FoxCatcher – Patriotismo, Família e Raposas… ou não.

steve-carrell-stars-in-the-creepy-new-thriller-fox-catcher__oPtUma das experiências cinematográficas mais difíceis que já tive. *respira*

É curioso afirmar algo desse gênero. Particularmente, já tentei assistir/ler das mais diversas produções possíveis, quase como em um jogo pessoal de expandir sempre os horizontes. Fácil, as experiências mais inusitadas que tive foram com obras surrealistas, como em A Espuma dos Dias, do Gondry e com as animações do Yoshitaka Amano. Mas FoxCatcher, por mais simples que pra alguém possa parecer, tem uma aura silenciosa de solidão tão arredadora e ao mesmo tempo é tão imprevisivelmente intimista, que foi realmente difícil de terminar de ver (e de escrever, também).

Dirigido por Bennett Miller, o longa conta a história de Mark Schultz (Channing Tatum), um pro-wrestler em decadência e que vive na sombra do irmão mais velho tentando voltar ao topo. Para tal, ele aceita o convite de John du Pont (Steve Carrell), um milionário patriota e entusiasta de luta livre, para iniciar o centro de treinamento FoxCatcher.

A primeira característica notável do filme é o silêncio. Coloque em qualquer momento e dificilmente ouvirá uma trilha sonora (por mais que ela exista, é quase subliminar). Coloque em momentos específicos e não ouvirá nada, nem diálogo, nem sonoplastia, nem som ambiente. Mesmo os diálogos são preenchidos de silêncio, o que os fazem sempre mais intimistas, tensos.

O que leva à outra característica interessante de FoxCatcher que é a introspecção. Os personagens em momento algum se expressam expositivamente sobre suas emoções e poucas vezes as demonstram de forma clara. Muitos olhares e expressões tímidas escondem conflitos que o espectador entende com o silêncio e com os acontecimentos. Acontecimentos esses, que por sua vez, são em geral estranhos e inesperados. Eles dizem que tem algo de errado e causam uma estranheza propositalmente desconfortável. Os personagens se aproveitam de tudo isso e também da brilhante caracterização que a maquiagem os dá. Steve Carrell irreconhecível e Mark Ruffallo (Dave Schultz) quase tanto quanto.

gallery25Foxcatcher Steve Carell

John du Pont durante toda a trama pinta uma imagem de si mesmo que é intimidadora por ser instável e triste por ser falsa. O clímax, inclusive, é deixado subentendido em vários momentos do filme graças à isso (sem spoilers, stay cool). Os valores patrióticos nos quais o personagem se agarra são subvertidos pelo vazio de suas conquistas, pela sua solidão, pelo fato de se prender com certo desespero à imagem da família e, claro, pelo tal do clímax.

Mark é a insegurança em pessoa, mesmo que não demonstre. Se prende à imagem e aos cuidados do irmão como uma criança indefesa mas ao mesmo se sente injustiçado por ser a sombra de Dave. A trama pontua muito bem isso com os diversos erros que o personagem comete no decorrer dos atos. E o irmão mais velho toma a responsabilidade pra cuidar do irmão como se esse fosse mais um de seus filhos.

É incrível como esses dois personagens são parecidos. Buscaram a vitória pra provar algo, viveram uma vida de insegurança e solidão e  sempre escondiam seus sentimentos. A grande diferença entre eles é o narcisismo exacerbado de du Pont. Uma pessoa que tem todas as suas insanidades aprovadas pela sociedade e que cresceu acreditando no próprio “modo americano” deturpado.

O que me incomoda nisso tudo é um pouco a falta de objetividade. Se por um lado essa subjetividade na interpretação dos personagens torna a obra como um todo mais introspectiva, às vezes parece só falar de novo algo que já foi falado.

Mas com tudo colocado em cena, o clímax fecha bem o filme de Bennet Miller. Alguns podem tê-lo considerado fácil, mas eu realmente o achei bem planejado (não quero discorrer muito por causa dos spoilers). E se por um lado o final deixa a desejar uma consequência para o Mark como personagem, por outro mostra que aquilo tudo nunca foi sobre os Schultz, mas sim sobre o du Pont e sua forma insana de interpretar os valores do próprio país. E é nesse momento que você lembra que é uma história real.

Depois dessa eu nunca mais vou ver o Steve Carrell da mesma forma.

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2 comentários sobre “FoxCatcher – Patriotismo, Família e Raposas… ou não.

  1. Acho que o teu começo é o que resume a minha experiência com o filme também. Posso falar dos atores, da história, dos significados… mas o que sempre vem a mente é o quão DESCONFORTÁVEL o filme é. O silêncio e a introspecção é apenas a percepção de que algo está errado – muito errado – e o filme apenas comprova isso te acordando para a realidade como um soco. Não chego a dizer que é um “bom” filme, mas esse sentimento ruim que ele te causa tem poucos que me conseguiram igual. Todos os 3 principais estavam mt bem (maquiagem maravilhosa)

    • É um filme muito bom no que faz. Principalmente na introspecção, porque não é só o espectador que sente que tem algo de errado… os personagens também sabem disso. Aquela primeira cena de treino dos Schultz acentua bem isso, porque ambos estão em conflito, se agredindo às vezes gratuitamente, mas ainda se ajudando. E ninguém fala sobre essas agressões (tipo o Mark dar uma cabeçada no nariz do Dave), assim como ninguém fala dos conflitos.

      Então nesse aspecto sem precisar falar nada o filme acerta em cheio.

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