O Grande Hotel Budapeste e o cinema de Wes Anderson

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“Take your hands off my lobby boy!”

Faltando menos de uma semana para a premiação do Oscar, decidi vir falar sobre um dos meus filmes favoritos do ano passado e que está concorrendo a nove categorias na premiação. E outro dos motivos que me levou a escrever sobre ele é o seu diretor. Wes Anderson, diretor deste filme, não é nada mais nada menos que é um dos meus diretores favoritos da atualidade. Tudo em seu cinema me encanta, desde uma narrativa descontraída até seu jogo de câmera, uma fixação pela simetria e o uso das cores, o que dá um toque muito belo no visual de todos os seus filmes. Ouso dizer que talvez esse seja o filme mais completo de sua carreira, nesse sentido mais visual e artístico. Mas uma coisa não dá pra negar, esse é o seu filme mais famoso e que teve um maior retorno financeiro para ele.

Antes de começar, que tal colocar esse vídeo para tocar? É a trilha sonora do filme e te garanto que lhe fará boa companhia enquanto lê o texto.

Em o Grande Hotel Budapeste, Wes Anderson adapta escritos do romancista Stefan Zweig. O filme não tem uma narrativa linear tão comum. Começamos com uma garota indo visitar o memorial de um certo homem e em suas mãos ela carrega um exemplar de um livro chamada “The Grand Budapest Hotel” e assim já pulamos (ou rebobinamos) para o ano de 1985. Nesse pulo de tempo, um homem, no caso o autor do livro que a menina estava segurando, começa a narrar sua estadia no hotel, que aconteceu no ano de 1968. Nesse ano já mostra o hotel em decadência, com falta de hospedes e empregados não tão qualificados para o trabalho. A narrativa do autor nos leva até um ponto em que ele se encontra com o dono do Hotel Budapeste e começam a conversar sobre a história dele e como o hotel passou a ser sua propriedade. Aí já damos mais uma rebobinada nos anos e acabamos parando em 1932, o período entre as duas guerras mundiais. Já com uma mudança de narrador, com uma visão meio nostálgica, nos deparamos com o ponto da história em que todo o enredo vai ser construído. Aqui já temos o Grande Hotel Budapeste em seu auge, cheio de hóspedes, empregados capacitados e vida. E a história vai se focar na amizade entre dois dos empregados,  M. Gustave, concierge do Budapeste, e do mensageiro Zero.

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O ponto chave do filme são os dois personagens principais. Ambos começam com uma relação de chefe e empregado, devido a hierarquia das posições no hotel, e no fim acabam formando, por necessidade do momento, um laço de amizade que vai se fortalecendo cada vez mais, graças aos perigos e obstáculos que eles tem que superar. Os atores Ralph Fiennes e Tony Revolori não deixam a desejar nesses papéis. O Ralph, como M. Gustave consegue muito bem mostrar uma personalidade bem ativa, sendo a alma do hotel. Já o Tony, mesmo sendo um ator bem novato, consegue passar uma aura de pupilo e que aprende com a situação. É uma personagem que consegue muito bem se manter em equilíbrio com a outra, nos fazendo ter cenas cômicas no jeito Wes Anderson de ser. Um humor leve e que serve para descontrair.

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Claro que também temos outros personagens ótimos na obra. Como é o caso do antagonista interpretado por Adrien Brody, um dos meus atores favoritos. Apesar de não ter muitas aparições ou até mesmo cenas memoráveis, ele consegue muito bem passar o ar de um vigarista e que tem ótimas cenas de humor. E claro, não podia faltar os atores que sempre estão nas obras do diretor: os queridos Bill Murray, Jason Schwartzman, Owen Wilson e até mesmo o Edward Norton, que está pela segunda vez em um filme do Wes. Eles podem não ter grandes papéis no filme e nem aparecerem tanto, mas com certeza dão um toque que todo fã do Wes Anderson gosta em seus filmes e personagens.

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Como eu tinha dito lá em cima, na minha opinião, esse é o filme mais completo do diretor Não tô dizendo que tem o melhor roteiro ou até que é o melhor filme dele, mas sim o que contém mais elementos do que faz os filmes dele serem dele e o que mais aproveita disso tudo. Vamos dizer que ele usa várias técnicas para tentar aperfeiçoar os planos e tudo isso em conjunto traz um grande resultado, mas se usados de forma separada o resultado não é mais o mesmo. A forma como ele captura os quadros, compõe as imagens, veste os personagens (e o cenário), isso tudo tem uma boa sinergia porque são feitos em um total.

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Uma técnica recorrente são os planos sequência. Ele coloca a câmera em trilhos e vai da direita para a esquerda. Gravando assim cenas em que os personagens se locomovem por diversos lugares. No filme em questão, podemos ver cenas assim especialmente no Hotel, onde mostra a locomoção dos personagens entre os cômodos. E para não dar um corte na cena, esse plano em movimento cai com uma luva. E aqui um exemplo disso em seus outros filmes.

O Wes Anderson tem uma grande fixação, também pode ser chamada de doença/fascínio/tara, por simetria. E essa simetria é algo que faz parte das cenas cômicas de seu filme e demonstra a precisão com que ele trabalha suas capturas de cena e também se faz forte em suas cenas de zoom, tanto de aproximação quanto de distanciamento. Aqui um vídeo onde um fã coloca uma linha em meio a cenas dos filmes do Wes e que dá para detalhar bem o uso da simetria em seus filmes.

E também é usado com muita frequência em seus filmes algo chamado “from above”. Que mostra cenas vistas de cima, geralmente para focar em cartas, livros e mapas, as centralizando em um plano. Usado de forma carinhosa para destacar arte, que é uma das paixões do Wes. Aqui um vídeo mostrando isso.

E para finalizar a parte estética do cinema do Wes Anderson, vamos falar das cores. Ele consegue carregar os seus filmes com diversas cores e assim os caracterizando. Não é para menos que o diretor serve de inspiração para tantos designers. Por exemplo o filme The Life Aquatic with Steve Zissou, de 2004, que tem como tema a vida marinha, vem com inúmeros tons de azul e laranja. E no Hotel Budapeste, que é o filme em questão, se vê tons de rosa, vermelho, roxo, azul pastel e marrom desbotado. Mas também se vê outros esquemas de efeito que dão um tom especial nessas cores. Clara influências dos anos 60 e dos anos 70. E isso dá um incrível visual artístico para obra.

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Algo que se faz presente em o Hotel Budapeste é o “enquadramento” da câmera para o ratio de 4:3, assim achatando a imagem e passando aquele clima de televisão antiga. Nada de widescreen aqui, amigo. E esse tamanho da tela só é usado em uma linha de tempo da história, que é a do ano de 1932. Já as cenas passadas nos outros anos, ela volta para 1.85:1, que é o padrão usado atualmente.

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O Grande Hotel Budapeste tem um ritmo gentil e que não te faz cansar da obra. A trama é bem construída, sendo em camadas temporais e camadas da história. Você vai sair se deparando com história dentro de história, o que deixa o filme mais interessante a cada momento que passa. Em momento algum você se sente enjoado ou com vontade de parar o filme. Uma das causas disso é o humor visual que o filme utiliza. Não são piadas que vem através de linhas de diálogo, mas sim que vêmvisualmente (Um diretor que utiliza isso muito bem é o Edgar Wright, mas deixa isso para um texto mais para frente). Um exemplo disso é a cena em que o Zero sai pelo telhado de uma casa e sai pulando pelos telhados das outras casas. Como outros exemplos podemos citar a cena da cadeia ou até mesmo a da perseguição na neve. É um humor bom e leve que é construído com o filme.

Aqui a trilha sonora do filme se torna um personagem, de tão bem encaixada na obra que ela é. Muitas das faixas tem uma pegada pop com uma mistura de música clássica e melodias calmas. O compositor é Alexander Desplat, que já compôs trilha sonora para outros dois filmes do Wes Anderson, o Fantastic Mr. Fox e Moonrise Kingdom. As músicas conseguem acrescentar muito a obra e ajudar na ambientação do mundo criado pelo diretor.

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O Grande Hotel Budapeste é um dos melhores presentes que Wes Anderson poderia nos dar. Um filme pelo qual ele nos conduz numa ótima história, cheia de camadas, com diálogos ásperos e tons artísticos dignos de sua obra. Sua equipe conseguiu trabalhar perfeitamente em questões visuais. Os figurinos e cenários estão um show. Cada cena é digna de uma pintura. E deve ter sido um trabalho árduo para o diretor conseguir passar isso para tela. Com toda certeza ele teve que passar um bom tempo estudando as obra de Stefan Zweig para passar a visão de mundo do autor através desse filme. E para aqueles que ainda não conhecem o trabalho do diretor, diria que é um bom ponto de partida, por esse trabalho ser o mais completo do diretor, vemos ele sendo mais ele aqui, mesmo não sendo um de seus melhores filmes ou um que te envolva tão emocionalmente.

Como disse no início do texto, o filme, a equipe e o diretor foram indicado para 9 categorias do Oscar. E elas são:

Melhor filme (Best Picture)

Melhor diretor (Director)

Melhor roteiro original (Original Screenplay)

Melhor fotografia (Cinematography)

Melhor edição (Film Editing)

Melhor design de produção (Production Design)

Melhor figurino (Costume Design)

Melhor maquiagem e cabelo (Makeup and Hairstyling)

Melhor trilha sonora (Original Score)

Para terminar eu gostaria de deixar uma das frases mais marcantes do nosso consierge, M. Gustave: “You see, there are still faint glimmers of civilization left in this barbaric slaughterhouse that was once known as humanity. Indeed that’s what we provide in our own modest, umble, insignificant… oh, fuck it.”


about

Marcos gostaria de ser um lobby boy no Grande Hotel Budapeste. Afinal, quem não gostaria? Lá é uma instituição. E ele espera ansiosamente pelo dia em que Wes Anderson ganhará seu primeiro Oscar. Quem sabe não seja nesse domingo?

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