Death Parade Ep. 02 – Machado de Assis comenta Dom Casmurro

Observando

Um episódio que começa bem, com uma expansão de mundo esperada e uma leve construção de personagens, mas logo adota uma estrutura de fechamento de arco curiosa, revisitando o primeiro episódio através de um novo ponto de vista.

Começamos com o nascimento da ajudante sem nome, que aparentemente não é uma pessoa, mas foi feita para ter a sensibilidade que falta aos árbitros. Ainda nesse trecho do episódio, é apresentado um sistema maior do que o limitado bar que se vê no OVA e no primeiro episódio. É maior do que eu achava, mesmo tendo esperado algo do tipo com a abertura. E por expansão de mundo, ainda se tem a informação de que as marionetes espalhadas pelo QueenDecim são um blefe do Decim. O que levanta a pergunta (ainda sem resposta): o que acontece com quem não participa do jogo? Aliás, nesse mesmo momento uma personagem aparece só em uma linha de diálogo e ela se chama Queen, completando o nome do bar. Será que tem a ver com o casal de bonecos que aparecem na abertura e com o livro que a Nona segura no fim? Não sei, mas deve ser uma personagem importante no futuro.

Bonecos

Dadas as considerações, vamos finalmente ao que interessa.

Se me pedissem para dar um título ao episódio dois de Death Parade (lembrando: nada de usar DP), seria como está no título desse texto: Machado de Assis comenta Dom Casmurro. Mas pra chegar à isso, é necessário comentar não só sobre a condução do primeiro episódio, como também as reações que ele gerou. Bem, a introdução da série é protagonizada por um casal que morre na lua de mel por conta de uma desconfiança do marido. Sendo assim, o espectador vê o jogo do ponto de vista das lembranças relacionadas à morte que esse casal tem. Só com essas informações eu pergunto à você, leitor: o que levou Bentinho ao ostracismo e concedeu a alcunha de Dom Casmurro, se não a dúvida? O que concede ao leitor do livro do Machado de Assis a dúvida, se não a desconfiança obsessiva do protagonista? E é bem assim que a condução do primeiro episódio de Death Parade se dá, com alguns “a mais”, porque ao mesmo tempo que se vê as desconfianças do “Bentinho”, vê-se também algumas lembranças da Capitu e também diferente do romance do Machadão, se tem uma conclusão no fim do episódio. O julgamento, efetivamente, acontece e supostamente a resposta referente à traição é dada. Isso colocado numa curva dramática como clímax, pede à quem assiste a compreensão e resolução da situação, não a dúvida.

Sendo assim, as reações da internet a fora não foram outra se não um debate constante. A mulher traíra ou não seu marido? Um dos pontos que mais chamou atenção à mim foi que independente do lado que você tomasse, haveriam problemas. Por exemplo, só pelo episódio um, se você considerasse uma traição, a construção do clímax seria incoerente com as lembranças feliz da Machiko em relação ao Takashi. Se você não considerasse a traição, aí mesmo que não faria sentido, porque uma das lembranças dela estaria sendo completamente mentirosa. Além disso, boa parte da interpretação do episódio se dava com o movimento dos personagens em cena (ou se você perefrir o termo pomposo, a misé-en-scene), o que acalorou ainda mais os debates, mas que ainda assim deixou sempre um detalhe fora do lugar, mesmo que esse parecesse só um pouco deslocado.

Resultado

Mas e quanto à relação entre os comentários desse episódio e o episódio anterior em si? A primeira frase que me vem a mente nesse momento, é a do pai do Brás, protagonista de Daytripper: “você só pode julgar um livro quando chega na última página” (ou algo do tipo). A resposta no final das contas era que a mulher de fato tinha traído o marido, mas que a confissão era falsa de um jeito ou de outro. E essa conclusão se deu através de um ponto de vista externo, não só das desconfianças do Takashi e das memórias soltas da Machiko. Com todas as dúvidas esclarecidas, até a construção do clímax, que eu mesmo achei bem cagada, pelo ponto de vista desse episódio ficou muito bem feita e cheia de sutilezas, como um anime de tanto garbo e elegância deve ser. E o mais “ousado”, do ponto de vista da narrativa, foi dar a entender que estava tudo fechado no episódio anterior.

Agora sobre as reações dos personagens, elas são realmente plausíveis com essa conclusão? Curioso que adotando a estrutura que destilei acima, as próprias discussões já acabaram dando a resposta à essa questão. Estava todo mundo achando até agora que a confissão final dela era totalmente verdadeira, porque era de fato muito difícil pensar que não. Logo, por que o Decim, que já se mostrou em muitas situações bastante inexpressivo e insensível, não julgaria assim? Como o primeiro episódio mostra, nos deixando confusos, aquela situação toda foi muito traiçoeira para os personagens, inclusive para o juiz. Considerar que ele foi inapto naquela situação é quase como considerar que todo mundo debatendo nos fóruns e grupos de internet era inapto.

E quanto às ações da Machiko, agora fica muito mais claro o porquê dela se apegar tanto à imagem do marido e mentir no final. Afinal de contas, traição gera culpa, que por sua vez se torna arrependimento e vontade de redenção… exatamente como ela agiu. Inclusive pra quem dizia que mentir sobre o pai do bebê era perigoso, o próprio anime responde dizendo que já que eles estavam mortos, não havia mais perigo real e a única coisa que a Machiko poderia fazer era acalmar a consciência do Takashi voltando o ódio dele à ela. Não teria perigo físico, mas teria impacto psicológico positivo no marido já que o que ela fez foi mais ou menos o que se faz para acabar com vícios e obsessões de pessoas na vida real -mas não recomendo que você faça isso em casa, a não ser que você não tenha mesmo opções-. Sem contar que é uma atitude muito mais plausível com a relação do casal, já que ela sempre se mostrou mais firme dentro do bar do que ele.

Chorando

No fim, o arco se fechou estruturalmente de uma forma diferente e levemente ousada. O que me faz gostar ainda mais e ter esperanças pro que vem no próximo. Não acho que eu vá continuar com textos sobre a série, porque nesse caso o comentário era mais sobre a estrutura. Mas se acontecer algo de interessante novamente, quem sabe!?

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