Birdman – O Pássaro que Critica Suas Asas

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Metalinguagem, metalinguagem, metalinguagem…

Não, isso não é um feitiço.

Mas, repetindo a palavra “metalinguagem”, passo a perceber como ela é complicada. Bem, não é uma palavra que se usa todo dia, e serve para definir algo bem simples. Tão simples que, há alguns anos, quando eu fui pesquisar o que ela significava, depois de ouvi-la por aí, quase falei em voz alta “E por quê não disse de uma vez?!”.

Metalinguagem é a capacidade que uma obra de ficção tem de comentar sobre si mesma e do tema do qual está tratando. Simples assim. Quebrando em miúdos, o livro, o filme, a HQ ou outra forma de mídia vão contando uma historia, desenvolvendo um tema e fazendo um grande comentário sobre aquilo, relacionando-o com a nossa realidade. Deu pra entender?

Se sim, não precisa agradecer. Se não deu, sinto muito, porque é tudo o que eu tenho.

É, às vezes a vida é assim.

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Em todo caso, o maior expoente no uso da metalinguagem em 2014 foi o filme “Birdman, ou a Inesperada Virtude da Ignorância”, ou só “Birdman” para os íntimos. Dirigida pelo talentoso Alejandro González Iñarritu, essa beleza usou magistralmente de todos os recursos metalinguísticos de que tinha direito, para contar uma historia sobre o cinema, sobre autorrealização, sobre arte e, principalmente, sobre nós, expectadores e espectadores. Uma historia toda filmada em plano sequencial.

Soa interessante, não é? Vamos comentar um pouco sobre o filme.

O enredo nos contra sobre Riggan Thomson, interpretado pelo veterano Micheal Keaton. Thomson é também um ator veterano, vivendo o estágio mais baixo da decadência de sua carreira, depois de ter se recusado, anos antes, a estrelar o quarto filme da franquia Birdman, a qual protagonizara nas três oportunidades anteriores. Esquecido pelo público e relegado ao ostracismo pela crítica (que o vê só como mais um “produto de Hollywood”), Riggan se obceca por ser reconhecido novamente, mas de outra forma: Como um artista, alguém capaz de produzir a tal “grande arte”. Aquela que edifica, que explora, que refina o espírito humano. Riggan quer provar que não é só alguém que ficou famoso por vestir uma roupa de super-heroi por três vezes.

Para alcançar isso, ele pretende dirigir, escrever e estrelar uma peça de teatro. A releitura de uma obra clássica. A melhor das receitas para mostrar a todo que ele seria capaz de ser mais. De fazer mais.

Mike e Riggan

Mike e Riggan

Não tão perfeita assim. A peça tem problemas, e Riggan tem problemas. Ralph, um dos atores, é considerado péssimo tanto por Thomson quanto por seu melhor amigo, advogado e produtor da peça, Jake (Zach Galifianakis), e pode botar tudo a perder. Isso não melhora muito quando, após um acidente no palco durante um ensaio, Ralph fica impossibilitado de atuar e é quase instantaneamente substituído por Mike (Edward Norton), um ator conceituado mas também conhecido por ter temperamento difícil.

E Riggan… bem, Riggan no meio de tudo isso tem delírios com o tal Birdman, seu antigo personagem. E começa a dar sinais de estar adquirindo habilidades de levitação e telecinese. Ou não, afinal ele é o único que parece capaz de notar esses atos estranhos.

É isso.

E só com essa breve sinopse já podemos traçar alguns paralelos com a nossa realidade, vendo de onde o comentário sobre si mesma da obra vai caminhar. Entretanto, vamos com calma, cadenciadamente, para entender melhor como funciona tudo que está por trás do filme.

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Para analisar Birdman em detalhes, antes de tudo devemos começar analisando Riggan, o perturbado protagonista. Um ator que chegou na meia idade esquecido, desconsiderado e, em termos, falido. Mas antes disso, atrás dessa faceta, está o pai ausente, o homem que um dia fora feliz em sua ignorância sobre qualquer conceito de arte, de mundo artístico, de prestígio entre “grandes críticos”, e tantos outros pedacinhos que faziam dele quem era. No presente, Riggan é atormentado, confuso, obcecado por um padrão que ele nem mesmo entende. Sua cruzada por aceitação e consagração já é vazia desde o início.

Além de perdida, exige demais de um homem mentalmente instável. Riggan tem de balancear sua relação com a namorada, Laura (Andrea Riseborough), com a filha Sam (Emma Stone), que é ex-dependente química, e com seus colegas de palco, como a atriz iniciante Lesley (Naomi Watts), que esperam muito dessa produção.

E como sua própria e já citada filha diz a ele, Riggan está tentando entrar num sistema que vai lhe pedir muito em troca de um mínimo de atenção. O nicho e os críticos conhecidos por esse nicho, que na prática existem tanto quanto Riggan para o mundo (ou seja, não existem). Porém, ele poderia se reinventar para outro mundo. Esse tal mundo é feito de Twitters, Facebooks, bloggers, vloggers, opiniões que se tornaram mais influentes com o tempo exatamente por falarem a um público maior, por terem mais alcance. E, todavia, Riggan insiste em desconsiderar essas pessoas. A estranha e má internet, a qual não vai se interessar se ele não der o primeiro passo.

Que não dará, já que na cabeça dele, a opinião de alguém que não possa respaldá-lo como um “verdadeiro artista”, um grande ator, vale o mesmo que nada.

As discussões que o filme faz sobre si e seus personagens vem daí, mas não para por aí. Conseguem ver as relações com o mundo real? Esperem, porque tem mais.

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Além de supostamente desenvolver poderes no meio dessa confusão, Riggan é frequentemente atormentado por seu antigo papel, Birdman. De forma literal. Às vezes só como uma voz, e às vezes aparecendo por completo. Birdman representa o que Riggan tenta rejeitar sobre seu passado profissional: Blockbusters, ação, adoração do “público médio”, ignorância sobre a própria arte. É com isso que a ilusão o atormenta. Por quê se preocupar com a peça? Com agradar esses círculos fechados? Riggan Thomson era adorado, era um astro, era definitivamente feliz. Se a popularidade te faz feliz, qual o valor do prestígio entre os assim chamados entendedores?

É nesse ponto que, na minha modesta opinião, o filme tem nuances que podem passar despercebidas e que eu gostaria de pontuar.

Se olharmos atentamente para o Birdman, o antigo personagem de Riggan, ele é um pastiche da imagem geral do super heroi (Muito mais do Batman, que foi interpretado pelo Micheal Keaton, mas há outros elementos ali). Ele fala com voz empostada, tem uma atitude “legal”, usa um uniforme chamativo e, sempre que aparece, causa alguma explosão ou efeito em volta. Birdman é o que Riggan, alguém que desesperadamente quer se desligar da imagem do blockbuster do gênero, vê como um super heroi. Algo bobo e vazio de forma intrínseca, forçado, sem qualquer valor senão como uma mancha.

Se fosse só isso, se o filme tivesse como única base esse tormento do Homem-Pássaro, até poderia ser dito que é uma crítica ao cinema atual, ao blockbuster, mais alinhada com a proposta de comédia que o filme tem. Mas esse pastiche é só um lado da moeda.

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Do outro, temos os críticos profissionais, que são criticados (sem trocadilho infame) de modo tão constante no filme quanto todo o resto. Representados aqui pela respeitada crítica Tabitha Dickinson, Nos são mostrados como pessoas vingativas, preconceituosas, segregadoras e eternamente insatisfeitas, que escondem as opiniões inteiramente pessoais e a incapacidade de falar com clareza por trás de uma máscara de imparcialidade, profissionalismo e termos técnicos, muitos termos técnicos. Tabitha quer destruir a peça de Riggan sem mesmo tê-la assistido, apenas por vê-lo como um “produto de Hollywood”, um falso, alguém que não deveria estar tentando entrar onde não foi chamado. Ela representa alguém que tem grande poder sobre o sucesso ou a ruína de algo, e usa esse poder para o pior dos fins.

Mas ela é amiga de Mike, o volátil ator contratado por Riggan, que apesar de ser adorado pelos críticos, parece não se importar com ninguém e nem com outra opinião que não seja a sua.

Dito isso, podemos constatar que Birdman é uma crítica ao cinema como um todo. É uma leve crítica ao blockbuster, mas também como ele é visto por alguns. É uma crítica ao conceito de arte que permeia boa parte do pensamento da indústria. É uma “crítica à crítica”, que é capaz de resumir o produto de alguém em números de zero a dez, sem, no entanto, saber explicar claramente o porquê. É, na essência, uma crítica à vontade de agradar hoje e agradar mais amanhã, ficando preso por rótulos e correndo o risco de enlouquecer no processo, como Riggan.

Na sua ironia bem colocada, Birdman também põe o absurdo como parte de seu argumento. Os limites que Riggan tem que ultrapassar, até o final da trama, para conseguir uma fagulha do objetivo inicial, são tragicômicos. O próprio modo como a tragédia final do protagonista é rotulada é inteligente, sutil e capaz de fazer a cabeça trabalhar por algumas boas horas.

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Numa época na qual todos nós tendemos a complicar a concepção, os temas e a mensagem final de miríades de produções em todas as variações de mídia, Birdman se mostra simples, e extremamente genial por isso. As discussões sobre o que seria verdade ou mentira no lado mais fantasioso do que vemos são, em suma, os confeitos do bolo. Birdman é sobre o que é, e concorde você ou não com o viés de raciocínio desse belo filme, é certo que ele fará você pensar. Discutir. E muito.

Chegamos ao fim. Foi um prazer enorme poder falar disso com vocês. Descobri que pensava muito mais de Birdman do que eu poderia imaginar, e ter a oportunidade de expressar isso, mesmo com alguma dificuldade, é bem legal. Espero que tenham gostado.

Até a próxima!

about

Felipe é uma crítica ao ser humano.

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