Space Runaway Ideon, a pedra fundamental esquecida

Banner

Um Gigante Lendário e Fujão, porém corajoso

Os anos 70 e 80 foram de vital importância para a evolução da animação japonesa, sobretudo o “gênero” mecha (não gosto de classificar isso como gênero, mas neste texto vou usar o termo apenas em prol da conveniência). As duas décadas possuem vertentes gerais tão diferentes que o contraste chega a ser assustador. Os anos 70 eram dominados por robôs “super-heróis” que salvavam o dia e deixavam as pessoas felizes, já na década seguinte foram predominantes os robôs simplesmente usados como “ferramentas de guerra”, sendo máquinas menores e mais conceitualmente palpáveis ou possíveis para nossa realidade. Um homem foi um dos grandes responsáveis por essa transição, e este homem se chama Yoshiyuki Tomino.

Para os que talvez não saibam, Tomino é o grande culpado por trás de um dos produtos mais conhecidos da cultura pop, GUNDAM. Mas Gundam não começou sendo um grande sucesso, na verdade, a série até demorou um pouco pra poder deitar e rolar na própria popularidade (que só foi acontecer com o lançamento da trilogia de filmes-resumo da série original em 1981 e 1982) e nesse meio tempo, Tomino tentou emplacar mais novas ideias, e assim nasceu o que seria um dos animes que mais contribuíram para a transição de uma era da animação japonesa: Space Runaway Ideon, ou, como é conhecida em japonês, Densetsu Kyojin Ideon (literalmente “O Lendário Gigante Ideon”).

Ideon&Gundam

Os dois “filhos” de Tomino

 Mas por quê essa pequena aulinha de história dos mechas no começo do texto? Entender o contexto histórico da época em que Ideon e o primeiro Gundam vieram é bem importante para saber o que há de tão interessante neles, porém, o primeiro Gundam ainda é uma história imortal até hoje e qualquer um pode pegar e curtir. Já Ideon foi meio esquecido pelo público geral (consigo arrumar alguns motivos compreensíveis vindos da própria série para que isso tenha acontecido , mas vou tentar explicar os motivos mais à frente), mas os caras que fizeram os animes que vieram dali pra frente, o assistiram e aprenderam coisas novas com as ideias que ele apresentou.

Ideon foi exibido pela primeira vez na TV Japonesa em 1980 e ficou no ar até o começo do ano seguinte tendo um total de 39 episódios… que são 37, na real, porque o 22 é um recap e o episódio final. Ah, o episódio final…

E como não poderia deixar de ser, temos que nos lembrar dos tradicionais model kits, que ajudavam a movimentar o sucesso de qualquer anime com algum robô gigante de qualquer espécie, e às vezes acabavam rendendo mais dinheiro que as obras originais. Com Ideon não poderia ter sido diferente, claro.

E como não poderia deixar de ser, temos que nos lembrar dos tradicionais model kits, que ajudavam a movimentar o sucesso de qualquer anime com algum robô gigante de qualquer espécie, e às vezes acabavam rendendo mais dinheiro que as obras originais. Com Ideon não poderia ter sido diferente, claro.

Assim como o primeiro Gundam, Ideon foi cancelado por baixa popularidade (ainda mais baixa que a de Gundam em sua primeira exibição), porém, ao contrário da obra anterior de Tomino, não houve tempo para que a série tivesse um final adequado e o episódio 39 é uma bagunça do caralho que é algo que eu provavelmente escreveria bêbado e com os pés. Tudo bem que na época foi o que deu pra fazer, mas não elimina o fato de que foi o que aconteceu até que, em 1982, após o enorme sucesso da trilogia de filmes de Gundam (que foi o passo final para o início da popularidade que a franquia tem até hoje), surge um filme que encerra a história da devida maneira com o verdadeiro episódio final, além de conteúdo de mais 4 episódios que já estavam prontos antes do cancelamento na TV e conteúdo inédito em animação feito especialmente para o filme. Na verdade, houveram dois filmes, mas o primeiro é um recap tão safado e mal-feito que não faz um pingo de sentido (também, pudera, os caras usaram recortes de cenas de praticamente todos os episódios da TV, exceto o último) que não vale a pena perder o seu tempo com ele ou mencionando o mesmo.

Por isso, já vou mandando a dica aqui antes de prosseguir: pra assistir Ideon, é só ver os episódios da série de TV, ignorar o último e ir direto para o segundo filme, intitulado “Ideon – Be Invoked”, porque essa é assim que se deve assistir.

tumblr_mcvxtsImu61r9l7xlo1_1280

Pôster promocional dos dois longa-metragens de Ideon.

Ok, agora que já tirei a parte histórica do caminho, vamos falar do anime em si, né? Mas afinal, sobre o que é esse raio desse anime? É meio difícil explicar a premissa básica de Ideon, mas ela se passa num futuro muito distante, onde a humanidade passou a colonizar outros planetas em busca de conhecimento, há uma equipe de arqueólogos explorando um desses planetas que era habitado por uma civilização antiga, e no meio das escavações, eles descobrem máquinas bizarras que, quando se juntam, formam um robô gigantesco cujos poderes possuem dimensões incalculáveis. Porém, esse mundo já estava sendo colonizado por uma outra raça alienígena, chamados o “Clã Buff”, que observa a humanidade como uma grande ameaça se eles ficarem em posse do gigantesco robô, e então começam uma caçada aos humanos pelo espaço para que eles possam ter posse do aparentemente perigosíssimo robô. 

Estes são, digamos assim, os "heróis" da história. E esse moleque aí que parece o Amuro de afro vermelho é o que, em tese, é o protagonista. Ideon representa bem a virada dos anos 70 pros 80 até nisso.

Estes são, digamos assim, os “heróis” da história. E esse moleque aí que parece o Amuro de afro vermelho é o que, em tese, é o protagonista. Ideon representa bem a virada dos anos 70 pros 80 até nisso.

Ao longo da série, vemos traições, suspeitas, intrigas entre personagens das duas facções, e a maior parte disso, causadas por falta de compreensão do outro lado (assim que muitas guerras começam, né?). Enquanto a maior parte de ambos os lados quer apenas dilacerar o oponente, poucos são os que tentam ver o outro lado da história. Não há bem um “lado do bem” e um “lado do mal”, se pararmos pra pensar. Space Runaway Ideon, além de uma história de guerra e perseguições, acaba virando uma grande saga sobre compreensão do próximo (tema esse que 20 anos depois, o próprio Yoshiyuki Tomino viria a explorar novamente, sob uma abordagem mais “limpa”, com Turn A Gundam, por sinal). Os personagens possuem uma dinâmica interessante, apesar de que boa parte deixa a desejar em desenvolvimento (principalmente do lado dos “antagonistas”). 

tumblr_lzbg37rYPT1qzqnxxo1_500

Em termos técnicos, SRI se torna algo meio difícil de recomendar por uma série de motivos (alguns destes que muito provavelmente contribuíram para o cancelamento da série na TV). Vamos ter em mente que ele saiu em 1980. O que tinha de mais parecido com Ideon até então era o primeiro Gundam, e nós sabemos bem o que aconteceu com ele em sua primeira exibição na TV. Gundam era extremamente diferente da maioria dos animes com robôs gigantes de seu tempo. Ele estava à frente de seu tempo e seguia muitas ideias até então nada convencionais, que só passaram a ser melhor recebidas pelo público depois de seu próprio sucesso. Ideon estava num grau de experimentalismo de mídia ainda maior, e acabou sendo uma quimera bizarra, um elo perdido entre duas eras completamente diferentes de animes do gênero. Ele trazia as sementes de algumas das ideias que vieram a ficar populares nos aos 80 (o robô como uma simples máquina de guerra, e personagens “comuns”, que não estão isentos de escapar da morte em momento algum da crise) , mas teve que se assumir algumas características superficiais dos robôs dos anos 70 (robô gigantesco e de poderes inimagináveis) para tentar andar na linha. Um típico exemplo de briga entre liberdade criativa e demanda de mercado. 

Capa de um dos CDs de trilha sonora, contendo a excelente trilha sonora composta por Koichi Sugiyama (conhecido por compor trilhas para os jogos da franquia Dragon Quest)

Capa de um dos CDs de trilha sonora, contendo a excelente trilha composta por Koichi Sugiyama (mais conhecido por compor músicas bem emblemáticas para os jogos da franquia Dragon Quest)

Além de toda essa experimentação maluca, Ideon tem uma boa dose de problemas e umas decisões bizarras de direção e pacing. A série começa num ritmo frenético até ocorrer a fuga do planeta perdido e a tripulação começar a fugir pelo espaço, e boa parte do meio da obra é lenta… muito lenta até pros padrões da época, apesar de ter picos de excelentes momentos que fazem o espectador ficar interessado no que virá a seguir, e em sua reta final, quando passamos a entender melhor algumas das motivações por trás do conflito e parte da mitologia descoberta pelos personagens, volta ao ritmo do começo, até que chega o cancelamento e aquele episódio final. Ideon não é um anime pra todos os gostos, é algo bem difícil de digerir, na real. Acho que até posso me dar ao luxo de ser escroto e dizer que ele às vezes é tipo uma feijoada muito pesada daquelas que podem te fazer passar mal se você não comer direito, ou talvez posso até ser meio pretensioso e dizer que é como um minério muito bruto muito precioso que precisava de lapidagem para ser melhor observado.

O robô é tão poderoso que os inimigos mal possuem chance contra ele.

O robô é tão poderoso que os inimigos mal possuem chance contra ele.

E esses experimentalismos ficam ainda mais claros no segundo filme, que é o que faz a jornada valer o ingresso. A conclusão só mostra o quanto Space Runaway Ideon era um projeto ousadíssimo pro seu tempo, mas que mesmo não tendo ganhado a popularidade que almejava, ele foi uma peça fundamental para essa indústria ter se tornado o que ela é hoje. Ele e o primeiro Gundam foram os principais percursores de uma nova era de robôs gigantes na mídia, mas o primeiro foi completamente novo e é algo que todos lembram até hoje e o segundo tentou ser algo novo, mas também tentou colocar rédeas em si mesmo para ver se enfim caía no gosto popular. Já adianto que Ideon não envelheceu muito bem em termos técnicos (até para a época ele era bem estranho, se pararmos pra analisar com calma), e eu acho bem difícil recomendá-lo pra alguém que quer só se divertir ou passar o tempo, mas o considero um must-watch para os entusiastas pela história desse gênero. Ele vira um estudo de experimentação artística fascinante se pararmos pra desmontar seus pedaços e tentar entender como cada elemento ali tentou funcionar. Vou dizer que, para mim, particularmente, o tour histórico foi melhor que a série em si (apesar de o filme de conclusão ter melhorado as minhas impressões sobre a mesma e ter se mostrado o motivo pelo qual essa história existia, em primeiro lugar), mas foi uma longa viagem meio conturbada que me fez aprender coisas bem interessantes e a compreender melhor o gênero e sua evolução como um todo e terminou com uma conclusão recompensadora. Sério, a série de TV tem os seus muitos problemas de ritmo e direção (apesar da história interessante), mas o filme de conclusão é tão bom que faz parecer que ele foi a razão para o meu diretor careca favorito ter pensado em fazer Ideon, pra começo de conversa. Queria até falar sobre ele em detalhes e sem medo da polícia do spoiler aqui, mas deixo isso pra outra ocasião.

kr4ccp6fd6ur

Ideon, a gigante divindade de poder infinito

Todo santo texto sobre Ideon pela internet martela nessa tecla, mas é um detalhe que realmente não dá pra deixar passar batido: sem Ideon, não teríamos coisas como Neon Genesis Evangelion (que segue algumas estruturas similares, principalmente quanto ao final de ambas as obras), que foi outro grande marco da animação japonesa que abriu as portas para muitas coisas a que temos acesso hoje. Ele pode não ser lá uma obra das mais acessíveis ao público (além de um tanto datado, pois infelizmente, o tempo não foi lá muito generoso com ele) e estar extremamente longe de ser perfeito, mas sua ousadia conceitual o tornou um produto um tanto quanto à frente do seu tempo e, apesar de ter caído nos cantos da obscuridade, o impacto que ele causou foi o suficiente para ajudar a moldar o destino de uma indústria. Teria sido este o prelúdio da semeação do pós-modernismo nos animes?

about

Fato engraçado: Acreditem se quiser, o que me impulsionou a chegar no estado “pare já o que esteja fazendo e vá assistir Ideon” foi essa bobagem aqui, que me fez rir que nem um idiota por minutos (além de eu já ser fã do trabalho do Tomino por causa de Gundam)

Anúncios

Um comentário sobre “Space Runaway Ideon, a pedra fundamental esquecida

  1. Estou vendo IDEON, que está ganhando uma tradução PT-BR pelo Armagedon Fansubs. Espero que o grupo legende o filme Be Invoked também.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s