As semelhanças e diferenças de Limbo e Thomas Was Alone

Uma das semelhanças mais importantes é que os dois são jogos ótimos.

Thomas Was Alone e Limbo são dois puzzles de plataforma 2d produzidos de forma independente. Thomas é de 2012 e Limbo é de 2010. Desde seu lançamento, ambos os jogos foram criticamente aclamados e são ambos bastante usados como exemplos em discussões de “jogos como arte” ou são, no mínimo, referenciados quando quer se criar uma classificação de “art games” .

Além desses fatores mais gerais, ambos possuem um estilo visual minimalista e ambos usam suas mecânicas e interatividade como forma de expressar suas idéias e mensagens. Os dois jogos são curtos, podem ser finalizados em uma tarde, os dois possuem um preço de 10 dólares. Mas, ao mesmo tempo em que os dois jogos possuem tantas semelhanças, eles são, ao mesmo tempo, completamente opostos em diversas decisões tomadas na hora de se construir o jogo.

O primeiro desses contrastes, o que informa e motiva todos ou quase todos os conseqüentes, é que Thomas Was Alone e Limbo tem mensagens e tom bastante opostos. Thomas Was Alone é um jogo com uma mensagem otimista e positiva, já Limbo é um jogo que dá um aspecto negativo e sombrio a toda sua experiência.

Esses fatores influenciam e são influenciados por diversos outros elementos do jogo, de grandes fatores a detalhes pequenos. O mais óbvio deles é o lado visual. Thomas Was Alone é um jogo colorido, iluminado e com um visual completamente abstrato (personagens representados por quadriláteros, por exemplo) enquanto Limbo é um jogo monocromático, escuro e que mesmo em seu minimalismo, constrói cenários um pouco mais realistas ou ao menos mais próximos da realidade, que acabam auxiliando a atmosfera opressiva do jogo (uma floresta escura monocromática causa a tensão desejada de forma bem eficaz, por exemplo).

 

A diferença de visual acaba contribuindo para outro elemento importante em ambos os jogos: a presença de outros personagens. Temas importantes em Limbo e Thomas Was Alone são justamente relacionados a isso, mas de novo, opostos. Thomas é sobre cooperação e amizade, Limbo é sobre isolamento.

Como o visual entra nisso? Thomas constrói, com meras formas e cores, um grande elenco de personagens, com personalidades variadas e com a interação entre eles e suas habilidades movimentando muito do gameplay e da trama. Já Limbo tem seu protagonista sozinho no cenário opressor já mencionado durante o jogo inteiro, com seus inimigos genéricos e similares, causando assim a sensação no jogador de que ele está, de fato, sozinho contra todos os perigos daquele mundo.

Ajudando a causar essa sensação de isolamento também está um detalhe que é pouco mencionado ao pensarmos em jogos como “expressão artística”: a dificuldade de cada um. Limbo é um jogo consideravelmente mais difícil que Thomas Was Alone. O segundo tem uma mensagem clara relacionada a força da amizade e ser um jogo com um tom positivo, então ser um jogo muito desafiador dificultaria a transmissão da mensagem de superação, do grupo de personagens se unindo para superar obstáculos. Já Limbo necessita do contrário. Limbo precisa dessa dificuldade mais elevada para passar a idéia de que tudo naquele mundo está ativamente tentando te matar. Aliás, Limbo possui inimigos – já os desafios em Thomas são relacionados somente ao level design das fases.

Outro fator importante é justamente relacionado a habilidade dos personagens. Limbo tem um protagonista frágil, sem muitos meios de superar os desafios. Ele basicamente consegue pular – não muito alto nem muito longe – e movimentar coisas. Já cada personagem em Thomas tem uma habilidade especial, ou no mínimo tem alguma capacidade elevada em algo. Até o personagem que é, tanto dentro do gameplay como visto pela história, o menos habilidoso ainda tem lugares que só podem ser acessados por ele – outro contraste importante entre um jogo que quer mostrar superação e um jogo que quer mostrar desesperança.

Também relacionado ao level design, uma diferença sutil porém importante ao criar a divergência de idéias é a de que Limbo não é dividido em níveis – é um sidescroller sem cortes até o final – e Thomas Was Alone tem uma divisão clara em fases. Esse detalhe causa algumas coisas: primeiro, a sensação de progressão. Limbo, ao não dar uma essa sensação de forma tão clara, sem uma prova palpável de que você está realmente avançando, aumenta, mesmo que ligeiramente, a tensão do jogo, a preocupação com o que vem adiante. Já Thomas tem pontos de avanço claros, tem objetivos a serem alcançados uma vez por fase, e a própria narrativa menciona esse avanço, ao comentar como os personagens estavam se movendo predominantemente para cima e para a direita, criando um caminho, uma progressão.

O segundo fator é relacionado ao já mencionado de Thomas ser mais abstrato e Limbo ter cenários mais identificáveis, mais concretos, apesar do seu estilo minimalista. Thomas consegue, com isso, criar fases adaptadas aos seus protagonistas, realmente feitas para que suas habilidades possam lhes fazer progredir (isso é, de novo, mencionado pela própria narração do jogo), o que é importante para o criador conseguir mostrar por meio de suas mecânicas a cooperação entre os personagens e como isso faz com que eles avancem, o que é um fator importantíssimo do jogo. Enquanto Limbo, de novo, faz o contrário. O personagem parece deslocado naquele universo de aranhas gigantes, pessoas mortas e cenários destruídos. Ele não parece pertencer àquele lugar, e o jogo vai fazer de tudo para tirar ele de lá.

E isso pode ser visto também em relação a formulação dos níveis. Limbo, por ser aberto, consegue nos mostrar um mundo muito maior, muito mais amplo do que seu protagonista, com muito mais desafios. Enquanto Thomas, como já dito, é dividido em fases pequenas, adaptadas a seus personagens, construindo um cenário mais amigável (o que, inclusive, é SPOILER LEVE justamente o objetivo dos protagonistas; facilitar para outros futuros indivíduos a progressão naquele local FIM DO SPOILER LEVE).

Bom, acho também válido mencionar que, apesar do que eu falei, Thomas não é um jogo em que tudo é uma maravilha; existem conflitos e existem perigos naquele local. Mas o jogo está focado em mostrar a superação desses desafios, enquanto Limbo acaba sendo sobre… simplesmente sobreviver a eles. Thomas te dá mais poder para reagir aos problemas do que Limbo, e esse é o ponto importante aqui.

Existem alguns outros elementos de divergência que também contribuem, como o fato de que Thomas tem uma real trama e narrativa; com o narrador mencionando diálogos, entre outras coisas, enquanto Limbo é totalmente mostrado via gameplay (o que volta ao fato de não ter interação, etc, etc), mas de forma geral, esse já é um panorama geral que mostra como são jogos opostos.

Mas afinal, qual é o objetivo desse texto? Algumas das comparações feitas podem ser óbvias, outras nem tanto, mas… e aí? Bem, além do fato de que eu acho interessante esse contraste entre jogos que são, em outros fatores, tão similares e que esse foi um experimento para mim, algo que eu o grande objetivo que eu tinha era outro. Ainda existe muita discussão sobre o valor artístico de jogos, sobre se eles conseguem, graças a seu próprio formato, conseguirem o status de arte. Existem argumentos bons dos dois lados, mas eu estou firme no lado “jogos são arte”.

E para corroborar essa opinião, eu acho importante que possamos avaliar jogos em relação a sua temática, em relação a justamente, sua expressão artística, ao invés de simplesmente avaliarmos sua qualidade meramente como jogo, como conjunto de mecânicas (o que é importante, sem dúvidas, não interpretem errado!) ou avaliarmos sua história como se fosse um fator separado, um elemento extra, não relacionado ao resto da obra.

A interatividade é o elemento a mais dos videogames que faz ele ser considerado arte, pelos que assim pensam. E por isso, ao avaliarmos um jogo como uma obra de arte, temos que analisar ele inteiramente, não somente visual ou enredo ou algo assim. As próprias mecânicas ou o design do jogo podem reforçar as idéias que os criadores queriam passar, e é importante avaliá-las dessa forma. E foi isso que eu tentei fazer aqui – discutir elementos como dificuldade, como estrutura de fases, e como eles auxiliam a narrativa que existe nas duas obras. Eu posso ter errado completamente em minha análise, mas essa tentativa de analisar por essa ótica é algo que eu acho importante, e que eu gostaria de ver muito mais na área de crítica de videogames.

E no final, eu acho que o simples fato de ser possível que dois jogos, do mesmo gênero (puzzle de plataforma 2D) abrirem espaço para uma variedade tão grande em seu conteúdo, é uma grande ode a capacidade da mídia. E uma grande amostra do porque eu gosto tanto de videogames.

PS: Isso é só um detalhezinho curioso, mas: o novo jogo do estúdio de Limbo vai ser exclusivo temporário de Xbox One, o novo jogo do criador de Thomas Was Alone vai ser exclusivo temporário de PS4. Mais um contraste!

PS2: Opinião pessoal rápida: eu adoro os dois jogos, foram dois dos primeiros que me abriram os olhos para o mundo dos jogos indie. Foram uma surpresa pra mim, algo que eu não esperava vindo dessa mídia. Essa comparação não é, de forma nenhuma, para tentar fazer um parecer melhor que o outro. (mas eu gosto mais de Thomas Was Alone)


QbJ6Szl

Thomas estava sozinho e por isso Luki resolveu brincar com ele e os dois caíram no Limbo.

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3 comentários sobre “As semelhanças e diferenças de Limbo e Thomas Was Alone

  1. Eu tenho Thomas Was Alone mas nunca joguei, Limbo eu joguei. Sempre acho graça que quando qualquer um comenta sobre Limbo é só com a primeira metade do jogo em mente – que é cheia de atmosfera, situações interessantes, cenas macabras. A segunda parte que é PUZZLE NUMA FÁBRICA (e bilhões de jogos já fizeram isso) todo mundo nem comenta como relevante hahahah achei Limbo legalzinho, mas essa diferença da segunda parte inferior me é bastante clara. Bom saber que Thomas Was Alone pode ser uma opção parecida que não deixa a peteca cair ao longo do jogo todo, dar uma jogadinha quando puder.

    • Ah, bem, realmente é a parte mais marcante hahahaha. Mas eu gosto da parte da fábrica, acho que ainda tem vários momentos interessantes lá (só acho que talvez ela dure tempo demais).

      Olha, Thomas Was Alone, na verdade, tem uma segunda parte um pouco diferente que alguns consideram inferior, mas de novo, eu não me incomodo (e este ainda tem uma história para motivar a progressão mesmo que o lado “gameplay” não esteja te interessando tanto, ao menos)

  2. Pingback: VOLUME – O novo jogo do criador de Thomas Was Alone | Missão Ficção

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