As Horas e Billy Elliot. Sonhos às vezes se tornam realidade, pessoal.

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Felipe é alguém que não desafia a gravidade, pois ela sabe todos os combos.

 

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