Sniper Americano é… bom…

Sniper Americano

Considere o conjunto de momentos que introduz a grande cena de ação desse filme. A tropa de SEALs comandada por Chris Kyle (Bradley Cooper) precisa entrar em Sadr City para matar um sniper iraquiano, possivelmente o homem que matou vários membros da equipe de Kyle. Quando os veículos param no local desejado, vemos, nessa ordem: homens descendo do veículo, parcialmente cobertos por estruturas mais próximas da câmera; Kyle e sua tropa descendo do jipe; uma metralhadora fixa girando, encobrindo seu operador; os soldados de Kyle se deslocando, armas em punho; os mesmos soldados, Kyle em particular, parcialmente cobertos pelas mesmas estruturas mencionadas antes; soldados entrando de volta nos jipes; e, finalmente, os jipes partindo. Todos esses planos, juntos, duram aproximadamente 30 segundos, e nos mostram, nessa ordem, estruturas e homens, homens, estruturas, estruturas e homens, homens, estruturas. Estruturas engolindo homens? Homens fortalecendo estruturas? Um loop de ambos os efeitos?

Sniper Americano é um filme complicado.

Não poderia ser diferente, de certo modo. Ele é dirigido por Clint Eastwood, o raro ser humano capaz de dar um discurso na convenção nacional do Partido Republicano e de fazer um filme sobre a batalha de Iwo Jima que assume a perspectiva japonesa, o raro ser humano capaz de encarnar o suprassumo do fascismo policial e de desconstruir a violência do Velho Oeste que sua própria imagem ajudou a consolidar. Mas Eastwood não é só politicamente complicado, ele é profissionalmente complicado também. Beirando aos 85 anos, Clint é um diretor rápido, pouco interessado em reescrever trechos de roteiros ou fazer múltiplas tomadas de uma cena. Ele também é um diretor colossalmente competente, com uma capacidade enorme para cenas tensas e cenas emocionantes já muito bem provada (Menina de Ouro manda abraços). E essas contradições entram em choque pra formar um filme, de certo modo, fascinante.

Vamos começar com o bom. Se a descrição da cena ali em cima não deixa bem claro, esse filme mais do que mereceu sua indicação para o Oscar de Melhor Edição. Muitas são as vezes em que os cortes de Joel Cox e Gary J. Roach trazem de volta para o filme elementos que se opõem à cena imediatamente anterior, criando inúmeras micro-complexidades que dão um suporte essencial para a obra como um todo. Mas talvez ainda mais importante que Cox e Roach para a complexidade do filme seja Bradley Cooper, que além de ser um produtor do filme, interpreta Chris Kyle com expressões reduzidas, perfeitas para manter a audiência desconfiada sobre o suposto herói. Quando o sniper praticamente não reage a afirmações dos médicos ou mesmo de sua esposa sobre sua incapacidade de se adaptar à vida fora da guerra, podemos ver exatamente que tipo de efeito o conflito teve nele. É em grande parte por causa desses aspectos que o filme se aproxima da grandeza.

Ele se afasta, porém, em grande parte por causa do roteiro. É aqui que a velocidade de Eastwood o atrapalha mais: o filme é estruturalmente de alta qualidade, estabelecendo bem o personagem de Kyle antes dele entrar no exército e trabalhando muito bem com os intervalos entre idas à guerra, mas existem vários detalhes que colocam tudo isso em xeque. Há pedaços de diálogo mal-escritos (uma namorada de Kyle fala “Você não entende que só estou fazendo isso pra chamar sua atenção?”, uma frase falada 0 vezes na história da humanidade), mas esses são problemas menores para todos menos Sienna Miller, que faz um trabalho de Hércules ao representar Tara Kyle, uma personagem que não tem muito o que fazer além de reclamar do marido, como uma figura importante para o filme.

Não, os grandes problemas do roteiro do filme são diferentes. Em primeiro lugar, a incontesta conexão entre os ataques do 11 de Setembro e a guerra do Iraque. O regime iraquiano, se sabe faz anos, não tinha nenhuma relação com a Al-Qaeda, mas o filme une atentados e guerra como um simples par de ação-reação, sem espaço para contestar a lógica. Isso pode ser proposital, visto que Kyle não parece contestar tal lógica, mas ainda temos, em segundo lugar, os iraquianos sendo chamados de “selvagens” cem vezes para cada segundo de caracterização que têm. Até mesmo Mustafa, o melhor sniper iraquiano, o suposto espelho de Kyle do outro lado, não ganha mais que uma única cena com sua esposa e filha, e acaba reduzido a pouco mais que uma motivação para Kyle, um espectro do que seu personagem poderia ser.

Mas ainda assim, o filme de Eastwood faz algo absurdamente louvável por seus personagens muçulmanos, raríssimo em qualquer lado do debate político moderno: nem por uma única cena ele usa a fé muçulmana como maneira de mostrar que aqueles que nela acreditam são diferentes, desumanos de alguma forma. É, de fato, a religião de Kyle que é a mais contestada: em certo ponto, um outro soldado menciona que nunca viu o sniper abrir a Bíblia que sempre carrega. E isso nos joga diretamente de volta à complicação do filme. Temos um exército de “selvagens” que, por todo o filme (crédito a Nick Davis por notar isso), não é representado fazendo uma única ação que um americano não faria caso estivesse na situação oposta. Temos um “herói” que não reluta em voltar e voltar para o Iraque deixando sua mulher e seus dois filhos bebês para trás, não pisca quando rifles são disparados na saudação do funeral de seu amigo.

Sniper Americano não é um grande filme. Tem um roteiro muito furado para isso, uma atriz principal muito sobrecarregada para isso, uma cena final verdadeiramente abominável demais para isso. Mas, francamente, eu não me importo muito. A história do sniper mais letal na história americana, um homem chamado de santo por uns e louco por outros, é um filme complicado, e isso já é uma incrível vitória para a arte, que talvez tenha mais grandes filmes do que tem filmes verdadeiramente difíceis de processar. Resta esperar, por mais improvável que seja, que esse aqui seja lembrado como tal.

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