Ida, a maior e melhor surpresa do Oscar 2015

Ida 1

As indicações do Oscar de 2015 trouxeram um número razoável de surpresas. Algumas foram positivas (as incríveis nove nomeações de O Grande Hotel Budapeste, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor, inéditos para uma obra de Wes Anderson), algumas foram negativas (todos os vinte atores concorrendo a prêmios são brancos, fato que não acontecia desde 1998, e especialmente ridículo devido à incrível atuação de David Oyelowo em Selma), mas talvez nenhuma tenha sido tão surpreendente quanto à indicação de Ida para Melhor Fotografia.

O motivo é simples: os Oscars são uma premiação americana. Há pessoas fazendo filmes por todo planeta, mas esses filmes normalmente são ignorados no Oscar, que está mais interessado em celebrar produções americanas (ou, em menor proporção, britânicas). Isso não é um problema, essencialmente: é simplesmente a proposta da premiação. Vários outros países têm suas festas similares, como a França e seus Césares. A questão é que indicações para filmes não falados na língua inglesa são extremamente raras fora de categorias como Melhor Filme Animado, Melhor Documentário e, obviamente, Melhor Filme Estrangeiro.

Nesse ano, temos exatamente duas indicações fora dessas categorias. Marion Cotillard foi indicada a Melhor Atriz por sua performance no novo filme dos irmãos Dardennes, Dois Dias, Uma Noite. Mas Cotillard é uma favorita da Academia (até mesmo já tem seu próprio Oscar, ganhou em 2009 por La Vie En Rose). Sua indicação é uma surpresa, mas não chega perto do que é a indicação de Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski por seu trabalho na fotografia de Ida, esse pequeno filme polonês em preto e branco. Mas falemos mais dele.

Ida 2

Anna (Agata Trzebuchowska), uma órfã criada num convento desde bebê, está pronta pra tomar seus votos quando a Madre Superiora lhe revela que ela tem uma parente viva, uma tia chamada Wanda (Agata Kulesza). A Madre ordena que Anna visite sua tia antes de virar freira. Anna reluta, mas faz a viagem. A tia resiste, mas acaba revelando os detalhes da vida da sobrinha. Anna é judia, seu verdadeiro nome é Ida, e seus pais foram mortos durante a Segunda Guerra. Ida quer visitar os túmulos dos pais, mas não há túmulos: ninguém sabe como exatamente eles foram mortos. Tia e sobrinha decidem embarcar numa road trip para encontrar seus corpos.

As duas personagens são um par fascinante. Wanda é uma juíza de alto renome no Partido Comunista, uma bêbada e fumante incorrigível, e de todas as maneiras o extremo oposto de Ida, cuja reclusão dentro de si nunca nos deixa esquecer que ela passou a vida em um único ambiente. Trzebuchowska, atriz não-profissional, interpreta Ida com uma distinta falta de expressão, criando uma personagem que é ao mesmo tempo segredo e folha em branco. É difícil entender a própria protagonista, quanto mais o significado de sua história resolutamente difícil até perto do fim. O texto vem de outro lugar.

Uma das primeiras coisas que o espectador nota ao assistir o filme é o incomum tamanho do espaço no topo do quadro. Enquanto num filme normal o quadro geralmente acaba logo depois da cabeça do personagem (como nesse exemplo de Pulp Fiction), aqui há muito espaço acima. O diretor Pawel Pawlikowski constantemente incentiva seu espectador a olhar pra cima, a procurar o divino que Ida tanto conhece. Nós quase nunca vemos algo, é claro, pois esse espaço é muito vazio, mas nós sempre estamos procurando. A fotografia de Ida expressa, com capacidade igual ou superior à seu próprio roteiro, uma intensa ambiguidade entre fé e descrença.

Ida 3

Há mais. Um efeito um pouco mais sutil, porém igualmente presente, é a assimetria encontrada em quase todo quadro. É comum ver os personagens muito próximos do meio do quadro, o bastante para querermos, de maneira instintiva, que eles estivessem lá, mas eles não estão. Há um vazio lateral, falta uma figura ou um arranjo para balancear a cena. Há algo não-natural, errado, assim na terra como no céu. E as tomadas do filme de Pawlikowski são longas e livres de movimentos da câmera, como se ele nos forçasse a ver a situação por esse prisma específico.

É esse, talvez, o grande mérito do filme: usar sua câmera para expressar sua história. Em um momento em que Ida e Wanda esperam na sala de entrada de um hospital, vemos um teto, um limite claro para o que vem de cima, retratando a morte próxima como algo que o divino não pode consertar. Nas raras ocasiões em que tia e sobrinha realmente expressam afeto uma pela outra, elas estão colocadas para o canto do quadro, seu complicado carinho incapaz de mudar o fato de que elas ainda vivem num mundo drasticamente desordenado. A indicação de Zal e Lenczewski para o Oscar de Melhor Fotografia, além de ser a maior surpresa, pode muito bem ser a melhor decisão do prêmio esse ano, pois assim a Academia está reconhecendo um dos mais importantes trabalhos recentes de fotografia. Essas cenas, assim como quase todas as outras no filme, precisam ser cenas para significar tudo o que precisam significar. Ida é o raro filme que é, essencialmente, filme. E por isso é um filme essencial.

Ida 4

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