Corrente de Reviews – Code Geass

Code Geass título

“O que farias se houvesse um mal impossível de ser derrotado por métodos justos? Você mancharia suas mãos com o mal para destruir a maldade? Ou você permaneceria resolutamente justo e honrado mesmo que isso significasse se render a maldade?”

Code Geass

Code Geass: Hangyaku no Lelouch é um anime dividido em duas partes de 25 episódios lançadas pela Sunrise de 2006 a 2008. Mesmo sem o peso de uma exibição na TV nacional, era aquele anime da temporada que todos tinham de ver e ninguém podia se segurar de dar a sua boa dose de opinião sobre ele. Passado uns bons 6 anos desde a exibição do último episódio, é meio óbvio que ele não permaneceu algo comentado no dia a dia – com os novos hits da temporada e os novos “animes imperdíveis” do momento tomando esse lugar – mas ainda continua sendo um título que corriqueiramente figura nas listas de “animes essenciais” para pessoas novas no ramo e acho que faz parte do catálogo da lista de animesassistidos de grande parte dos fãs de animação japonesa da última década. Com tudo isso dito, parece um pouco desafiador imaginar o quê eu possa adicionar de novo na discussão sobre a serie ou o que falar  para quem ainda não viu ela. Bem, tentarei fazer o possível, vamos lá.

História

Num Japão dominado pelo Império Britaniano, o estudante colegial Lelouch Lamperouge se envolve sem saber num atentado terrorista e se encontra com uma mulher misteriosa chamada C.C.. Ela, em troca de um contrato com cláusulas não especificadas, oferece a ele o seu Geass: o poder do Rei. Com isso, o jovem é capaz de dar qualquer comando a uma pessoa e ela é obrigada a obedecê-lo, porém, uma única vez. O interessante está em que Lelouch não é um simples estudante, ele é brilhante e já foi da família real Britaniana, e só esperava a oportunidade correta para colocar em ação um plano de vingança contra o Império que matou a sua mãe e deixou sua irmã deficiente física. O Geass é a ferramenta que finalmente lhe permite iniciar sua vingança e organiza a resistência japonesa em torno de si – com o alter-ego chamado Zero – e mira destruir e revolucionar o Império Britaniano.

Curiosamente, Kururugi Suzaku, o melhor amigo de infância de Lelouch, trilha o caminho oposto – mesmo sendo japonês, quer conquistar posições no exército Britaniano e almeja reformá-lo de dentro, sem que tenha derramamento de sangue. O embate entre esses dois representantes do pragmatismo VS idealismo, revolução VS reforma, é o que pra mim é o fio condutor da história, e sempre é muito interessante ver quais os preços que cada um vai ter que pagar para manterem suas convicções, não se tornarem hipócritas e, no meio desses desafios, manterem uma amizade de infância.

Embora essa relação seja o centro da história, Code Geass é muito mais do que isso. Pegando influências e situações dos mais variados gêneros.

Zero, C.C. e Suzaku

Suzaku, Lelouch e C.C.

Mistureba

Se alguém lesse só a parte anterior que eu descrevi da história, poderia crer que Code Geass é alguma espécie de grande drama político com elementos sobrenaturais. E, sinceramente, não é que ele não seja isso, mas é que eu deixei completamente de fora o fato de todas as batalhas do show acontecem entre robôs gigantes. Ou que tu tens episódios inteiros que envolvem as peripécias do conselho estudantil tentando organizar um festival. Ou os dramas amorosos. As tragédias de guerra. Dilemas metafísicos. E episódios sobre fazer a maior pizza do mundo. Code Geass brinca e usa de vários momentos característicos de outros gêneros para contar a sua história, assim fica difícil qualquer pessoa que chega para ver essa série não achar algo que chame a sua atenção. Até mesmo o fanservice, que é mais proeminente do lado feminino, pelas roupas e poses que as gurias fazem ao longo da série, também é forte do lado masculino, Lelouch, por exemplo, por conta do design de personagem da CLAMP, tem suas feições retiradas diretamente de um mangá shoujo, e, aliando isso a sua personalidade teatral, ele se torna inegavelmente sedutor.  O que eu quero dizer é que Code Geass tem muitas influências que, sinceramente, não deveriam funcionar juntas, porém o próprio fato dele ter sido um tremendo sucesso indica que deram certo; mesmo que por muito tempo eu nunca soubesse responder o porquê. Isso mudou após eu ver outro anime muito parecido, mas que tem uma diferença brutal que o leva ao completo descarrilamento…

Gurias de Code Geass

Sempre há espaço para tirar o foco da revolução e ver a festa a fantasia do conselho estudantil.

 

Por que Code Geass funciona?

Quando lidamos com histórias populares, e ainda mais criadas no meio da década passada, sempre é tentador partir pra julgá-las com certo ar revisionista. “Isso era coisa de criança” “Ui ui Dark and edgy” “se tu quer algo bom de verdade tá aqui uma opera espacial da década de 80 muito inters—“. E vou te dizer que, hoje, quando tu começas a relembrar, Code Geass parece se encaixar facilmente no rótulo dessas series que tentam chocar emocionalmente enquanto te dão a mesma historinha de ação de sempre, já que ela tem zero de sutileza e não se dá ao luxo de grandes introspecções  ou se aprofundar nos personagens secundários. Mas ao revê-la de verdade, não foi essa sensação que eu tive.

Code Geass não me parece ofensivo, apesar de tudo indicando que deveria ser. Como escrevi antes, eu só fui perceber esse porquê quando assisti à outra serie muito semelhante a ela – Valvrave, de 2013. Essa serie dividida em duas partes, da mesma produtora, se esforça tanto para recriar a receita de sucesso de Code Geass, porém o resultado é uma das obras de ficção mais ofensivas que eu vi na minha vida. A diferença não está exatamente na profundidade ou na (falta de) sutileza com que eles tratam os problemas e sim na honestidade. Quando as pessoas sofrem e sentem dor em Code Geass, a série dá espaço para elas odiarem o mundo e o universo, para que busquem vingança ou tentem se matar. Outras pessoas acabam afetadas por essas ações e, ao se envolverem, criam um ciclo de violência e ódio. Isso eu respeito. Tu não precisa me dar o dossiê psicológico do personagem e suas contradições, mas se alguém que ele ama morreu e ele responde a isso com um sentimento coerente e compreensível, me basta. Em resumo: as ações tem consequência, mesmo que elas causem problemas para os protagonistas. Valvrave não tem isso. Essa é toda a diferença. Nele, sou obrigado a ver alguém ser estuprado e o problema desaparecer no próximo episódio. A discussão e os sentimentos são jogados para debaixo do tapete. É essa a diferença que faz com que eu olhe para uma serie com uma história de personagens com emoções a flor da pele, e, mesmo que eles não sejam explorados ao seu máximo potencial, são interessantes de ver interagindo, enquanto em outra eu vejo os personagens como uns fantoches servindo a um terrorismo emocional para tentar fisgar o espectador.

Claro que é bem provável que essa “linha” que diferencia na minha cabeça essas duas obras pode muito bem se situar em outro lugar para outra pessoa e nesse caso, nossa, Code Geass deve se tornar uma experiência torturante. Mas do jeito que as coisas foram conduzidas, adorei ver os dramas e problemas de todos os personagens. Entretanto, tem outro fator que é difícil de explicar em Code Geass, porque  quando tu paras para pensar, grande parte desses problemas e dramas que eu comentei aqui são causados pelo teu próprio protagonista numa busca pragmática por vingança – Lelouch.

Lelouch Geass

Canalha.

 

Lelouch

Lelouch é o protagonista e quem carrega toda a história. Sempre teatral e dramático, é muito divertido ver seus planos e discursos de vitória quando tudo parece estar dando certo, só para o azar, Suzaku ou até mesmo o DESTINO conspirarem para estragar tudo. E por mais que o poder dele seja absurdo de poderoso – mandar alguém fazer qualquer coisa – seu inimigo é igualmente absurdo – um império que  ocupa um terço do mundo inteiro e tem uma força militar incomparável. Ver como ele vai quebrar esse quebra-cabeça é uma das partes mais satisfatórias de toda a série, e um exemplo perfeito de que não importa o quão quebrado possa ser o poder que tu vais dar para um personagem, se o obstáculo dele for igualmente absurdo e quebrado, tem tudo para dar certo.

O grande problema é que no fim do dia, Lelouch ainda é um anti-herói. Acompanhar ele é ver seu pragmatismo causando sofrimento e morte de outros, já que firmemente acredita que os fins justificam os meios. E isso é um problema. Todo anti-herói já é por si só uma contradição e sempre é necessário alguma explicação para as suas ações não soarem hipócritas. A maneira mais fácil de lidar com isso é simplesmente dizer que o sistema está errado e o herói sabe mais que os outros, podemos dizer que é o jeito Batman de tratar o teu anti-herói. Code Geass certamente usa essa explicação, mas não para o Lelouch, Zero é quem justifica seus atos para o mundo como alguém acima da justiça e que sabe julgar o que é certo e errado. O outro caminho seria realmente explorar a hipocrisia de uma pessoa que tem esse discurso. Acho que é esse o caminho que, por exemplo e SPOILERS, Death Note escolhe quando deixa bem claro que Light no fim da vida tem delírios de grandeza, ou quando, em Breaking Bad, após toda caminhada com o Walter White ele diz que fez tudo isso por que gostava mesmo.

Já Code Geass escolhe um caminho bem curioso de autoconsciência, em que logo de início Lelouch diz que “Só devem matar aqueles que estão preparados para morrer” e a partir daí ele segue cada vez mais convicto e crente que no seu caminho os fins justificam os meios. Cada morte que ele causa, cada tragédia e dor que passa pelo caminho, ele não descarta como mais um número ou casualidade, tu sente que isso impacta ele. Logo, a serie não se torna um exercício de ver quando ele vai ver a luz e mudar seus atos, e sim ver se ele vai ser capaz de abandonar o seu caminho mesmo depois de ter sacrificado tantas vidas. Assim, no final do dia, mesmo que eu odiasse o Lelouch com todas as minhas forças (principalmente por acontecimentos na reta final da primeira temporada) eu podia ter certo conforto no fato de que ele se odiava também.

Lelouch encerramento

Ainda canalha, mas…

 

Considerações Finais

Por mais que eu tenha tentado falar algo novo ou adicionar para a discussão em torno de Code Geass, a minha conclusão é a mais velha possível e que está aí desde 2008: vejam, é muito bom. A serie é interessante e explora diversos gêneros e personagens e por algum milagre não desaba sobre si mesma. Quer dizer, se eu fiz meu trabalho bem feito aqui esse milagre pode ser mais ou menos explicado, hehe. E, pode ter certeza, se por algum motivo toda essa mistureba não “clickar” pra ti, tu vais acabar odiando a serie.

Pessoalmente, acho difícil achar algo pra criticar na primeira parte de 25 episódios, é o exemplo perfeito de tudo de positivo que eu disse aqui. A segunda metade também é muito boa, principalmente pelo final forte, mas tem alguns momentos bem mais fantásticos e metafísicos que a primeira (o que pode acabar forçando a amizade de muita gente com a serie se tu já não eras fã desses elementos). Ela também derrapa naquele quesito que eu disse de honestidade com os personagens, porque muita gente entra numa vibe “todos amam o Lelouch” que é um pouco difícil de acreditar. Felizmente ela não dura muito e logo o ritmo melhora.

Enfim, recomendo a serie para todo mundo que é interessado em animes. Ver até o episódio 11 é uma boa medida para sentir as idas e vindas da serie por diversos gêneros e perceber se tem alguma coisa aqui que te atrai: se não te fisgou até essa parte, a serie não muda muito até o final. Para aqueles que ficarem até o final, posso garantir que terão uma experiência bem única – mesmo que curiosamente ela seja composta por uma adição de elementos familiares. Embora muitas resenhas já tenham sido escritas sobre Code Geass durante todos esses anos, e é bem provável que essa aqui mesmo não tenha sido capaz de adicionar algo novo à discussão, indiferença é sempre a mais rara das reações. A obra merece uma vista, nem que seja por esse fato.

Code Geass robôs

 

Corrente Review

 

 

 

 

Esse post faz parte da participação do Missão Ficção num evento chamado Corrente de Reviews, que acontece uma vez por ano. A ideia é bem simples e interessante: blogs indicam uma obra para outro analisar, e esse passa adiante até fechar o círculo. Isso faz com que tu acabe se deparando com obras que sozinho não verias e dá uma saudável interligada na comunidade. Code Geass foi recomendado para a gente pelo blog Intoxicação Animentar (que por sua vez fez uma resenha dupla interessante sobre Tokyo Magnitude 8.0) e o blog que tiramos foi o blog Mithril. Para continuar essa corrente, depois de intensas discussões sobre o que recomendar, decidimos que seria o filme ‘Tatsumi’ (sugestão do Marcos e todos concordamos). É um peculiar filme animado sobre a vida do mangaka Yoshihiro Tatsumi, portanto vamos ver o que o blog Mithril acha dele.

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Edungeon não achou oportunidade no texto para falar que é “impossível escrever Code Geass sem Ass” então a piada – e o reconhecimento a C.C. – ficam aqui embaixo mesmo.

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5 comentários sobre “Corrente de Reviews – Code Geass

  1. Modo interessante de fazer um review, lembra um artigo.

    Da minha parte eu adorava o Lelouch. Sempre fico uma fera quando comparam ele com o protagonista de Death Note. Lelouch, apesar de ser um anti-herói, não foi corrompido pelo poder em nenhum momento. Já o Light não durou 3 episódios e já decidiu matar alguém só porque o cara estava falando mal dele.

    Estou curioso sobre um fator que não foi comentado, que alias, ainda é discutido até hoje. Notou que o anime deixa duas possíveis interpretações para o que aconteceu com o protagonista ao final? Uma delas você só nota quando lembra o que aconteceu com o Pai do Lelouch e a C.C antes da imortalidade deles ser ativada. Tem também o discurso no final que não deixa claro se a C.C está falando com o cara da carroça (que tem feições muito parecidas com um certo alguém) ou para o céu.

    • A ideia era essa mesmo, aproximar mais a um artigo do que uma resenha comum, valeu!

      Sobre o final da serie eu acabei não comentando principalmente pq seria spoiler, mas também pq do jeito que eu encaro a história o Lelouch nem QUERERIA se safar do que aconteceu com ele. Seria trapaça demais. Seria ignorar tudo que ele fez e a culpa e ódio que ele concentrou em si se pudesse sair dessa vivo e viver feliz numa fazendinha num canto do mundo, saca? A C.C. falando com ele me lembra apenas o que ela já fez ao longo da serie, falando com o espírito da Marianne e imagino que continuaria a fazer algo parecido com o Lelouch, mesmo que ele não pudesse responder a ela. Se algum dia a serie continuar e o Lelouch aparece novamente, seria interessante para ver como resolveriam a contradição disso e desenvolveriam a história… mas se depender do que eu vi dos filmes que estão saindo, não levo mt fé 😛

  2. Eu tbm estou acompanhando os filmes,na minha opinião baseada no final do anime,acredito que o lelouch realmente ficou vivo ,pois muitos detalhes apontam para isso !!
    Na cena final a C.C fala algo similar ” geass o poder dos Reis te fara solitário,parece que isso não e totalmente verdade,não e ******. ”
    E ainda tem aquela cena que foi cortada do anime ,e tem algo q parei pra pensar.
    no anime inteiro a CC tinha único desejo q era ***** ,logo não teria sentido ela ter aquele final,e tbm há um ep em que o lelouch fala pra ela “morra pelo menos com um sorriso no rosto,se vc não tem motivos ,eu serei o motivo para q vc viva.
    Bom,há muitos detalhes q indicam isso e com as ovas que estão lançando ainda tenho esperanças de uma nova temporada ou mesmo um reboot da R2 quem sabe ,a esperança e a ultima q morre!!!
    Code geass pra mim e o melhor anime !!!!

    • Tenho que acompanhar os últimos filmes que sairam para poder falar melhor, eu resolvi deixar eles de lado por um tempo. Se tiver um reboot ou nova temporada seria bem interessante de ver o que eles fariam sim mas de qualquer modo sempre teremos R1 e R2 que já são ótimos hehe

  3. Pingback: Corrente de Reviews 2016: Hataraku Maou-Sama | Missão Ficção

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